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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 4 de julho de 2023

Santa Casa da Misericórdia de Bragança

Data de 1498 a instituição das Misericórdias em Portugal pela rainha viúva de D. João II, D. Leonor de Lencastre, graças à perseverante tenacidade do seu evangelizador Frei Miguel de Contreiras, incansável propugnador da humanidade doente e abandonada(553).
Ao tempo que Frei Miguel de Contreiras, religioso espanhol da Santíssima Trindade, conseguia ver posta em obra a sua ideia das Misericórdias, havia em Portugal muitas albergarias, hospitais e orfanatróficos, que o rei D. Manuel «reduziu em poucos porque soube decerto que se tratavam estas coisas por tantas mãos que o mais se consumia entre as dos provedores e outros officios, que foi obra pia e muito necessaria» (554).
As Inquirições de D. Dinis em 1290, tratando do julgado de Lamas de Orelhão (Lamis de Orelam), falam-nos de uma albergaria que ali havia, e como esta deviam existir no nosso distrito idênticos estabelecimentos de caridade.
As albergarias eram destinadas ao abrigo dos transeuntes, peregrinos e velhos decrépitos que ali tinham, pelo menos, casa, lume e cama; os hospitais ao tratamento de enfermos, parturientes e sepultura de mortos, e os orfanotrófios à criação e educação de crianças órfãs e abandonadas.
A ideia altamente humanitária de Contreiras, posta em prática pela rainha, vulgarizou-se imediatamente pelas províncias, e como os fins eram os mesmos facilmente

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(553) BELLINO, Albano – Arqueologia Cristã, p. 165.
(554) GÓIS, Damião de – Crónica d’El-rei D.Manuel, parte IV, cap. LXXXVL.
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se fundiram nas Misericórdias os precedentes estabelecimentos e para elas transferiram seus encargos pios e bens de raiz. E assim havemos no distrito Casa da Misericórdia em Alfândega da Fé, Moncorvo, Freixo de Espada à Cinta, Mirandela, Vila Flor, Miranda, Mogadouro, Vinhais e Bragança (555).
O Arqueólogo (556) dá em gravura a seguinte lápide existente na parede sul da igreja da Misericórdia de Bragança:

1539. AN
R. 1.3.1.6
D. JHE. IS

que julgamos diz: «1539 anno reconstruida, 1316, dedicada Jesus Ispirito Santo». Ou seja: que a igreja dedicada a Jesus e ao Espírito Santo em 1316 foi reconstruída em 1539.
A 20 de Julho de 1571 faz menção dela o despacho régio de D. Sebastião ao requerimento dos padres do Colégio de Jesus de Bragança em que pediam autorização para possuírem uma quinta que tinham chamada da Rica Fé composta de diversas propriedades compradas a diferentes indivíduos, e entre elas uma à Misericórdia de Bragança (557). A sua origem deve remontar ao ano do 1518, pois neste, a 6 de Julho, lhe deu compromisso assinado por sua própria mão o rei D. Manuel e fundou-se em uma igreja que havia dedicada ao Espírito Santo de onde a rua em que estava tomou o nome. Em provisão de 29 de Setembro de 1641 concedeu-lhe o rei D. João IV as mesmas isenções e privilégios de que goza a Misericórdia de Lisboa (558).
Em 1877 o barão de Castelo de Paiva doou a este hospital, ao de Miranda do Douro e ao Asilo Duque de Bragança a cada um, uma inscrição nominal de 1000$000 réis, e ao hospital do Divino Espírito Santo de Moncorvo e Misericórdia de Mirandela, a cada um, uma inscrição nominal de 500$000 réis (559). Também o mesmo benemérito titular legou ao Seminário de Bragança uma inscrição nominal de 1000$000 réis.

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(555) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Misericórdias».
(556) O Arqueólogo Português, vol. VIII, p. 16.
(557) Arquivo da Casa da Rica Fé.
(558) BORGES – Descrição Topográfica…, notícia 5.ª.
(559) Diário do Governo, n.º 193, de 1877.
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Em 6 de Agosto de 1897 morreu na cidade do Porto o benemérito José António Lopes Dine, natural de Bragança, que deixou à confraria do Santíssimo Sacramento, erecta na igreja de Santa Maria da cidade de Bragança, a quantia de 300$000 réis (560), várias esmolas aos pobres da mesma cidade e alguns títulos da dívida pública à sua Misericórdia (561).
A reforma de saúde e beneficência, publicada em Dezembro de 1900, acabou com os subsídios aos hospitais, o que reduziu a precárias circunstâncias o de Bragança; mas graças aos esforços do conselheiro Abílio Beça, então governador civil do distrito, um benemérito a quem Bragança deve incalculáveis benefícios, por despacho ministerial de 17 de Março de 1902 foi autorizada a continuação desse subsídio concedido em 1892 à Misericórdia de Bragança para tratamento das mulheres toleradas.
Para esta consecução muito concorreu o doutor António Gonçalves Braga, então delegado de saúde e hoje guarda-mor de saúde em Lisboa e professor no Liceu da mesma cidade, e Abílio de Lobão Soeiro, ao tempo provedor da Santa Casa da Misericórdia (562).
O mesmo governador civil obteve ainda do governo, para a mesma Santa Casa, a quantia de 600$000 réis para serem empregados no alargamento da enfermaria para homens que comportava apenas cinco doentes, e podia, com as novas obras feitas por conta desta verba, chegar para catorze. Estas obras foram arrematadas em 12 de Fevereiro de 1905 (563) e o subsídio havia sido concedido em Outubro do ano transacto(564).
A mesa gerente da Santa Casa da Misericórdia, em 11 de Maio de 1902, propôs «que, em attenção aos muitos cuidados que lhe ha merecido a egreja da Santa Casa da Misericordia, e, ainda, pelo seu ultimo e valioso donativo que consta de quatro bellas casulas e um rico calix de prata dourada, fôsse o reverendo conego Antonio José da Rocha nomeado capellão mór honorario d’aquella Santa Casa, com todas as prerogativas de effectivo». Esta proposta foi aprovada por aclamação (565).
Pelos anos de 1882, morria em Fafe o prior dessa freguesia Francisco Joaquim Barreira, distinto benemérito da Misericórdia de Bragança a que legou grande donativo.

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(560) Distrito de Bragança de 18 de Abril de 1902.
(561) Gazeta de Bragança de 1 de Outubro de 1899.
(562) Ibidem, de 23 de Março de 1902.
(563) Ibidem, de 19 de Fevereiro de 1905.
(564) Ibidem, de 11 de Junho de 1905.
(565) O Nordeste de 14 de Maio de 1902.
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A 11 de Junho de 1905 estavam concluídas as obras de alargamento na enfermaria dos homens e foram inauguradas com grande festa nesse dia (566).
Também D. José Alves de Mariz, actual prelado bragançano, tem por várias vezes dado avultadas esmolas pecuniárias a esta casa de caridade; e por isso vemos em lugar de honra na sacristia da igreja, em rica moldura, a carta patente de 30 de Julho de 1892 que o aclama, por unanimidade da mesa, irmão benemérito da mesma Santa Casa.
Uma das isenções de que gozava a Misericórdia era a de não poder ser visitada pelos visitadores da diocese, e intentando fazê-lo o doutor António da Costa, deão da Sé de Miranda, em 1685, visitador ordinário e capitulando que na igreja não houvesse Sacramento que até ali se administrava aos enfermos do hospital, se lhe opuseram os irmãos e provedor, de que levaram recurso à coroa; e, como o mesmo obrigava, com censuras ao primeiro dos capelães, que celebrasse a consumir o Sacrário, não mais celebraram enquanto durou o litígio, valendo-se para a renovação do Sacramento de religiosos castelhanos.
Por acórdão de 19 de Junho de 1685 obtiveram provimento no recurso (567).
Ainda em 1721 tinha a Misericórdia de Bragança dez capelães pelos quais se distribuíam as missas obrigatórias da casa; nas quartas-feiras da Quaresma tinha sermão e era obrigada a dar de jantar aos presos; nos domingos quadragesimais fazia procissão com o Santo Lenho e ia com sermão às principais igrejas da cidade; igualmente fazia a procissão de Quinta-feira Santa com muito esplendor (568). Hoje tem apenas um capelão, a procissão de Quinta-feira Santa e nesse dia leva jantar aos presos.
Adiante falaremos na existência de um hospital para leprosos que, segundo a tradição, havia junto à capela de S. Lázaro. É também natural que houvesse outro hospital na cidade antes da fundação da Misericórdia; e, efectivamente, um acórdão da Câmara de 1540 refere-se à rua do Hospital Velho que, se não é para o distinguir do da Misericórdia, fundado anos antes, deixa antever a existência de dois – novo e velho. Borges (569) diz que o Hospital Velho «ficava no cimo da costa grande, onde se vê hum poço (1721) e estava huma crus de pedra,

