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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

LÁ FORA JÁ SE USA!...

Por: Humberto Pinho da Silva 
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Quando os elétricos circulavam na cidade do Porto, havia constantes reclamações – dizia-se: que além de serem barulhentos, os carris rompiam os pneus dos automóveis.
Resolveu-se, então, modernizar a cidade. Os velhos e rancheiros elétricos foram substituídos pelos tróleis. Eram bonitos, cómodos e silenciosos.
Todos quiseram experimentar a novidade. Começou-se, porém, a sentir-se saudade dos velhinhos elétricos: os tróleis eram silenciosos, pareciam gatos. Eram por isso perigosos, podiam causar fatais atropelamentos.
Então, disseram: os que circulam na cidade são os mais modernos e os melhores da Europa. Iguais aos de Viena de Áustria.
A murmuração cessou. Se eram iguais aos de Viena, eram bons.
Mas rapidamente se verificou que os tróleis, tinham muitos lugares sentados, mas poucos de pé.
Pensou-se aumentar os de pé.
Onda de protestos se levantou. Mas logo se acalmou, quando afirmaram ser iguais aos de Londres.
 Se na Capital Britânica, os ingleses, viajavam nessas modernas viaturas, o zé-povinho, pensou: se lá fora se usa, – concordamos e aprovamos.
Vem a lengalenga a propósito da bacoquice nacional, de concordar com tudo que se faz e se usa lá fora.
Os responsáveis, sabedores desse fenómeno psicológico, usam-no sempre que lhes interessa impor conceito ou pratica – lá fora já se faz.… e se faz, cá dentro também se deve fazer...
Desconheço se o mesmo acontece noutros países. No Brasil aprecia-se tudo que é de fora. O que é importado é bom. Será por ser país irmão ou filho de Portugal?
O curioso é que lá fora, já se usa muitas coisas e benéficas, e não se copia nem se ventilam.
Escuso-me de as citar, já que são assaz conhecidas. Apenas duas vou mencionar: Por que não se aproxima os salários e pensões dos países mais adiantados da Europa?
Por que não se copia o que melhor se faz lá fora? E só se discute: o aborto, gestação de substituição, vulgo: “barrigas de aluguer”, eutanásia e drogas leves?... E casos e casinhos, para entreter, como faziam em Roma, com os gladiadores?
Por que será?

Humberto Pinho da Silva
nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG”. e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ".

Balcão Único do Prédio percorre aldeias de Vinhais para facilitar registo de terrenos

 As aldeias do concelho de Vinhais estão a receber, ao longo do mês, a visita do BUPI - o Balcão Único do Prédio, que serve para identificar propriedades gratuitamente


O balcão funciona na própria vila, mas, por estes dias, além disso, percorre as localidades vinhaenses porque, segundo o presidente da câmara, Luís Fernandes, é importante levar os serviços às pessoas.

“Andamos a percorrer as freguesias todas no sentido de as pessoas não terem que se deslocar à sede de concelho para evitar perder tempo e para facilitar a vida às pessoas”, destacou.

Luís Fernandes explica ainda que este é um bom mês para levar o BUPI às aldeias porque há mais gente nas localidades. Algumas delas nem conhecem o serviço mas assim passam a saber que existe.

“É uma altura em que há mais pessoas, mais emigrantes e assim têm a oportunidade de fazer este registo no próprio local onde passam as suas férias”, disse.

O autarca espera que, tal como no ano passado, haja várias pessoas a fazer o registo das propriedades nas aldeias.

O BUPI está, desde ontem, na União de Freguesias de Nunes e Ousilhão. Amanhã e sexta estará na Freguesia de Ervedosa. Nos dias 16 e 17 na União de Freguesias de Moimenta e Montouto. Nos dias 22 e 23 estará na União de Freguesias de Vilar de Lomba e São Jomil. E, por fim, nos dias 29 e 30 de Agosto, ruma à União de Freguesias de Sobreiró de Baixo e Alvaredos.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Carina Alves

Famidouro – Feira de Artesanato assinala o 25º aniversário

𝗣𝗹𝗮𝗻𝗼 𝗱𝗲 𝗖𝗼𝗴𝗲𝘀𝘁𝗮̃𝗼 𝗱𝗼 𝗣𝗮𝗿𝗾𝘂𝗲 𝗡𝗮𝘁𝘂𝗿𝗮𝗹 𝗱𝗲 𝗠𝗼𝗻𝘁𝗲𝘀𝗶𝗻𝗵𝗼 𝗱𝗲𝗳𝗶𝗻𝗲 𝟯𝟳 𝗮𝗰̧𝗼̃𝗲𝘀 𝗻𝗼𝘀 𝗮̂𝗺𝗯𝗶𝘁𝗼𝘀 𝗱𝗮 𝗰𝗼𝗺𝘂𝗻𝗶𝗰𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼, 𝗽𝗿𝗼𝗺𝗼𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗼 𝘁𝗲𝗿𝗿𝗶𝘁𝗼́𝗿𝗶𝗼 𝗲 𝘀𝗲𝗻𝘀𝗶𝗯𝗶𝗹𝗶𝘇𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗼 𝗽𝗲𝗿𝗶́𝗼𝗱𝗼 𝟮𝟬𝟮𝟯-𝟮𝟬𝟮𝟳

 No passado dia 24 de julho, o Plano de Cogestão do Parque Natural de Montesinho foi aprovado por unanimidade pela Comissão de Cogestão, presidida pelo Município de Bragança, em representação dos dois municípios da área do Parque.


Também fazem parte da Comissão a Direção Regional do Norte do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), o Instituto Politécnico de Bragança (IPB), a Direção Regional de Agricultura e Pescas do Norte (DRAP-N) e as Associações Arborea, Azimute e AEPGA, esta última em representação da Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente.

👉 O Plano inclui 37 ações e 86 sub-ações para um horizonte temporal de cinco anos, entre 2023 e 2027. As referidas ações resultaram dos contributos da população nas diversas dinâmicas de participação pública que se realizaram ao longo de 2022, em diferentes locais dos concelhos de Bragança e Vinhais, particularmente, nas aldeias do Parque Natural, e através de um processo de consulta pública, recentemente realizado.

Mais informações AQUI.

terça-feira, 1 de agosto de 2023

𝟮º 𝗙𝗲𝘀𝘁𝗶𝘃𝗮𝗹 𝗖𝘂𝗹𝘁𝘂𝗿𝗮𝗹 𝗗𝗼𝘂𝗿𝗼 𝗦𝘂𝗽𝗲𝗿𝗶𝗼𝗿 𝗰𝗼𝗺 𝗩𝗶𝗱𝗮 𝗲 𝗠𝗼𝘃𝗶𝗺𝗲𝗻𝘁𝗼

6 de MARÇO DE 1970 - Mensageiro de Bragança

CULTURA

Por: José Mário Leite
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)

A propósito do meu último texto, neste jornal, sob o tema “Cultura, Arte e Ciência” fui desafiado a concretizar, trazendo para o público o que se fala, por razões óbvias, em privado e surdina. Como nada devo nem temo, aceitei o repto.
Olhemos, então, para a cultura no nordeste, tendo como pano de fundo a última edição do FLB, Festival Literário de Bragança. Na página da autarquia brigantina o evento é anunciado como sendo promovido pelo Município e pela Academia de Letras, mas esta, em mensagem aos seus associados revela que a coorganização tem mais uma entidade: a Editorial Novembro. E em boa verdade assim é.
Segundo o Portal Base, a Câmara de Bragança entregou 18.000 euros, mais IVA, à empresa de Famalicão (a exemplo do que aconteceu em anos anteriores) para que esta trouxesse ao nordeste os escritores Miguel Gouveia, Raúl Minh’Alma, Luis Ochoa, Rui Ramos, Cláudia Lucas Chéu, Hélder Reis, Pedro Chagas Freitas e Bru Junça (desconheço qualquer livro publicado por esta contadora de histórias) para divulgarem e publicitarem as suas obras. Desconheço quem fez esta selecção.
Como faz parte do convite endereçado à editora deve ter sido a própria Câmara ou a Academia de Letras. De qualquer forma o elenco foi melhorado em qualidade e ganhou alguma transmontaneidade com a adição, posterior, de outros nomes, indubitavelmente ligados à nossa terra. É factual que a Câmara da capital do distrito entregou a uma empresa de Famalicão, uma verba considerável, para que esta financiasse, na totalidade, as deslocações e estadias de um grupo de escritores que ali se deslocaram para, durante três dias, promoverem as suas obras, notoriamente distantes da temática regional, com as honrosas e relevantes exceções que, tendo sido igualmente financiadas pela autarquia, estavam fora do contrato celebrado com a entidade responsável pela organização.
Por seu lado a co-promotora, Academia de Letras, para além do espaço garantido para a direção, destacando a sua presidente… reservou uma hora (!) para a totalidade dos seus membros poderem dividir entre si com o objectivo de divulgarem a sua atividade literária. Com os custos de deslocação e estadia a cargo de cada um deles, claro! ESPANTOSO!
A organização das conferências e distribuição dos eventos foi feita atendendo à conveniência de alguns, apenas. Sei de participantes que se conhecessem, antecipadamente, a composição das mesas de debate, não teriam aceitado participar. Facilmente se adivinhará quem são.
Obviamente que a cultura não se faz só com obras-primas. Assumo, clara e explicitamente, a minha incompetência para avaliar, com rigor e fundamento, a qualidade das obras trazidas a Bragança. Mas não aceito a preponderância do sucesso comercial.
Os restaurantes McDonald são quem mais vende, em todo o mundo, sendo ainda, imbatíveis na qualidade das matérias-primas e na observação rigorosa das regras de higiene e segurança alimentar! Ninguém de bom senso aceitará que a promoção da gastronomia regional possa passar pelo uso de dinheiros públicos, para financiar a sua operação!

José Mário Leite
, Nasceu na Junqueira da Vilariça, Torre de Moncorvo, estudou em Bragança e no Porto e casou em Brunhoso, Mogadouro.
Colaborador regular de jornais e revistas do nordeste, (Voz do Nordeste, Mensageiro de Bragança, MAS, Nordeste e CEPIHS) publicou Cravo na Boca (Teatro), Pedra Flor (Poesia) e A Morte de Germano Trancoso (Romance), Canto d'Encantos (Contos) tendo sido coautor nas seguintes antologias; Terra de Duas Línguas I e II; 40 Poetas Transmontanos de Hoje; Liderança, Desenvolvimento Empresarial; Gestão de Talentos (a editar brevemente).
Foi Administrador Delegado da Associação de Municípios da Terra Quente Transmontana, vereador na Câmara e Presidente da Assembleia Municipal de Torre de Moncorvo.
Foi vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
É Diretor-Adjunto na Fundação Calouste Gulbenkian, Gestor de Ciência e Consultor do Conselho de Administração na Fundação Champalimaud.
É membro da Direção do PEN Clube Português.

Barreiras, obstáculos e precipícios de Bragança dificultam a vida aos cegos

 Andar pela rua, por vezes, é uma aventura para os cegos


Francisco Alves, de 72 anos, residente em Varge, no concelho de Bragança, começou a ter problemas de visão aos 14. Depois perdeu-a completamente. Andar pela cidade, por vezes, é uma aventura. O ex-professor de Filosofia diz que nunca sofreu acidentes graves mas há algumas barreiras muito perigosas, nomeadamente junto à Casa do Professor, no teatro municipal e numa parte do passeio da Rua da República.

As barreiras são muitas e o que está a faltar é que quem as pode corrigir as veja. “Tem havido alguma preocupação, não muita, dos autarcas, para resolver alguns problemas, nomeadamente o rampeamento dos passeios, que para uma pessoa com carro de bebé é muito importante, por exemplo. Mas, por exemplo, há autarquias com um trabalho mais aprofundado, como a de Viseu, mas é um tema novo, não chegou ainda a todas as autarquias”.

Francisco Alves, que tem dedicado bastante tempo a recolher informações sobre o que pode representar perigo, para, depois, apresentar à câmara, de forma a haver correcção, receia que um dia um acidente grave possa acontecer. “Um amigo meu ia a andar, em Coimbra, e desorientou-se. Havia um precipício, numa rua normal, de mais de 5 metros. Ele caiu de cabeça e morreu. Acho que se aqui houvesse uma desgraça dessas, numa destas barreiras, as pessoas iam ficar muito tristes”.

Passeios danificados, acesso às passadeiras com lancil elevado, não marcação das passadeiras, vegetação alta: são alguns dos obstáculos de que Nuno Rodrigues se queixa em Bragança, onde vive. É cego desde 2018 e admite que há zonas da cidade que são verdadeiros obstáculos. “Há uma rua que desce junto às estufas, no passeio da direita, está totalmente danificado e as árvores têm ramos muito baixos. É esse caminho que estou a aprender a fazer. Tenho o passeio danificado e os ramos das árvores a tocarem-me sempre na cara”.

As passadeiras são outro dilema. São poucas as que estão sinalizadas e adaptadas para pessoas com deficiência. “Fora da Avenida Sá Carneiro não há passadeiras com marcação. É difícil saber onde está a passadeira. Nesses casos têm que haver a aprendizagem do caminho, o que nem sempre é fácil, porque basta um pequeno desavio do ponto de referência para se ficar baralhado”.

Há dois anos a Câmara de Bragança aderiu ao projecto “Cultura para Todos”. O objectivo seria tornar os equipamentos culturais municipais mais acessíveis. O IPB fez um estudo, que mostra que há museus em Bragança que não são claramente acessíveis para todos, diz a coordenadora, Cláudia Martins. “Definitivamente, quando as pessoas dizem que a cultura é para todos não sabem do que estão a falar. Há espaços que são impossíveis de visitar por pessoas com cadeiras de rodas. Para além das questões físicas, há uma série de falhas para pessoas com deficiência visual ou auditiva. Creio que uma das grandes responsabilidades do município é dar formação aos funcionários para que estejam aptos, pelo menos, para o mínimo”.

Apesar do diagnóstico e do projecto até já ter terminado, o município ainda não implementou soluções para tornar os espaços acessíveis. Ainda assim, foram criados textos com audiodescrição, textos em linguagem simples, vídeos em língua gestual portuguesa, maquetes e plantas tácteis e textos em braile.

O Plano de Acção de Mobilidade Urbana Sustentável, que compõe o Plano Estratégico de Desenvolvimento Urbano, apresentado em 2017, previa definir várias acções por forma a que a mobilidade dentro da cidade fosse “facilitada”. Tentámos chegar à fala com o presidente da câmara de Bragança, Hernâni Dias, para perceber como se está a implementar o plano e quais as justificações para as barreiras que existem. Até ao momento não conseguimos declarações do autarca.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Carina Alves / Ângela Pais

O motim do Seminário - Bibliografia


...continuação 

O motim do Seminário tornou-se célebre e tem bibliografia especial.
Além dos jornais já citados, toda a imprensa portuguesa e muita do estrangeiro dele se ocupou por largo tempo e repetidas vezes.
Sobre o assunto apareceram os seguintes folhetos:
«A Palavra» e o caso de Bragança – Verdades amargas, por X.Y. Z. Abril de 1905. Tip. do Commercio, Lisboa. 8.º de 57 páginas.
A política de hoje e de amanhã – Verdades duras mas flagrantes, por X.Y. Z. Porto, tip. de J. F. Fonseca, 1905. 8.º de 110 páginas. Estes dois opúsculos são do mesmo autor.
O caso de Bragança e resposta aos críticos – Mensagens e adesões do clero da diocese de Bragança ao seu Prelado. Coimbra, Imprensa da Universidade, 1905. 8.º de IV-118 páginas. De págs. 5 a 38 contém a refutação dos artigos de A Palavra, sobre a errónea interpretação que deu à Provisão relativa ao Seminário Episcopal de S. José de Bragança, de 19 de Março de 1905, e a refutação do «Opúsculo de X. Y. Z.» acima mencionado. Esta parte é anónima assinada por – L. De págs. 38 a 70 transcreve um escrito sobre «O motim do Seminário de Bragança» por nós publicado originariamente em artigos no O Comércio do Porto, de onde depois foi transcrito em vários jornais: Gazeta de Bragança, Conimbricense e outros. E desde págs. 70 por diante, as mensagens em que o clero da diocese de Bragança pede ao prelado perdão para os seminaristas.
Não pode ser. Uma página de fólio pequeno, sem lugar de impressão.
É um libelo famoso onde o autor, acobertado sob o véu do anonimato, assacou ao prelado as mais torpes calúnias.
A morte de um bispo. 8.º de 4 páginas inumeradas. Também anónima, sem lugar de impressão. Tem no fim «Abril de 1906». Uma e outra produção foram distribuídas por ocasião da vinda do prelado. Esta última compreende dezoito quadras vazadas nas mesmas calúnias.
O caso do sr. Bispo de Bragança. Uma página de fólio, sem nome de autor nem lugar de impressão. Sabe-se, porém, que é obra de Joaquim Mendes Pereira, intendente de pecuária no distrito de Bragança.
Manifesto ao clero da diocese de Bragança pelo povo da mesma cidade, reunido em comício no dia 2 de Fevereiro de 1905. Uma página de fólio. Tip. Minerva, rua Direita, Bragança.
Notas Biográficas do Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor D. José Alves de Mariz, Bispo de Bragança – Tributo de admiração no 21.º aniversário da sua eleição e confirmação episcopal por Francisco Manuel Alves, reitor de Baçal. Porto, tip. a vapor da Real Oficina de S. José, 1906. 8.º de 67 páginas com o retrato do bispo. Este opúsculo provocou o seguinte:
Autópsia às notas biográficas do Ex.mo e Rev.º Sr. D. José Alves de Mariz, Bispo de Bragança, por J. I. e X. Porto, 1909. Tip. da Viúva de J. S. Mendonça.
8.º de X-117 páginas. É um amontoado de banalidades pretensiosas e declamatórias que, despidas de factos, não podem destruir os apontados pelo autor das Notas Biográficas fundamentalmente neles baseados.
E tanto assim o reconheceu o autor, que no anonimato foi esconder a vileza das injúrias e calúnias torpes que fervilham no miserável escrito, que não teve coragem de lançar a público, fechando a sete chaves toda a edição, sendo por isso raríssimos os exemplares que aparecem, à excepção de poucos mui ocultamente dados a amigos.
A ninguém se esconde que o autor da infeliz escorrência da Autópsia é o cónego da Sé de Bragança, bacharel José de Oliveira, exasperado por o bispo lhe tirar a regência das cadeiras do Seminário, como a lei lhe permitia, pois haviam terminado os doze anos, em que, por obrigação do canonicato, era obrigado ao ensino.
Filiando-se nesta questão do Seminário ou por lhe prepararem uma atmosfera favorável ou por dimanarem naturalmente dele ainda o escarcéu levantado por O Baixo Clero, semanário destinado a combater o prelado e a chinfrineira do escrivão do juízo apostólico que examinaremos no volume destinado aos escritores do nosso distrito.

FIM

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA

As Aparências Iludem - Na Madrugada dos Tempos – Parte 12

 As pessoas nunca são o que parecem. Nunca.
Nem mesmo quando parecem ser o que são.
A aparência nunca é a essência.

José Luís Nunes Martins
Filósofo e escritor português
Por: Manuel Amaro Mendonça
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

O céu estava cor de chumbo e o vento uivava como milhares de longínquos lobos. O ar, prenhe de pó e areia, cegava e ardia nos olhos.

No meio da planície árida, com alguns troncos esquálidos aqui e ali à laia de árvores, os dois leões, um mais jovem que outro, rosnavam-se mutuamente como que discutindo opiniões contrárias.
Repentinamente, saída do nada, uma descomunal matilha de hienas de dentaduras proeminentes e aguçadas pingando baba soltava tétricas gargalhadas nervosas enquanto rodeava ameaçadoramente a dupla. Atiravam dentadas no ar, estalando os dentes, enquanto quase se afogavam em saliva, fazendo os ameaçados rodarem sobre si próprios, nunca perdendo as sanguinárias criaturas de vista.
Por fim, como que respondendo a um sinal, as hienas lançaram-se sobre os dois leões, que se defenderam com garras e coragem típicas da sua espécie.
O combate durou poucos minutos, mas várias das atacantes jaziam em agonia com ossos partidos ou pavorosas lacerações de onde lhe jorrava a vida. As restantes fugiram rapidamente, dentes escorrendo baba e sangue, soltando gritos e gargalhadas que mais pareciam choros apavorados.
O mais jovem dos leões partiu à desfilada atrás dos traiçoeiros atacantes, desprezando os seus próprios ferimentos. O leão mais velho deitou-se pesadamente, cansado, lambendo as dezenas de feridas a que conseguia chegar com a língua. No seu dorso, porém, alguns dos profundos rasgões feitos pelas dentadas haviam conseguido penetrar o grosso couro e expor a carne rubra e sanguinolenta.
Ainda mal o leão jovem desaparecera na distância quando parte do grupo das hienas regressou, muitas exibindo as feridas da luta anterior, mas com a mesma determinação. Sem dar tempo a resposta, lançaram-se sobre o velho leão num frenesim de dentadas e gritos e gargalhadas até se cansarem, saciadas e afastarem-se de uma massa ensanguentada e disforme de ossos.
Uma das criaturas mais afastada do grupo focou-se de repente nela, observadora de toda a tragédia. Os seus olhos pequenos e redondos constatavam a sua presença, os dentes pingando sangue arreganharam-se e, com uma gargalhada, atacou!
Zia acordou com um grito sufocado. Estava completamente despida, encharcada em suor, deitada ao longo de um pequeno tubo onde mal cabia.
Respirou sofregamente tentando acalmar o bater violento e descompassado do coração, ainda apavorado pelo terrível pesadelo que a atormentara.
Lentamente acalmou-se e conseguiu respirar em profundidade, enchendo bem de ar a parte inferior do diafragma e soltando lentamente até o próprio coração ficar com as batidas normalizadas.
“Tenho de deixar de fazer isto.” — Reconheceu, enquanto soltava as pedras que tapavam a cabeceira do estranho compartimento. — “Tenho de começar a ensinar uma das crianças…”
Assim que ela removeu as primeiras pedras, rapidamente surgiram outras mãos a ajudá-la e a afastar as obstruções e a limpar o chão por onde arrastaram a sacerdotisa, colocando-a em pé. Esta, nua, coberta de transpiração e pó, rodeada por mulheres, foi tapada com peles e o seu cabelo sacudido do pó.
“… que pena Nehir não se interessar pela adivinhação e pelas forças do mal que tentavam contrariar os desígnios dos deuses… — Zia continuava os seus pensamentos, alheada dos cuidados para com a sua pessoa — … continuava a ser ela, já velha, a ter de beber o sumo da flor-de-fogo, para através dos sonhos perceber o que as divindades tinham para lhes dizer.
Os joelhos fraquejaram-lhe e as companheiras agarraram-na enquanto lhe punham um cepo de madeira no chão para que se sentasse.
Erem irrompeu sem dificuldades pelo círculo protetor formado pelas mulheres e ajoelhou junto da sua companheira.
— Então? — Interrogou de chofre. — Que viste?
— Não sei bem. — Suspirou ela, a cabeça pesada e os olhos semicerrados. — Preciso descansar, depois penso melhor sobre o assunto.
— Mas que viste? — O chefe insistiu.
— Não sei! — Reafirmou atordoada pelo cansaço. — Leões e hienas… à luta…
— E que mais?
— Não sei! Preciso descansar! — Ela arregalou-lhe os olhos e levantou a voz. — Não consigo pensar, está tudo baralhado na minha cabeça. — Depois acalmou-se e olhou suplicante para as companheiras. — Levem-me para a minha casa.
Zia dormiu durante quase o resto do dia. Não acordou para comer, se não já ao anoitecer e apenas para beber água e roer um pouco de carne seca, pensativamente. A sua visão perturbava-a e temia compreender o seu sentido; o velho leão seria deixado sozinho e despedaçado pelos inimigos… expedições como o ataque aos homens-macaco, que deixaram a aldeia desprotegida, poderiam ser o fim de tudo. Mas seria um aviso, ou um vislumbre do futuro? Com o inverno a prolongar-se e a falta de alimentos a fazer-se sentir, os grupos de caça eram maiores, percorriam mais distância e ausentavam-se mais tempo, também aí poderia haver perigo.
Erem respeitou o silêncio dela embora não deixasse de a observar, preocupado. Anoitecia quando regressou a casa. O frio lá fora fez com que todos regressassem cedo; a caça rendera um pouco melhor que o dia anterior, os grupos combinados com os estrangeiros tinham bons resultados, mas tudo deveria ser racionado e havia quem não quisesse partilhar. Vinha carrancudo e meditabundo quando entrou e deparou com a mulher sentada nas peles junto à fogueira a comer. Era bom sinal. Sentou-se ao pé dela em silêncio, sentindo o cheiro a fumo e a transpiração que enchiam a divisão. Pelo buraco do teto de onde saía o fumo conseguia ver a ominosa estrela brilhante que arrastava uma cabeleira de luz atrás de si.
Por fim ela resolveu falar e contou-lhe pormenorizadamente a sua visão, transmitiu-lhe os seus receios e comunicou-lhe a decisão de passar a trazer consigo uma ou duas crianças. A conversa prolongou-se durante horas até a lenha estar transformada em apenas brasas. A tudo o chefe acedeu e sugeriu as netas Cansu e Atye, respetivamente as filhas mais novas de Altan e Tekin, que eram suficientemente pequenas para começar a aprender. Zia, porém, disse precisar de alguém mais velho que tomasse contacto com ensinamentos mais complexos… se acontecesse algo antes das crianças estarem preparadas ficariam sem alguém para implorar aos deuses. Achava que Kiraz, viúva de Oran, um dos filhos de Lemi, parecia ter o necessário.
Erem ficou contente por tudo continuar na família e concordou que teriam de manter mais guardas na aldeia, até porque os homens que enviara aos povoados em redor relatavam também ataques e roubos de maior ou pequena monta. Os homens-macaco não eram, afinal, os únicos ladrões da região.
Quando finalmente se deitaram e abraçaram-se debaixo das peles ao lado do lume reavivado, Zia adormeceu imediatamente, mas Eren não conseguiu. O significado da visão não era ainda claro. Quereria dizer que o clã estava condenado? Aconteceriam divisões entre eles e os que restavam seriam exterminados? Se o leão representava o clã, quem eram as hienas? Inimigos internos ou externos? Será que o facto de permitir que os estrangeiros vivam entre eles era a semente para a destruição do clã? O tempo que deveria passar a dormir desvaneceu-se nestas cogitações até que o cansaço o venceu.
Ainda o sol não nascera quando foram acordados por gritos agitados de homens e mulheres.
Acorreram à agitação que acontecia perto da casa armazém. A multidão que se juntava abriu alas para o seu chefe que deparou com dois homens caídos. Um, estava morto quase de certeza, a avaliar pela quantidade de sangue que jazia empastado ao lado da cabeça, mas o outro, apesar dos vários ferimentos nas mãos e no rosto, mexia-se bem; deitado de costas, as mãos erguidas numa prece, chorava e implorava num idioma estranho.
Alguns dos guardas do armazém, excitados, explicaram de forma ofegante e nervosa o acontecido; cerca de cinco estranhos atacaram o homem que guardava a entrada tendo sido surpreendidos pelos dois que os aguardavam na parte de dentro. Com os gritos de alarme e o acorrer de mais guardas, os atacantes lograram fugir, com a exceção daqueles dois. Eram estranhos à aldeia e não falavam a língua de nenhum dos povoados em redor.
Erem fitou o homem vivo com intensidade que, pressentindo a autoridade nele, arrojou-se a seus pés, arengando num choro histérico. Os pensamentos do chefe, porém, não estavam no estranho em si, mas no que representava a presença de povos de outras regiões numa área que começava a estar sobrepovoada. As novidades não se ficavam, contudo, por ali. Um dos netos de Lemi, gritava para quem o quisesse ouvir que o invasor morto trazia ao pescoço o colar que oferecera à sua prometida, que fora assassinada durante o último ataque dos homens-macaco a Barinak… tudo indicava que afinal os atacantes foram outros. A terrível constatação pesava fortemente sobre o coração de Eren; destruíram e mataram um clã inteiro baseados numa suspeita que agora se revelava falsa.

Manuel Amaro Mendonça
nasceu em Janeiro de 1965, na cidade de São Mamede de Infesta, concelho de Matosinhos, a "Terra de Horizonte e Mar".
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (Agosto 2015), "Lágrimas no Rio" (Abril 2016), "Daqueles Além Marão" (Abril 2017) e "Entre o Preto e o Branco" (2020), todos editados pela CreateSpace e distribuídos pela Amazon.
Foi reconhecido em quatro concursos de escrita e os seus textos já foram selecionados para duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras.
Outros trabalhos estão em projeto e sairão em breve. Siga as últimas novidades AQUI.

𝗘𝘅𝗽𝗼𝘀𝗶𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗲 𝗳𝗼𝘁𝗼𝗴𝗿𝗮𝗳𝗶𝗮 𝗥𝘂𝗶 𝗣𝗶𝗿𝗲𝘀 𝗻𝗮 𝗰𝗼𝗹𝗲𝗰̧𝗮̃𝗼 𝗱𝗼 𝗠𝘂𝘀𝗲𝘂 𝗱𝗼 𝗗𝗼𝘂𝗿𝗼

PLANO HÍDRICO DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO PRONTO DENTRO DE 90 DIAS

 AUTARCAS E REPRESENTANTES DE DIVERSOS ORGANISMOS REUNIRAM, ESTA SEGUNDA-FEIRA, EM MIRANDELA, PARA PREPARAR AS BASES DESTE PLANO QUE PRETENDE ADOTAR MEDIDAS DE COMBATE À ESCASSEZ DE ÁGUA.


Dentro de três meses vai estar concluído o Plano Regional de Eficiência Hídrica de Trás-os-Montes e Alto Douro com uma série de medidas de combate à escassez hídrica, uma situação que tem vindo a agravar-se e com perspetiva de intensificação devido ao efeito expetável das alterações climáticas.

Esta segunda-feira, Mirandela acolheu a segunda reunião de preparação deste plano, para uma avaliação das disponibilidades e os consumos hídricos atuais e encontrar novos caminhos para a mitigação do problema em estreita articulação entre a administração e os utilizadores.

“No fundo, é tentar perceber aquilo que aconteceu no passado devido à seca, e houve sistemas que estiveram próximos da rutura, que são vulneráveis neste contexto de mudança de clima, que nos diz que vamos ter menos água no futuro e água que vamos ter mais concentrada, pelo que estamos a trabalhar aqui com a região, com os municípios e também com a agricultura para perceber aquilo que é a necessidade da região do ponto de vista da água e desenhar medidas para adaptar esta região àquilo que o clima nos diz que no futuro vamos ter menos água”, adianta o vice-presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), revelando ainda que foram criados três grupos de trabalho. “Um grupo ligado aos sistemas urbanos, outro grupo de trabalho ligado à agricultura e um outro grupo ligado às questões da governança. No fundo é olhar para a região, perceber aquilo que são os desafios da região do ponto de vista da água, percebendo que o clima está a mudar, percebendo que as altas temperaturas vão impactar no território e adaptar a região a essa nova realidade”, sublinha Pimenta Machado.

Criar regadio, charcas, mas também medidas de uso eficiente da água é o objetivo do Plano Hídrico de Trás-os-Montes e Alto Douro que deve estar concluído dentro de 90 dias.

Esta segunda-feira, decorreu em Mirandela, a segunda reunião para preparar as bases que contou com representantes da APA, Direção Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural, Comunidades Intermunicipais das Terras de Trás-os-Montes e Douro, Águas de Portugal, Região Hidrográfica do Norte, Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte e Federação Nacional de Regantes de Portugal.

Uma nova reunião preparatória está agendada para 28 de agosto em Alijó.

Artigo escrito por Fernando Pires (jornalista)

ALDEIA DE FREIXIEL MANTÉM VIVA TRADIÇÃO DO FOLCLORE

I Festival do Careto trouxe amantes da música tradicional da Podence

VI Feira Romana em Lamalonga

 Nos próximos dias 5 e 6 de Agosto, vão ser muitas as atividades que pode participar na localidade de Lamalonga, no concelho de Macedo de Cavaleiros.

Para as Senhoras relembrarem tempos idos. Reparem nos requisitos de admissão - 1970

1945 – Pavimentação e abertura da Rua Guerra Junqueiro

12 mulheres do Parque de Montesinho vão ser «Guardiãs da Natureza»

Amo(-te)

Por: Paula Freire
(colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


Amo.


Amo essa coisa fabulosa que escuto de nós nas páginas do livro que escrevemos juntos. O contorno dos dias que persistem amargos mas que não deixamos tremer porque, com os olhos húmidos de força, empurramo-los contra as paredes dos espaços e fragmentamo-los como cascas secas por cima das raízes que soltam as escuridões.
Amo os instantes espantosos que faltam ao coração do mundo e que, juntos, tornamos ambiciosos. Deles fazemos segundos, vestidos com a essência de um milagre. O que os outros desconhecem por nunca se terem descoberto no mergulho pleno das coisas simples.
Temos dedos que são ternura aconchegante na neve fria que o passado nos deixou.
Por que haveríamos de chorar se todos os abraços que damos aquecem o sangue dessa alma que nos pertence?
Por isso nos rimos, tantas vezes, nos dias de cor que são escuro vazio lá fora.
Amo esta franqueza cúmplice isenta de mágoas onde preferimos deitar-nos, com a proximidade compreensiva de quem já alcançou a lição superior da sabedoria.
E amo ainda o silêncio de uma tarde adormecida quando o fogo não arde no corpo. A sombra do mar a guardar conchas desertas sobre a palma das nossas mãos. Tão surdas de beleza! Mudas daqueles versos a que só o olhar consegue dar voz. Porque também há silêncios assim, ancorados no peito, nus, que nos respiram fundo, que nos levam longe, com os olhos inundados de gritos inconfessados.
Sabemo-nos e não julgamos: cada um tem em si um mundo inviolável e uma casa única feita de muitas páginas, que se arrastam no compasso do tempo.
Compreendemos e não precisamos de desvendar. Afinal, somos felizes agora com tudo o que nos beija os sonhos. 
Partilhamos o caminho descalço sobre os ombros da vida, na rejeição do tanto que não nos tenha sabor. Só para não corromper a definição delicada do que chamamos, hoje, de felicidade.
Sim, meu amor, amo a sedução da valsa que dançamos em uníssono como uma memória viva de um sol antigo que não entendemos.
Talvez o sorriso nos conte, um dia, que são apenas detalhes invisíveis de uma formidável repetição recriada pelo infinito e pela indelével fragrância que perdura além do impossível.

Amo-te.

Paula Freire
- Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside atualmente em Vila Nova de Gaia, Portugal.
Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas do Desenvolvimento Pessoal e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada.
Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna e com o coração em Trás-os-Montes pelo elo matrimonial, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias.
O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora das imagens de capa de duas obras lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021: Cultura sem Fronteiras (coletânea de literatura e artes) e Nunca é Tarde (poesia).
Prefaciadora do romance Amor Pecador, de Tchiza (Mar Morto Editora, Angola, 2021) e da obra poética Pedaços de Mim, de Reis Silva (Editora Imagem e Publicações, 2021).
Autora do livro de poesia Lírio: Flor-de-Lis (Editora Imagem e Publicações, 2022).
Em setembro de 2022, a convite da Casa da Beira Alta, realizou, na cidade do Porto, uma exposição de fotografia sob o título: "Um Outono no Feminino: de Amor e de Ser Mulher".
Atualmente, é colaboradora regular do blogue "Memórias... e outras coisas..."-Bragança, da Revista HeliMagazine e da Revista Vicejar (Brasil).
Há alguns anos, descobriu-se no seu amor pela arte da fotografia onde, de forma autodidata, aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza, sendo administradora da página de poesia e fotografia, Flor De Lyz.

O motim do Seminário - Terceira fase da questão

 
...continuação

A terceira fase da questão vem a ser quando o motim do Seminário de Bragança e factos correlativos foram levados para as duas casas do Parlamento.
A 15 de Abril de 1905, o ministro dos Negócios Eclesiásticos José Maria de Alpoim de Cerqueira Borges Cabral fez publicar uma portaria (770) referente a esses acontecimentos.
Essa portaria faz referência aos seguintes documentos: Relatório do governador civil de Bragança, Álvaro de Mendonça Machado de Araújo, de 24 de Dezembro de 1904, que historia os acontecimentos sucedidos pelas onze horas da noite de 12 para 13 de Dezembro de 1904; outro do mesmo de 1 de Fevereiro seguinte narrando os factos ocorridos por ocasião da afixação do Edital-sentença do prelado, de 23 de Janeiro de 1905; uma investigação administrativa, feita perante o comissário de polícia, em que depuseram várias testemunhas sobre os aludidos acontecimentos; um ofício do prelado dirigido à secretaria dos Negócios Eclesiásticos e de Justiça em 30 de Janeiro último com uma cópia do Edital sentença; uma representação do comício celebrado em Bragança a 2 de Fevereiro de 1905 assinada por uma comissão eleita pelos cidadãos ali reunidos, na qual se pedem ao governo providências contra as expulsões perpétuas e temporárias ordenadas pelo Edital-sentença; outro ofício do prelado de 17 de Fevereiro de 1905, onde relata os factos que o levaram a encerrar o Seminário e afirmando os seus propósitos de clemência com relação aos alunos condenados logo que se justificassem e mostrassem arrependidos; outro do mesmo de 7 de Abril de 1905 dirigido à Secretaria de Estado dos Negócios Eclesiásticos e da Justiça, participando ter mandado reabrir no dia 3 do mesmo mês as aulas do curso teológico do Seminário, por um acto espontâneo da sua benevolência, pelos motivos que constam da sua Provisão de 19 de Março de 1905, declarando mais que as suas investigações sobre o apuramento de responsabilidade do crime de 12 de Dezembro de 1904 vão continuar, reservando-se julgá-las como for de justiça.
Esta portaria, que o ministro procurou conformar com a carta de lei de 1845 referente aos seminários, pretendia arrogar ao Estado poderes de inspecção sobre estes estabelecimentos que efectivamente tem, mas só no respeitante à instrução, para que neles se não ensinem doutrinas revolucionárias ou adversas aos interesses do Estado e não sobre castigos e expulsões de alunos, como a portaria queria impor, ao contrário do que sempre os bispos têm feito, sem precisar da autorização do governo; quando muito, neste particular terá o governo direito de inspecção simplesmente para confirmar a resolução dos bispos que são os juízes próprios de tais estabelecimentos e nunca os poderá obrigar a readmitir alunos expulsos.
Que absurdo não seria um ministro do governo temporal do reino ingerir-se em questões espirituais e obrigar a abrir o Seminário a um aluno expulso, por exemplo, por falta de vocação eclesiástica?! É porventura o ministro o juiz competente para decidir dessa vocação? E ainda que violentamente o fizesse, como obrigar depois o bispo a conferir-lhe ordens? De resto, consultem-se os Relatórios das contas da Bula da Cruzada e ver-se-á como em quase todos os anos tem havido expulsões de alunos nos diversos seminários do reino e colónias sem que para isso os prelados precisassem de consultar o ministro.
A portaria escandalizou sobremodo os crentes pelos moldes ultra-regalistas em que era vazada. A celeuma que ela levantou foi enorme; a imprensa católica verberou-a unanimemente.
Na sessão da câmara dos deputados de 5 de Maio de 1905 o Deputado nacionalista pelo Funchal, cónego António Homem de Gouveia, pronunciou contra ele um veemente e erudito discurso, demonstrando a sua inanidade, a que respondeu fugindo da questão o ministro seu autor, o qual, à míngua de argumentos sólidos que pudesse contrapor aos irrefutáveis do contendor, se espraiou em banalidades retóricas entrelaçadas com a história do motim, que dera causa à portaria, amalgamando no todo umas anedotas que quis fazer passar por factos históricos e são apenas frutos de pouca crítica e mal digeridas leituras. Vejam os curiosos o seu discurso, confrontem-no com as fontes originais a que alude em vaga reminiscência de ciência de livreiro, e depois avaliarão a mísera e pobre bagagem científica, a vacuidade desse homem público, aliás talentoso jornalista político.
Também na sessão da Câmara dos Pares de 8 de Maio, o arcebispobispo do Algarve e o arcebispo de Évora esfarraparam por completo a célebre portaria mostrando a sua absoluta inanidade, terminando o do Algarve por declarar que continuaria a administrar o seu Seminário como se não houvesse tal portaria. Então, José de Alpoim, ministro da portaria, atrapalhado, perdido, sem achar argumentos para replicar, como quem sentindo fugir a terra debaixo dos pés se agarra, na ânsia do náufrago, a quanto apanha, gritou solene em ar de quichotesco pimpão: «o illustre prelado e os outros soffrerão as consequencias», ao que numa firmeza de convicção profunda, digna de um mártir dos primeiros séculos, replicou respeitador, mas resoluto, o arcebispo-bispo do Algarve «pois se tem meios para obrigar os bispos a cumprir a sua portaria, recorra a elles. A minha obediencia e a dos meus collegas ás leis do Estado é perfeita e absoluta; mas se o governo tentar coarctar a minha liberdade espiritual, eu e os meus collegas, em cujo nome ouso fallar, saberemos recorrer á firmeza e abnegação apostolica para oppôr ás resistencias a que queiram sujeitar-nos».
Três dias depois caía o ministro da Justiça e dos Negócios Eclesiásticos, José de Alpoim, autor da portaria de 15 de Abril, aparentemente por causa da questão dos tabacos mas na realidade...
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(770) Diário do Governo de 18 de Abril de 1905.
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Ainda não estava terminado tudo; quando foi do discurso do deputado cónego António Homem de Gouveia, dos padres presentes à sessão nenhum o cumprimentou, como é de uso, mostrando assim que eram solidários com o ministro José de Alpoim, negando-lhe também, juntamente com os mais membros da câmara, autorização para replicar ao discurso do ministro.
A Palavra publicou em parangona os seus nomes com estes dizeres:
«Ahi estampamos hoje uns nomes que lembrarão sempre a cobardia e traição á causa catholica, por não terem querido cumprir o seu dever na memoravel sessão de 5 do corrente (maio), na camara dos senhores deputados:
Reverendos Vieira de Castro, Alfredo Brandão, Ribeiro Coelho e conego Caldeira.
Que ninguem os esqueça e perca de vista para lhes chegarem uma gamella», e ainda outros mais pesados em diversos números, ao mesmo tempo que inseria artigos de padres que apreciavam muito desfavoravelmente o proceder destes deputados, chegando até a insultá-los.
A 10 de Junho de 1905, o prior de Santos-o-Velho, de Lisboa, doutor João Baptista Ribeiro Coelho, um dos alvejados, mandou levantar processo-crime contra Vicente da Fonseca, editor de A Palavra, e mais os padres seguintes:

Joaquim Manuel Gonçalves e Camilo José de Sousa, de Braga.
Joaquim Gomes da Costa Subida, de A-Ver-o-Mar.
Manuel da Assunção Pereira, de Penedono.
Álvaro Fernandes da Silva Guimarães, de Santo Tirso.
Manuel José Fernandes, de Braga.
Carlos N. de Azevedo, de Braga.
Marques Lima, de Chorente.
Domingos Ferreira de Araújo, de S. Pedro de Arcos.
Adriano Fernandes Gouveia, Manuel de Espírito Santo, Joaquim
Vieira da Rosa e Júlio Pereira Roque, de Porto de Mós.
Domingos Peixoto Ferreira Gomes, de Braga.
Joaquim da Rocha Rodrigues Moreira, de Belas.
Domingos Manuel Pires, natural de Macedo de Cavaleiros e pároco
de Castelãos.

Por último, Ribeiro Coelho, que, esquecido do que vinte e um anos antes escrevera em O Beneplácito, parecia dar à casca com o sobriquete de Judas da causa católica, mandou suster o processo vendo que A Palavra, atribuindo-se honras de mártir, continuava cada vez mais entusiasmada a bordar comentários irónico-sarcásticos sobre a sua pessoa.
A 8 de Maio de 1905, todos os prelados do reino dirigiram colectivamente ao rei uma mensagem representando contra a portaria de 15 de Abril na parte que parecia coarctar-lhes a liberdade de poderem, na regência e administração dos seus seminários e, em especial, na correcção ou perdão dos alunos, usar tão livremente como até então dos direitos e atribuições que os cânones lhes conferem e as leis civis lhes reconhecem, ao que o governo respondeu publicando a portaria de 7 de Junho de 1905 quase idêntica, nos intuitos regalistas, à primeira.
O denodo com que o arcebispo-bispo do Algarve e o arcebispo de Évora pugnaram pelas liberdades da Igreja valeu-lhes serem a 12 de Julho de 1905 condecorados com uma medalha de ouro, das que se costumam cunhar pela festa do príncipe dos Apóstolos em Roma enviada pelo Santo Padre, e uma de prata nas mesmas condições ao cónego Homem de Gouveia, que vindo ao Porto e Braga a convite dos Centros Nacionalistas dessas duas cidades, foi recebido em triunfal ovação e muito festejado em lautos jantares dados em sua honra.
Entretanto, a anarquia favorecida pela autoridade administrativa continuava a lavrar em Bragança: o prelado veio em Abril desse ano de Coimbra para onde se retirara a benzer os santos óleos e a conferir ordens por ocasião da Semana Santa a Vila Flor, na sua diocese, e mandou ir algumas alfaias sagradas de Bragança, que partiram a 19 desse mês. Uma horda de arruaceiros tentou impedir a saída delas, tendo o abade José Cardoso Figueira, que as acompanhava, de partir ocultamente em carro da mala de Vinhais à meia-noite desse dia.
Enfim, o vento da insânia de tal modo caotizara e empolgara os espíritos em Bragança que, segundo disse A Palavra de 20 de Julho de 1905, em correspondência de Lamego, sete alunos de preparatórios do Seminário de Bragança que ali foram fazer exame de Ciências Naturais, ficando quatro deles reprovados, insultaram pessoalmente um dos examinadores, dirigindo-lhe palavras afrontosas, bem como aos outros membros do júri a ponto de ser preciso que a polícia vigiasse sobre eles, no intuito de evitar maior mal, o que, atento aos precedentes que temos dito, causou péssima impressão e acarretou triste fama aos estudantes de Bragança.
A 12 de Junho de 1905 reúne-se a congregação dos professores do Seminário, como tinha de costume, ao encerrar o ano lectivo para apurar os alunos que deviam entrar a exame, quando estes deviam começar e a ordem que haveria neles. A esta congregação foi presente uma ordem do prelado onde «determinava que os actos do curso theologico começassem no dia 15 para todos os alumnos internos, devendo continuar até seu termo, e sendo preteridos todos os alumnos externos do mesmo curso a cujo respeito Sua Ex.ª Rev.ª providenciaria brevemente por modo que no fim do actual mez todos os exames estivessem concluidos».
Em harmonia com esta ordem, foi mandado afixar o edital dos exames.
Mas O Nordeste – a quem principalmente cabem as responsabilidades desta malfadada campanha e que em todos os números vinha cheio de insultos ao prelado malsinando todas as suas intenções, espalhando, para manter o fogo satânico e dementar mais ainda, se fosse possível, os estudantes e famílias, perante as quais se queria mostrar como defensor desinteressado da sua causa, quando apenas armava iniquamente a efeitos eleiçoeiros e anti-religiosos, os mais encontrados e mentirosos boatos: que o bispo ia resignar, nomeando até quem lhe ia suceder; que Roma lhe cassara o poder de confirmar ordens, que a licença pedida para não residir na diocese era para encobrir a vergonha de estar suspenso de conferir ordens; que não mais voltaria a Bragança, etc. –, O Nordeste, dizíamos, apesar de órgão da autoridade administrativa, não cessava de excitar os espíritos, concorrendo assim para a subversão da ordem social e do princípio da autoridade, e de estampar em parangona nas suas colunas os mais irritantes comentários à ordem do prelado tendentes a persuadir que os alunos externos não seriam admitidos a acto, quando o prelado mandara proceder assim porque estava consumida a verba para sustento dos alunos e não queria deixar endividar o estabelecimento, visto que para os fins da instrução nada importava fazerem-se os actos quinze dias antes ou quinze dias depois, e sendo primeiro os dos alunos internos, resultava uma economia passante de cem mil réis.
O efeito não se fez esperar. No primeiro dia de actos alguns dos alunos, cujos nomes deixámos marcados com o sinal *, apresentaram-se neles e violentamente intimaram ordem de despejo aos examinadores, declarando-lhes mui formalmente que ou eles eram os primeiros a ser examinados ou não deixavam fazer exames! Em vão o governador do bispado, chantre Sebastião Luís Martins, lhes explicava as razões por que o prelado obrara assim, em vão se comprometia debaixo da sua palavra e dignidade a que infalivelmente fariam acto, logo que terminassem os dos internos: a nada atenderam, foram examinados em primeiro lugar e aprovados.
E porque não? Se davam tão frisantes provas da sua cordura e mansidão evangélica!
Queremos dizer, as explicações e compromissos do chantre governador convenceram-nos da sinceridade que presidira à ordem do prelado, resignavam-se já a fazer acto depois dos internos, mas saindo e contando a seus maquiavélicos mentores a resolução final, estes, que só em actos violentos fundamentavam o bom êxito de seus planos, obrigaram-nos a dar o dito por não dito.
As veras com que O Nordeste se empenhou nesta desgraçada questão foram de tal ordem que o doutor em medicina António Augusto Gonçalves Braga, antigo deputado da nação, professor no liceu de Bragança e hoje no de Lisboa onde exerce o lugar de guarda-mor de saúde, criatura muito do governador civil, se despediu de uma cadeira que regia no Seminário e não quis fazer parte do júri dos exames de Física, como costumava todos os anos. Esta recusa ridícula pelas pouco honrosas e deprimentes razões que a motivavam, pois alvejava simplesmente desgostar o prelado, causou na ocasião, por ser à última hora, algum transtorno que por último se remediou indo Patrocínio Felgueiras, professor da Escola Distrital, e Joaquim Mendes Pereira, intendente de pecuária, servir de membros do júri daquela disciplina.
A 19 de Março de 1906, caiu o ministério progressista presidido por José Luciano de Castro, o seu representante em Bragança foi substituído por António Joaquim Ferreira Margarido, natural de Moncorvo, nomeado governador civil pelo ministério regenerador Hintze Ribeiro, e o prelado, que se retirara da diocese em fins de 1904, pouco depois do motim, pôde enfim voltar a Bragança a 5 de Abril de 1904, onde foi recebido com ânsia pelos seus admiradores e crentes sinceros, assistindo às funções públicas religiosas, Semana Santa, bênção dos santos óleos, visita das igrejas em sexta-feira maior, procissão do Corpus Christi e outras, conferindo ordens, exercendo, enfim, todas as funções episcopais sem que acto algum desrespeitador surgisse a traduzir menos consideração para com ele da parte de seus súbditos. De onde se vê quanto se enganava O Nordeste quando afirmava que jamais poderia voltar a Bragança, e realmente assim seria se a situação política se conservasse.
E tanto isto é assim que, sendo a 17 de Maio do mesmo ano substituído o ministério Hintze Ribeiro por outro presidido por João Branco e, conseguintemente, vindo novo governador civil, as coisas continuaram pela mesma forma e o prelado a ser respeitado e acatado geralmente.
O Nordeste continuou, ainda assim, na tristemente célebre campanha.
Por último, até um dos seminaristas expulsos, o subdiácono António Guilhermino Lopes,  despejou naquele periódico, melhor coluna de pasquimo, duas ou três correspondências menos respeitadoras para o bispo.
E, de repente, em fins de Junho de 1906, deu por terminada a questão.
Não pouco concorreu para isso uma secção aberta na Gazeta de Bragança pelo autor destas linhas, debaixo do título de «Coerências», onde durante meses se foram transcrevendo apreciações justamente honrosas feitas ao prelado por aquele semanário nos anos anteriores a feição episcopófoba que tão maus resultados lhe deu, pois comprometeu mais os rapazes que, excitados por ele, não recorreram logo como deviam à humildade e arrependimento; desgostou o clero seu assinante e correligionário político, muito do qual, descontente pela guerra injusta movida ao seu superior hierárquico, deixou tal assinatura e credo político; abalou o princípio da autoridade eclesiástica e também civil, pela fautoria concedida às manifestações tumultuárias, e escandalizou os crentes e mesmo os que o não eram, mas que, rectos em seus sentimentos, viam com indignação a leviandade a injustiça da inglória campanha.
Também para que o ridículo viesse juntar-se ao condenável, a 14 de Junho de 1906 o subdiácono António Guilhermino Lopes abriu em O Nordeste uma subscrição fazendo apelo às almas generosas e «sedentas de justiça» (?!) para levar um recurso à coroa contra as determinações do prelado, tendo em menos conta o cânone Recorrentes, da Constituição Apostolicae Saedis, que a um aspirante ao sacerdócio devia merecer mais consideração. Os motivos do recurso à coroa expandia-os o dito ex-seminarista em artigo insultuoso ao sr. D. José Alves de Mariz, publicado no mesmo periódico. A subscrição não chegou a render uma dúzia de mil réis e o recurso nunca apareceu.
Para terminar: talvez alguém queira ver motivos apaixonados no que fica escrito sobre esta questão; declaramos, porém, que procuramos ser o mais imparcial possível. Seguimos sempre o partido regenerador, mas nenhuma má vontade nos moveu contra os progressistas onde contavamos amigos; também muitas vezes fomos insultado na imprensa por causa de escritos que publicámos sobre o assunto e outras vezes ferido com alusões malévolas. Resta-nos a satisfação de poder declarar que não correspondemos na mesma moeda aos que assim nos tratavam nem nunca deixámos de lhes falar.

continua...

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA