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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quinta-feira, 29 de julho de 2021

Brindemos a Laurinda

Por: Manuel Amaro Mendonça
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...") 

Naquela tarde de agosto, André caminhava apressadamente pelo passeio largo, ao lado da rua movimentada. Já há muito não passava por ali, mas só arranjara estacionamento longe do local onde se dirigia e estava a cortar caminho.

Junto das mesas da esplanada de uma confeitaria, um dos clientes agarrou-lhe o braço. Olhou-o com surpresa e irritação, mas logo o seu rosto se transformou:

— Filipe?!? — Exibiu um sorriso rasgado e abraçou o outro assim que ele se ergueu. —Que andas a fazer por aqui?

— Tive de voltar para tratar da venda da casa. — Fez-lhe um gesto de convite e ambos se sentaram. — Há quase um ano que estava fechada e como não faço tenções de voltar a viver lá… melhor vender do que deixá-la estragar-se.

— De certa forma tens razão. — Concordou André. — Mas não esperava nada ver-te e confesso, já tinha saudades tuas.

— Eu também. Temos de nos encontrar mais vezes, marcar uma data no mês, sei lá. — Ele fez aquele ar de comprometido de quem faz uma promessa que não pensa cumprir. — Afinal, estou a menos de trinta quilómetros daqui, é um instante.

— E escolheste logo esta confeitaria… — André fez um gesto a abarcar o conjunto das mesas e cadeiras.

— Foi de propósito. — Confessou Filipe. — Fez parte da melancolia que me atingiu assim que cheguei.

— Eu nunca mais voltei cá… desde que aquilo aconteceu. Mas fizemos bem em nos mantermo-nos separados. — André baixou os olhos, enquanto o empregado do estabelecimento trazia as bebidas que pediram.

— Não sei porquê. — Cortou Filipe, assim que o empregado se afastou. — Somos irmãos, qual é o problema de sermos vistos juntos? Não é natural? — O outro manteve o olhar no chão, enquanto ele se inclinava para mais proximidade. — Não íamos sempre de férias juntos? Mesmo antes dela?

André brincou com as mãos sobre o tampo da mesa, antes de pegar na caneca de cerveja e beber dois ruidosos tragos. Como que para engolir algo que se lhe prendera na garganta.

— Ela era maravilhosa… — Elogiou ao pousar a caneca, com os olhos perdidos nas marcas da mesa metálica. — Tão linda e meiga, sempre pronta a satisfazer as mais loucas fantasias.

— Sim e manipuladora e intriguista. Que reagia mal, quando não conseguia o que queria. — Cortou Filipe rudemente, antes de dulcificar também o seu tom. — Mas quem conseguia recusar-lhe fosse o que fosse quando ela fazia aquele beicinho e os olhinhos tristes.

— Foste um bocado canalha, ao envolver-te com ela! — Censurou André com secura, antes de meter os lábios de novo à caneca. — A mulher do teu próprio irmão…

— Mas que queres? Tão bonita, tão querida, tão… disponível.

— Porque é que havíamos de ter ido para o Gerês. — Como que se autocensurou André. — Para aquele bangalô no meio de nenhures.

— Exatamente para aquilo que fomos! — Esclareceu Filipe! — Para bebermos, para nos rirmos, divertirmo-nos, em suma! E nós fizemo-lo!

— Meus Deus! — Reconheceu André. — Bebedeiras de caixão à cova até de madrugada, depois dormir e acordar já de tarde para beber mais… bolas, que parvalheira… depois, tu e ela…

— Quando me apercebi, ela já estava agarrada a mim aos beijos e a abrir-me a breguilha. — Confessou Filipe. — Mas tu até te rias, não parecias importar-te e acabamos por fazê-lo ali mesmo no sofá. À tua frente. — Agora era ele quem firmava os olhos no tampo da mesa a recordar toda a história. — Quando acabamos, ela foi para o pé de ti, decidida a continuar contigo o que começara. Eu levantei-me para ir à casa de banho e ouvi-vos discutir…

— … eu estava tão bêbado… — Reconheceu André. — …não me estava a incomodar nada que ela tivesse feito amor contigo. Mas, quando veio para junto de mim, o cheiro de sexo recente, sabê-la suja por alguém que não eu…

— Adormeci no meu quarto, quando tudo ficou em silêncio. — Continuou Filipe. — Quando me levantei de manhã, tu ressonavas no sofá e ela estava no chão, nua, enrolada sobre ela própria.

— Discutimos muito… — Esclareceu André. — Estávamos abraçados, mesmo assim, mas ela tentou soltar-se e eu apertei-a, ela deu-me uma cabeçada e eu esbofeteei-a e empurrei-a… era geniosa, mas pouco musculada, apesar das corridas que fazia.

— És um bruto! — Censurou o outro, com um gesto de desagrado. — Cala-te não fales mais nada.

— A culpa foi dela! Atirou-me com o cinzeiro e eu apanhei-o e atirei-lho de volta. Acertou-lhe na cabeça, ela gritou, insultou-me e depois deitou-se ali a chorar… não achei que fosse muito grave…

— Agora cala-te! — Insistiu Filipe em voz baixa e olhando em volta, preocupado.

— Se não fosses tu… — Continuou o assassino. — … a ideia de lhe vestir o equipamento de corrida, atirá-la da ravina e chamar socorro porque ela saíra para correr e não regressara… o pior foi a polícia a investigar e as custas da recuperação do corpo.

— Que até ficou barato, comparado com a perspetiva de uma boa temporada na cadeia, não achas? — Comparou o irmão, num sussurro.

— Sim, claro, mas ainda penso muito nela… — Duas grossas lágrimas soltaram-se dos olhos de André. — … eu amava-a muito, sabes?

— Agora esquece! — Ordenou Filipe, enquanto erguia a caneca e elevava os olhos ao céu. — Brindemos a Laurinda, um sonho de mulher bela e maravilhosa! — Depois de tilintar a vasilha com a do irmão, bebeu dois largos tragos e concluiu: — Agora, temos de arranjar outra!

Manuel Amaro Mendonça
nasceu em Janeiro de 1965, na cidade de São Mamede de Infesta, concelho de Matosinhos, a "Terra de Horizonte e Mar".
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (Agosto 2015), "Lágrimas no Rio" (Abril 2016), "Daqueles Além Marão" (Abril 2017) e "Entre o Preto e o Branco" (2020), todos editados pela CreateSpace e distribuídos pela Amazon.
Foi reconhecido em quatro concursos de escrita e os seus textos já foram selecionados para duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras.
Outros trabalhos estão em projeto e sairão em breve. Siga as últimas novidades AQUI.

Despiste de motociclo provocou ferido grave no concelho de Vinhais

 Um homem, de 65 anos, ficou ferido com gravidade depois de o motociclo onde seguia se ter despistado, em São Jomil, no concelho de Vinhais. 
A vítima tinha ferimentos no tórax, na clavícula e na omoplata. 

O alerta foi dado por volta do 12h30 por um popular. 

O homem foi transportado para o hospital de Bragança.

Escrito por Brigantia

Parque do Vale do Tua alia natureza ao desenvolvimento económico

 Área protegida abrange cinco concelhos dos distritos de Bragança e Vila Real e destaca-se pelos seus miradouros e trilhos pedestres


Parque Natural Regional do Vale do Tua (PNRVT) foi criado, em 2013, na sequência da construção de uma barragem junto à foz do rio Tua, entre os concelhos de Alijó e de Carrazeda de Ansiães. É o único do país com as suas características, tem gestão local e abrange também os municípios de Murça, Mirandela e Vila Flor.

O técnico do Parque, Ari Neiva, explicou à TSF, esta quarta-feira de manhã, com os pés bem assentes no miradouro do Ujo, em São Mamede de Ribatua (Alijó), que a aposta tem incidido no "ambiente, no turismo sustentável e no desenvolvimento económico e social da região" abrangida. E como é que isto se consegue? "Com uma rede de 12 percursos pedestres homologados que cruzam as aldeias para lhes dar dinamismo e com apostas no astroturismo e na observação de aves".

