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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

XIX Encontro de Cantares de Reis

 A Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros vai realizar o XIX Encontro de Cantares de Reis, no dia 8 de janeiro de 2023, no auditório da ACISMC, às 15h00.
A ficha de inscrição deverá ser entregue no Geopark Terras de Cavaleiros (antiga Estação dos Caminhos de Ferro) ou enviada para o email turismo@cm-macedodecavaleiros.pt, até ao dia 30 de dezembro de 2022.

Destinatários: Associações e Juntas de Freguesia. 

Mais informações AQUI.

FESTA DOS CARETOS ATRAIU CENTENAS DE PESSOAS A TORRE DE DONA CHAMA

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

O que procurar no Inverno: O umbigo-de-vénus

 Carine Azevedo apresenta-nos esta que talvez seja a planta suculenta nativa mais conhecida em Portugal, especialmente abundante em períodos chuvosos e húmidos, como sucede nesta estação.

Foto: Joanbanjo

As plantas suculentas talvez sejam, atualmente, das plantas mais procuradas para jardins de interior e até de exterior, pela enorme variedade de formas, tamanhos, cores e texturas.

Na sua maioria são de fácil manutenção, bastante resistentes, e possuem uma grande capacidade de adaptação a diferentes ambientes.

Na generalidade, são espécies nativas de regiões secas e quentes, mas também existem espécies que vivem em regiões secas e frias, como é o caso de algumas espécies dos géneros Sedum, Umbilicus e Sempervivum.

Em Portugal, são inúmeras as espécies suculentas nativas que ocorrem de norte a sul do território continental e também nas ilhas.

O umbigo-de-vénus (Umbilicus rupestris) talvez seja a suculenta nativa mais conhecida de todos.

O que são plantas suculentas?

As plantas suculentas são plantas que armazenam água.

O termo “suculenta” deriva da palavra em latim Sucus, que significa suco ou seiva, daí que as folhas, os caules e as raízes destas plantas sejam maioritariamente carnudos e grossos, uma vez que estas plantas conseguem acumular nos seus órgãos reservas líquidas durante períodos prolongados.

Esta adaptação permite que estas plantas sejam resistentes à seca e sobrevivam em ambientes áridos e secos, locais inabitáveis para as outras plantas.

Estima-se que existam à volta de 7700 espécies de suculentas, distribuídas por cerca de 60 famílias, sendo as mais representativas a Crassulaceae, a Cactaceae e a Aizoaceae.

No entanto, com o número de cultivares e de híbridos que continuamente são cruzados em viveiro um pouco por todo o mundo, estima-se que o conjunto de espécies de plantas suculentas ultrapasse as 20 mil.

Crassulaceae

O umbigo-de-vénus é uma espécie da família Crassulaceae, composta por 36 géneros botânicos e cerca de 1700 espécies, a grande maioria plantas suculentas.

Foto: Joanbanjo

Os membros desta família podem ser perenes ou anuais. São caracterizados por possuírem folhas carnudas, muito espessas, que se agrupam numa roseta que pode estar na base ou no ápice dos raminhos, também eles carnudos. Além das folhas carnudas, estas plantas são revestidas por uma cutícula de cera espessa que favorece a sobrevivência em condições climáticas mais desfavoráveis.

A família inclui uma vasta coleção de plantas ornamentais, amplamente cultivadas, como: a planta de jade (Crassula ovata), a flor-da-fortuna (Kalanchoe blossfeldiana), a rosa de pedra (Echeveria elegans), a erva-de-cão (Sedum acre) e o Sempervivum tectorum.

Em Portugal, esta família está representada por sete géneros botânicos e por aproximadamente três dezenas de espécies.

Uma dezena dessas espécies são endémicas do arquipélago da Madeira: o ensaião-de-pasta (Aeonium glandulosum), o farrobo (Aeonium glutinosum), o ensaião (Aichryson divaricatum), o Aichryson dumosum, o ensaião (Aichryson villosum), o Monanthes lowei, o arroz-da-rocha (Sedum brissemoretii), a erva-arroz (Sedum farinosum), a uva-de-rato (Sedum nudum) e o Sedum fusiforme. Já a Aichryson santamariensis é uma espécie endémica da Ilha de Santa Maria, nos Açores.

O umbigo-de-vénus

O umbigo-de-vénus é também conhecido como bacelos, bifes, cachilro, chapéus-de-parede, cauxilhos, chapéu-dos-telhados, cochilros, conchelos, copilas, couxilgos, orelha-de-monge e sombreirinho-dos-telhados.

Regionalmente na Madeira dá-se também pelo nome de inhame-de-lagartixa e pimpilros. Nos Açores é conhecida como conchelos.

O umbigo-de-vénus é uma planta perene, herbácea, suculenta e glabra, de aparência rasteira, que pode medir entre nove a 60 centímetros de altura. Os caules são direitos, delgados, geralmente simples e carnudos. 

Quanto às folhas, são carnudas e de dois tipos. As folhas basais possuem forma peltata, ou seja, forma aproximadamente arredondada, com pecíolo central comprido, que surge mais ou menos do centro do limbo.

Já as folhas caulinares diminuem progressivamente, em tamanho e em quantidade, em direção à parte superior. São subespatuladas a lanceoladas, e possuem margem ligeiramente dentada.

No geral, as folhas são ligeiramente côncavas, verdes e brilhantes, embora possam ficar avermelhadas quando expostas ao sol.

Foto: Júlio Reis

Em Portugal continental, o umbigo-de-vénus floresce entre os meses de fevereiro e julho. Já no Arquipélago da Madeira a floração ocorre maioritariamente em maio e no Arquipélago dos Açores pode ver-se em flor nos meses de abril e maio.

As flores surgem em inflorescências densas, estreitas e compridas, que ocupam 60-90% do comprimento da haste floral.

A haste floral é ereta, verde ou avermelhada e carnuda. As flores são branco-amareladas e surgem suspensas ao longo da inflorescência. A corola é tubular ou campanulada, formada por cinco pétalas soldadas, verde-amareladas ou raramente avermelhadas e pálidas.  O cálice é composto por cinco sépalas agudas, verdes e soldadas na base.

O fruto é verde, do tipo polifolículo, ou seja, é um fruto múltiplo, formado por numerosos folículos. Cada folículo é composto por numerosas sementes ovóides e castanho-escuras.

O umbigo-de-vénus produz uma grande quantidade de sementes que facilmente se espalham pela ação do vento – dispersão anemófila.

Habitat e ecologia

A denominação científica da espécie deve-se ao tipo de folhas e habitat.

O nome do género Umbilicus deriva do latim e significa “umbigo”, devido à depressão saliente que surge no centro e à superfície das folhas, semelhante ao umbigo.

O restritivo específico rupestris deriva igualmente do latim, significa “rupestre”, e simboliza o seu habitat natural, por viver sobre as rochas, nos muros e paredes.

O umbigo-de-vénus distribui-se por toda a Europa Meridional, parte da Europa Ocidental (França) e Setentrional (Irlanda e Grã-Bretanha) e no Norte de África (Argélia, Marrocos, Tunísia e Líbia).

Em Portugal ocorre em todo o território do continente, bem como nos Arquipélagos da Madeira e dos Açores.

Trata-se de uma espécie ruderal, bastante rústica, que pode sobreviver em praticamente qualquer ambiente, sendo mais abundante nos períodos mais chuvosos e húmidos, uma vez que essas são as condições adequadas ao desenvolvimento das suas raízes.

Esta planta pode ocorrer em escarpas, em fendas húmidas de superfícies rochosas, ou ainda em muros e paredes verticais, quer sejam naturais ou de origem humana, e até mesmo em telhados.

O umbigo-de-vénus também pode viver sobre outras plantas – planta epífita, nomeadamente sobre o tronco de árvores e de arbustos. Está muitas vezes associada a outras plantas, como o musgo, e também a líquenes.

Além disso, por vezes, desenvolve-se diretamente no solo no sub-coberto de tojais (Ulex spp.) e escovais (Cytisus spp.).

O umbigo-de-vénus suporta uma faixa climática muito elevada e requer luz para prosperar, embora também possa crescer à sombra. 