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(566) Gazeta de Bragança de 14 do Junho do 1905.
(567) BORGES – Descrição Topográfica…, notícia 5.ª, onde vem na íntegra a acordão.
(568) Ibidem.
(569) Ibidem, notícia 9.ª, «Hospitaes».
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que haverá dous annos se tirou deste sitio, e se pôs no cemiterio de Santa Maria».
Em O Arqueólogo Português (570) dá o inteligente investigador Albino Lopo, acompanhando um seu artigo, a gravura de uma inscrição que está no arco da porta de uma casa, na rua da Costa Grande. Seria aqui o Hospital Velho?
A existência de um hospital para clérigos, junto à igreja de S. Vicente, consta de um instrumento de 1458, citado por Borges (571); porém, já naquele ano não existia. O mesmo instrumento fala de outro hospital nas casas onde hoje está o da Misericórdia.

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(570) O Arqueólogo Português, volume II, p. 288.
(571) BORGES – Descrição Topográfica…
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MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA

segunda-feira, 3 de julho de 2023

Segada e Malhada - ADEGANHA 2023

Igreja de S.Vicente

 
S. Vicente, S. João, Santa Maria e S. Tiago são as quatro paróquias 
antigas em que se dividia Bragança ao tempo das Inquirições de D. Afonso III. S. Vicente era da apresentação real, mas D. Sancho I cedeu desse direito em favor do concelho.
Extinguindo-se a paróquia por falta de moradores, ficou reduzida a um benefício simples com obrigação de duas missas semanais. Em acto de visitação, o bispo de Miranda D. António Pinheiro mandou demolir o corpo da igreja por ameaçar ruína, e como a confraria de Santa Cruz se obrigava a reedificá-la, caso lhe fizessem doação dela, assim lho outorgou o mesmo prelado por escritura de 6 de Setembro de 1569, confirmada pela Nunciatura a 12 de Março de 1571 (546), podendo esta receber todas as esmolas, legados pios, etc., que lhe fossem deixados, e os beneficiados apenas as ofertadas com a expressa declaração a S. Vicente ou Santo Ildefonso, devendo haver sacrário para administração do Viático aos enfermos.
Esta confraria de Santa Cruz teve o piedoso exercício de enterrar os mortos antes da erecção das Misericórdias e estava erecta na antiga capela de Santa Catarina, depois encorporada na igreja de S. Francisco(547). Arruinando-se esta pelos anos de 1641 e suscitando-se dúvidas acerca da sua reedificação, os mesários, valendo-se da concessão do bispo Pinheiro, de que até aí ainda não usaram, transferiram-na para a igreja de S.Vicente.
«O bispo D. Antonio Pinheiro reformou esta confraria com Estatutos, e quasi a fundou de novo como consta do livro antigo da mesma e provisões juntas e lhe deve esta cidade a memoria, tanto da conservação da confraria, como deste templo, pela doação que lhe fez» (548).
Estes Estatutos vigoraram até Agosto de 1754, data daqueles por que agora se rege.
O actual templo foi reedificado pouco depois de 1683, por neste ano se ter arruinado o antigo, devido a cair sobre ele a alta e forte torre «como a das muralhas antigas» que tinha.
Venera-se nesta igreja a imagem chamada Santo Cristo, de extraordinária devoção entre os crentes. É antiquíssima e já veio da capela de Santa Catarina.
Quando o templo estava em reedificação é que António de Morais Colmieiro, cavaleiro do hábito de Cristo, fidalgo da casa real e sua mulher D. Angélica Maria de Sousa, por escritura de 12 de Outubro de 1686, fizeram doação à confraria para nela ser colocada a milagrosa imagem do Santo Cristo «duma capella feita d’abobada e cantaria, com porta em frente da Igreja de S. Vicente» (549). Esta capela faz hoje parte do corpo da igreja, e concluída a reedificação do templo se trasladou o Santo Cristo ao seu lugar na capela-mor,

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(546) BORGES – Descrição Topográfica…
(547) ESPERANÇA – História Seráfica…, livro I, cap. IV, p. 50.
(548) BORGES – Descrição Topográfica…
(549) BORGES – Descrição Topográfica. A Confraria do Divino Jesus de S. Vicente, p. 10.
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obra sumptuosa de talha dourada, a que deu princípio o juiz da confraria Francisco de Figueiredo Sarmento, ficando nela a Senhora do Carmo e sede de sua confraria.
A Senhora de Roncesvales (Rasavales), venerada nesta capela, deixa supor correlação com as propriedades que o seu Santuário de Navarra tinha na cidade de Bragança, segundo apontam as Inquirições de D. Afonso III (550).
Os fundadores da capela haviam casado em Bragança, freguesia de Santa Maria, a 28 de Abril de 1665; foi seu filho o genealogista e escritor Baltasar de Sousa Colmieiro, nascido na mesma freguesia a 30 de Abril de 1693 e não em Vinhais como traz a História Genealógica, tomo VIII, pág. 18 das «Advertencias» (551).
Relativamente ao labor artístico deste templo, diz Borges (552): 
«A capella-mór sem controversia he a mais rica e vistosa que ha nesta cidade toda coberta de entalhado, como tambem o arco e parte exterior com dous altares hum de S. Vicente e outro de S. Braz com Reliquia: e o bem delineado, e magnifico desta obra lhe tem grangeado o nome de Monte de Ouro». E, continuando a memorar as importantes cenas de que o templo tem sido teatro, aponta: nele «se cazou clandestinamente El Rey D. Pedro com D. Ignez de Castro, de que ha tradição constante, e de que foy nesta cidade o diz Faria na Europa, tomo 2.º, parte 2.ª cap. 4. fol. 182,Mendes Silva e outros.
Em hum arco, que está á mão direyta entrando pela porta principal está enterrado Martim Affonso Pimentel irmão de João Affonso Pimentel que foy senhor desta cidade, e passado a Castella o primeiro Conde de Benevente, filhos de Rodrigo Affonso Pimentel comendador mayor da Ordem de Santiago, e de D. Lourença da Fonseca, e netos de João Affonso Pimentel e de D. Constança Rodrigues de Moraes, filha de Ruy Martinz, ou Pirez de Moraes, desta cidade, de quem fala o Conde D. Pedro, tit. 48, § 1.º, e Haro, Nobiliário genealógico, tomo I. L. 3. cap. 4, e da ascendencia dos Pimenteis por todo o tit. 35 trata o Conde D. Pedro... Diz Haro supra, fol. 135 verso, que o tumulo de Martim Affonso Pimentel está junto ao altar do Sancto Christo, e assim era quando escreveu; agora fica junto ao de S. Braz porque o Sancto Christo se trasladou para a capella-mór».

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(550) Santuário Mariano, tomo V, livro III, p. 645.
(551) Sobre a genealogia desta nobre família publicou o erudito Francisco de Moura Coutinho um bem documentado estudo em A Pátria Nova, semanário de Bragança, desde 6 de Maio a 10 de Junho de 1908.
(552) BORGES – Descrição Topográfica….
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É curiosa, por mostrar o modo de celebrar as festividades nessa época, a seguinte notícia que copiámos da acta da mesa do Senhor Jesus de S. Vicente, de 2 de Março de 1649. Segundo ela, para a festividade da Santa Cruz (3 de Maio) «o Juiz da confraria daria a cera e seda aos mordomos e mais officiaes, para que todos juntos armem a Igreja o melhor que possa ser – mais daria tres touros para se correrem na vespera da festa, com seus palanques feitos – outro mordomo na vespera da festa, nessa noite, fogo bastante para lançar da torre com suas luminarias – outro, uma comedia, com todos os seus apparatos, – outro, uma dança na vespera da festa, até ao fim da procissão – outro, o escrivão, que dava as cruzes e pendões que pudesse trazer para a procissão».

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA

Um Episódio dos Bailaricos do Pó na Cabeça

Por: António Pires 
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Desde que me conheço, fui assaltado pela dúvida sobre a razão da minha predisposição/inclinação (não diria jeito), qual traço comportamental que me define, para a dança, como acto social de expressão de sentimentos. Duas teorias são possíveis: ou, noutra vida, fui africano e, como tal, a música, por natureza, está-me no sangue; ou porque não degenero, enquanto filho de Balfrades, conhecidos por bailarotes.
Desde muito cedo comecei nestas andanças.  Nos finais da década de 70 e durante a seguinte, era frequentador assíduo (como se fosse a minha religião) dos bailes das aldeias (com as “pistas de dança” em terra batida, que provocavam enormes nuvens de pó), num raio de “actuação” que compreendia os concelhos de Bragança, Vimioso e Miranda do Douro. Dancei muito, num tempo em que os conjuntos musicais (o Baco, o Midnes, o Melotrup, o Suspense, o Diapasão, o Tribo Nordeste, o Vector e outros que tais), ao contrário do que se passa hoje, começavam a montar o palco (atrelados dos tractores) e a afinar os instrumentos às 3 da tarde, para iniciarem a actuação por volta das 6 horas, prolongando-se os arreais até às 3/4 da manhã. Ao contrário de hoje, os músicos de então, iam jantar a casa dos mordomos. 
Teria eu os meus 18/19 anos, acompanhado da minha “seita” (o meu falecido irmão Mário, o João Pinheiro e o Chico Granada, o cómico dos cómicos), rumámos à festa de Babe - que se realiza sempre no Dia do Corpo de Deus, Maio ou Junho - , dentro do mítico Volkswagen Brasília, de cor amarela, dos meus pais – o primeiro daquela marca a circular em Bragança. Chegados à aldeia, com o bailarico a começar, dirigimo-nos ao baile e, à distância, o meu amigo Filipe Lobo, viola solo e vocalista, mal me “abistou”, como era hábito fazê-lo, dedicou-me a lindíssima e romântica música “A Rosinha dos Limões”.
Acabada a música, um senhor de Babe, que eu não conhecia, abeirou-se de mim e perguntou-me:
- Você é filho do Sr. Manuel Pires, que trabalha na Câmara?
Com natural e justificado orgulho, respondi:
- Sim, sou filho dele. 
Confirmação que, depois do meu improvável interlocutor ter relevado os valores morais do meu progenitor, me valeu o convite, cujo “não” me parecia fora de hipótese: 
- Olhe que quero que vá jantar a minha casa!
Dei, naturalmente, a resposta normal duma pessoa de bom – senso:
- Agradeço-lhe imenso a gentiliza do seu convite, mas não vou poder ir, porque venho com mais três pessoas.
Uma resposta que para o anfitrião (ou p´ra qualquer transmontano dos quatro costados) não era suficientemente atendível:
- Não, meu amigo! Nem pense nisso! Vão todos lá jantar comigo, porque onde cabe um, cabem quatro!
“Deribado” a não ter coragem de recusar, o prazenteiro senhor comunicou-nos que, quando o conjunto acabasse de tocar, nos iria buscar ao recinto do baile. À hora marcada, qual Chico da Nora que, na encruzilhada, esperava a Maria, o bem – intencionado senhor, por qualquer motivo que nunca saberemos, não chegou a aparecer, e já lá vão mais de 40 anos.
Conclusão: fomos à única tasca da aldeia e comemos um dos maiores manjares que alguém pode desejar: pão, sardinhas picantes em lata, presunto, cebola e uma binhaça directamente da pipa, que pedia meças a uma qualquer grande reserva Duas Quintas ou Valpradinhos.
A partir desse memorável dia, tive consciência de três coisa: só não há solução p´rá morte;  não se deve comer cebola, querendo, a seguir, dançar slow; e não existe nada melhor do que um bailarico de pó na cabeça, para quem, como eu, viveu intensamente as décadas de 70/80.

António Pires


António Pires
, natural de Vale de Frades/S. Joanico, Vimioso.
Residente em Bragança.
Liceu Nacional de Bragança, FLUP, DRAPN.

Igreja de S. João

 
Aos quatuor nonas madio, da era de 1225 (ano de Cristo 1187), 
obtendo o rei D. Sancho I, por troca com o mosteiro de Castro de Avelãs, o território onde assenta em parte a cidade de Bragança (531), dividiu-o em parcelas que distribuiu aos pobradores mediante a prestação de certos foros. Uma dessas parcelas ou quairelam, segundo os documentos coevos, foi filhada pelo arquidiácono Alvitus e nela fundou uma igreja dedicada a S. João.
A piedade e também interesses temporais originavam por esse tempo a fundação de alguns templos.
Depois, pelos anos de 1551,Maria Pires de Morais, e não Catarina de Morais como traz o Santuário Mariano, natural de Bragança e descendente de uma das suas mais nobres famílias, mulher cheia de virtudes à caridade cristã, que a levaram duas vezes em peregrinação a Roma a pé, fazendo sempre largas esmolas aos pobres, erigiu, com licença do bispo de Miranda, esta igreja em paroquial e abadia secular para evitar o incómodo dos habitantes em recorrer à matriz, dando-lhe para as despesas da fábrica e culto a quinta de Vale de Lamas de que era senhora, hoje povoação anexa à nossa freguesia de Baçal.
A morte desta virtuosa dama foi aos 12 de Fevereiro, pois nesse dia diz o Agiologio que na dita igreja se celebrava o seu aniversário. Morrendo, foi sepultada da parte de fora desta igreja e passados oitenta anos trasladados os seus restos mortais para a capela-mor dela (532).
Havia nesta igreja de S. João a capela de Nossa Senhora da Consolação, mandada fazer e armar por conta das esmolas que lhe deixou Sebastião de Novais e sua mulher, que também destinaram rendas próprias para a sua fábrica (533), sendo, portanto, menos exacta a informação do Santuário Mariano, como advertiu Borges (534), e a do Nome de Jesus, mandada edificar por José Alonso para sepultura dele e herdeiros, no local onde estava um altar da mesma invocação defronte da capela de Nossa Senhora da Consolação. Neste exercia as suas funções a confraria do Santíssimo Nome de Jesus, erecta na mesma igreja, as quais depois se passaram a celebrar na nova capela (535).
Em 1604, pertencia esta capela a João Salgado, de Ponte de Lima, e nela, em 6 de Janeiro de 1624, se instituiu um vínculo de morgadio com bens suficientes (536).
Esse vínculo foi abolido por diminuto e seus bens vendidos a Domingos Lopes Nogueira, abade de Mofreita, por João Luís Salgado de Vasconcelos, de Ponte de Lima, pelos anos de 1785. O abade Nogueira cedeu a capela a Bernardo Baptista da Afonseca e Sousa, professo na Ordem de Cristo, fidalgo da Casa Real e superintendente das coudelarias de Bragança de onde era natural, que no ano acima requereu à autoridade eclesiástica para ser considerado como padroeiro da dita capela, dotando-a de fundos para a sua fábrica, o que lhe foi concedido, segundo vimos no respectivo processo que em Bragança tem Abílio Zoio e consta de catorze fólios de papel almaço, manuscritos.