Por outro lado, o PNRVT está a capacitar empresas e empreendedores dos cinco concelhos para esta nova realidade, através de "formação gratuita", para que "saibam como podem explorar o turismo de natureza". Ao mesmo tempo está a ser desenvolvida uma incubadora de negócios, não só para novos, como para os que já existem e precisem de ser reformulados ou necessitem de aceder a canais de financiamento. "O objetivo é contrariar o despovoamento galopante, que, infelizmente, caracteriza as regiões do interior", sublinha Ari Neiva.

A incubadora de negócios tem sido frequentada por várias pessoas em busca de novas oportunidades, entre as quais Filipa Cerqueira, de 23 anos, e Edgar Santos, de 27. Ela é engenheira de Gestão Industrial e ele é músico. Em comum, o gosto pela terra que os viu nascer, Mirandela, e a intenção de quererem continuar a viver nela. Graças à incubadora envolveram-se no projeto Verde Criativos, que resulta da paixão de ambos pela atividade cultural, que querem desenvolver no vale do Tua, em particular, e em Trás-os-Montes, em geral.

"Queremos pegar nos artistas da nossa região e impulsioná-los, criando iniciativas culturais", nota Filipa, enquanto Edgar admite que esta ideia incubada no PNRVT "permite construir, aos poucos, o sonho de ficar na terra". Acredita que "a maior parte dos jovens não fica no interior por falta de oportunidades, principalmente na área da cultura".

Outro ponto forte do Parque é a rede de percursos pedestres. É um projeto da Portugal NTN que já foi galardoado a nível nacional, conquistando o prémio da Natural.pt Awards, em 2018. Pesou o facto de conciliar a atividade de pedestrianismo com a conservação da natureza de forma sustentável e o contacto com as pessoas que vivem na área protegida. Domingos Pires, da Portugal NTN diz que "foi esta conciliação que permitiu transformar toda a estrutura em produto turístico com capacidade de alavancar a economia local".

O responsável da Portugal NTN salienta ainda que as pessoas estão a procurar cada vez mais "o que é autêntico nestes territórios, a ligação com as gentes e as experiências que aqui se podem ter". Entre elas destaca "poder provar um vinho, um queijo ou um azeite".

Para além disso, ao longo dos percursos há um conjunto de microrreservas de flora autóctone, que não são mais que "áreas com características especiais, quer pela sua biodiversidade, quer pela sua raridade". A sinalética que foi colocada nos trilhos permite "entender melhor as especificidades de cada área, mas também alertar para a importância da sustentabilidade ambiental".

O Parque dispõe de 12 percursos. Todos circulares. O mais pequeno está em Foz-Tua, Carrazeda de Ansiães, com 3,5 quilómetros. O mais longo é o de Vieiro-Freixiel, em Vila Flor, com 22 quilómetros. Os miradouros são 28, entre naturais e construídos, com vistas privilegiadas sobre a paisagem: Carrazeda de Ansiães e Mirandela têm sete cada um. Alijó tem seis, Vila Flor cinco e Murça três.

Em cada um dos cinco concelhos há portas de entrada que convém visitar antes de entrar, para perceber o que se pode conhecer nesta área protegida. A cada porta corresponde um dos cinco sentidos. Quem visita é convidado a usá-los todos, de forma integral, para que absorva todo o parque, parcela a parcela. É possível começar a descoberta aleatoriamente por qualquer um deles e depois avançar para os outros.

Num antigo armazém da estação ferroviária de Foz-Tua (Carrazeda de Ansiães), foi criado o Centro Interpretativo do Vale do Tua onde é possível fazer uma "viagem" pela dimensão cultural e humana dos cinco concelhos, bem como pela história da linha de comboio e da construção da barragem que alterou a fisionomia do vale.

Fotos: Eduardo Pinto

Pintora Graça Morais mostra em Bragança inéditos sobre as "Inquietações" do Mundo

 A pintora Graça Morais transformou "o medo, a angústia e a solidão", do último ano e meio, em arte que vai mostrar na primeira exposição de inéditos depois da pandemia, no Centro de Arte Contemporânea de Bragança.
"Inquietações" é o tema que escolheu para a exposição com 52 pinturas e uma instalação, que abre ao público na sexta-feira, e pode ser visitada até 23 de janeiro, no centro de arte com o nome da pintora transmontana.

"E eu gostava que esta exposição fosse vista como se lê um livro de um filosofo, de um grande escritor, como um filme, e que marca uma época, um período em que muita gente sofreu imenso, porque [as pessoas] perderam os seus entes queridos e nem se puderam despedir deles", partilhou com a Lusa.

A artista está a acompanhar, em Bragança, a preparação da mostra desta série de trabalhos que começou a pintar em março de 2020, logo que foi decretado o primeiro confinamento.

Graça Morais contou à Lusa que, em vez de ficar fechada em casa, resolveu fazer um 'autoconfinamento' no estúdio que tem em Lisboa, sempre rodeada de jornais, que são também uma das novidades da nova exposição.

"Esta obra foi feita em carne viva", desabafou, pois pelo meio teve problemas de saúde, foi operada aos olhos e ao coração.

Foi através das preocupações pessoais, dos próprios medos e das notícias que "anunciavam sempre qualquer coisa de ameaçadora que estava a tocar as pessoas e o Mundo", não só a pandemia, como o terrorismo, as catástrofes, as injustiças perante os migrantes, que começou a fazer estas obras.

"Estas obras nasceram de uma urgência que eu sentia em fugir ao medo, em fugir à doença, em fugir de facto à ameaça. E recriei outro mundo, mas que tem a ver, sobretudo com pessoas", concretizou.

O olhar das pessoas sobressai nos novos quadros, mas sem as máscaras que Graça Morais está "farta de ver", embora continue a usar, porque "as pessoas deixaram de ter rosto, só se veem os olhos".

"Nós começamos a dialogar com as pessoas através do olhar, e as pessoas anónimas com quem eu me cruzava na rua, a maioria dos olhares que eu via na rua, eram de desconfiança, de receio, de medo, raramente encontrava olhares que nos trouxessem paz", observou.

Esses olhares estão presentes nos novos quadros, onde continuam a surgir as metamorfoses de pessoas e animais características da artista, mas também a influência das imagens pintadas há séculos na Capela Sistina, por Michelangelo, e que se repetem no mundo atual.

"Eu tenho no meu estúdio três grandes volumes sobre o restauro da Capela Sistina do Michelangelo, e aqueles três volumes alimentaram-me o meu espírito; ao mesmo tempo eu sentia que muitas daquelas figuras eram as mesmas que eu encontrava nos jornais", explicou.

Outra influência para esta série surgiu nos jornais e revistas que a pintora continua a comprar em papel, porque gosta de sentir o cheiro e o tato.

As notícias e imagens que lê e vê criam na pintora "um imaginário do mundo", que recria a partir da cultura como artista.

Por isso, lembrou-se de "mostrar ao público a importância dos jornais" com uma instalação que vai ocupar uma sala do Centro de Arte Contemporânea, que terá as paredes forradas com jornais e, sobre eles, pinturas e desenhos em papel vegetal sobre a temática da exposição.

"Achei que nesta exposição eu devia guardar uma sala só para colar folhas de notícias que eu fui lendo ao longo deste ano e meio", salientou, confessando que é pouco adepta da falta de contacto físico e da pressão das redes sociais e da Internet.

Esta sala é ao mesmo tempo uma recordação de infância de Graça Morais que, na aldeia transmontana do Vieiro (Vila Flor), onde mantém um 'atelier', via as mulheres, por altura das limpezas da Páscoa, a lavaram as paredes das cozinhas tisnadas pelo fumo das lareiras, e a forrarem-nas com jornais colados com cola de farelo.

