(colaborador do "Memórias...e outras coisas..."
Esta manhã de domingo, quis o destino que eu recordasse com saudade o Cabo/Pára Vilhena. Conversando com dois amigos de "coisas " da tropa recordei-me do inenarrável e sempre desenfiado Cabo Vilhena.
Contei-lhes a estória do acontecimento inusitado de ele me dar inadvertidamente um tiro de Espingarda Mauser carregada com bala de madeira.
Não me parece curial continuar esta crónica sem afirmar que eu era admirador da sua maneira irrequieta, a roçar o "quero lá saber" que era a sua imagem de marca. Não que eu o quisesse copiar, pois que era algo impossível, dado eu ser bastante diferente, na minha filosofia de vida e sei que eu era para ele um tipo que lhe era agradável, por essa mesma razão, a de ser diametralmente oposta à dele.
Enfim éramos de índole diversa mas havia entre os dois uma certa empatia e respeito mútuo.
O tiro que me acertou na parte interior da coxa direita e que ainda hoje é visível pela cicatriz deixada, foi um dos muitos casos em que o "nefreguismo" do Vilhena era pródigo.
Antes de formarmos em U para mais uma aula de Higiene e Primeiros Socorros, o Primeiro-sargento Enfermeiro (?), mandou que ensarilhássemos as armas. Depois disso e já em U, a aula decorria normalmente, mas o Vilhena, Cabo Aprovado e chefe de secção não parava quieto. Inspecionou todos os grupos de armas ensarilhadas como se de algo nunca visto se tratasse. Finalmente pegou uma que se lhe afigurou diferente das outras e vá de puxar a culatra e de novo voltar à primeira forma.
O 1º Sargento olhava e não dizia nada, mas com o rosto de feição carregada com mau pressentimento. O 1º Sargento não era o comandante de pelotão, era Enfermeiro e dava as aulas da sua especialidade, penso eu que por isso nada disse acerca do desassossego do Vilhena.
De súbito leva a arma à cara e ZÁS, carrega no gatilho. Tiro e queda, o soldado Santos sentiu uma picada na perna e sentiu também um calor húmido e um certo desconforto, era o sangue que escorria pela perna direita e que dava início a uma dor tolerável mas aguda. O Vilhena não sabia que a arma tinha bala e na sua imaginação, disse ele, andava no Tiro aos Pombos.
Os pombos deviam andar à cata dos grãos de trigo que os Para -quedistas semeavam naquele chão do Campo de Instrução que ainda hoje só tem poeira e milhentos calhaus. Lá fui eu para a Enfermaria onde fui tratado por uma Tenente Enfermeira/Pára e pelo 1º Cabo Serra que é da minha terra e estava de serviço. O 1º Renato Dias, que era a Alma do pelotão, nesse IC1/71 estava um pouco afastado, fumando o seu cigarro da praxe, rapidamente se chegou e após se inteirar da situação, falando para o Vilhena em tom resignado disse-lhe: - Será que lhe querias fazer o que fizeste ao rádio? O Vilhena embaraçado, respondeu: - Não, isso são contas doutro rosário.
Bem, aqui chegados, falta dizer que a coisa passou e nem eu mexi palha e o Vilhena no dia seguinte me pediu desculpa, coisa que eu nem esperava dele, mas que provou que o Cabo Aprovado Vilhena era um Cavalheiro, galante Para-quedista, apenas um pouco aéreo, o que dada a sua especialidade militar nem era muito raro.
Mas o 1º Renato Dias, meses mais tarde, estando ele de Sargento da Guarda e eu de Cabo da mesma, entre um render dos postos e outro, contou-me a história do Rádio.
Foi assim: No dormitório de Sargentos também se jogava a lerpa. Ora o Cabo Aprovado com Curso de Furriéis Vilhena, também passou a dormir lá. Como ritual de iniciação, praxe, havia que participar numa lerpinha. Só que o Vilhena era mestre nisso, ou então tinha muita sorte ao jogo, o que levou a que numa noite de jogatina houvesse entesado os outros, incluindo o 1º Renato Dias. Ora como naquele tempo estava na moda usar Rádio de Transístores (da candonga do Japão) - Rodrigo/fadista), o Sargento pô-lo em cima da mesa com valor atribuído e o Vilhena foi a jogo. Falta dizer que ganhou o Rádio e o 1º Renato, foi dormir teso e sem rádio.
O Vilhena nos dias seguintes tinha algo para se entreter.
Veio o fim-de-semana e o 1º Sargento foi a casa, aproveitando para aprovisionar a carteira a fim de resgatar o Rádio. Quando teve ocasião abordou o Vilhena e propôs-lhe o resgate.
: - Lamento respondeu ele com um ar de desprezo pelo Rádio estampado no rosto, escaquei-o contra uma parede. O 1º nem queria acreditar e disse-lhe: - deixa-te lá disso e toma lá o "graveto", porque havias tu de escacar o Rádio? Responde o Vilhena: - filho da P--- só dava Ópera!
O 1º Renato Dias apenas respondeu: - Também dava o "relato".
Nota final: Terminado o IC1/71 era tempo de Páscoa e o Vilhena tinha um irmão para-quedista que tinha uma mota, Honda ou Kawasaki, ou outra, para aqui não interessa, nem eu tenho memória do pormenor e pediu- lha emprestada para ir a casa na Páscoa. Viagem fatídica. Um acidente algures na estrada e o Vilhena "já era".
Paz à sua Alma e de mim uma prece ao Senhor que o guarde, pois foi um homem inteiro e um para-quedista dos decerto". Como atributo castrense, brincalhão e desenfiado, bem assim como "deixa andar que logo se vê". Pode eventualmente haver inverdade na estória do rádio, mas é assim que eu me lembro do meu amigo 1º Sargento/Pára Renato Dias ma haver contado.
Bragança 07/07/2019.
Ex. 1º Cabo/Pára 490/70
A. O. dos Santos
(Bombadas)

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