(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Com os invernos nordestinos vinham noites longas e frias, já só se viam as mulheres de barriga e garotos a vir ao mundo, conho tanto raparigo aos berros por comida em terras que mal davam pão para os governar. Tirar a fome a uma manada de filhos era uma mortificação diária para a maioria e o pior é que quanto mais pobres mais tinham, havia casas que contavam cinco, sete, nove. Dizia-se que a do horácio paló tinha parido catorze e a margarida cigana, dezanove. O que valia era trinta ou quarenta em cada cem serem destinados a anjinhos, se calhar até mais, nunca ninguém se deu ao trabalho de os contar. A mesma voz que segredava enlaces noturnos aos matrimónios, mandando-os vir sem regra, dava àqueles seres acabados de chegar ordem de marcha para a outra vida sem terem sequer provado o gosto desta, vá-se lá entender o mundo.
Para a maioria dos progenitores não era grande perda, por vezes a morte chegava mesmo a receber uma mão amiga, e não fosse a tragédia de os desmanchos levarem por vezes as mães desta para melhor, o número deles seria capaz de aumentar e muito. Vestiam-lhes uns trapicos, o tio lino martins ou os irmãos coelhos pegavam em meia dúzia de tábuas de dois ou três palmos de comprido aplainadas à pressa, uns quantos pregos nelas, e lá iam assim para um canto do cemitério. Terra não benzida, pois claro, vinham todos com a mancha do pecado original e não havia tempo de os batizar.
Boa parte dos que escapavam aos primeiros dias ou semanas iam nos anos seguintes de garrotilho, maleitas sortidas, apendicite, insolação, quantos nomes não tinha a miséria, a ignorância, o destino. O doutor policarpo liberal morava na vila, cinco léguas dali em cima de uma burra à chuva, à geada, ao calor, sete escudos por consulta mais os remédios da farmácia e um dia de labor perdido que tão mal vinha a calhar. Os que se livravam de morrer não se livravam da pouca sorte, dos anos maus de lavoura sempre à espreita e do fantasma da falta de tudo menos de incertezas. É por isso que naquele buraco do cu do mundo áfrica e brasil eram palavras prenhes tanto do que havia de distante e misterioso como de promessas de vida desafrontada, o que levava muitos a deixar balfrades quase sempre para sempre.
Então naquela casa térrea ao fundo do povo que quase bebia no ribeiro, onde vivia o tio josé ratão, a mulher e quatro filhos, a cisma andou a consumi-los meses e meses. Havendo que tirar uma boca de casa, quem seria, quem não seria, vais tu valentina que és a mais nova e tens uma vida inteira à tua frente. Está bem meu pai, vou eu, diz a rapariga escondendo dos seus o caroço na garganta que quase a esganava só de pensar em deixar o ninho protetor e seguro e trocá-lo pela ameaça do desconhecido. Foi assim que num dia ensolarado da primavera de cinquenta e nove o povo em peso se reuniu para um funeral sem padre, sem exéquias, sem caixão, sem morto. Em vez de se deter no largo do barreiro, junto do pequeno quadrado dentro de quatro muros altos onde os defuntos eram conduzidos à última morada, aquele cortejo de mais de trezentas almas cabisbaixas e escuras avançou mais umas dúzias de metros até ao alto das eiras, e aí chegados o que não foi de abraços e beijos, prantos da mãe e dos irmãos, soluços abafados do pai, lágrimas pela cara abaixo de uma aldeia inteira e no fim muitos lenços brancos agitados no ar, adeus valentina, adeus valentina.
Abalou a moça para ribeirão preto, no interior de são paulo, onde a esperava uma prima que não conhecia. Nos primeiros anos uma carta por mês, lida à porta dos pais em voz alta para toda a vizinhança, novidades sem conta de um lugar gentio e palavras de saudade, sinais de um buraco no peito que só um pequeno lugarejo distante poderia preencher. Depois, com os anos, as notícias de parte a parte já eram quase só para anunciar um casamento, a chegada de um ou outro filho, a sombria notícia do finamento da mãe, que um mal estranho e repentino levara, de um irmão esmagado debaixo da roda de um carro. As cartas tornavam-se cada vez mais espaçadas, até que um dia, silêncio, um silêncio tão grande como se no cemitério do barreiro houvesse uma campa em terra nua e uma tabuleta com o nome da valentina.
Manuel Eduardo Pires. Estes montes e esta cultura sempre foram o meu alimento espiritual, por onde quer que andasse. Os primeiros para já estão menos mal, enquanto a onda avassaladora do chamado progresso não decidir arrasá-los para construir sabe-se lá o quê, mas que nunca será tão bom. A cultura, essa está moribunda, e eu com ela. Daí talvez a nostalgia e o azedume naquilo que às vezes digo. De modo que peço paciência a quem tiver a paciência de me ir lendo.


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