"E eu recordo que, miúda, achava muita graça aos jornais e gostava de ler as notícias, só que algumas não as conseguia ler, porque estavam postos ao contrário, pois as mulheres não sabiam ler e colavam os jornais conforme lhes dava mais jeito", contou.

A exposição "Inquietações" tem curadoria de Joana Baião e Jorge da Costa, e fica patente, no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança, em simultâneo com a exposição "Beyond, Between, Here and There", da artista polaca Magdalena Kleszynska.

HFI // MAG
Lusa/fim

Autarquia de Moncorvo preocupada com perda de um quinto da população

 O concelho de Torre de Moncorvo perdeu 20,4% da população, sendo o mais afetado do distrito de Bragança, uma situação que "muito preocupa" a câmara municipal, empenhada em contrariar esta tendência.


“A Câmara Municipal de Torre de Moncorvo lamenta perda da população no concelho que, segundo os resultados preliminares dos censos 2021, perdeu 20,4% da população, mantendo-se assim a tendência verificada nos últimos anos nestes territórios do interior”, indica uma nota enviada à Lusa, pela autarquia presidida pelo social democrata, Nuno Gonçalves.

Na mesma nota é referido que a Câmara de Torre de Moncorvo e a Comunidade Intermunicipal do Douro (CIMDOURO) têm estado empenhadas em contrariar esta tendência, trabalhando, quer a nível concelhio quer a nível intermunicipal, na criação de condições para que as pessoas possam manter-se na região.

“Este é um problema que muito nos preocupa e que requer uma solução urgente, sendo necessário implementar políticas específicas por parte da administração central para que estes territórios não fiquem esquecidos e se potencie a fixação da população”, pode ler-se no mesmo documento.

Contudo, são destacados  alguns dos projetos que a autarquia tem vindo a desenvolver para inverter esta situação, nomeadamente, a implementação da nova área empresarial da Junqueira, junto ao Itinerário Principal (IP2),

“Esta área empresarial que vai criar condições para as empresas se instalarem no concelho, e as políticas de recuperação de habitações implementadas, que vão garantir melhores condições de habitabilidade para as pessoas que aqui residem”, vinca a autarquia do Douro Superior, no mesmo comunicado.

Torre de Moncorvo foi o município do distrito de Bragança que perdeu mais população desde os censos de 2011, com uma variação de -20,42%, e um dos cinco que mais perderam a nível nacional.

De acordo com as estatísticas oficiais, entre 2011 e 2021 este concelho perdeu 14,6% dos agregados, 0,6% de alojamentos e 0,7% de edifícios.

Em decréscimo populacional, os cinco municípios que se destacam são Barrancos (-21,8%), seguindo-se Tabuaço (-20,6%), Torre de Moncorvo (-20,4%), Nisa (-20,1%) e Mesão Frio (-19,8%), revelou o Instituto Nacional de Estatística (INE).

Portugal tem hoje 10.347.892 residentes, menos 214.286 do que em 2011, segundos os resultados preliminares dos Censos 2021.

Em termos censitários, a única década em que se verificou um decréscimo populacional tinha sido entre 1960 e 1970, indicou o INE.

Os dados preliminares mostram que há em Portugal 4.917.794 homens (48%) e 5.430.098 mulheres (52%).

A fase de recolha dos Censos 2021 decorreu entre 05 de abril e 31 de maio e os dados referem-se à data do momento censitário, dia 19 de abril.

Fotografia: António Pereira

PRIMEIRA LONGA METRAGEM DE CRISTÈLE ALVES MEIRA FILMADA EM TRÁS-OS-MONTES

 Aldeia de Junqueira em Vimioso tornou-se um autêntico ‘décor’ de cinema ao longo de três meses


“Alma Viva” é a primeira longa metragem da realizadora lusodescendente Cristèle Alves Meira. Com raízes em Junqueira, Vimioso, onde a mãe nasceu e viveu antes de emigrar para França, escolheu esta aldeia para voltar a ser o cenário do primeiro filme de longa duração, depois de a pequena localidade de cerca de 30 habitantes ter já recebido gravações nas curtas “Sol Branco” e “Campo de Víboras”.
A escolha recaiu sobre este “lugar muito familiar” para Cristèle, onde sempre passava férias e regressa muitas vezes, para completar o processo de vários anos, iniciado com esses dois trabalhos anteriores. “Nestas duas curtas já estava a trabalhar temas e a ir ao encontro de um cinema que vamos voltar a encontrar na longa, que é mesmo o acabamento desse processo de contar histórias de Trás-os-Montes em Trás-os-Montes”, conta a realizadora. Mas desta vez, não só foram ali feitas praticamente todas as gravações como o período de rodagem foi maior. Nos últimos três meses, Junqueira tornou-se um autêntico “décor de cinema, por todas as ruas”. 
Inicialmente estava previsto que as filmagens acontecessem também noutras aldeias, mas com a pandemia e as restrições “era mais fácil juntar todos numa só localização e até ficou muito mais prático e mais bonito assim”, admite a realizadora. “Alma Viva” conta a história de uma menina de 9 anos, filha de emigrantes em França, que regressa à aldeia para férias de Verão e é confrontada “com crenças do passado, com a morte da avó, que tem um dom, e com a solidariedade que se vai criar”, refere.

“É uma grande epopeia”

A história vai beber às memórias de Cristèle, desde os verões “cheios de alegria, sol, luz e festas”, mas também reflecte problemas “ligados ao ambiente social dos emigrantes” e “histórias mais trágicas” da aldeia, bem como lendas, crenças pagãs e o misticismo. Fui buscar “um bocadinho de tudo o que ouvi”, admite a cineasta, que diz ser “uma menina da aldeia”. “Por acaso sinto-me mesmo transmontana”, afirma. Por isso, uma das preocupações foi que não houvesse um tom caricatural, passando as escolhas de casting por habitantes locais. A maioria das “pessoas que escolhi para o filme, são mesmo dali”, que “compreendem as histórias que estão a ser contadas”, e que “têm essa forma de falar e esses rostos”. “Era muito importante para mim estar o mais perto dessa realidade porque eu sinto-me mesmo perto dela”, reforça. Manter a autenticidade sem ridicularizar ou cair no exagero cómico era fulcral. “Não sei se somos muitos os realizadores em Portugal hoje a poder contar o Interior de Portugal a partir do Interior. Muitas vezes são pessoas que vêm da cidade e têm uma ideia do que seria o Interior e fica muito caricatural”, refere. 
A vontade de contar com “sinceridade e autenticidade, o melhor e o pior”, foi uma das grandes preocupações. “Acho que é quase um filme etnográfico, mas com ficção”, afirma. Assim há actores profissionais, como Ana Padrão, com raízes na aldeia vizinha de Santulhão, a lusodescendente Jacqueline Corado ou a belga Catherine Salée, mas são só um núcleo duro do elenco. Os restantes são habitantes da Junqueira e redondezas. E não apenas figurantes. “São pessoas que não são actores, mas que se tornaram actores, porque filmar durante oito semanas, repetir cenas, faz com que essas pessoas, que têm outra vida profissional, se tornem actores e têm um saber também, mas mais intuitivo, menos controlado que um actor profissional”, sublinha. 
A realizadora diz ter ficado “muito comovida de ver essas pessoas”, que a conhecem desde sempre, “entraram nessa aventura” sempre com curiosidade e criatividade. Viriato Trancoso é natural da Junqueira mas mora em Espanha de onde regressou, depois de ter sido convidado pela realizadora para desempenhar o papel de presidente da junta. “Aceitei logo porque era uma coisa diferente e uma experiência nova”, conta. Entrou em muitas cenas “quase do início ao fim do filme”, mas diz que não foi difícil apesar de ter algumas falas. Agora está curioso para ver o resultado. “Oxalá seja um êxito para ela e para toda a gente” e acredita que vai ajudar a promover a aldeia. Viriato destaca “o movimento” durante as filmagens. “Havia tanta gente como quando era garoto”, refere. 
Teresa Pinto também entrou em algumas cenas, nomeadamente a do velório. “Ainda falava algumas coisas e cantava, ainda filmei sete ou oito dias”, conta. A habitante de Junqueira conta que para fazer apenas alguns minutos “filmavam muitas vezes, porque se alguém olhava para as câmaras já tinham de filmar outra vez, outros riam-se e fazíamos muitas vezes. Não sabia que era assim tanto trabalho”, diz. Adozinda Martins, de 81 anos, também participou no filme. “Fui a senhora que fui fazer o velório”, já que está familiarizada com o ritual. “Pegava no tercinho, benzíamo--nos, rezávamos e cantávamos. Treinámos muitas vezes”, conta. É tia da realizadora e diz que recorda que estes foram dias de grande agitação na aldeia, que voltou há uma semana à calmaria e ruas vazias. “Quando íamos no corteja fúnebre do filme ia quase a gente toda do povo”, recorda.
Além dos elementos da equipa, chegaram a ser 150 os membros do elenco, que deram vida à história pensada há alguns anos por Cristèle Alves Meira e que, depois de reunidos apoios de Portugal, França e Bélgica, deverá chegar às salas de cinema na Primavera do próximo ano. “Alma Viva” terá exibição, certamente, em Vimioso e outras telas da região, devendo ser ainda exibido na RTP, que é parceira do projecto.