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(531) Inquisitiones de D. Afonso III, livro III. Doações do Mosteiro de Castro de Avelãs. VITERBO – Elucidário, artigo «Bemquerença».
(532) CARDOSO, Jorge – Agiologio Lusitano, ao dia 12 de Fevereiro.
(533) Tombo de Nossa Senhora da Consolação, manuscrito, in-fólio pequeno, que possuímos.
(534) Santuário Mariano, tomo V, p. 643. BORGES – Descrição Topográfica…, notícia 5.ª.
(535) Tombo de Nossa Senhora da Consolação.
(536) Ibidem.
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Na igreja de S. João, junto aos degraus do altar-mor, debaixo de uma lápide com letras, foi sepultado Sebastião da Veiga Cabral, governador das armas da província de Trás-os-Montes. E também nela tinha sepultura particular Pedro de Lafaia, o arquitecto das obras do colégio dos jesuítas, hoje Seminário (537).
Uma das obrigações dos abades de S. João era de fazerem os ofícios da Semana Santa com assistência de seis presbíteros, um dos quais seria o cura de Vale de Lamas, que era obrigado a ir assistir a eles desde domingo de Ramos até ao ofício de Sexta-feira Santa, e durante estes dias seria obrigado o abade a dar-lhe de comer(538).
Que bons tempos! O pobre do cura de Baçal que o é também de Vale de Lamas e autor destas letras, ainda hoje vê pesar sobre si o ónus de ir assistir a festividades da Semana Santa à igreja onde exercem suas funções os abades de S. João e ai dele se não for!... E não lhe dão nada por este serviço, nem mesmo de comer!!...
Que o ilustrado e virtuoso abade José Diegues ponha aqui olhos de ver e se resolva a cumprir para com o cura de Vale de Lamas tão salutar obrigação.
Outra costumeira interessante: na capela de S. Sebastião, ainda hoje existente, alternavam as suas funções eclesiásticas: um ano o abade de S. João e no outro o prior de Santa Maria; mas na dominga de Ramos iam ambas as freguesias a esta capela benzer os ramos; o prior de Santa Maria era o que os benzia, e depois cada um dos párocos os distribuía a seus fregueses. A comunidade de Santa Maria vinha pela igreja de S. João para, ambas juntas, irem fazer a função e virem de lá em procissão até o Poço das Freiras, onde se dividiam, indo cada uma para a sua respectiva igreja celebrar a Paixão (539).
Aos 8 de Maio de 1765 o prior de Santa Maria, José António de Morais Sarmento, e o abade de S. João Baptista, José de Morais Antas, na presença do bispo D. Frei Aleixo de Miranda Henriques, concordaram em assinar demarcações fixas às suas freguesias, que até ali não estavam autenticamente delimitadas.
Ajustaram-se então pela maneira seguinte: à freguesia de Santa Maria pertenciam e seriam seus fregueses todos os moradores da vila intramuros, toda a rua de S. Francisco,

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(537) Tombo de Nossa Senhora da Consolação.
(538) Tábua Velha da Igreja de S. João, fls. 8 e 9.
(539) Ibidem, fls. 4 e seguintes.
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rua da Alfândega, da Amargura, Costa Pequena, Costa Grande, tudo o que fica além do rio saindo às portas da cadeia até à vila e até ao fim do muro do colégio, onde se acha a fonte do Cano; servindo de demarcação para o interior da cidade a muralha velha, e mais lhe pertenceriam os moradores das Eiras de S. Bento até Santa Clara e na rua deste nome os moradores que vivem para a parte da Misericórdia até à sua igreja e os moradores da rua do Espírito Santo desde a mesma igreja da Misericórdia até à rua da Alfândega pela parte do sol, e pela parte da sombra desde a igreja de S. Vicente até ao arco das casas de Francisco de Morais Pimentel, excluída a casa deste.
Que na rua Direita lhe pertencesse desde a dita igreja de S.Vicente até ao mesmo arco pela parte do sol e pela da sombra até às casas do Hospital Real (hoje Liceu) com a rua dos Gatos a findar a demarcação com a muralha.
E tudo o mais que fica desta demarcação para fora até ao Loreto e Santo António do Toural pertenceria à freguesia de S. João Baptista.
Em seguida vêm mencionadas as quintas nos subúrbios de Bragança que pertenceriam a cada uma das freguesias, mas como se acham apontadas pelos nomes de seus donos não se percebe quais sejam, a não ser as seguintes cujos nomes ainda hoje duram e são: as quintas das Carvas, de Campelo e de Santa Apolónia pertenceriam à freguesia de S. João e a da Rica Fé a Santa Maria, com a declaração de que, se em algum tempo esta se isentasse de pagar dízimos, tornaria a quinta de Santa Apolónia para Santa Maria (540).
Por decreto de 30 de Janeiro de 1768, transferiu o bispo D. Frei Aleixo de Miranda Henriques a igreja matriz da freguesia de S. João Baptista para a da Sé Catedral. Neste decreto diz o bispo que a igreja de S. João é in solidum da mitra e confere ao abade da igreja transferida o título de cónego sustentado por todo o rendimento da sua freguesia, sem detrimento da mesa capitular, a faculdade de usar de murça e hábito canonical, com assento no coro abaixo do último prebendado, onde poderá tomar lugar quando queira, não ficando sujeito a ser apontado ou a perdimento de seus frutos, não tendo voto nas deliberações nem emolumentos.
O cabido, consultado pelo bispo sobre o caso da transferência, respondeu-lhe, como ele diz no decreto citado, «com frivulas indifferenças pouco dignas de attenção». No entanto, a despeito disto, o bispo foi por diante com a sua e o cabido viu-se obrigado a dar posse

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(540) Tábua Velha da Igreja de S. João, fls. 160 e seguintes.
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ao abade da igreja transferida, da sua nova dignidade, a 3 de Fevereiro seguinte, não sem ter recusado primeiro fazê-lo e recorrendo depois ao poder real (541).
No livro aqui já tantas vezes citado intitulado Tábua Velha da Igreja de S. João, vêm dois casos importantíssimos, de altíssima ponderação, e para que não percam o sainete cómico que revestem, aqui os deixamos na própria forma original. Epigrafa-se o primeiro «Declaração para o futuro» e diz: «Na Egreja de Santa Maria d’esta cidade tem o guardião de S. Francisco (quando se fazem officios de communidades) o lado direito do Preste (cobrindo a communidade de S. João que está á parte direita).
Por sentença que individamente deu José Paulo, juiz de fóra que foi d’esta cidade, fundando se em posse, e deixando os frades de se sentárem mais de vinte annos n’este logar e sim sentando-se o abbade de S. João, desde que a freguezia se metteu na Cathedral, por determinação do bispo Sr.D. Frei Aleixo e continuando eu n’este mesmo logar, deu de mim uma força um guardião (e intentava cobrar tambem os 50 cruzados pena da lei). Seguindo-o na ouvidoria, aonde venci, appelaram os frades para o Porto, e tornei a vencer, interpozeram um aggravo ordinario para a Supplicação, aonde o dezembargador Aggravista José Fernandes Nunes e outros deu sentença a favor delles, fundando-se em que se devia observar a primeira sentença por não haver posse em contrario depois della pelo espaço de trinta annos. Embargou o meu procurador, decahi dos embargos, embargou segunda vez, tornei a decahir, e vim a pagar de custas, com as que repuz da Ouvidoria e do Porto... 39$442 réis
E com as agencias desde o principio até fim...67$383 »
Que tudo faz a quantia de...106$825 réis
A primeira que os frades tiveram na Supplicação foi a 19 de Janeiro de 1788. A segunda a 8 de Julho do dito anno. A terceira a 23 de Dezembro do mesmo referido anno.
Na primeira desprezaram o mandato Episcopal de que o abbade precedesse aos frades dizendo que o bispo não podia ilidir a sentença. Estas agora só por uma via ordinária se desfazem, que algum meu successor, tendo coração de gastar, como eu poderá desfazer.

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(541) Tábua Velha da Igreja de S. João, fls. 163 e seguintes, onde pode vêr-se o decreto citado e o mais que houve sobre o caso.
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Nunca os parochos tiveram paz com a fradaria, e assim os parochos os considerem inimigos. Bragança, e de março 14 de 1789.
O Abbade, Antonio de Lima Lira Soto Maior» (542).
Louvado seja o deus Momo! Ele sempre ai cada tiu n’este mundo!
Como este bom homem, nobre sem dúvida, a julgar pelo aristocrático do nome, abraçaria em sincera efusão nos planos de além túmulo o mata frades Aguiar!...
Ó vates bragançanos, ó distinto abade de Carviçais, José Augusto Tavares! Venha de lá um poema no género do Hissope: o assunto está achado, e se não basta, aí vai outro que não damos na íntegra por ser muito extenso o documento que o contém, que aliás já foi publicado pelo ilustrado e distinto arqueólogo capitão Albino Lopo(543).
Eis o grande, o inaudito, o estupendo caso.
O licenciado Bento da Cunha Teixeira, abade da igreja de S. João, quando mais fácil lhe decorria a vida no doce Deus hace otia nobis fecit, de um pingue benefício, viu cair sobre as suas próprias de intangível nos quoque o audacioso colega, vizinho prior de Santa Maria/ António Pimentel de Sousa, com uma provisão do cabido, sede vacante, na qual lhe notificavam, sob pena de excomunhão late sententiae, que não podia mandar tanger os sinos da sua matriz em Sábado Santo sem primeiro se tangerem na paroquial de Santa Maria, com o fundamento de que a sua matriz era colegiada, composta de prior e três beneficiados que rezavam em coro todos os domingos e dias santos cantando suas vésperas e era a mais antiga da cidade, sendo sua filial a de S. João.
Esta provisão, qual raio inopinado despejado sobre o licenciado Teixeira, não o desconcertou, e impávido replicou ao irrequieto prior, lançando embargos, dizendo que provaria em como a mais antiga matriz da cidade fora a de S. Vicente e em Santa Maria nunca houvera tal colegiada, pois a existir rezariam nela todas as horas canónicas cada dia e se diriam as missas conforme as rubricas dos missais.
Volve-lhe solerte o prior em tréplica alegando que provaria ser a sua igreja mais antiga do que a própria cidade no local onde agora está, pois, segundo ele dizia, a sua primitiva situação fora no Cabeço da Cidade, dado pela câmara às freiras de Santa Clara, onde ainda se divisavam vestígios dos antigos muros dela, e a esse tempo o actual sítio ocupado pela

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(542) Tábua Velha da Igreja de S. João, fls. 295.
(543) O Nordeste de 26 de Junho de 1901 e seguintes.
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cidade era um espesso sardoal utilizado em pastagens de gados, e num sardão dele pelos pastores fora encontrada a Senhora ainda hoje chamada Senhora do Sardão, à qual logo se lhe levantou igreja própria, e por causa dos muitos milagres que esta fazia, os moradores da primitiva cidade vieram morar para junto da Senhora, lançando assim os fundamentos à actual Bragança.
E assim, por este teor, num crescente de provarás e contestações, foram indo por ali fora os dois contendores misturando muita inépcia com algumas verdades históricas. Por último, reconhecendo-se que Santa Maria não era nem nunca fora colegiada, o cónego doutoral de Miranda, perante o qual fora levado o feito, pronunciou a 10 de Setembro de 1644 sua sentença que dava ampla liberdade ao abade de S. João para mandar tanger os sinos da sua igreja em Sábado Santo quando lhe aprouvesse.
E assim terminou esta importantíssima questão... de lã caprina, que só espera por um António Dinis para imortalizar os protagonistas.
Arruinada como estava já a matriz de S. João quando esta se transferiu, não mais foi reparada, ficando reduzida a uma pequena capela pertencente a Bernardo Sepúlveda.
Por último, o Banco de Portugal, a instâncias do governador civil de Bragança, conselheiro Abílio Beça, sempre solícito em promover os interesses do distrito, resolveu proceder em Bragança à construção de casa própria para a sua agência que até então funcionava provisoriamente em parte do edifício do governo civil, onde o benemérito magistrado desejava instalar a repartição de Saúde Pública. O local escolhido foi no largo de S. João, onde estava ainda em pé a pequena capela deste nome, mas que era verdadeiramente a do Nome de Jesus, de que atrás falámos, últimos restos do antigo templo. O distinto condutor de obras públicas, Bernardino de Moura, prestadio e inteligente filho de Bragança, levantou a planta do terreno e o distinto arquitecto Adães Bermudes deu o traçado do edifício.
A 12 de Novembro de 1902 celebrou o Banco de Portugal o contrato de compra por 500$000 réis com o dono da capela Bernardo Correia Sepúlveda, casado com uma descendente de Bernardo Baptista da Afonseca e Sousa, e no dia seguinte o mesmo Banco adquiriu por compra, à Câmara Municipal por 267$000 réis, o terreno adjacente à capela que formava o dito largo de S. João e estava limitado por um muro(544).

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(544) Gazeta de Bragança de 6 de Abril e 16 de Novembro de 1902.
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Em 14 de Janeiro de 1903 pôs o Banco de Portugal em arrematação a construção da nova casa para a sua agência que foi adjudicada ao artista de carpinteiro João António de Oliveira por 9 040$000 réis.
A parte de pedreiro foi construída pelo mestre de obras Paulino Quintela. Quando se procedia a esta construção, apareceu a campa do fundador da capela do Nome de Jesus e nela se lia:

SEPVLTV
RA DE JOZ
EPE. ALONSO
1607 (545)

Parece que não foi Maria Pires de Morais, como quer o Agiologio Lusitano, quem no século XVI erigiu a igreja de S. João em matriz paroquial, pois no documento n.º 126, do tomo III, pág. 272, das Memórias Arqueológicas, etc., que contém o título de aforamento feito em 1351 por Frei Domingo, Dom Abade do mosteiro de S. Martinho da Castanheira, em terra de Sanábria, Espanha, a João Fernandes e a sua mulher, moradores em Bragança, na rua da Moreirola, de umas casas situadas nesta mesma rua, já se fala em «Affonso Martins creligo abbade que ffoy de Sam Johane». Do mesmo ou de outro de idêntico nome «abbade de Santo Johane de bragança» nos fala o documento n.º 125, inserto no mesmo tomo, a pág. 271, referente a 8 de Março de 1331, em que esse abade serviu de testemunha numa questão entre Afonso Fernandes de Figueiredo, alcaide de Bragança e povoador do rei, e o abade Mendo, do convento de S. Martinho da Castanheira, acerca da posse do lugar de Vila Meã, no concelho de Bragança.

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(545) O Arqueólogo Português, tomo IX, p. 36. Deve haver engano no ano, pois BORGES - Descrição Topográfica…, lhe assina o de 1602.
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MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA

Bragança antiga

💃𝗫𝗫𝗜𝗜𝗜 𝗙𝗲𝘀𝘁𝗶𝘃𝗮𝗹 𝗜𝗻𝘁𝗲𝗿𝗻𝗮𝗰𝗶𝗼𝗻𝗮𝗹 𝗱𝗲 𝗙𝗼𝗹𝗰𝗹𝗼𝗿𝗲 𝗱𝗮 𝗖𝗶𝗱𝗮𝗱𝗲 𝗱𝗲 𝗕𝗿𝗮𝗴𝗮𝗻𝗰̧𝗮

 Sábado à noite, dia 8 de julho, a Praça Camões volta a ser o palco do Festival Internacional de Folclore da Cidade de Bragança.
Não perca o Desfile Etnográfico às 20h30.

Encontro de Gerações juntou três mil pessoas

 Cerca de três mil pessoas encheram ontem o Recinto do Santo António, em Vinhais, para participar no Encontro de Gerações.


Trata-se de uma iniciativa que se realiza há duas décadas e que é um momento de convívio entre residentes e não residentes no concelho. “Encontram-se para confraternizar e passar um dia diferente, numa grande festa, onde a animação é garantida”, referiu uma fonte da Câmara Municipal entidade responsável pela organização.

A eucaristia foi presidida presença por Dom Nuno Almeida, recentemente nomeado Bispo da Diocese Bragança-Miranda, fazendo-se acompanhar por Dom António Montes Moreira, Bispo emérito da Diocese Bragança-Miranda. Na celebração da missa estiveram também o padre Luís Morais, o padre Paulo Pimparel, o padre Francisco Ferreira e o Padre Judas Tadeu.

A mesma fonte adiantou que Encontro de Gerações “ este ano foi mais uma vez marcado pelo sucesso, com um dia de sol convidativo e onde marcaram presença mais de três mil pessoas, passando até o número de inscritos, o que diz muito sobre o que este evento significa para a população”.

Num gesto simbólico, foram oferecidas lembranças ao padre Ferreira, por tudo o que fez e todo o trabalho desenvolvido no concelho de Vinhais.

Depois do almoço convívio, a tarde foi de animação, ao som das Concertinas de Vinhais, Gaiteiros de Zido e Quina Barreiros.

Esta festa só é possível devido ao trabalho, empenho e dedicação da Câmara Municipal de Vinhais, das Juntas e Uniões de Freguesia do concelho de Vinhais e da CLDS-4G ESPAV, que contaram com a colaboração da GNR, do Centro de Saúde, dos Bombeiros Voluntários de Vinhais e a Cruz Vermelha delegação de Vinhais.

Glória Lopes

Cineteatro de Torre de Moncorvo integra Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses

 Com esta integração o cineteatro de Torre de Moncorvo, através do Município de Torre de Moncorvo, tem agora a possibilidade de se candidatar ao concurso de apoio à programação da RTCP, que abrirá em julho.


O Cineteatro de Torre de Moncorvo integrou recentemente a Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses (RTCP), passando agora a rede a ser constituída por 88 teatros, cineteatros e outros equipamentos culturais que trabalham em rede em prol de uma oferta cultural de qualidade e diversificada.

Com esta integração o cineteatro de Torre de Moncorvo, através do Município de Torre de Moncorvo, tem agora a possibilidade de se candidatar ao concurso de apoio à programação da RTCP, que abrirá em julho.

Os equipamentos credenciados por esta rede cooperam entre si, permitindo incentivar a circulação de obras artísticas em território nacional, o aumento do número de coproduções entre entidades, bem como a valorização e qualificação de recursos humanos especializados.

“A Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses (RTCP) é um instrumento estratégico fundamental para o combate às assimetrias regionais e para o fomento da coesão territorial no acesso à cultura e às artes em Portugal, assente na descentralização e na responsabilidade partilhada do Estado central com as autarquias e as entidades independentes.”

Directora regional de Cultura do Norte admite que gestão dos museus de Bragança e Miranda deve continuar a ser feita por Governo

 Depois das críticas dos directores dos museus Abade Baçal e Terra de Miranda e dos municípios de Bragança e Miranda do Douro devido à gestão destes museus passar para as autarquias, a directora regional de Cultura do Norte também se mostrou solidária


Na sua passagem por Bragança, na passada sexta-feira, Laura Castro admitiu que esta mudança não tem em consideração a riqueza destes museus.

“Eu penso que deixarem de pertencer a esse organismo de referência e passarem a estar apenas numa dinâmica municipal não faz justiça àquilo que nos parece ser o critério que esteve aqui subjacente que é o critério da relevância das colecções”, salientou.

O Museu Abade Baçal, a Domus Municipalis e o Castelo, em Bragança, e o Museu Terra de Miranda, em Miranda do Douro, são geridos pela Direcção Regional de Cultura do Norte. Mas o ministério anunciou que a partir do próximo ano haverá uma reestruturação dos museus e estes equipamentos da região podem vir a ser geridos pelos municípios. Para Laura Castro é vantajoso que estes equipamentos continuem na gestão do Governo.

“Julgo que é benéfico para estes museus pertencerem a um organismo nacional, uma vez que desaparecendo o nível regional há uma possibilidade de estes museus estarem relacionados com os seus pares, participarem de decisões que são fundamentais da política museológica, participarem naquilo que são as linhas de referência e não ficarem isolados e resignados a uma condição local, que não têm”, disse.

Em causa está ainda o investimento que está a ser feito no Museu Terra de Miranda, que “está em total renovação”, e o Museu Abade Baçal que tem “intervenção PRR”. 

O projecto de diploma sobre a reestruturação dos museus está agora em consulta pública. A directora regional de Cultura do Norte pede que os directores, municípios e entidades aproveitem para se pronunciarem.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Ângela Pais

Graça Morais apresentou seis obras inéditas no 15º aniversário do Centro de Arte Contemporânea a que dá nome

 O Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, em Bragança, celebrou o seu 15º aniversário, na passa sexta-feira, com a apresentação de seis desenhos inéditos da pintora


Acompanhadas das obras estavam cepas, troncos velhos de videiras, que serviram de inspiração a Graça Morais, além da crise social e económica que se vive na Europa.

“Com as pessoas, com as grandes preocupações que eu sinto que estamos a viver com a guerra na Ucrânia e coma s as dificuldades económicas, com aquilo que está acontecer na Europa, depois as vinhas apareceram por acaso. Vêm na sequência que eu fiz à serra para ver uma vinha que eu herdei da minha mãe e eu vi aquelas cepas. Eu acho que são verdadeiras esculturas em si e ao mesmo tempo são muito dramáticas, lembra-me pessoas torcidas e a partir delas comecei a fazer desenhos e vou continuar a desenvolver”, explicou.

A pintora dá nome ao centro, criado em 2008, onde expõe grande parte das suas obras. Fá-lo a pensar nos mais novos. Estes 15 anos têm sido para si um desafio.

“Para mim tem sido extraordinário, tem-me dado muito trabalho, mas também muito entusiasmo e sinto-me muito recompensada porque cada vez há mais visitas e as escolas estão a sentir que os alunos podem aprender e podem desenvolver a sua imaginação a partir das obras que se apresentam aqui. Contaram-me que duas crianças de sete anos que disseram ‘a senhora que faz estas pinturas deve ser muito bonita e deve ser muito boa porque ela fez isto tudo para nós’. Quando ouvi isto eu disse ‘acho que não pode haver recompensa maior sentir que uma criança sabe que isto que aqui está é para ela’”, contou.

O Centro de Arte Contemporânea Graça Morais está sem director desde Outubro do ano passado, quando Jorge da Costa assumiu a direcção do Museu Abade Baçal, também em Bragança. O centro é gerido pela Câmara de Bragança. O autarca Hernâni Dias não avança o nome do próximo responsável, mas diz que está para breve.

“Vamos continuar, como sempre estivemos, empenhados a encontrar as melhores pessoas para poderem dar seguimento a este trabalho de excelência e não deixaremos de dentro em breve podermos ter já alguém que possa assumir essa responsabilidade”, disse.

Ao longo destes 15 anos o Centro de Arte Contemporânea já contou com mais de 75 exposições e 185 mil visitantes.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Ângela Pais

Diários São Pedro 2023 - Macedo de Cavaleiros

Bragançanos, no Centro Cívico da Cidade, atentos ao Smartphone

Deixem os grilos cantar

 Quão míngua anda a minha memória, quando já nem dos grilos que cantavam nos lameiros do Calaia, apenas se me lembra a cor.
De palhinha na mão e muito sorrateiro lá ia eu ouvindo o seu canto, para que  pudesse chegar o mais perto possível. Mais espertos e audazes que eu, eles davam pela minha presença e de repente se calavam e fugiam para dentro da toca, quase sempre por detrás  de uma arçanha. Mas eu muito persistente e sabendo da sua manha, lá descobria o seu esconderijo e com a a ajuda de uma palhinha, fazia com que eles saíssem depois de sentirem umas cócegas no rabo. Se tinham três hastes no rabo e eram encorpados com uma faixa amarela nas asas eram machos e os que melhor cantavam. As fêmeas eram mais pequenas, com apenas duas hastes e menos desprovidas do tom amarelo nas asas. Por vezes na dúvida segurava o grilo pelo dorso e soprava nas asas para ver se com o movimento do sopro as asas se abriam e libertavam aquele som tão peculiar...gri, gri. Muito inocente lá ia o coitado para dentro da gaiola que a minha mãe tinha comprado no comércio do Sacho, provida já com a respectiva folha de alface para que o meu amigo ao sol, com a gaiola pendurada na soleira da porta da casa dos meus pais, pudesse com o seu canto competir com o pintassilgo do Senhor António Cunha do outro lado da rua.
Outros tempos porque hoje em dia, penso eu, ninguém vai aos grilos, que ideia! Mas tenho a certeza que ainda existem pessoas que vão aos gambozinos, quando pacoviamente persistem em fazer do antigo lameiro do Calaia o lugar ideal para a celebração de um evento, cada vez mais sem sentido, fora do seu lugar natural. Se o regresso da feira das cantarinhas ao centro da cidade foi fruto de um problema de consciência de quem de direito ou não, por favor que tal persista mais uma vez para que a nossa cidade possa ficar ainda melhor e tornem as gentes mais felizes no próximo mês de agosto, como aconteceu em maio .
Deixem os grilos cantar no lameiro do Calaia para que as crianças saibam que existem, e para tal basta que deixem, sem precisarem de fazer nada, nem sequer de um orçamento rectificativo.

Eduardo Mesquita

domingo, 2 de julho de 2023

Grandes descobertas: O esqueleto de Castro de Avelãs

 Nos arredores de Bragança, um projecto interdisciplinar extraiu DNA antigo de um esqueleto medieval, revelando uma anomalia genética invulgar.

SOFIA TERESO - No indivíduo de Castro de Avelãs, escondia-se um segredo invisível a olho nu.

É possível que as histórias mais antigas dos bragantinos se escondam a pouco mais de dois quilómetros da actual cidade transmontana, em campos lavrados, onde a memória se foi atenuando com a passagem dos séculos. Ali viveram em tempos os zoelas, um povo de origem pré-romana que deixou marcas na região, legou inscrições e deixou-nos uma tábua jurídica, com as regras de um pacto há muito esquecido.

O próprio Plínio deu conta dos zoelas, no século I d.C., elogiando o seu linho de notável qualidade: “Há pouco tempo que chega também dessa mesma Hispânia a Itália o linho dos zoelas, especialmente adequado para redes de caça”, escreveu. Na confluência de uma das mais importantes estradas romanas do Ocidente peninsular, a Via XVII do itinerário Antonino que ligava Asturica Augusta (Astorga) a Aquae Flaviae (Chaves) e a Bracara Augusta (Braga), o lugar de Torre Velha, junto da aldeia de Castro Avelãs, foi escavado por uma equipa da Universidade de Coimbra coordenada por Pedro C. Carvalho, com apoio do Município de Bragança.

A CAPITAL DOS ZOELAS?

Os achados arquitectónicos e osteológicos sugerem que ali poderá ter sido a capital dos zoelas em época romana e uma das estalagens oficiais desse itinerário. “O lugar encerra um passado e uma carga histórica importante”, diz o arqueólogo. “É um lugar de referência para a história mais recuada de Trás-os-Montes e, de certa forma, está na origem da actual cidade de Bragança.” Na época sueva, é possível que à civitas dos zoelas tenha sucedido o pagus Brigantia mencionado no Paroquial Suevo escrito pouco antes de 585 d.C., uma vez que muitas paróquias suevas replicaram o modelo administrativo romano. Nas escavações de 2012 a 2015, identificou-se um amplo espaço funerário utilizado durante mais de meio milénio, entre os séculos VI e XIII, como as datações por radiocarbono comprovaram. Foram também encontrados os alicerces de uma igreja primitiva, dos séculos VI e VII, arrasada cem anos mais tarde. São os indícios mais fortes encontrados até hoje da manutenção da relevância de Castro de Avelãs no período medieval. Mas a maior surpresa não era essa.

ROTA DA TERRA FRIA TRANSMONTANA / RUI CUNHA

O mosteiro de Castro de Avelãs foi o monumento religioso mais importante de Trás-os-Montes Oriental na idade média. A tradição do século XVIII fez recuar a sua origem ao século VII e a uma lendária fundação por São Frutuoso, mas não se encontraram provas dessa antiguidade. Teve um papel decisivo na organização regional do território durante a Alta Idade Média até à fundação da cidade de Bragança. 

A AJUDA DA GENÉTICA

A equipa de antropólogos, constituída por Sofia Tereso, Cláudia Umbelino e André Brito, exumou e estudou 59 indivíduos na necrópole da Torre Velha. Um deles, do sexo masculino e com pelo menos 25 anos de idade, chamava a atenção – consideravelmente mais alto do que os restantes (1,80m), tinha patologias visíveis nos ossos e algumas características morfológicas frequentemente observadas em populações de origem africana. O caso teria passado como uma extravagância, não fosse uma das especificidades do projecto: a colaboração da equipa de Coimbra com o Centro Australiano de DNA Antigo da Universidade de Adelaide, onde o biólogo João C. Teixeira é também afiliado. Esta instituição especializou-se em extracção de DNA antigo a partir de amostras ósseas e a equipa cedeu amostras de seis indivíduos da necrópole medieval de Castro de Avelãs para análise.

PEDRO C. CARVALHO - TRABALHO MINUCIOSO Entre 2012 e 2015, a  equipa da Universidade  de Coimbra e a arqueóloga municipal Clara André escavaram a necrópole.

“O DNA antigo tem ajudado a desvendar episódios desconhecidos da nossa história evolutiva, como cruzamentos entre neandertais e humanos modernos quando os nossos antepassados saíram de África”, diz o biólogo. Poderia trazer pistas de interpretação para este caso? Xavier Roca-Rada, aluno de doutoramento sob a orientação de João C. Teixeira na Universidade de Adelaide, trabalhou o material em laboratório, utilizando a pars petrosa, o osso craniano que melhor preserva DNA em esqueletos antigos.

O DNA antigo é um gigantesco puzzle, ao qual faltam sempre peças por força da fragmentação provocada pelo tempo, pelo tipo de solo e pelas condições de enterramento. Roca-Rada isolou fragmentos das amostras para sequenciar os pares de bases de cada indivíduo e mapeou-os no respectivo genoma.

O genoma de qualquer humano é constituído por 23 pares de cromossomas – 22 pares de autossomas numerados de acordo com tamanho e um par de cromossomas sexuais. Seria de esperar que, nas amostras do indivíduo da Torre Velha, o número de cromossomas recuperados replicasse estatisticamente a dimensão dos maiores cromossomas humanos, mas tal não sucedeu. Os fragmentos de DNA mapeados no cromossoma X eram os esperados, mas havia também um número considerável de fragmentos no cromossoma Y. Por outras palavras, o indivíduo masculino deveria ter um cromossoma X e outro Y – mas tinha dois X.

MUSEU DO ABADE DE BAÇAL / JOSÉ PESSOA / DGPC -
Uma estela funerária romana, do mesmo período.

Artigo publicado originalmente na edição nº 11 da revista História National Geographic (Junho-Julho 2023).

Gonçalo Pereira Rosa

"Única artista viva." Obra de Graça Morais vai estar em exposição no Museu do Homem, em Paris

 A exposição vai estar aberta ao público de 17 de novembro de 2023 até maio do próximo ano.

Graça Morais revela que o quadro selecionado foi também aquele que lhe abriu "as portas dos melhores museus do Brasil"© Paulo Alexandrino/Global Imagens (arquivo)

A propósito dos 15 anos do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais (CACGM), em Bragança, festejados esta sexta-feira, a pintora portuguesa revela à TSF que em novembro vai participar na exposição "Da gruta ao museu: reinventar a arte rupestre", no Museu do Homem, em Paris, França.

A exposição vai estar aberta ao público de 17 de novembro de 2023 até maio do próximo ano e, para Graça Morais, esta é uma "participação muito importante" sobretudo porque é a "única artista viva escolhida".

"Para mim é uma honra e fiquei muito feliz por ser escolhida, porque sou a única artista viva escolhida e mais outro artista homem, que também faz parte da nossa contemporaneidade", confessa.

Rodeada de outros "grandes artistas", a pintora não esconde o entusiasmo que sente por poder fazer parte de uma "exposição tão importante para o mundo". Ao indicar o retrato que vai ter em exposição, Graça Morais revela que o quadro selecionado foi também aquele que lhe abriu "as portas dos melhores museus do Brasil".

Maria 1982 "foi uma obra que eu fiz no Vieiro, no grande isolamento, a partir de uma mulher chamada Maria, que morreu recentemente, e realmente é o retrato dela como mistura de animais e aquelas metamorfoses que eu tenho feito ao longo dos anos, porque nós, seres humanos, somos uma grande metamorfose do mundo", avança.

Maria 1982© Reprodução CACGM

O aniversário do CACGM é assinalado com visitas guiadas às exposições da artista, com um colóquio e um concerto pela Orquestra de Cordas do Conservatório de Música e Dança de Bragança.

Inaugurado em 2008, o CACGM é um projeto arquitetónico notável, concebido pelo arquiteto Souto de Moura, vencedor do Prémio Pritzker em 2011.

O Centro promove uma grande dinâmica, com exposições temporárias de artistas de renome nacional e internacional, além de apresentar coleções de Arte Contemporânea resultantes de parcerias com instituições de destaque.

Com sete salas dedicadas à obra da pintora Graça Morais, o CACGM oferece um programa expositivo em constante renovação, complementado por iniciativas pluridisciplinares com programas educativos, oficinas de arte, concertos, performances e atividade editorial.

Meia centena de militares da Força Aérea que vieram a Bragança apresentam sintomas de intoxicação alimentar

 Cerca de meia centena de militares da Força Aérea Portuguesa apresentam sintomas de intoxicação alimentar e estão a receber tratamento médico no hospital de campanha que está montado em Bragança, na sequência das comemorações do 71º aniversário, que está a decorrer nesta cidade.


A informação foi confirmada ao Mensageiro pelo tenente-coronel Manuel Costa, responsável pelo gabinete de comunicação da Força Aérea. “Todos os militares foram assistidos, estão a reagir bem e a situação foi devidamente ultrapassada”, garantiu o responsável.

Segundo a mesma fonte os delegados de saúde de Bragança e de Vila Real foram informados e recolheram amostras nos vários locais onde os militares fizeram refeições ou ingeriram bebidas. “Os militares começaram a apresentar sinais de intoxicação alimentar na manhã de domingo”, referiu o responsável, antes da cerimónia comemorativa do aniversário que incluiu um desfile. “As autoridades sanitárias foram informadas e os delegados de saúde de Bragança e de Vila Real fizeram a recolha de amostras nos vários locais onde os militares fizeram refeições ou ingeriram líquidos, para apurar onde ocorreu a situação”, afirmou Manuel Costa.

Glória Lopes

sábado, 1 de julho de 2023

" QUE GENIAL!...QUE TALENTO!..."

Por: Humberto Pinho da Silva 
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

A velha e revelha história do: " Rei Vai Nu", está sempre atual. Foi recontada genialmente por Ramalho, e por outros conhecidos escritores:
Um dia apareceu ao Rei, não sei se era do Oriente ou Ocidente, alfaiate espertalhão, que tinha um tecido precioso. Tão especial, que só os inteligentes podiam ver.
O Rei e os cortesãos não queriam passar por ineptos, e não se cansavam, copiosamente, louvar a fazenda.
Sua Majestade mandou-lhe, então, confecionar vestidura, para deslumbrar a plebe.
Mas certa vez, quando o monarca andava a passear, um rapazinho inocente, vendo o rei em trajos menores, clamou: "O Rei vai Nu!..."
Por encanto, como S. Paulo, em Damasco, caíram as escamas dos olhos, que não deixavam o rei ver a verdade, por estupidez ou vaidade.
Envergonhado, recolheu-se ao palácio e vestiu-se dignamente.
Francisco Rodrigues Lobo, na " Corte na Aldeia", conta caso semelhante:
Foi contactado El-rei D. João III por importante mercador, que lhe disse – que na sua loja tinha tecido precioso, e que lho daria de graça, se lhe desse a honra de o aceitar.
El-rei recebeu o presente e mandou fazer vestimenta. Logo que apareceu em publico, todos correram ao estabelecimento do mercador, em busca de igual fazenda.
O referido pano era um mono, e não havia quem o comprasse.
Quantas vezes não se vê senhores carregados de condecorações ou de elevado grau académico, pasmados diante mamarracho, com a boca e. "Oh!" – " Que maravilha!...Que talento!...Que genial!..."
No íntimo todos sabem que nada vale, mas não têm a coragem de o afirmar, em publico, para não passarem por néscios, perante os "entendidos".
Assim acontece na Literatura, e em tudo. Ninguém quer ser o garotinho que bradou: " O Rei Vai Nu!..."
E não o diz, porque a coletividade pensaria, com soberba: "Como é estúpido!...Ignorante!...Néscio!..."

Humberto Pinho da Silva
nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG” e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ".