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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 20 de setembro de 2026

A Câmara Municipal é a casa comum de um território


Uma câmara municipal é, antes de tudo, a casa comum de um território. Não é um palco. Não é uma agência de eventos. Não é um salão de festas com orçamento público. É a estrutura mais próxima das pessoas, aquela que toca o quotidiano, o passeio onde se caminha, a escola onde se aprende, o centro de saúde onde se espera, o jardim onde as crianças brincam.

É precisamente por essa proximidade que a responsabilidade é maior.

Há sempre a tentação do brilho fácil. Das festas e festinhas. Dos palcos iluminados, dos cartazes coloridos, dos foguetes que sobem ao céu e das garrafas de champanhe abertas sob aplausos. A fotografia fica bonita nas redes sociais. O discurso passa em alta voz, mas o momento é efémero.

O passeio esburacado mantém-se. A rampa que não existe continua a faltar. O infantário que não foi construído continua a ser um problema diário para dezenas de famílias.

Governar é escolher prioridades. Um euro gasto constitui uma declaração de valores.

Quando uma autarquia decide investir mais em festivais do que em reabilitação urbana básica, está a enviar uma mensagem aos munícipes. A aparência vale mais do que a segurança. Quando se financiam eventos para círculos restritos, para grupos de pseudo elites culturais ou empresariais, enquanto há idosos isolados, famílias sem apoio social, jovens sem oportunidades, está-se a escolher visibilidade em vez de responsabilidade.

Uma cidade não se mede pelo número de palcos que monta no verão. Mede-se pela qualidade de vida que garante no inverno.

É claro que a cultura importa. As festas tradicionais ou umas festas da cidade unem comunidades. Os eventos dinamizam a economia local. Não se trata de abolir celebrações ou festas. Trata-se de equilíbrio. Trata-se de perceber que o essencial vem antes do acessório.

Antes dos foguetes, os passeios. Antes do champanhe, os infantários. Antes da selfie institucional, o apoio social eficaz.

Quantas quedas poderiam ser evitadas com passeios dignos? Quantas mães e pais poderiam trabalhar descansados se houvesse mais creches acessíveis? Quantos jovens poderiam encontrar rumo com investimento consistente em formação, desporto, espaços públicos bem cuidados?

A verdadeira política local não necessita de muitas luzes de palco. Está no esgoto que funciona, na iluminação pública que aumenta a segurança, no transporte que liga aldeias isoladas ao centro urbano, na habitação social bem gerida sem servir apenas as clientelas preguiçosas e oportunistas, na transparência das contas. No entanto é também necessário apostar na divulgação daquilo que se vai fazendo e decidindo na governação do concelho no sentido de termos cidadãos devidamente informados e, se possível, esclarecidos.

Há também uma dimensão ética que não pode ser ignorada. As autarquias administram dinheiro que não é seu, é das pessoas. As decisões devem ser guiadas pelo princípio do bem-estar coletivo, não pela conveniência eleitoral ou pela busca de aplauso imediato.

O poder local é o mais visível e, paradoxalmente, o mais vulnerável à tentação da popularidade. Um grande concerto ou um grande espetáculo, dão votos. Um sistema de drenagem de águas residuais renovado e funcional raramente dá dois votos até ao dia em que uma forte chuvada mostra quem planeou devidamente e quem, levianamente, improvisou.

E há ainda outra prioridade muitas vezes esquecida. Escutar. Escutar quem tropeça no buraco do passeio. Escutar quem espera meses por uma vaga num infantário. Escutar quem vive numa aldeia sem ter transporte. Escutar quem precisa de apoio social mas não tem voz.

Governar não é juntar grupos minoritários em jantares protocolares. É aproximar-se de quem raramente é convidado para a mesa. É dar prioridade aos invisíveis.

O bem-estar das populações constrói-se com decisões difíceis, com planeamento de longo prazo, com coragem para dizer “não” ao supérfluo quando o essencial está por cumprir. Exige transparência, prestação de contas, visão estratégica.

Uma câmara municipal responsável interroga-se diariamente. Estamos a resolver problemas reais? Estamos a reduzir desigualdades? Estamos a melhorar a vida concreta das pessoas?

Se a resposta for substituída por métricas de espectáculo, número de eventos ou de entradas nos museus, no impacto mediático das atividades, fotografias ou vídeos partilhados nas redes sociais, então há alguma coisa não está totalmente certa.

As autarquias são a primeira linha da democracia. São o rosto mais próximo do Estado. Se falham, a confiança perde-se rapidamente. Se cumprem, fortalecem o tecido social.

A escolha é simples, embora nunca seja fácil tomar a decisão. Evento que passa rápido ou estrutura que fica para o futuro?

As populações não vivem de foguetes. Vivem de ruas seguras, escolas acessíveis, serviços eficientes, apoio social justo, transparência, respeito e um custo de vida compatível com os vencimentos que auferem.

É nessa escolha quotidiana que se revela a verdadeira grandeza, ou a pequena estatura, de quem governa.

Este texto é apenas uma reflexão, que penso ser necessária, e de maneira alguma uma crítica a quem quer que seja.

HM
20 de Setembro de 2026

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