Foto: Charles-Henri Bedue
Jornalista: Olga Telo Cordeiro

Presidente da CCDR-NORTE assume liderança da Euro-Região Galiza – Norte de Portugal

 No encontro, que decorreu em Salvaterra do Miño, foi aprovada e apresentada a estratégia da Euro-região para o ciclo 2021/2027, que estabelece as prioridades de cooperação e investimento conjunto do Norte e da Galiza. António Cunha apelou à descentralização da gestão dos fundos da cooperação entre Portugal e Espanha.


O Presidente da CCDR-Norte, António Cunha, recebeu esta quarta-feira das mãos do Presidente da “Xunta” da Galiza, Alberto Núñez Feijóo, a liderança da Comunidade de Trabalho Galiza – Norte de Portugal, a estrutura de “cúpula” de coordenação da Euro-Região e líder do Agrupamento Europeu de Cooperação Territorial instituído em 2008.

No encontro, que decorreu em Salvaterra do Miño, foi aprovada e apresentada a estratégia da Euro-região para o ciclo 2021/2027, que estabelece as prioridades de cooperação e investimento conjunto do Norte e da Galiza.

Entre as apostas definidas estão o combate à crise económica e social decorrente da pandemia, a mobilidade ferroviária e a permeabilidade da zonas de fronteira, a viragem às agendas europeias da transição climática, da descarbonização da economia, da digitalização e da inovação empresarial, a proteção sanitária e civil de emergência dos cidadãos, o fomento da cultura e dos ecossistemas criativos e a retoma sustentável do turismo e da sua oferta de qualidade, com os “Caminhos de Santiago” à cabeça.

“O financiamento deste plano será exigente e complexo, não podendo esgotar-se nos modestos meios do próximo POCTEP [o programa de financiamento comunitário para investimentos conjuntos de Espanha e Portugal] ”, afirmou o Presidente da CCDR-NORTE, António Cunha, na sua intervenção. “Torna-se necessário promover e mobilizar um maior acesso da Euro-região a programas de iniciativa comunitária como o Horizonte Europa e a Europa Criativa”, sublinhou.

António Cunha apelou ainda à “articulação das intervenções regionais dos planos de resiliência e recuperação” de Portugal e Espanha e manifestou “indisfarçável ansiedade com a prometida ligação ferroviária moderna, rápida e regular entre Porto e Vigo”.

O agora Presidente da Comunidade de Trabalho fez notar que “a governança da Euro-região ganhará com a evolução regional do modelo administrativo e político português, na senda da legitimação democrática indireta adquirida pela CCDR-NORTE há menos de um ano atrás”, exprimindo o desejo de um “quadro regional descentralizado e reforçado, em poderes e competências”, que “colocará o Norte de Portugal em melhores condições de fomento de uma cooperação territorial com a Região Autonómica da Galiza, em prol das nossas comunidades.”

António Cunha apelou também à descentralização da cooperação territorial de Portugal e Espanha. “Também no plano da cooperação territorial de Portugal e Espanha se colocam imperativos de descentralização”, disse. “No próximo POCTEP, entendemos estarem reunidas as condições para concretizar a delegação de funções de gestão na Euro-região, conforme previsto no convénio assinado em 2008 entre a Xunta de Galicia e a CCDR-NORTE, aprovado pelos Governos dos dois países. Só assim se cumpre o desígnio do legislador comunitário quanto ao princípio da subsidiariedade na gestão dos fundos da Política de Coesão”, rematou.

Já o chefe do governo galego, Alberto Núñez Feijóo, destacou o compromisso na execução da linha ferroviária de alta velocidade Lisboa-Porto e Porto-Vigo-A Coruña como “a maior conquista da Euro-região nos últimos anos”.

O Presidente da Xunta da Galiza assinalou ainda que, no decorrer da presidência da Comunidade de Trabalho que termina, foram aprovados 85 projetos e um investimento de 163 milhões de euros, o maior volume de investimento realizado entre regiões portuguesas e espanholas.

Macedo de Cavaleiros perdeu mais de 1500 habitantes em 10 anos

 O Instituto Nacional de Estatística apresentou ontem os resultados preliminares do último recenseamento. Os Censos 2021 revelam que Portugal perdeu população na última década, como só tinha acontecido entre os Censos de 1960 e 1970.
Em dez anos, o distrito de Bragança perdeu mais de 13 mil pessoas, sendo que o concelho de Torre de Moncorvo foi o que perdeu mais população no distrito, em termos percentuais, e o terceiro no país, com menos 20%, a perfazer uma perda de 1750 pessoas.

Macedo de Cavaleiros tinha, em 2011, 15 776 habitantes, e hoje em dia contabiliza 14 252, numa perda de 1524 residentes.

No distrito Brigantino, Bragança foi o concelho menos afetado. Perdeu apenas 2% da população.

Atualmente, Portugal tem 10 milhões 347 mil 892 pessoas. Na região Norte há 3 milhões 588 mil 701 habitantes, menos 100 mil que em 2011.

Dados revelam ainda que a população tem vindo a concentrar-se, cada vez mais, no litoral, sobretudo em Lisboa e no Algarve. 

Escrito por ONDA LIVRE

“Palavras cruzadas”: projeto de programação e criação artística em Trás-os-Montes

 A 7 de Agosto é a vez de estrear junto ao Museu da Vila Velha o espetáculo ‘CAMILO’ (OU ‘QUEDA DE UM ANJO’), uma criação da companhia João Garcia Miguel a partir da obra de Camilo Castelo Branco, com interpretação da atriz Sara Ribeiro e musica de Vítor Rua.
No âmbito do projeto de programação e criação artística Palavras Cruzadas, que une em parceria o Teatro de Vila Real, o Espaço Miguel Torga, a Fundação da Casa de Mateus e o Teatro Municipal de Bragança, estão previstas três estreias em Vila Real nas próximas três semanas e duas outras em Setembro.

A primeira acontece amanhã, no Largo da Capela Nova, e tem como título ‘UMBRAL’, um espetáculo de música (jazz) e teatro «inspirado nas palavras dos pássaros e no canto dos poetas de Trás-os-Montes». Com direcção e texto de Jorge Louraço Figueira, e composição de Nuno Trocado (que também toca guitarra), ‘Umbral’ conta a com a interpretação da atriz Catarina Lacerda (Teatro do Frio) e tem ainda a participação de João Pedro Brandão (saxofone, flauta), Sérgio Tavares (contrabaixo), Acácio Salero (bateria) e do trasmontano Pedro Pires Cabral (efeitos sonoros, theremin). Os figurinos são de Helena Guerreiro.

A 7 de Agosto é a vez de estrear junto ao Museu da Vila Velha o espetáculo ‘CAMILO’ (OU ‘QUEDA DE UM ANJO’), uma criação da companhia João Garcia Miguel a partir da obra de Camilo Castelo Branco, com interpretação da atriz Sara Ribeiro e musica de Vítor Rua.

Ana Deus e Alexandre Soares (que, além das suas parcerias em projetos como Osso Vaidoso, são conhecidos pela participação em grupos como Três Tristes Tigres, GNR e Ban) declamam e fazem música a partir de ‘POETAS DE TRÁS-OS-MONTES’, num espetáculo que estreia a 14 de Agosto.

A 4 de Setembro, no adro da Sé de Vila Real, o ator André Gago junta-se ao Oniros Ensemble (uma formação de música erudita contemporânea fundada em Trás-os-Montes) para estrear ‘MARANDICUI’. Percorrendo mitologias e fontes literárias e etnográficas, este espetáculo procura condensar uma narrativa em torno de um território e das memórias da sua ocupação. O território chama-se, hoje, Trás-os-Montes.

Por fim, também em Setembro, a associação Apuro, sob direção de Rui Spranger, cria uma dramaturgia cénica que atravessa a vida e a obra de três autores transmontano de apelido ‘CABRAL’: António Cabral, A. M. Pires Cabral e Rui Cabral. Este espetáculo estreia em Bragança a 3 de Setembro, passando depois pelo Espaço Miguel Torga (25), a Casa de Mateus (26) e o Jardim da Carreira, em Vila Real (a 29 de Setembro).

Além destas estreias, o projeto Palavra Cruzadas tem outra programação, que pode ser consultada aqui . Todos os espetáculos são de entrada gratuita, com lotação limitada e levantamento prévio de bilhete.

NERBA apoia empresas na internacionalização dos produtos agro-alimentares

 A Associação Empresarial do Distrito de Bragança- NERBA vai apoiar as empresas agro-alimentares na internacionalização dos produtos, através do projecto Terras Altas de Portugal, do qual é parceiro
O objectivo é aumentar a competitividade das empresas e alavancar o crescimento dos negócios.

“Pretendemos melhorar a competitividade das empresas, por outro lado alavancar o crescimento internacional das empresas, através da sua presença nos mercados externos, através da criação suportes para oferta qualificada e inovadora dos produtos e procurando e promovendo oportunidades de negócio. Proporcionar experiências de internacionalização, através da participação em roadshows, por outro lado queremos criar uma rede de suporte e cooperação entre as empresas, através de protocolos com outras instituições, nomeadamente ensino superior”, explicou o coordenador do projecto, João Prates

Com este projecto pretende-se fazer chegar os produtos aos mercados da Alemanha, Países Baixos, Bélgica, Luxemburgo e Espanha. As empresas serão contactadas para participar.

“Iremos contactar as empresas no sentido de elas integrarem este projecto, de qualquer forma as empresas têm os contactos, no site do Terras Altas de Portugal, das associações empresariais que podem contactar no sentido de formalizar a sua adesão”, acrescentou.

O presidente do NERBA, Hélder Teixeira, realçou a importância deste projecto para as empresas da região e explicou como a formação e uma boa gestão são pontos-chave para a internacionalização.

Hélder Teixeira referiu ainda que a região é das que tem mais certificações diversificadas, mas em pouca quantidade. Por isso, o presidente do NERBA entende que deve ser feita uma aposta neste sentido, até porque os produtos devem distinguir-se pela qualidade.

“Nós não podemos ir para o mercado convencional. Nós temos que ir para situações onde nos permite valorizar o nosso produtos de forma a criar mais-valias para as empresas e essas mais-valias não podem ter custos muito grandes porque temos que concentrar as empresas, dividindo os custos e tendo lá os nossos produtos”, referiu.

O projecto Terras Altas de Portugal, para além de Trás-os-Montes abrange também as regiões do Douro, Beiras e Serra da Estrela, Beira Baixa e Viseu Dão Lafões e está direccionado para as fileiras do vinho, azeite, fruta, carnes e enchidos, queijo e recursos silvestres.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Ângela Pais

Guerra Junqueiro: "O Malmequer"

 Ouvi com atenção esta pequenina história!

No campo, junto da estrada real, havia uma casinha muito bonita, que deveis ter visto muitas vezes. Há na frente um jardinzinho com flores, rodeado por uma sebe verdejante. Ali perto nas bordas do valado, no meio da erva espessa, floria um pequenino malmequer. Desabrochava a olhos vistos, graças ao sol, que repartia igualmente a sua luz tanto por ele como pelas grandes e maravilhosas flores do jardim. Uma bela manhã, já inteiramente aberto, com as folhinhas alvas e brilhantes, parecia um sol em miniatura circundado dos seus raios. Pouco se lhe dava que o vissem no meio da erva e não fizessem caso dele, pobre florinha insignificante. Vivia satisfeito, aspirando deliciosamente o calor do sol, e ouvindo o canto da cotovia, que se perdia nos ares.

Nesse dia o pequeno malmequer, apesar de ser numa segunda feira, sentia-se tão feliz como se fosse um domingo. Enquanto as crianças sentadas nos bancos da escola estudavam a lição, ele, sentado na haste verdejante, estudava na formosura da natureza a bondade de Deus, e tudo o que sentia misteriosamente, em silêncio, julgava ouvi-lo traduzido com admirável nitidez nas canções alegres da cotovia. Por isso pôs-se a olhar com uma espécie de respeito, mas sem inveja, para essa avezinha feliz que cantava e voava.

“Eu vejo e ouço, pensou o malmequer; o sol aquece-me e o vento acaricia-me. Oh! não tenho razão de me queixar.”

Dentro da sebe havia muitas flores altivas, aristocráticas; quanto menos aroma tinham, mais orgulhosas se aprumavam. As dálias inchavam-se para parecerem maiores do que as rosas; mas não é o tamanho que faz a rosa. As tulipas brilhavam pela beleza das suas cores, pavoneando-se pretensiosamente. Não se dignavam de lançar um olhar para o pequeno malmequer, enquanto que o pobrezinho admirava-as, exclamando: “como são ricas e bonitas! A cotovia irá certamente visitá-las. Graças a Deus, poderei assistir a este belo espetáculo.” E no mesmo instante a cotovia dirigiu o seu vôo, não para as dálias e tulipas, mas para a relva, junto do pobre malmequer, que morto de alegria não sabia o que havia de pensar.

O passarinho pôs-se a saltitar à roda dele, cantando: “Como a erva é macia! oh! que encantadora florinha, com um coração de ouro, vestida de prata!”

Não se pode fazer ideia da felicidade do malmequer. A ave acariciou-o com o bico, cantou outra vez diante dele, e perdeu-se depois no azul do firmamento. Durante mais de um quarto de hora não pôde o malmequer reprimir a sua comoção. Meio envergonhado, mas todo contente, olhou para as outras flores do jardim, que, como testemunhas da honra que acaba de receber, deviam avaliar muito bem a sua alegria natural; mas as tulipas estavam cada vez mais aprumadas; a sua haste vermelha e pontiaguda manifestava o despeito. As dálias tinham a cabeça toda inchada. Se elas pudessem falar, teriam dito coisas bem desagradáveis ao pobre malmequer. A florinha viu isto, e ficou triste.

Passados alguns momentos, entrou no jardim uma rapariguita com uma grande faca afiada e brilhante, aproximou-se das tulipas, e cortou-as uma a uma.

“Que desgraça! disse o malmequer suspirando; é horrível; foram-se todas.”

E enquanto a rapariguinha levava as tulipas, o malmequer alegrara-se por ser simplesmente uma pequenina flor no meio da erva. Apreciando reconhecido a bondade de Deus, cerrou ao cair da tarde as suas folhas, adormeceu, e sonhou toda a noite com o sol e com a cotovia.

No dia seguinte de manhã, assim que o malmequer abriu as suas folhas ao ar e à luz, reconheceu a voz do passarinho, mas o seu canto era triste, muitíssimo triste. A pobre cotovia tinha boas razões para se afligir: haviam-na agarrado e metido numa gaiola, suspensa entre uma janela aberta. Cantava a alegria da liberdade, a beleza dos campos e as suas antigas viagens através do espaço ilimitado.

O pequenino malmequer tinha boa vontade de lhe acudir: mas como? Era difícil. A compaixão pelo pobre passarinho prisioneiro, fez-lhe esquecer inteiramente as belezas que o cercavam, o doce calor do sol e a alvura resplandecente das suas próprias folhas.

Nisto dois rapazinhos entraram no jardim. O mais velho trazia na mão uma faca comprida e afiada como a da pequerrucha, que tinha cortado as tulipas. Encaminharam-se para o malmequer, que não podia compreender o que desejavam.

Podemos arrancar daqui um pedaço de relva para a cotovia, disse um dos rapazes, e começou a fazer um quadrado profundo à volta da florinha.

- Arranca a flor, disse o outro.

A estas palavras o malmequer estremeceu de terror. Arrancarem-no era morrer; e nunca tinha abençoado tanto a existência, como no momento em que esperava entrar com a relva na gaiola da cotovia.

“Não; deixemo-la, disse o mais velho. Está aí muito bem.”

Foi por conseguinte poupado, e entrou na gaiola da cotovia.

O pobre passarinho, queixando-se amargamente do seu cativeiro, batia com as azas nos arames da gaiola. O malmequer não podia, apesar dos seus desejos, articular-lhe uma palavra de consolação.

Passou-se assim toda a manhã.

“Já não tenho água, exclamou a prisioneira. Saiu toda a gente, sem me deixarem ao menos uma gota d'água. A garganta queima-me, tenho uma febre terrível, sinto-me abafada! Ai! Não há remédio senão morrer, longe do sol esplêndido, longe da fresca verdura e de todas as magnificências da criação!”

Depois enterrou o bico na relva húmida para se refrescar um pouco. Viu então o malmequer; fez-lhe um sinal de cabeça amigável, e disse-lhe, afagando-o: Também tu, pobre florinha, morrerás aqui! Em vez do mundo inteiro, que eu tinha à minha disposição, deram-me um pedacito de relva, e a ti só por única companhia. Cada pezinho de relva substitui para mim uma árvore, e cada uma das tuas folhas brancas, uma flor odorífera. Ah! como me fazes recordar de todas as coisas que perdi!

- Se eu pudesse consolá-la! pensava o malmequer, incapaz de fazer o mínimo movimento.

Contudo o perfume que ele exalava, tornou-se mais forte que de costume; a cotovia sentiu-o, e, apesar da sede devoradora que a obrigava a arrancar a erva, teve todo o cuidado em não tocar nem sequer de leve na flor.

Caiu a noite; não estava ali ninguém, para trazer uma gota d'água à desditosa cotovia; Estendeu então as suas belas azas, sacudindo-as convulsivamente, e pôs-se a cantar uma cançãozinha melancólica; a sua cabecinha inclinou-se para a flor, e o seu coração quebrado de desejos e de angústias cessou de bater. Vendo este triste espetáculo, o malmequer não pôde como na véspera fechar as suas folhas para dormir; curvou-se para o chão, doente de tristeza.

Os rapazitos só voltaram no dia seguinte, e, vendo o passarinho morto, rebentaram-lhe as lágrimas e abriram uma cova. Meteram o cadáver dentro de uma caixa vermelha, lindíssima, fizeram-lhe um enterro de príncipe, e cobriram o tumulo com folhas de rosas.

Pobre passarinho! Enquanto vivia e cantava, esqueceram-se dele e deixaram-no morrer de fome na gaiola; depois de morto é que o choraram e lhe fizeram honrarias pomposíssimas.

A relva e o malmequer lançaram-nas para a poeira da estrada; daquele que com tanta ternura tinha amado a cotovia, ninguém se lembrou.

Fonte:
Guerra Junqueiro: "Contos para a Infância", Publicado originalmente em 1877.

Portugal tem "falsos mecenas, compram arte com dinheiro que nos pertence"

 A pintora Graça Morais lamentou hoje a falta de mecenas da Cultura em Portugal, e criticou "os falsos" que compram arte com o dinheiro dos outros e enriquecem a "roubar o país".
Em entrevista à Lusa, a artista disse que gostava de ver em Portugal o exemplo de outros países onde os ricos financiam as artes, mas considera que o que se vê é "infelizmente a quantidade de bandidos, que não têm outro termo, que têm roubado o país e que não criam riqueza, só acumulam para eles".

No entender da pintora, que está em Bragança a preparar a próxima exposição, o que Portugal tem é "falsos mecenas que compram arte com dinheiro que nos pertence", o que a leva a concluir que "muitos dos problemas do nosso mundo" resultam de as pessoas se terem tornado "demasiado ambiciosas".

"Ser rico não é defeito, agora estes bandidos que enriqueceram e que colocaram o dinheiro não sei aonde e roubaram o país e roubam-nos a nós todos os dias, que temos de pagar estes impostos violentos, isso só mostra que há pessoas que perderam a cabeça", acrescentou.

Graça Morais aponta exceções como o empresário Rui Nabeiro, que disse admirar "imenso, porque é um homem que nasceu pobre, foi enriquecendo, mas criou riqueza para a comunidade e para o país".

No mecenato ressalvou também o exemplo de alguns bancos, mas reiterou que a situação portuguesa está longe do que "se passa, por exemplo, em França e na América, onde há pessoas que sentem que têm que oferecer à comunidade".

Entendem, como destacou, que "parte da riqueza deve ser para oferecer à comunidade e essa oferta muitas vezes é feita para ajudar as pessoas mais pobres, mas também para a arte, porque sabem a importância da arte no mundo porque a arte é que fica".

"Nós não temos mecenas em Portugal", insistiu, lamentando também que simultaneamente o país tenha "um Ministério da Cultura com um investimento também muito reduzido em arte".

Graça Morais vai mostrar trabalhos inéditos na primeira exposição depois da pandemia, com inauguração marcada para sexta-feira, no Centro de Arte Contemporânea de Bragança.

quarta-feira, 28 de julho de 2021

O que queremos fazer do Mundo Rural?

Blá blá blá...e mais blá blá.

Tais são os de cá, como os de lá. Os da cidade e os da aldeia.
A cidade “queixa-se” do Terreiro do Paço. Que sorte. A “malta” das nossas aldeias não se queixa a ninguém. Nem adianta. As Juntas são os representantes locais dos interesses que têm tudo a ver menos com os interesses do povo que as elegeu.

AS GENTES DAS NOSSAS ALDEIAS ACEITARAM O FATALISMO!

As aldeias são para acabar e já faltou mais.
Ainda há uma dúzia deles que gostam da aldeia. Que sentem saudades do que se viveu, que reconhecem quem os ajudou, sem invejas e enquadrados nos novos tempos… e que gostavam de ver…crianças…no parque infantil. Sim, parque infantil até há. Ou melhor, parque...

PAREM de enganar e de esbanjar dinheiro. Façam umas tainadas que é mais bem aproveitado. Pelo menos, come-se, bebe-se e vomita-se.

PAVILHÕES onde nem uma equipa de futebol de 5 se consegue arranjar? E continua o fado hilário, o regabofe…bem envergonhados devem estar os autarcas que ajudaram e potenciaram estas opções de desbaratar do erário público.
Hoje estive com um deles. Disse-me: - Tinhas razão. Estou arrependido e sinto vergonha.
Ele disse-me que eu tinha razão, porque há uns anos atrás...na inauguração do monte de tijolos, eu disse-lhe que era um escândalo queimar tanto dinheiro do bolso comum com uma "obra" que não iria ter alguma utilidade. CONFIRMA-SE!

Dependendo da “cor política” da Junta de Freguesia, todas as ilusões são passíveis de serem apoiadas. Já não me admiro que um dia destes apareça uma linha férrea da aldeia A para a aldeia B com 3 km de comprimento….se for da cor…

Bom.

Lá estamos nós a criticar.

Não estamos não. Estamos a constatar FACTOS.

Parem com as palhaçadas e com as placas de inauguração e façam coisas.
Que coisas? Perguntais que coisas?
Até eu, que sou meio “limitado”, posso dar algumas sugestões.

1 – Se o Manel quiser abrir um café numa aldeia onde nem um existe…NÃO COMPLIQUEM. É incompreensível que os custos para montar um café numa aldeia (onde seria o único) tenham os mesmos valores que montar um na Avª principal da cidade. Claro, não montam. Para vender 5 ou 10 cafés por dia quando se recupera o investimento? E, porque não há café, o Jorge não vai de fim-de-semana, o Humberto também não…não vai ninguém. Não compliquem, INCENTIVEM.

2 – Se o Francisco quiser arranjar o telhado na casa da aldeia e o Google lhe disser (a ele não, mas aos “entendidos”) que a última telha do lado direito do telhado está (por 2 cm) dentro do espaço de proteção do património, que os tipos de Lisboa entenderam que aquelas duas fragas constituíam,…lixa-se tudo. Pareceres e mais pareceres…aquela telha pode impedir a manutenção das duas fragas que estarão a mais de 100 metros de distância. Deixem-se de MERDAS. Incentivem e não compliquem. O Francisco, e porque chovia na velha casa da aldeia, onde nasceu e queria recuperar…desistiu. Fica-se pelos algarves…
Preservem-se as fragas, a Catedral e o Castelo, as Mouras e os encantos...mas deixe-se mudar a telha que está partida e levantar a parede caída.

Para que servem os deputados que elegemos e que já enjoam?

Não era uma pergunta. Eu digo e respondo. Servem para tudo o que lhes interessa e para nada que nos interesse.
Adoro a carita deles quando falam para as tv´s. Tão sérios, tão convincentes. Fazem afirmações que são acima de tudo um atestado de burrice aos eleitores. Paladinos da verdade sobre assuntos em que…FALHARAM, ROUBARAM ENVERGONHARAM...só não os conseguem condenar.
Tá bem, a “Malta” gosta. Até os bajula passados tantos anos. Pensai na quantidade de anos em que determinados “personagens” são deputados eleitos para representar a vossa terra. Não há mais ninguém. EHEHEHEH, triste sina. Deus nos Céus e…eles na Terra.
SÃO ELES…os maiores responsáveis pelo subdesenvolvimento da nossa terra. CHULOS! Culpa minha, culpa nossa.

Fugi ao tema? Talvez não.

- Nas aldeias não precisamos de música sacra, nem de um ecrãn gigante, nem de um novo Padre. Precisamos da matança do porco e de fazer aguardente sem receio;
- Nas aldeias não precisamos de pavilhões gimnodesportivos. Precisamos de médico;
- Nas aldeias não precisamos de um festival por ano. Precisamos de apoio ao investimento e de caminhos transitáveis;
- Nas aldeias não precisamos de sorrisos e promessas nas campanhas eleitorais. Precisamos de água potável e saneamento básico funcional;
- Nas aldeias não precisamos de tainadas de javalis. Precisamos de técnicos que nos ajudem a alterar o paradigma das culturas.
- Um Padre, um Engº Agrário ou agrónomo, um Professor um Médico.

Áh, depois sim, venham os festivais...

...uma aldeia com 10 habitantes consegue juntar, num dia, 3000 a comer e a beber. Sim, é disso que se trata,....naquele dia escolhido...é uma "coisa" impensável e que pode, provavelmente, ser candidatada ao Guiness.

Querem "provar" o quê?

CUSTA MUITO fazer diferente? Menos que um pavilhão gimnodesportivo, menos que umas inaugurações de tretas insignificantes, menos que umas comemorações irrelevantes e sempre para os mesmos aproveitarem para encher a blusa…e umas dezenas de tainadas por ano.

Mas, acima de tudo, seria acreditar que é possível. Está escrito nalgum lado que as aldeias são um alvo a abater? Se está eu não li...e olhai que já li "muitas coisas"...

Ou então…tenham coragem e BOMBARDEIEM DE VEZ. Acabem com este tenebroso sofrimento.
Nas aldeias…precisava-se de…gente VERDADEIRA nas cidades.
A malta da cidade tem sempre para onde ir…para baixo…para o lado...para trás...em frente.
A “malta” da aldeia já lá deixa os ossos.

PAREM COM AS ESMOLAS!

Mostrem que querem que as aldeias tenham vida. Que os poucos que lá habitam vivam com dignidade, ou até com um nível de vida superior ao cidadão comum (outro dia explico porque seria legítimo)...

HM

Distrito perdeu mais de 13 400 pessoas em dez anos: concelho de Torre de Moncorvo foi o mais afectado

 Em dez anos o distrito de Bragança perdeu 13 419 pessoas


Segundo os Censos 2021, o concelho de Torre de Moncorvo foi o que perdeu mais população no distrito, a nível percentual, e o terceiro a nível nacional, com menos 20%. Segue-se Alfândega da Fé, com menos 15%. 

O concelho menos afectado foi Bragança, que perdeu apenas 2% da população. Mirandela foi o concelho que perdeu mais pessoas, com menos 2461, mas em termos proporcionais equivale a 10%. 

Portugal tem actualmente 10 347 892 pessoas, só na região norte estão 3 588 701 pessoas, menos 100 mil que em 2011.

Escrito por Brigantia

Guerra Junqueiro: "Piloto"

 Piloto era o mais inteligente e o mais afetuoso dos cães, e o infatigável companheiro dos brinquedos das crianças da quinta.

Fazia gosto vê-lo atirar-se ao tanque a agarrar o pau, que João lhe lançava o mais longe que podia; pegava nele, metia-o na boca e trazia-o à margem, com grande alegria do pequerrucho e da sua irmã Joaninha.

Esta brincadeira recomeçava vinte vezes sem cansar nunca a paciência do Piloto. Depois eram corridas, festas, gargalhadas, saltos, até que o assobio do criado da quinta chamava o fiel animal às suas obrigações: partia então como um raio, para escoltar as vacas, que levavam aos pastos, e impedi-las de entrar no lameiro do vizinho.

Quando o hortelão ia vender os legumes ao mercado, era o Piloto o guarda da carroça; e muito atrevido seria quem saltasse à noite a parede da quinta.

Uma vez deu prova de uma extraordinária sagacidade; um jornaleiro, que se empregava muitas vezes em levar sacos de trigo da quinta para casa, tentou de noite roubar um saco.

Piloto, que o conhecia, não fez a menor demonstração de hostilidade enquanto o homem seguiu o caminho da quinta, mas, desde que se afastou tomando por outra estrada, o guarda vigilante agarrou-o pela blusa sem o largar.

Era como se dissesse: “Onde vais tu com o trigo de meu dono?”

O ladrão quis pôr então outra vez o saco de onde o tinha tirado; Piloto não consentiu, e teve-o em guarda, sem o morder nem o ferir, até de manhã; o quinteiro foi dar com ele nesta difícil posição, repreendeu-o vivamente, e despediu-o sem divulgar o caso para o não desonrar.

Mas o homem ficou com ódio ao cão, e muito tempo depois, aproveitando a ausência do quinteiro e de seus filhos, chamou o Piloto, que correu para ele sem desconfiança; atou-lhe uma corda ao pescoço e arrastou-o até à margem do ribeiro.

Atou uma grande pedra à outra extremidade da corda e levantando o animal atirou-o à água; mas arrastado ele próprio com o peso e com o esforço, caiu também.

Como não sabia nadar, teria sido despedaçado pela roda do moinho, se o corajoso Piloto, obedecendo ao seu instinto de salvador e desembaraçando-se da pedra mal atada, não tivesse mergulhado duas vezes e trazido para terra o seu mortal inimigo.

Este, que estava quase desmaiado, compreendeu quando voltou a si, que o cão que ele tinha querido afogar, lhe salvara a vida.

Teve vergonha de seu ato miserável; e desde esse dia, violentou-se a si mesmo e combateu as suas más inclinações.

O exemplo do cão corrigiu o homem.

Fonte:
Guerra Junqueiro: "Contos para a Infância", Publicado originalmente em 1877.

𝗕𝗿𝗮𝗴𝗮𝗻𝗰̧𝗮. 𝗡𝗮𝘁𝘂𝗿𝗮𝗹𝗺𝗲𝗻𝘁𝗲!

Conservação do tartaranhão-caçador reforçada com projeto que junta produtores de cereais e agentes de proteção da natureza

 A conservação do tartaranhão-caçador (Circus pygargus), também denominado por águia-caçadeira, ganhou um novo reforço com a criação de um projeto, lançado publicamente em julho de 2021, que junta produtores nacionais de cereais e agentes de proteção da natureza com o objetivo de salvar esta espécie de ave de rapina estepária em risco de extinção em Portugal.

Crias de tartaranhão-caçador. Still de vídeo Gonçalo Mota/Palombar.

PROJETO tem como promotores o Clube de Produtores Continente (CPC), a Associação Nacional de Produtores de Proteaginosas, Oleaginosas e Cereais (ANPOC) e o Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO/BIOPOLIS) da Universidade do Porto. Conta ainda com a colaboração do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).

Um dos seus principais propósitos é valorizar o contributo das searas de trigo nacionais para a promoção de biodiversidade de aves, incluindo a de espécies ameaçadas como o Circus pygargus. O projeto arrancou com foco de intervenção na região do Alentejo.

Os agricultores e proprietários de terrenos estão já a ajudar ativamente na identificação das colónias destas aves, que nidificam em campos cerealíferos, enviando ao CIBIO/BIOPOLIS e ao ICNF informações sobre os avistamentos das aves, o número de animais e, sempre que possível, o sexo dos mesmos, além de implementarem voluntariamente medidas de proteção dos ninhos e crias (delimitando o espaço em que estes se encontram, para que não haja atividade de máquinas agrícolas e instalando proteções anti predadores, por exemplo). Até ao momento já foram acompanhadas 13 ceifas de 26 produtores nacionais para implementar estas medidas.

A organização não governamental de ambiente Palombar - Conservação da Natureza e do Património Rural considera que este é um projeto fundamental para garantir a conservação do tartaranhão-caçador no território nacional. Os promotores deste projeto, em colaboração e articulação com a Palombar, que tem igualmente desenvolvido trabalhos de proteção desta rapina no Nordeste Transmontano, estão a trabalhar para promover a conservação da espécie nas suas principais zonas de ocorrência, o que permitirá homogeneizar as ações no terreno, a partilha e a discussão de resultados, e promover a sua salvaguarda de forma abrangente e coordenada em todo o país.

Palombar arrancou em 2020 com ações de proteção do tartaranhão-caçador no Nordeste Transmontano

Em 2020, a Palombar arrancou com AÇÕES DE PROTEÇÃO e conservação do tartaranhão-caçador no Nordeste Transmontano, mais especificamente no Planalto Mirandês, em estreita colaboração com os agricultores locais.

Desde então, e também enquadrado em ações do seu projeto "RECONECTA-TE À NATUREZA  - As aves fazem mais do que cantar”, a Palombar tem implementado medidas no terreno para conservar a espécie, tendo já protegido, no período 2020-2021, cinco ninhos de tartaranhão-caçador e anilhado 18 indivíduos, incluindo crias e adultos. A organização está igualmente a realizar um censo da espécie na região. No âmbito daquele projeto, a Palombar produziu ainda o vídeo “Proteger a rapina das searas”, que sensibiliza para a importância de proteger o tartaranhão-caçador.

Ninho de tartaranhão-caçador protegido em ações realizadas pela Palombar. Fotografia Palombar.

O tartaranhão-caçador é uma rapina migradora que tem um estatuto de ameaça “Em perigo” de extinção, segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal e as suas populações têm registado um declínio continuado no território nacional. Os casais nidificantes desta espécie no país representam cerca de 13 por cento da população europeia (excluindo a Rússia). Esta é uma espécie de conservação prioritária em Portugal e que está protegida através da transposição para a legislação nacional da Diretiva Aves da União Europeia, e das Convenções de Berna, de Bona e de Washington. A região Nordeste do país regista um efetivo populacional relevante de tartaranhão-caçador e, tendo em conta esta realidade, a Palombar tem desenvolvido ações dirigidas para esta espécie com o objetivo de monitorizar as suas populações e detetar casais e ninhos existentes no território, sobretudo no Planalto Mirandês.

Para que seja possível cumprir os dois principais objetivos de conservação do tartaranhão-caçador em Portugal: manter/aumentar a população nidificante e conservar as zonas de nidificação e alimentação, é essencial a implementação de medidas agroambientais e planos de gestão do território e da espécie que envolvam as comunidades locais, bem como a realização de censos nacionais e monitorização da população, de forma a quantificar os seus reais efetivos e identificar os locais onde nidificam, assim como avaliar a evolução das suas populações ao longo dos próximos anos.

Tartaranhão-caçador: o exímio predador

O tartaranhão-caçador ou águia-caçadeira, a mais pequena das águias europeias, é uma espécie exímia na arte da caça e da predação e não é por acaso que os adjetivos “caçador” e “caçadeira” integram os seus nomes comuns. Esta rapina apresenta movimentos ágeis, rápidos, silenciosos e precisos e tem, por isso, uma grande habilidade para caçar presas vivas de pequenas dimensões. O tartaranhão-caçador é uma espécie nidificante estival, pelo que só está presente no território nacional a partir de meados de março até setembro. Esta espécie passa o inverno em África.

Fêmea de tartaranhão-caçador. Still de vídeo Gonçalo Mota/Palombar.

O macho apresenta uma plumagem cinzento-azulada, asas muito compridas e estreitas, corpo esguio e cauda comprida e estreita, de coloração negra. Em voo, distingue-se uma banda preta nas penas secundárias. A fêmea e os juvenis apresentam uma plumagem de tons castanhos-arruivados.

O seu habitat de eleição são áreas predominantemente desarborizadas, com solos secos ou húmidos e associadas a zonas agrícolas, principalmente culturas cerealíferas, arvenses e forrageiras. Reproduz-se em zonas seminaturais caracterizados pela cerealicultura extensiva, embora se possa reproduzir também nos planaltos serranos do centro-leste e norte e ainda em zonas costeiras. Na região mediterrânica, estima-se que 90% dos casais nidificam no interior de searas.

O tartaranhão-caçador alimenta-se essencialmente de pequenas presas: aves, pequenos mamíferos, insetos e lagartos. Apesar de ser considerado um predador generalista, a sua dieta pode apresentar especificidade a nível local na seleção de presas.

Os principais fatores de ameaça para esta espécie são: atividade da ceifa, intensificação da agricultura, abandono agrícola, utilização de agroquímicos, florestação das terras agrícolas, expansão de cultivos lenhosos, perturbação provocada pelas atividades humanas, abate ilegal, pilhagem e destruição de ninhos, e aumento de predadores de ovos e crias.

A conservação das populações de tartaranhão-caçador promove o equilíbrio dos ecossistemas e beneficia diretamente os agricultores e as suas culturas, pois esta espécie é predadora de pequenos mamíferos roedores e insetos consumidores de sementes e vegetais diversos e contribui para travar o aumento excessivo das suas populações.