Não necessita de solos férteis para crescer e é indiferente ao tipo de substrato, mas desenvolve-se melhor em solos graníticos e ácidos. É resistente à geada moderada e pode suportar, por curtos períodos, temperaturas até -15ºC.

Quando as folhas ou outras partes da planta são afetadas pela falta de água ou pelo frio, por exemplo, estas conseguem facilmente recuperar, assim que as condições de temperatura e humidade voltam a melhorar. Quanto a doenças, é especialmente sensível a fungos.

Utilizações desta planta

O umbigo-de-vénus não é geralmente usado para fins ornamentais, sendo quase exclusivamente silvestre. No entanto, a sua facilidade de dispersão e resistência, nomeadamente em locais difíceis para outras plantas, são fatores a ter em conta na escolha desta planta.

Além disso, as suas folhas carnudas e características, bem como as suas inflorescências peculiares e de florescimento prolongado, são outros motivos interessantes para plantar esta espécie em locais de difícil desenvolvimento para outras plantas.

O umbigo-de-vénus é uma fonte de nutrientes e propriedades bioativas. Contém sais minerais sobretudo cálcio, potássio, silício, ferro, vitamina C, polifenóis, ácidos gordos polinsaturados (ómega 3), flavonóides e taninos.

Foto: Ghislain118

Esta suculenta tem também atividade anti-inflamatória, analgésica, antisséptica, cicatrizante, adstringente, diurética, lenitiva e hemostática. Também é um bom protetor da pele e hepático.

Na medicina popular, as folhas são transformadas em cataplasma e usadas, para acelerar a cicatrização de feridas e a cicatrização de queimaduras, tratar calosidades, úlceras cutâneas, picadas de inseto e dores de ouvidos. O sumo e o extrato seco da planta têm reputação antiga no tratamento da epilepsia.

Uma decocção das folhas é considerada refrescante e diurética e o suco tomado internamente é considerado excelente para o tratamento de inflamações do fígado e do baço. Outro uso popular passa por cozinhar a planta em azeite para aliviar dores reumáticas e amaciar a pele.

Estudos recentes revelaram ainda que esta planta promove a eliminação de radicais livres e a inibição da peroxidação lipídica e do crescimento de diferentes bactérias multirresistentes.

As folhas, cruas ou cozidas, consomem-se em saladas, sandes, omeletes, quiches e batidos. Pode incluir-se em sopas, devendo ser colocada logo após a fervura da mesma. Apresentam um sabor suave e fresco, sobretudo durante o inverno e o início da primavera. No verão, as folhas possuem um sabor mais intenso e levemente amargo, devido à presença de alguns taninos.

A planta tende a absorver metais pesados, como tal deve evitar-se colher em locais poluídos e contaminados. 

Como acontece com outras espécies botânicas, a sua utilização para fins terapêuticos não deve ser feita sem acompanhamento médico.

O umbigo-de-vénus é fácil de encontrar, basta um olhar atento para descobrir estas pequenas plantas, com folhas muito peculiares, em qualquer fenda de muro, parede ou árvore. Se o encontrar, fotografe-o e partilhe connosco nas redes sociais com #oqueprocurar #plantasdeportugal #floranativa e #àdescobertadasplantasnativas.

Dicionário informal do mundo vegetal:

Suculenta – planta ou parte desta que, devido à abundância de sucos, é muito espessa e carnuda.
Carnuda – suculenta, mas firme.
Roseta – conjunto de folhas muito próximas, dispostas radialmente e a uma altura semelhante, e que geralmente se desenvolvem na base do caule da planta.
Cutícula – película formada por cutina que reveste externamente alguns órgãos das plantas.
Perene – planta que tem um ciclo de vida longo e que viver três ou mais anos.
Herbácea – planta de consistência não lenhosa e verde.
Glabra – sem pêlos.
Peltada – folha com forma arredondada, cujo pecíolo fica inserido no meio do limbo, formando uma estrutura que lembra um guarda-chuva.
Pecíolo – pé da folha que liga o limbo ao caule.
Limbo – parte larga de uma folha normal.
Espatulada – folha em forma de espátula, isto é, ápice mais largo e arredondado e parte inferior mais atenuada.
Lanceolada – folha com limbo que apresenta a forma de lança.
Dentada – folha provida de “dentes” mais ou menos perpendiculares à linha da margem.
Inflorescência – forma como as flores estão agrupadas numa planta.
Haste floral – pedúnculo, geralmente desprovido de folhas, que no ápice termina numa flor ou numa inflorescência, rodeado ou não, na base, por folhas.
Pedúnculo – “Pé” que sustenta a inflorescência.
Corola – conjunto das pétalas (peça floral, geralmente colorida ou branca), que protegem os órgãos reprodutores da planta.
Tubular – flor cuja corola possui a forma de um tubo muito alongado.
Campanulada – em forma de sino invertido.
Cálice – conjunto das sépalas (peças florais frequentemente verdes), que protegem externamente a flor.
Folículo – fruto seco, com várias sementes, que se abre por uma única fenda para libertar as suas sementes.
Polinização anemófila – realizada pelo vento.
Epífita – planta que cresce sobre o tronco ou ramos de árvores, de arbustos ou de outras plantas.

Carine Azevedo

Pode o gamo ser selvagem em Portugal?

 O belo e sarapintado gamo está hoje reduzido a um papel cinegético, mas se lhe dermos mais espaço, pode desempenhar um importante papel nos ecossistemas, afirma Daniel Veríssimo, um economista maravilhado pela natureza.


O gamo (Dama dama) é uma espécie de cervídeo, como o corço e o veado vermelho. No passado existia desde o Médio Oriente ao Sul da Europa, desde as zonas na fronteira do Levante às paisagens mediterrâneas da Bulgária, Grécia e Itália. Há também registos de outras espécies do mesmo género Dama que habitavam um pouco por toda a Europa, que hoje estão extintas.

Este cervídeo é mais pequeno que um veado e maior que um corço, com um padrão de pelo castanho às pintas brancas. Os machos podem medir entre 80 centímetros a 1 metro de altura, pesam até 100 quilos e têm hastes; as fêmeas são um pouco mais pequenas, podendo medir entre 70 a 90 centímetros e pesar até 50 quilos. Podem formar grupos ou andar sozinhos.

Apesar de existirem populações desta espécie em Portugal, a maioria habita em herdades, cercados ou zonas de caça, como a Tapada de Mafra e algumas propriedades no Alentejo. A única população livre existe no Vale do Guadiana e resultou da fuga de animais de coutadas de caça. Aliás, a razão para haver populações de gamo na Península Ibérica e noutras partes da Europa é a caça, pois as hastes dos machos eram e são um troféu de caça apreciado.

Foto: NotFromUtrecht/Wiki Commons

Mas o papel do gamo é muito mais do que cinegético, esta é mais uma espécie que pode dar e devolver vida aos ecossistemas. Trata-se de mais um herbívoro para jardinar a paisagem, espalhar sementes, prevenir incêndios e criar uma paisagem em mosaico. É mais uma presa potencial para o lobo e para o lince-ibérico, mais um animal que no fim da vida pode ser alimento para abutres. Pode completar funções que estão enfraquecidas ou ausentes da paisagem: é mais um animal para restaurar processos naturais (a pastagem), para transportar nutrientes na paisagem (através dos excrementos), para ativar o ciclo de carbono e para aumentar a resiliência dos ecossistemas às alterações climáticas.

Há diferenças claras entre herbivoria e criação de gado. Herbivoria é o que faz falta nas paisagens de Portugal, de Norte a Sul com altas taxas de abandono da atividade agrícola, é a peça em falta para devolver vida aos territórios, prevenir e mitigar incêndios florestais e reativar o ciclo de carbono. Herbivoria é um processo natural, desempenhado por várias espécies de animais, livres, em paisagens abertas e com diferentes preferências alimentares — alguns por arbustos, outros por ervas, outros ainda um misto de ambos, com variados tamanhos e comportamentos, isolados ou em grupos consoante a espécie e altura do ano. Já a criação de gado é feita por norma com uma espécie, em zonas vedadas e com animais domésticos, para uso do ser humano. 

Em Espanha, zonas emblemáticas têm populações selvagens de gamo no Parque Nacional de Doñana, nas serranias de Cazorla, ou ainda na Cordilheira Bética nas Serras do Alto Tejo. Nestes ecossistemas a espécie partilha o habitat com linces e flamingos em Doñana, com quebra-ossos e muflões em Cazorla e com cabras-montesas, veados e corços no Alto Tejo.

Foto: joe m devereux/Wiki Commons

Em Portugal existem muitas outras áreas que podem albergar populações de gamo, das terras frias às terras quentes do país, do Litoral ao Interior; das Serras do Algarve, de Monchique ao Caldeirão, às montanhas do Marão, Alvão e Gerês; dos pinhais banhados pelo mar de Setúbal, Marinha Grande e Aveiro aos campos de Moura e Barrancos, Tejo Internacional e Planalto do Côa; das serras da zona Centro da Arada, Freita e Montemuro às serras da Lousã, Açor e Estrela; das zonas periurbanas de Sintra, Costa da Caparica e serras do Porto às zonas remotas de Montesinho, Malcata e Marvão. O gamo é um animal adaptável, capaz de sobreviver e prosperar numa grande diversidade de habitats.

Pode ser ainda uma oportunidade económica, terreno fértil para um verdadeiro turismo de natureza, além de evitar custos na limpeza de matos ao pastorear a paisagem, ou também reduzir os custos com indemnizações por ataques de lobo a gado doméstico (uma das razões para os ataques é a falta de presas selvagens).

Imagine-se a visitar uma área protegida num passeio em todo-o-terreno, num carro elétrico, e a ver na mesma manhã fresca de Outono várias espécies de herbívoros. Nas clareiras, gamos e cavalos selvagens; nas orlas da floresta de carvalhos, veados; nas zonas mais fechadas de matos, corços e auroques; nas zonas escarpadas, cabras montesas e muflões. Seria como olhar para uma paisagem viva moldada por várias espécies de jardineiros que desempenham o seu papel no ciclo da vida, que são comida para linces e lobos e carcaças para abutres, águias e corvídeos.

Foto: Garry Knight/Wiki Commons

É preciso ter uma visão mais flexível de espécie nativa: uma coisa são espécies de animais e plantas que vêm do outro lado do mundo, como o eucalipto ou a acácia, outra são espécies como o zambujeiro ou a alfarrobeira de regiões geográficas próximas como o Norte de África ou o Médio Oriente, na bacia do Mediterrâneo. 

É preciso passarmos de uma visão purista para uma visão flexível, gerir declínios para promover abundâncias, estancar a destruição para atuar no restauro. Hoje o gamo é algo esquecido e desvalorizado, mas se for lhe dada uma oportunidade, pode desempenhar um papel nos ecossistemas da Península Ibérica.

O gamo pode ser selvagem em Portugal.

Daniel Veríssimo

Espécies ameaçadas: O que enfrenta o coelho-bravo?

 Sara Costa dá-nos a conhecer este mamífero que está hoje Em Perigo de extinção em Portugal e Espanha, sendo um alimento fundamental para animais como o lince-ibérico e águia-imperial.

Foto: Johan Hansson / Wiki Commons

As origens do coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus) estão no sudoeste da Europa. Diversos estudos afirmam que, até à Idade Média, a área de distribuição natural da espécie era restrita à Península Ibérica e ao sul de França. Mas hoje em dia, graças à introdução por parte do Homem, encontramos o coelho-bravo espalhado por todo o mundo.

Conhecemos duas subespécies de coelho-bravo, Oryctolagus c. cuniculus e Oryctolagus c. algirus, sendo a segunda a que habita em Portugal, como podemos observar nesta imagem.

Imagem representativa da distribuição geográfica das duas subespécies do coelho-bravo (https://www.researchgate.net/figure/Geographical-distribution-of-the-two-subspecies-of-the-European-wild-rabbit_fig1_319109025)

Este pequeno mamífero caracteriza-se por uma pelagem castanho acinzentada, tendo a cauda bastante curta e branca na parte inferior. As patas traseiras são fortes e adaptadas para uma corrida em saltos, e a mobilidade das orelhas permite-lhe captar com precisão os sons em redor. Não apresenta dimorfismo sexual, no entanto a fêmea é ligeiramente maior e mais pesada do que o macho.

Segundo o livro “Mamíferos” de Helga Hofmann, podemos encontrar o coelho-bravo em diversos habitats, entre eles, pastos, zonas montanhosas (até 1600m de altura), planícies, jardins e outras zonas de vegetação baixa. Sendo exclusivamente herbívoro, a sua alimentação inclui sementes, ervas, raízes, plantas ou até frutos. 

O coelho-bravo vive em tocas comunitárias que se ligam por galerias, contando com várias entradas e saídas. Os grupos familiares, desde 2 a 7 indivíduos, vivem com uma rigorosa hierarquia com um macho e uma fêmea dominante.

Foto: Mathias Appel/Wiki Commons

Tendo a visão mais adequada a uma fraca luminosidade, é durante a noite que o coelho se alimenta e se desloca. Durante o dia, as atividades restringem-se às tocas e a áreas de mato denso, também como forma de evitar a sua predação.

O coelho-bravo pertence, e partilha, a família Leporidae com as lebres (Lepus granatensis). Podemos distinguir estes dois animais pelo tamanho, sendo o coelho uma espécie mais pequena. Além disso, a lebre possui patas traseiras mais longas e orelhas mais compridas pontuadas por manchas pretas.

Espécie fundamental na dinâmica e manutenção do equilíbrio ecológico dos ecossistemas ibéricos, o coelho-bravo enfrenta, nos dias de hoje, desafios preocupantes.

De Quase Ameaçado para Em Perigo…

Em 2019, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) mudou a classificação do coelho-bravo de “Quase Ameaçado” para “Em Perigo” nas suas áreas nativas. Esta chocante alteração deveu-se ao drástico declínio que esta espécie enfrentou entre 2009 e 2019. A redução da população do coelho-bravo durante este intervalo de tempo foi superior a 50%, sendo as doenças, nomeadamente uma nova variante da doença hemorrágica viral (DHV), o principal motivo. 

A mixomatose, em 1950, e a DHV, em 1980, são exemplos de como as doenças já afetaram as populações de coelho-bravo no passado, explica o Instituto para a Conservação da Natureza e das Florestas. 

Uma nova variante da DHV, designada atualmente por GI.2, foi detetada em 2012 em Portugal, dois anos depois de ter surgido em França. Sendo uma variante altamente contagiosa, a taxa de mortalidade foi muito elevada e afetou tanto coelhos juvenis como adultos, domésticos ou selvagens. Segundo o relatório da IUCN, os declínios populacionais de coelho-bravo, derivados desta nova onda da DHV, são estimados em 70%. 

Outros impactos que conduziram à drástica redução das populações de coelho-bravo foram a desflorestação, a caça, o fogo posto, as alterações climáticas e a destruição de habitats, por exemplo, para extensão da agricultura e pecuária. 

O papel do coelho-bravo

O coelho-bravo serve de alimento para, pelo menos, 39 espécies. Entre elas, saliento o lince-ibérico (Lynx pardinus) e a águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti), sendo espécies também ameaçadas no nosso território. 

O declínio da população de coelho-bravo, quer por doenças quer por atividades humanas, irá desencadear enormes efeitos em cascata, pondo em causa a sobrevivência de espécies que dependem dele para a sua alimentação. Um estudo realizado em 2016 mostrou uma diminuição notória na fecundidade do lince-ibérico, em 65,7%, e da águia-imperial, em 45,5%, após a nova variante da DHV ter atingido o coelho-bravo.

Foto: Frank Vincentz

Para além de ser a base da cadeia alimentar de muitos predadores, estudos recentes apontam o coelho-bravo como um engenheiro dos ecossistemas. A sua capacidade escavadora confere abrigo a outras espécies, a decomposição dos seus excrementos e da sua urina permite alterar as propriedades físico-químicas do solo, aumentando a diversidade e o crescimento da comunidade vegetal e, por fim, a variedade da sua alimentação contribui para a dispersão de sementes de espécies vegetais.    

Projetos que trazem esperança

Entretanto, uma equipa internacional de cientistas comparou amostras de ADN de populações atuais com amostras de ADN obtidas a partir de um exemplar da coleção privada de Charles Darwin (século XIX) e de coelhos recolhidos antes do surto de mixomatose de 1950, concluindo que a espécie está a desenvolver uma maior imunidade a esta doença.

Outro estudo, publicado em 2017, demonstrou que um terço da população de coelho-bravo, em Portugal, já começa a apresentar alguma imunidade à nova estirpe de DHV. No entanto, esta imunidade pode não ser suficiente para obstar ao declínio deste animal, estimado em 20% a cada ano, pelo que é fundamental dar continuidade a todos os esforços de conservação.

Nesse sentido, Portugal e Espanha juntaram-se num projeto que procura “estabelecer um sistema de governança para a gestão do coelho na Península Ibérica”, o LIFE Iberconejo. Este projeto procura, para além de recuperar as populações de coelho-bravo, ajudar na prevenção dos danos que estes animais causam na agricultura. De maneira a cumprir estes objetivos, as áreas de atuação do LIFE Iberconejo passam por ações de sensibilização, monotorização da saúde das populações do coelho-bravo, testes de campo, criação de aplicações informáticas, prevenção de danos e avaliação dos impactos eco-sistémicos e socioeconómicos.

O Plano de Ação para Controlo da Doença Hemorrágica Viral do Coelho, em seguimento do Despacho n.º 4757/2017 do Ministro da Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural, é outra iniciativa que trabalha em prol da conservação do coelho-bravo. Para atingir este fim, o ICNF, os laboratórios do Instituto Nacional da Investigação Agrária e Veterinária (INIAV) e algumas entidades gestoras das zonas de caça estão a trabalhar em conjunto no aumento da consciência social, na monitorização e controlo da mortalidade associada à DHV e na realização de práticas de gestão adequadas das populações de coelho-bravo.

Para além do controlo de doenças, outras práticas cruciais para a proteção deste mamífero passam pelo controlo da caça furtiva e pela melhoria dos seus habitats, nomeadamente através da construção de tocas artificiais e áreas de refúgio, limpeza de terrenos e aumento da disponibilidade de alimento e água.

Sara Costa
recém-licenciada em Ciências do Ambiente pela Universidade do Minho

DÊ ERRE: Um Culto em Franca Expansão

Por: António Pires 
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Em pleno século XXI, é notório como a nossa sociedade, a nível de mentalidade, ainda não se conseguiu libertar das amarras do feudalismo, período histórico no qual a condição social era a principal virtude para se obter o reconhecimento, o respeito e a consideração dos demais, e onde o ter era inquestionavelmente muito mais importante do que o ser, a essência da pessoa.
Para quem, como eu, a nobreza de espírito e a excelência do ser humano radicam noutros pressupostos, é-me difícil compreender o pretensiosismo ridículo de certos elementos que dela (sociedade) fazem parte.
Para dar uma ideia de como certos preconceitos próprios dos tempos das armaduras, das bestas, dos escudos e das espadas estão cada vez mais presentes e disseminados nos dias de hoje, é atentarmos na passagem seguinte.
Há uns tempos, um jornalista lisboeta, dos quadros da RTP, de visita ocasional a Bragança, foi jantar a um prestigiado restaurantes da cidade. O gerente, pessoa de trato fino e esmerada educação, dirigiu-se ao dito na mais previsível e clássica das abordagens: “ O senhor o que deseja comer?”. Puxando dos galões da autoridade, a pública figura, como que afrontado, respondeu: “Desculpe, faça favor, trate-me por senhor doutor!”.
Não é que duvide da doutorice daqueles que reclamam tal estatuto. Apenas acho presunçoso e pouco elegante a forma como certos indivíduos pretendem granjear a respeitabilidade e a consideração dos outros. Porque títulos como este e outros que tais, conseguidos em Coimbra, ou na menos credível das instituições de ensino, não sendo um direito consignado na Constituição da República, mas decorrente da mais pura convenção social, tal como o respeito e a veneração, não se exigem; merecem-se, conquistam-se naturalmente.
Em que nos baseamos para dizer que tão garboso rótulo releva dum contrato social? Em boa verdade, a forma de tratamento doutor é, etimologicamente falando, muito mais adequada aos professores do que a quem tradicionalmente recebe esse trato: aos médicos e aos advogados; porque ela provém do verbo latino docere, que significa ensinar.
A quem era consagrada, afinal, a distinta e honrosa designação de doctor, na Antiguidade Clássica? Era a um número muito restrito de figuras que dominavam proficientemente todas as áreas do conhecimento: a Retórica, a Matemática, a Filosofia, a Gramática, a Medicina, a Astronomia, etc. Como essas doutas personalidades foram rareando com o passar dos séculos, e porque até ao século XIX assistimos à total e completa autonomia (emancipação) destas ciências – “desmembramento” que teve início ainda na Idade Média – essa designação passou a ser atribuída a quem era versado apenas num dado ramo do saber. Como consequência, a partir dos finais desse mesmo século, na mais perfeita subversão etimológica do termo “doutor”, a sociedade convencionou que os médicos e os advogados haveriam de ser tratados reverentemente por “dê erres”. Daí à generalização foi um passo: no último quartel do século XX – sem qualquer rigor cronológico -, todos os licenciados, independentemente da área de formação, passaram a ser, no país da saudade, abrangidos por esta honorífica distinção; ao ponto de se tornar, ainda que cada vez mais banal e corriqueira, um culto obsessivo para determinados indivíduos.
Há, no entanto, quem, numa clara intenção de “separar o trigo do joio”, defenda que doutor é a pessoa que possui o grau de mestre; e professor quem tem o doutoramento. Ora, só desconhecendo o actual sistema de ensino, se pode conceber que tais conceitos se reduzam à subjectiva linearidade da hierarquia académica. Senão, vejamos: hoje é possível, por exemplo, não na Cidade dos Brinquedos, onde reside o Noddy, mas no País do Fado, uma pessoa com o 9º ano de escolaridade, ou até menos, feito ou não através do método de cruzes, obter o doutoramento em apenas seis anos. Ou seja, fica com mais habilitações literárias do que a competentíssima e muito profissional pediatra dos meus filhos.
Confesso, era minha intenção escrever qualquer coisa alusiva ao Natal. Mudei de ideias, porque o homem que vem desde a Lapónia, com a barriga da prosperidade, fato vermelho e barbas branquinhas, apenas povoa o imaginário das crianças.
N B: Para os que, no exercício da docência, exigem aos alunos e funcionários o tratamento de doutor, deixo aqui a opinião de D. Pedro I, Imperador do Brasil, acerca desta profissão – com a qual estou inteiramente de acordo: “Se não fosse imperador, desejaria ser professor. Não conheço missão maior e mais nobre que a de dirigir as inteligências jovens e preparar os homens futuros”.

Ter, 19/12/2006



António Pires
, natural de Vale de Frades/S. Joanico, Vimioso.
Residente em Bragança.
Liceu Nacional de Bragança, FLUP, DRAPN.

DE PÓVOA D´ÁLEM SABOR A VILA FLOR

 Chegámos ao fim do ano e, no âmbito do "Concelho em Destaque", lançado em 2022 pelo Jornal Nordeste e pela Rádio Brigantia, o último mês, Dezembro, é dedicado a conhecer Vila Flor


Localizado no coração da Terra Quente Transmontana, o concelho apresenta uma área de cerca de 270 quilómetros quadrados e reza a lenda que se denominava "Póvoa d'Além Sabor", tendo sido baptizado pelo rei D. Dinis, em 1286, numa passagem pela região. Foi também este rei que, volvidos uns anos, em 1295, mandou erguer uma muralha em redor do burgo, com cinco portas, das quais actualmente existe apenas uma, o chamado Arco de D. Dinis. Vila Flor cresceu, em termos de agricultura, comércio, indústria de curtumes e ourivesaria, na Idade Média, fruto de ter acolhido famílias judaicas fugidas às perseguições europeias. Estas famílias acabaram por ser expulsas, já no século XVI, por D. Manuel I, que atribuiu um novo foral a Vila Flor. Assim, hoje em dia restam apenas alguns vestígios desta passagem, nomeadamente ruínas de habitações e pedras da calçada. Este concelho caracteriza- -se pela actividade agrícola fértil, já que se localiza no tão único Vale da Vilariça, mas acolhe, a nível empresarial, importantes empresas, como a Sousacamp e a Águas Frize. Riqueza histórica, património, agricultura... e cultura! É mesmo por aqui que começamos, não fosse esta a terra da pintora Graça Morais.

Graça Morais, uma filha da terra que desde criança sonhou ser pintora

Maria da Graça Pinto de Almeida Morais. É este o nome de uma das artistas mais reconhecidas a nível nacional e também fora de portas. A pintora nasceu no concelho de Vila Flor, no Vieiro, corria o ano de 1948. É impossível falar desta terra e não nos vir, quase de imediato, o nome da artista ao pensamento. É nossa, é transmontana. "Nasci no Vieiro. Depois fui com a minha mãe, entre os 7 e os 9 anos, para África, onde o meu pai estava. Entretanto voltei, andei no colégio de Vila Flor e, depois, fui para Bragança e de Bragança para as Belas Artes, para o Porto", relembrou a pintora. Mas calma. A versão resumida é esta, é um facto. Contudo, o que não falta é o que contar. Com apenas 9 anos Graça Morais já dizia à mãe que queria ser pintora. Apesar do alerta da progenitora, que, "muito aflita", disse que não podia ir para pintura porque "os pintores morrem de fome", a artista não negou o que estava traçado. "Foi com uma grande teimosia que fui para as Belas Artes. Mas também com uma grande necessidade de aprender", frisou sobre esta importância que é o compreender o dom, mas depois aprimorar a arte. E está certa de que foi, além do talento, essa aprendizagem que lhe deu um "lugar de destaque" no país e fora dele. "Já em pequena os professores diziam 'A Gracinha tem muita habilidade'. Mas a habilidade não chega. Tem que se trabalhar sempre", afirmou, dizendo que "o trabalho do artista só atinge uma grande importância quando ele se entrega totalmente" e que os momentos mais felizes que tem são aqueles em que está no atelier a criar. Guardando um "tesouro", que são as memórias da aldeia, da "grande relação" com a terra, com a família e com a comunidade, que lhe têm dado "força para aguentar a felicidade que é viver" e, claro, as amarguras e coisas menos boas que a jornada traz, Graça Morais não nasceu artista, mas tornou-se. "Em criança, na escola, gostava muito de desenhar, sobretudo cerejinhas e de as pintar com os lápis de cor. Desde pequenina, não tenho bem consciência, mas sempre gostei de desenhar", contou a pintora. Conforme ia crescendo também o interesse pelo mundo das artes aumentava. É o que sempre acontece com os grandes feitos. Começamos devagar, com praticamente nada, mas o caminho vai-nos tornando os heróis da nossa história, com o que lhe vamos acrescentando, aos poucos. "Quando fui estudar para o colégio de Vila Flor ia muitas vezes ver o pequeno museu da vila, o Berta Cabral. Olhava para os quadros, normalmente figuras da terra, e punha-me a sonhar 'gostava tanto de pintar com estas pessoas pintaram'", esclareceu, assumindo que este foi o "primeiro encontro com as artes". Claro que nem todos seguimos o caminho das artes, mas não há ninguém que não possa sonhar e Graça Morais considera que é esta a missão e o grande papel destes museus e espaços, tal como o centro de arte contemporânea a que dá nome, na cidade de Bragança. Ver. Sentir. Sonhar. Encontrar- -nos a nós e ao mundo. Viajar pela mente. "O encontro com a arte é muito importante para a felicidade das pessoas", vincou a transmontana. Dona de uma obra que "não se explica", Graça Morais apresenta uma "pintura complexa", mas que, ao mesmo tempo, "tem um fio condutor". "Há uma relação, na minha pintura, com a figura humana. É uma pintura realista. É figurativa. Cada vez mais tem a ver com um pensamento que tenho sobre os dramas da realidade. Vivi numa aldeia onde havia gente muito pobre e gente que emigrou. Lembro-me dos problemas dessas pessoas. Hoje, os migrantes tocam-me de uma forma especial porque conheci gente como eles. A minha pintura tem essa dimensão, da grande reflexão sobre o mundo e, sobretudo, sobre as pessoas mais desprotegidas, afastadas de qualidade de vida, que viajam e fogem, pelo mundo, dos grandes massacres", esclareceu a pintora, que, obviamente, trabalha muitos outros temas, nomeadamente a natureza. Viajemos então até à natureza. Esta paixão resulta de memórias e de várias visitas, ainda hoje, ao campo, aos "pequenos lugares". "O espaço de liberdade era a aldeia, as hortas, os lameiros, os olivais e as fragas. Sempre fiquei ligada, sobretudo, à Primavera. Eu e as outras crianças íamos aos lameiros colher heras e malmequeres e, depois, fazíamos coroações e andávamos pela aldeia como se fossem procissões. Era um mundo maravilhoso, de grande inocência, e, por isso, a natureza está sempre dentro de mim. Sinto falta disso", esclareceu Graça Morais que, quando está em Lisboa, vai muitas vezes, à terra natal para ver a natureza transformar-se durante o ano e transportando-a, assim, para as telas. Em termos de pintura, a figura da mulher também é um tema importante. A artista pinta várias vezes a mãe e outras mulheres, a que chamou 'Marias'. Pinta-as homenageando os laços de amizade e de solidariedade que não há nas cidades, que só as nossas pequeninas localidades permitem criar. "Conheci- -as desde criança. Conheço a história, os nomes, o nome dos avós, dos pais, dos filhos", contou, referindo que esta homenagem à mulher é bem maior que tudo isto. Ou seja, já que estas senhoras, estas 'Marias', na altura da emigração, "trabalharam no duro" e eram "muito dedicadas aos filhos", vivendo ainda para "não deixar morrer as terras", merecem-lhe uma vénia. Por isso pinta-as eternizando-lhe os feitos. "Têm sempre um forte impacto, junto das pessoas, pela força que lhe pus. É uma grande homenagem que faço à mulher de Trás-os- -Montes", referiu a pintora. Para ver esta e outras obras, em 2008 abriu portas, em Bragança, o centro de arte contemporânea que foi baptizado com o nome da artista. Graça Morais diz que foi um "grande estímulo", ao qual se tem dedicado "muito" e é ali que tem exposto o "melhor" que sempre pintou. Mais do que um espaço de exposição, o centro "é importantíssimo" para Bragança. É um lugar para "sonhar", para "reflectir". E é este tipo de sítios que considera que fazem falta em todo o lado, falemos de grandes ou pequenas cidades e vilas. "Fico muito contente quando as crianças visitam o espaço e vejo que fazem coisas maravilhosas. Ainda há tempos encontrei lá uns meninos pequeninos a copiar desenhos meus e os deles eram mais bonitos. Por isso, estes lugares são muito importantes para estimular a imaginação", vincou. Vila Flor também quis e pode vir ainda a abrir portas a um espaço onde se sonhe. O projecto foi pensado há mais de 20 anos. Entretanto foi aberto um concurso para se recuperar o edifício onde ia nascer o Encontro das Artes Graça Morais. A empreitada terminou. O espaço está pronto. Mas ainda não abriu nem há, segundo a artista, previsões para que tal aconteça. "Estou à espera que o actual presidente da câmara decida o que quer fazer. Acho que Vila Flor, da qual gosto muito, precisa de uma grande dinâmica. Esse centro, que pode ser um polo que agregue várias artes, poderia trazer visitantes à vila e enriquecê-la economicamente", vincou a transmontana. Se 35 mil pessoas, entre Junho a Outubro, foram à região de Vila Nova de Foz Côa visitar uma exposição que a artista tem no Museu do Côa, também poderia haver muita gente que fosse a Vila Flor. "Gostava de ser útil à vila porque sou filha daquela terra. Não olho a partidos políticos. Só quero ser útil. A desertificação, em Trás-os-Montes, a fuga de pessoas... os que ficam têm que dar as mãos", assinalou, dizendo que "a única forma de tornar Vila Flor um lugar visitável é criar algo de muito positivo" e isso pode passar por este centro, que a pintora diz não se importar que tenha ou não o seu nome, até porque a casa não é dela mas sim da comunidade. O que importa é que algo se construa, onde as pessoas "pensem, troquem ideias e cresçam". Tendo sido já agraciada com o Grau de Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, pelo Presidente da República, Jorge Sampaio, em 1997, e tendo conquistado, ao longo dos anos, inúmeros prémios e distinções, Graça Morais tornou-se este ano Doutora Honoris Causa, pela Universidade de Trás- -os-Montes e Alto Douro, e foi distinguida, pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte, com o Prémio Personalidade do Norte 2022. "As mulheres, normalmente, não são tão homenageadas como os homens e, por isso, quando me fazem uma homenagem sinto que é uma recompensa pela minha obra, atitude como cidadã e mulher", frisou a pintora transmontana.

Terreno fértil para a agricultura

Falar de Vila Flor é falar também de agricultura, uma vez que este concelho se caracteriza por uma forte actividade neste sector, grande parte praticada no Vale da Vilariça, onde as hortícolas e a fruta são as principais plantações. Mas o que tem o Vale da Vilariça de tão especial? “É um vale fértil, com condições edafoclimáticas de excelência para culturas como hortícolas e frutícolas e está na região demarcada, o que permite fazer vinha da região Douro”, explicou o presidente da Associação de Agricultores do Vale da Vilariça, José Almendra. Outra das vantagens é o regadio, já que ali há um perímetro de rega de três mil hectares. Gil Freixo é um dos agricultores que tem culturas no Vale da Vilariça, mais concretamente em Santa Comba da Vilariça. Tem plantações de pêssegos, nectarinas e cerejas. Só no que toca a pêssego e nectarina tem 65 hectares. Uma cultura que já era dos seus pais e que decidiu não deixar morrer, mesmo que seja um mercado “muito difícil”. “É preciso ter alguma dimensão, se tivermos em quantidades mais pequenas já é mais complicado”, explicou o agricultor. A boa textura e o bom brix, que é como quem diz um bom teor de açúcar, conferem ao pêssego de Vila Flor “muito boa” qualidade. É uma cultura que dá trabalho todo o ano. Neste momento estão a ser feitas as podas, que já começaram em Novembro e que vão ser feitas até final de Fevereiro ou Março. Depois em Abril é feita a monda do fruto, ou seja, são retirados os pêssegos com defeitos, e em Junho é feita a colheita do fruto até ao fim de Setembro. Este ano, além da falta de água, as geadas “nas partes mais baixas do vale, encostadas às linhas da água” foram um problema. “Nós tivemos partes onde queimou 80% e tivemos partes onde não queimou nada e tivemos a produção quase normal, porque depois o mês de Julho foi muito quente e também baixou a quantidade de fruta entre 15 a 25%”, explicou. Os pêssegos e as nectarinas de Gil Freixo são vendidos para as grandes superfícies do país, mas há cerca de dois anos também começou a fazer exportação para a Hungria e a Inglaterra. Quanto à cereja, começou as plantações há cerca de seis anos e diz ser um “mercado interessante”. “Acho que está a crescer, não se fazia cereja aqui na Vilariça ou fazia-se muito pouco e está a aumentar agora”, disse o produtor. Para já os cerejais ainda são novos, nas em alguns hectares já consegue produzir 10 toneladas de cereja. Gil Freixo reconhece que nos dias de hoje é “bastante difícil” ser agricultor, devido aos custos de produção estarem sempre a subir e o preço da fruta não está a ser comprada a um “preço justo” ao produtor. “O preço não consegue subir. O aumento que tivemos foi o ano passado. Este ano manteve o preço”, referiu. A falta de mão-de-obra continua a ser outro problema na região. Muitas vezes tem de contratar estrangeiros, por se assim não fosse, era “quase impossível” assegurar as plantações. No Vale da Vilariça o olival é outras das culturas que reina. 54 hectares são de Cátia Afonso. Para não ter que passar pelo problema de falta de mão-de-obra, todas as oliveiras estão alinhadas de modo a que uma máquina consiga colher tudo de uma vez só. O objectivo foi “automatizar ao máximo os modos de produção”. O olival foi plantado há 10 anos e o Vale da Vilariça foi o lugar escolhido, porque “oferece condições edafoclimáticas com alguma peculiaridade, tanto a nível de solo como de clima”. “Da Olivadouro podem esperar um azeite com uma colheita têmpera, ou seja, colhemos sempre no momento óptimo da maturação, é suave e tentamos ter páticas agrícolas de forma a que não percamos todas as propriedades que o azeite, todos os aromas e dando o melhor à árvore”, explicou a empresária. Por ano, em média, consegue 600 toneladas de azeitona, o que se traduz em cerca de 60 mil litros de azeite. Mas nesta campanha o cenário foi diferente. A água não foi o problema maior, uma vez que tem rega gota a gota, mas sim as geadas e o frio que veio em meados de Fevereiro, danificando algumas árvores e provocando uma quebra de produção de “60%”. Cátia Afonso admite que esta quebra tem “muito impacto no negócio”, mas que está a ser colmatado com o aumento do preço do azeite. “Como é um mal geral, o valor do azeite tem estado a aumentar o que nos permite aumentar o nosso valor e não ter tantos prejuízos como aqueles que eram esperados”, referiu. Actualmente, vende o Olivadouro em Portugal, mas também na Suíça e nos Estados Unidos. “Temos a garrafinha de meio litro que está nos supermercados e nos restaurantes para poder ir à mesa e depois temos uma caixa com cinco litros, que é vendida nos supermercados e aos restaurantes para poderem cozinhar com o mesmo azeite que têm na mesa quando os clientes pedem”, explicou. Ainda assim, não consegue vender os mesmos litros de azeite pedidos pelos clientes, o que a obrigou a repensar numa estratégia. “Quando fazemos a comparação e vemos a média de litros que precisamos para satisfazer os nossos clientes, este ano está um bocado aquém”, disse a empresária, explicando que a solução passou por transformar a caixa de cinco litros em dois, a partir de Janeiro, para conseguir “racionalizar as vendas e de forma a conseguir ter azeite o ano todo”. No concelho de Vila Flor as principais culturas continuam a ser o olival e a vinha, embora no Vale da Vilariça, a fruticultura e a horticultura também já tenha “bastante expressão”. Segundo o presidente da Associação de Agricultores do Vale da Vilariça, algumas freguesias de Vila Flor que estão situadas no vale abastecem há “muito tempo” os mercados mais próximos de hortícolas e frutícolas, nomeadamente o mercado de Bragança, Macedo de Cavaleiros e até Chaves. A comercialização destes produtos, no caso dos pequenos agricultores, continua a ser uma “grande dificuldade”. “Temos condições boas para produção, mas ainda estamos longe dos grandes centros de consumo e, por vezes, para entrar em determinados mercados é preciso ter escala e então como a grande maioria dos produtores são pequenos produtores a organização para adquirir essa escala ainda é uma dificuldade”, referiu José Almendra. Uma vez que grande parte dos agricultores do concelho produzem em pequena escala, torna-se difícil chegar aos grandes mercados e, por isso, os mercados locais são a alternativa. Para José Almendra, o ideal seria “a organização da produção, o associativismo, o corporativismo”. “Ao nível da comercialização ainda falta dar esse passo. Ainda há alguma dificuldade em se tentarem juntar”, frisou. Outro dos problemas, além da comercialização, está relacionado com o regadio. Devido ao ano de seca, até no perímetro de rega do vale, houve “risco de faltar água”. Por isso, o presidente da associação defende que é preciso “armazenar mais água do que a que temos” para que não falte aos agricultores.

O maior santuário mariano de Trás-os-Montes

É no concelho de Vila Flor que se localiza o maior e um dos mais importantes santuários Marianos de Trás- -os-Montes. Falamos do Santuário de Nossa Senhora da Assunção, em Vilas Boas. Foi construído no século XIX, no cimo de um monte, num dos locais mais altos daquela região, e é aqui que se realiza, anualmente, uma das maiores romarias da região, que decorre no dia 15 de Agosto, à qual não faltam milhares de visitantes e peregrinos bem como, está claro, as gentes da terra. Nesta romaria é levado o andor de Nossa Senhora da Assunção, habitualmente carregado por meia centena de pessoas, acompanhado por figuras bíblicas. O ponto de partida é a aldeia de Vilas Boas e a chegada o santuário. São dois quilómetros de extensão. A romaria da Senhora da Assunção, também conhecida como a “Romaria do Cabeço” é uma manifestação de religiosidade popular secular pois já desde o século XVII que àquele local se dirigiam milhares de romeiros, de vários pontos. Até 1843, o santuário era apenas uma pequena ermida situada no topo daquele monte, mas dinamizou-se, sendo que se diz que ali apareceu, por diferentes vezes, Nossa Senhora da Assunção a uma jovem, natural de Vilas Boas, no ano de 1673. Depois dessas aparições, os números de visitantes cresceu. No Santuário da Nossa Senhora da Assunção celebram- -se anualmente três festividades cíclicas: a Solenidade da Ascensão do Senhor (Maio), a Festa Grande de Nossa Senhora (15 de Agosto) e a Festa de Santa Eufémia (Setembro). A segunda é a mais importante. Além da igreja de nave única e capela-mor rectangulares, há várias capelinhas espalhadas pelo recinto e um monumental escadório. “Parece suspenso das nuvens! Tão alto e esgulo é o píncaro onde está o famoso templo, dominando um extensíssimo horizonte para todos os quadrantes desde a Serra da Estrela até às do Marão e da Sanábria e uma Infinidade de Povoações”, Portugal Antigo e Moderno – Pinho Leal, 1884. Sabe-se que no monte onde está o santuário existiu um povoado fortificado da segunda Idade do Ferro.

O Peneireiro

O Complexo Turístico do Peneireiro não pode deixar de ser falado ao se mencionar Vila Flor. Ali, enaltecendo as paisagens naturais daquela terra, nasceu, em 1983, um parque de campismo, o maior do distrito, com mais de 500 lugares. Neste momento, o parque está encerrado. Fechou em Março de 2020, por causa da pandemia, mas, por exemplo, este Verão ainda não acolheu campistas, devido à possível queda de árvores. Depois de algumas inspecções, percebeu-se que existia perigo para a segurança de quem o frequenta e então tomou-se a opção de não arriscar a sua reabertura até que ali não se resolvessem alguns problemas, alguns deles antigos, nomeadamente no que toca a vedações. Este parque, em tempos normais, é frequentado por milhares de turistas, nacionais e estrangeiros. E assim se prevê que volte a ser. O parque tem campos de ténis, de futebol e voleibol de praia. O seu interior está completamente arborizado por pinheiros, eucaliptos, plátanos, choupos, sobreiros e medronheiros. Há também algumas áreas relvadas. Integrada ainda no complexo do Peneireiro está também, por exemplo, a piscina municipal, com bar e esplanada, que faz as delícias de miúdos e graúdos, no tempo quente. Também dele fazem parte um Parque de Merendas e um Parque Infantil, assim como um mini zoo.

A visitar:

- Antiga Forca de Freixiel

Monumento, aparentemente único na Península Ibérica, localizado junto a Freixiel. Desde 1958, a Antiga Forca de Freixiel está classificada como Imóvel de Interesse Público. Após a execução, o cadáver do condenado era exposto na forca, ficando pendurado pelo pescoço.

- Centro Interpretativo do Cabeço da Mina

Situa-se em Assares e foi inaugurado em 2017. É constituído por um conjunto de estelas antropomórficas, atribuídas às primeiras comunidades agro-pastoris que habitaram o vale há cerca de 4 000 anos, ou seja, por volta de 2 000 a.C..

- Fonte Romana de Vila Flor

Embora atraiçoada pelo nome de antiguidade da “Fonte Romana”, é na verdade uma fonte quinhentista, pertencente ao século XVI. É formada por quatro pilares e seis colunas jónicas que suportam uma cúpula de tijolo. Crê-se que este recinto, em forma de templete greco-galaico, tenha sido utilizado para a realização de reuniões municipais dos homens bons da paróquia.

Futebol de praia uma aposta ganha

Tornar o Vila Flor SC “um clube mais eclético” e apostar numa modalidade que dê visibilidade e projecção foi com estes propósitos que o futebol de praia surgiu e é já uma aposta ganha por parte da direcção vilaflorense e do próprio concelho. Foi em 2015 que o clube deu os primeiros passos nos areais. “O primeiro ano foi uma experiência muito positiva, mas foi em 2020 que decidimos apostar mais na modalidade em conjunto com o conselheiro e amigo, o Amarelle. Era o melhor ano para subir ao campeonato de Elite com um plantel formado por jogadores locais e com jogadores internacionais da selecção de El Salvador. Fomos campeões regionais. Em 2021 voltamos a apostar em atletas locais e internacionais colombianos e voltamos a falhar o objectivo de subida. Ficou o bicampeonato regional e a primeira participação na Euro Winners Cup”, recordou Carlos Carvalho, presidente do Vila Flor SC. A Euro Winners Cup, que se realiza na Nazaré, é considerada a Liga dos Campeões do Futebol de Praia e reúne cerca de meia centena de equipas, os campeões dos principais Campeonatos Nacionais de Futebol de Praia da Europa. Em 2022, o clube transmontano manteve a aposta na modalidade, sagrou-se tricampeão distrital, qualificou-se para o nacional, mas voltou a falhar a subida à divisão de Elite. Na Euro Winners Cup o clube vilaflorense somou a primeira vitória na competição, 4-5 frente ao New Team Legend. Para o novo ano, Carlos Carvalho reitera a aposta neste desporto de Verão e traça objectivos claros. “Queremos voltar a participar no nacional, esperamos conseguir uma melhor qualificação na Euro Winners Cup e na Taça de Portugal. Para já só posso fazer um balanço positivo desta aposta, só falta mesmo a subida à Elite”. O futebol de praia está a crescer no distrito de Bragança, mas para concretizar objectivos maiores o Vila Flor SC tem apostado em jogadores estrangeiros. “A aposta nos jogadores estrangeiros de selecção está relacionada com a qualidade que precisamos para atingir os nossos objetivos (de acordo com as nossas possibilidades) e também para despertar o interesse pela modalidade, pelos atletas e público. Carlos Carvalho gosta de fazer do Vila Flor SC “uma referência a nível nacional” e defende a aposta num campeonato distrital de futebol de praia. “Será benéfico pois o nível competitivo para as equipas será mais próximo e o orçamento menor”, acrescentou. Para aumentar o número de equipas terá de haver, obrigatoriamente, uma aposta em infraestruturas. “Em primeiro lugar tem de haver mais campos de futebol de praia e de fácil acesso. Depois deve alargar-se o calendário competitivo (campeonato distrital, taça distrital e um torneio de abertura ou fecho da época por exemplo). Certo é que em 2023 o Vila Flor SC vai participar na fase de apuramento para o nacional e na conquista do tetra campeonato distrital.

Susana Madureira

O Presidente

Nome: Pedro Miguel Saraiva Lima Cordeiro de Melo (Pedro Lima)

Idade: 49 anos

Tempo de Mandato: 1 ano e dois meses

Profissão: Engenheiro

Porque decidiu dedicar-se à política?

Sobretudo porque acredito nas pessoas e reconheço a importância de cada uma delas. Porque acredito que Vila Flor é um concelho para viver com esperança no futuro, que passou demasiado tempo sem soluções, sem um rasgo, sem uma visão, de oportunidades perdidas. Porque acredito que este é um concelho onde é possível os nossos filhos crescerem, viverem, trabalharem com qualidade de vida, onde seja possível concretizar sonhos e serem felizes. Porque defendo que Vila Flor tem que dar asas para voar, mas também criar raízes para voltar e motivos para ficar.

Como é ser presidente da Câmara Municipal de Vila Flor?

Ser Presidente da Câmara Municipal de Vila Flor mais do que uma honra, é sentir-me próximo de todos. Ser Presidente é saber ouvir, ter as portas do Município abertas, para que possamos ter, e contar, com as opiniões de cada um, por mais divergentes que sejam, pois apenas respeitando a diferença conseguiremos construir o futuro que pretendemos para Vila Flor.

Quais são os maiores desafios enquanto autarca?

Todos os dias são um desafio, por mais pequeno que pareça. A atracção de investimento e a fixação de empresas, para que sejam criados postos de trabalho, por forma a que os jovens e os Vilaflorenses se possam fixar no concelho. Por outro lado, o apoio ao empreendedorismo jovem é também um imperativo. É fundamental que haja a possibilidade daqueles que pretendem criar o seu próprio negócio e o seu posto de trabalho, o possam fazer. Também de extrema importância é a protecção aos idosos, dado verificar- -se nos nossos dias, uma população envelhecida e como consequência inúmeros idosos isolados.

Jornalista: 
Carina Alves/Ângela Pais

Mogadouro celebra na terça-feira os 750 anos da atribuição da Carta de Foral

 O município de Mogadouro celebra esta terça-feira os 750 anos da atribuição da Carta de Foral pelo rei de Portugal D. Afonso III, com um conjunto de atividades culturais que se prolongam durante 2023, disse hoje o presidente da câmara.

“Lançámos várias iniciativas para comemorar a atribuição da Carta de Foral em 1272 pelo então rei D. Afonso III. Já esta terça-feira vão realizar um fórum que reúne um painel de investigadores para realçar a importância da atribuição do Foral a Mogadouro. Estas iniciativas têm agora o seu início e vão-se prolongar até 2023", disse António Pimentel.

Segundo o autarca do distrito de Bragança, perspetiva-se para o próximo ano um conjunto de iniciativas culturais e lúdicas, entre outras cerimónias oficiais, para assinalar a atribuição de um documento que trouxe ao concelho de Mogadouro responsabilidades no campo da defesa da linha de fronteira com o seu castelo ou vários privilégios económicos e territoriais que marcaram a diferença durante a Idade Média.

“Olhando para a história de Mogadouro, o que se pretende é já nas cerimónias marcadas para terça-feira, realçar a evolução que o concelho tem tido nos últimos anos. Mogadouro tem contado nas últimas décadas com um conjunto de autarcas que contribuem para o desenvolvimento e progresso do todo o concelho”, vincou.

Aproveitando a efemérides, António Pimentel destacou a centralidade de Mogadouro e o acesso privilegiado a vias de comunicação que posicionam o concelho como “uma zona que pode merecer a atenção dos empreendedores tanto nacionais como internacionais".

“A proximidade geográfica e histórica à linha de fronteira, ao aeroporto Sá Carneiro e ao porto de Matosinhos, bem como aos grandes centros urbanos regionais como Mirandela, Bragança, Vila Real, Viseu, Guimarães ou Braga, pode funcionar como um fator importante na sustentabilidade do concelho”, frisou o autarca.

A cultura e a história do concelho de Mogadouro são também recursos que a autarquia pretende valorizar e potencializar para assinalar estes 750 anos sobre a atribuição da Carta de Foral.

Segundo o historiador local Antero Neto, o rei D. Afonso III atribuiu o primeiro foral a Mogadouro no dia 27 de dezembro de 1272, em Santarém.

“A outorga do Foral inseriu-se na política levada a cabo por este monarca no sentido de reforçar o povoamento e o domínio sobre o território nacional da jovem nação, na sequência da conquista do Algarve e definição das fronteiras portuguesas”, explicou.

Através deste instrumento jurídico, D. Afonso III criou formalmente o concelho de Mogadouro, que já existia enquanto território, mas sem configuração administrativa. Ao outorgar foral a Mogadouro, o monarca estipulou que o mesmo se regia pelas regras do foral de Zamora e que os habitantes do concelho de Mogadouro lhe deviam dar o mesmo que os “zamoranos” davam ao rei de Castela e Leão.

Mais tarde, na sequência da política de incremento das trocas mercantis que estimulou, este mesmo monarca viria ainda a instituir a feira de Mogadouro.

FYP//LIL
Lusa/fim

Festas de Santo Estevão nas Arcas estão cada vez mais próximas da tradição ancestral

 Os Caretos das Arcas saíram à rua para celebrar Santo Estevão, naquela aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros.


As atividades começaram no dia de Natal e terminaram ontem, dia de Santo Estevão, com a tradicional arrematação do “charolo”, que é composto pela típica rosca doce, pelas bolas, doces e até um cordeiro entra no conjunto. O dinheiro angariado serve para a realização da festa do próximo ano.

A dinamização ficou a cargo da Associação Núcleo de Costumes e Tradições das Arcas, que este ano decidiu reintroduzir algumas práticas que se foram perdendo ao longo dos anos, como explica Nelson Peixeiro, da associação:

“Fizemos uma queimada e a ronda pelas casas, o que não se costumava fazer.

Todas as pessoas abriram a porta e as adegas. Os caretos desejaram boas-festas às pessoas.

O grupo de caretos atual tem sete elementos e gostaríamos que mais pessoas da aldeia se juntassem, pois o objetivo não é receber mascarados de fora.”

Também conhecidas como As Festas dos Rapazes, as comemorações de Santo Estevão na aldeia de Arcas voltaram a incluir as “galhofas”, sobre as quais conta mais José Jecas, presidente da Junta de Freguesia, que apoiou a organização:

“São lutas em que os caretos são desafiados pelos populares, por vezes mais forte que o careto, para o deitar ao chão, na brincadeira. Era uma tradição que já se tinha perdido.

Muita gente visitou a aldeia para ver as Festas de Santo Estevão e este novo formato, que iniciou este ano, surpreendeu-nos bastante.”

Tradições que agradam a quem delas participa e que, por isso, devem ser mantidas:

“Cada vez a aldeia de Arcas está a evoluir um pouco mais e as pessoas a colaborarem umas com as outras, o que é impressionante.

Já antes o era mas este ano ainda foi mais. Em 2021 tivemos umas sete adegas e este ano demos a volta à aldeia toda.”

“Eu casei aqui e na véspera do meu casamento houve esta festa.

É bom porque as pessoas convivem e por vezes há pessoas doentes, que vivem sozinhas, e estas visitas são importantes.”

“Tenho vindo nesta altura. 

Não conhecia a tradição desta forma, é novo para nós, mas é muito giro. Atrai muita gente simpática, com bom convívio e um bom almoço.”

Além dos caretos, a rosca é outro dos elementos importantes desta festa.

Honorina Silva, nascida e criada nas Arcas, tem sido a responsável pela sua confeção nos últimos quatro anos e conta que a iguaria é hoje diferente do que se fazia antigamente:

“Antigamente não era doce.

O formato era o mesmo mas só levava a massa do pão e um ovo por cima. Mais tarde é que se tornou doce.

Fui eu que as fiz todas, mais de 100.

O básico são os ovos, farinha, fermento e o ovo por cima.

O forno é a lenha e com giestas verdes.”

O objetivo é que, no futuro, a rosca das Arcas seja certificada e até já foram dados alguns passos nesse sentido, refere Nelson Peixeiro:

“Tentar criar a marca “Rosca das Arcas” que é um pão doce, para que vá além-fronteiras.

Queremos certificá-la e já demos alguns passos. O ano passado fizemos uma oficina na qual reunimos 10 raparigas que fizeram uma formação para aprender a fazer a rosca.

É um processo que está em andamento.”

Durante a pandemia, a tradição não parou. Na impossibilidade de se realizar a arrematação das roscas, a organização entregou-a em casa das pessoas, gratuitamente.

Escrito por ONDA LIVRE