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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

“A ULS do Nordeste sofreu nos últimos anos uma profunda mudança estrutural”

 A ULS do Nordeste tornou-se a primeira do interior e da zona de fronteira a garantir médico de família a todos os utentes. Em entrevista, Filipa Faria, diretora clínica para os cuidados de saúde primários da ULS, explica como foi possível alcançar o grande desejo de dar médico a toda a população, quando em 2023 não havia uma única unidade de saúde familiar na região.


Quais os principais desafios que a ULS Nordeste enfrenta por estar numa zona rural?

A ULS do Nordeste reúne a particularidade de ter como área de abrangência o distrito de Bragança, tendo uma cobertura de 6608 km². Esta dispersão geográfica, aliada à baixa densidade populacional e numa área com um índice de envelhecimento elevado, representam os maiores desafios estruturais, obrigando a estratégias específicas por áreas sociogeodemográficas, com vista à garantia de equidade ao acesso dos cuidados de saúde e à qualidade dos mesmos.

Como têm ultrapassado esses problemas?

A reforma dos cuidados de saúde primários como linha estratégica nacional, encabeçada pela generalização do modelo B das unidades de saúde familiares (USF), resultou numa visão estratégica de reorganização dos cuidados de saúde primários na ULS do Nordeste. Esta visão permitiu uma reestruturação integrativa e centrada no utente, dando primazia à proximidade de cuidados e à otimização dos recursos disponíveis.

“Não se pode tratar por igual o que na sua génese é desigual, tal como não se pode abordar a coesão territorial sem aferir a equidade do acesso e da acessibilidade de cuidados numa gestão que se faz primariamente local” 

Sentem apoio por parte da Tutela ou a Medicina rural ainda é considerada como menos importante?

Recebemos total apoio da tutela e nas linhas por eles delineadas tendo em conta a nossa realidade. A maior dificuldade que enfrentamos centra-se nas condicionantes estruturais destes territórios, situações essas vertidas numa gestão de proximidade e numa dinâmica como a nossa de Unidade Local de Saúde (ULS). Não se pode tratar por igual o que na sua génese é desigual, tal como não se pode abordar a coesão territorial sem aferir a equidade do acesso e da acessibilidade de cuidados numa gestão que se faz primariamente local. Este prisma apenas é possível se alinhados num planeamento estratégico com a tutela e demais estruturas do Serviço Nacional de Saúde (SNS), numa postura concertada e coordenada de cuidados, melhorando proporcionalmente os indicadores de saúde e o desenvolvimento destas regiões. A sustentabilidade do SNS e da ULS do Nordeste estão intrinsecamente ligadas a estas políticas públicas de saúde preconizadas pela tutela, pelo que é indissociável uma visão sem a outra.

Na sua opinião, dever-se-ia apostar mais na formação em meio rural durante o curso e o Internato?

As estratégias de sustentabilidade dos territórios têm que obrigatoriamente firmar-se através da fomentação da formação pré-graduada e pós-graduado, tanto em medicina, como enfermagem, como em outras áreas de abrangência da atividade dos profissionais. É fundamental que não só a formação seja um momento de aquisição de competências e atualização de conhecimentos, como também janelas de oportunidade de redução de estigma associado a territórios menos densos. A visão holística necessária ao desenvolvimento das suas atividades, assim como o necessário e imprescindível determinante social tão diferenciador nestas áreas do domínio da saúde, permitem que a formação aqui seja um diferencial positivo para estes profissionais. De realçar também o papel preponderante que a formação tem na fixação e captação de recursos humanos, uma vez que permite desde muito cedo que estes profissionais desenvolvam competências ajustadas ao contexto local e aumentem a probabilidade de escolha futura destas áreas para o desenvolvimento das suas carreiras.

“Tornar um determinado território atrativo e com capacidade de fixação é uma missão que cada vez mais se quer conjunta”

Como se poderá atrair mais médicos para as regiões mais rurais? Na ULS Nordeste têm alguma medida neste sentido?

Na área dos cuidados de saúde primários é fundamental catapultar a integração de cuidados da esfera meramente de ULS para a esfera de sistema local de saúde. Tornar um determinado território atrativo e com capacidade de fixação é uma missão que cada vez mais se quer conjunta. Em estreita colaboração com os municípios e outros parceiros estratégicos, procurando complementaridade de resposta, numa visão conjunta de aumento da melhoria contínua da qualidade dos serviços de saúde, alinhados com as necessidades específicas de cada população. Paralelamente é fundamental a gestão criteriosa destes recursos humanos, valorizando as suas condições de trabalho e fomentando a sua formação contínua em proximidade. Fazendo gestão da carga horária tendo por base o território, numa partilha dos processos de decisão que permitam a satisfação do profissional, sempre numa senda estrutural de governação clínica que permitam um nível de cuidados sustentados numa relação de confiança entre profissionais, utentes e comunidade.

O Governo quer apostar em USF modelo C. Fazem sentido na vossa região?

A ULS do Nordeste sofreu nos últimos anos uma profunda mudança estrutural. Em 2023 esta área de abrangência não tinha unidades funcionais em modelo USF e neste momento conta com 11 USF modelo B já em funcionamento, mais uma candidata. Esta mudança estrutural aliada aos procedimentos concursais, permitiu uma cobertura integral de médico de família, com a respetiva estabilidade de equipas, pelo que não se prevê necessidade do alargamento do modelo C de USF a este território.

O curso de Medicina da UTAD poderá vir a atrair mais colegas para a região?

Tal como anteriormente descrito, a formação pré-graduada nestas áreas permite não só uma capacitação diferenciadora de cuidados, como também um potencial efetivo de ganho de competências que podem atrair outros profissionais médicos a estes territórios.

“Não sendo a ruralidade uma característica nem uma definição, é sem dúvida um fator preponderante para o desenvolvimento de um clínico mais capaz, com competências acrescidas, autónomo e integrativo”

Quais as mais-valias de se ser médico de família nas zonas rurais? 

Um forte indicador preditivo positivo da atividade do médico de família é o desenvolvimento de determinantes profissionais que reflitam uma atividade centrada no utente. Este potencial diferenciador do médico de família, quando comparado a outras áreas da medicina, é sinónimo indicativo de uma maturidade de governação clínica apenas passível de crescimento em territórios com condições sociogeodemográficas muito específicas como a nossa. Não sendo a ruralidade uma característica nem uma definição, é sem dúvida um fator preponderante para o desenvolvimento de um clínico mais capaz, com competências acrescidas, autónomo e integrativo. A mais-valia não é assim, sob a minha perspetiva, intrínseca ao médico, mas sim sinal dos desafios que a própria comunidade lhe impõe e exige. É uma janela de oportunidade única de se fazer uma medicina mais abrangente, humanizada e sobretudo mais centrada na comunidade e no utente.

Maria João Garcia

No próximo dia 26 de agosto, Vimioso recebe mais uma noite muito especial

 A Igreja Matriz de Vimioso será palco da passagem da Tournée 2026 dos Mâles au Chœur de Tolosa, num encontro onde as polifonias occitanas, a tradição e a partilha prometem encher de música o coração do País Mirandês.

26 de agosto
21h30
Igreja Matriz de Vimioso

Esperamos por todos para vivermos juntos esta noite de cultura, música e emoções.

PJ investiga incêndio que atingiu sete veículos junto o rio Fresno

 Quatro veículos ficaram destruídos e três danificados esta segunda -feira de madrugada, em Miranda do Douro, distrito de Bragança, na sequência de um incêndio que está a ser investigado pela Polícia Judiciária (PJ), disse fonte da Proteção Civil.


De acordo o comandante sub-regional das Terras de Trás-os-Montes, João Noel Afonso, há registo de quatro veículos que ficaram completamente destruídos e três danificados na sequência de um incêndio, cuja origem está a ser investigada.

“O incêndio foi registado na margem do rio Fresno, junto à cidade de Miranda do Douro, e a origem não é clara. A PJ encontra-se no local e está a investigar as causas do incêndio”,

O alerta foi dado às 01:02 e no local estiveram 19 operacionais, apoiados por cinco viaturas.

Francisco Pinto

Festas, Festividades e Eventos

Vindima começa mais cedo no Douro e em Trás-os-Montes

 A vindima começou este ano mais cedo no Douro e em Trás-os-Montes, com o avanço do ciclo das vinhas a antecipar o período de colheita.


Na Quinta da Silveira, no Vale da Vilariça, a apanha começou a 29 de julho, como conta o sócio-gerente da Quinta da Silveira, Manuel Maria Martinho:

“Com estas alterações climáticas, estamos a começar a vindimar cada vez mais cedo. As uvas e as videiras têm o seu ciclo muito mais adiantado e aquilo que, numa vindima normal, há 10, 15 ou 20 anos, começava no Douro a partir do início de setembro, nós, por exemplo, este ano tivemos que começar nos últimos dias de julho. Começámos propriamente a vindimar no dia 29 de julho.”

Em Alfândega da Fé, a vindima das castas brancas já terminou. Segundo o engenheiro de produção dos vinhos Ninho da Pita, Vítor Rabaçal, a colheita das tintas deverá arrancar na primeira semana de setembro:

“Nós já iniciámos a vindima dos brancos, já concluímos a vindima dos brancos e devemos arrancar, em princípio, na primeira semana de setembro com a vindima dos tintos. O que aconteceu este ano foi que veio o calor muito mais cedo, ou seja, tivemos uma primavera mais quente do que o normal e isso antecipou o ciclo. Temos aqui cerca de 15 a 20 dias de ciclo avançado, o que faz com que tenhamos as vindimas de uma forma mais precoce. Não é necessariamente um problema muito grave do ponto de vista da vinificação, é mais um problema do ponto de vista logístico, de mão de obra e tudo mais.”

As temperaturas elevadas e a ausência de precipitação em julho têm obrigado a um acompanhamento mais rigoroso da maturação das uvas, como explica Manuel Maria Martinho:

“Nós temos o problema do excesso de temperatura e da falta de água, porque julho foi um mês em que praticamente não choveu. Normalmente há sempre umas chuvas que vêm ajudar, principalmente nas vinhas que não são regadas. Nós temos uma parte de vinha que é regada, porque faz parte aqui da zona do regadio do Vale da Vilariça, e temos outras que não são regadas, que são de monte e em zonas xistosas, onde não há regadio. Portanto, temos que jogar com essas duas situações.”

Apesar das condições meteorológicas, as expectativas quanto à produção e à qualidade são positivas:

“Muito altas, muito altas. Como lhe disse, tivemos um inverno muito generoso, muito confortável para a vinha. A vinha está sã, temos muita folha verde. Então, a produção está a ser feita de uma forma mais confortável, se comparada com outros anos. Portanto, o prognóstico é muito positivo.”

Na Quinta da Silveira, a previsão é também de uma produção superior à registada no ano passado, embora a evolução da campanha continue dependente das condições meteorológicas:

“Pelo menos na minha zona, penso que há mais uvas este ano do que houve no ano passado. O ano passado houve muita coisa que se estragou, foi um ano um pouco atípico, com vários problemas. Este ano acho que temos um bocadinho mais de uvas, sim. A qualidade parece boa. Há zonas onde a produção é mesmo bastante boa e há outras com produção um bocadinho menor. Agora ainda estamos na expectativa do que vai suceder com o calor que vai continuar durante a vindima e se vai haver chuva ou não.”

A campanha decorre num contexto de redução do consumo mundial de vinho. Vítor Rabaçal aponta a aposta na qualidade e na diferenciação como uma das respostas dos produtores:

“Esse é um problema que tem várias respostas, é uma resposta muito longa, digamos que é um conjunto de vários fatores. É um facto que, a nível mundial, o consumo de vinho está um bocadinho em queda. Acho que o caminho que todos os produtores e todas as regiões, e Trás-os-Montes também, têm de seguir é apostar num segmento mais ligado à qualidade, com vinhos mais exclusivos e com um caráter mais vincado.”

A vindima prossegue nas duas explorações, com o momento da colheita a ser ajustado em função da maturação das uvas e da evolução das condições meteorológicas.

A campanha decorre num contexto de menor procura de vinho e de dificuldades na comercialização e valorização da produção. A falta de mão de obra é outro dos constrangimentos apontados pelos produtores, que defendem uma maior aposta na qualidade e na diferenciação dos vinhos.

Fotografia – Olivia´s Winery, Vinhos de Trás-Os-Montes.

Jodie Pinto

domingo, 23 de agosto de 2026

Feira do Azinhoso - 4º Concurso Concelhio da Raça Asinina de Miranda

 A Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino (AEPGA) e a Associação para a Investigação e Valorização Etnográfica e Cultural de Azinhoso (AIVECA), com o apoio do Município de Mogadouro e da Freguesia de Azinhoso, e sob a orientação técnica da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) e da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), promovem, no dia 13 de setembro de 2026, mais uma edição da Feira do Azinhoso – 4.º Concurso Concelhio da Raça Asinina de Miranda.


As feiras desempenharam, historicamente, um papel de grande relevância neste território, com particular destaque para a Feira Anual do Azinhoso, que constituía um importante ponto de encontro para as populações do Nordeste Transmontano, assumindo uma forte influência não só a nível concelhio, mas também regional. Entre os seus principais atrativos encontrava-se a mostra e o comércio de asininos e equinos.

Com o despovoamento do interior e a mecanização da agricultura, a feira foi perdendo expressão ao longo dos anos. Desde 2004, contudo, a AEPGA tem vindo a trabalhar em parceria a AIVECA, com apoio do Município de Mogadouro e a Freguesia de Azinhoso, no sentido de reavivar esta tradição, adaptando-a à realidade atual do território e atribuindo-lhe um novo significado enquanto espaço de encontro e valorização do património rural e cultural da região.

É neste contexto que se insere o Concurso Concelhio da Raça Asinina de Miranda, que tem como principais objetivos:

Homenagear os criadores da Raça Asinina de Miranda do concelho de Mogadouro;

Acompanhar o estado atual da raça no concelho, bem como os progressos alcançados ao nível do seu melhoramento genético;

Valorizar o trabalho dos criadores na seleção, preservação e valorização desta raça autóctone;

Sensibilizar para a importância da criação de asininos segundo elevados padrões de bem-estar animal, contribuindo para a preservação e valorização de um património genético e cultural único em Portugal.

Neste espírito de celebração, encontro e partilha, convidamos toda a comunidade e todos os interessados a participar neste dia dedicado ao Burro de Miranda e, em particular, a marcar presença no almoço-convívio com os criadores da Raça Asinina de Miranda, que terá lugar no dia 13 de setembro, pelas 13h00, na aldeia de Azinhoso.

Para além da sua dimensão cultural e patrimonial, a iniciativa assume igualmente uma importante dimensão económica, turística e social, prevendo-se a participação de criadores, técnicos, representantes institucionais e visitantes provenientes de diferentes regiões de Portugal e de Espanha.

A Feira constitui, assim, uma oportunidade para promover o território, valorizar os seus recursosendógenos e contribuir para a dinamização da economia local.

Saiba mais INFORMAÇÕES e consulte o PROGRAMA.

Contamos com a sua presença!

A entrada é livre.

4º Encontro Ibérico de Raças Autóctones | Feira do Naso - 7º Concurso Nacional da Raça Asinina de Miranda

 O Município de Miranda do Douro e a Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino (AEPGA), com a orientação técnica da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) e da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), e com o apoio da Comissão de Festas de Nossa Senhora do Naso, promovem, entre 4 e 6 de setembro, duas iniciativas que afirmam as raças autóctones, as pastagens e o pastoreio extensivo como pilares da gestão sustentável do território e do desenvolvimento rural, reunindo investigadores, técnicos, criadores, decisores públicos e representantes de diversas entidades nacionais e internacionais.


Nos dias 4 e 5 de setembro, o Centro de Formação Agrícola de Malhadas (CAP) e o mini-auditório municipal acolhem o 4.º Encontro Ibérico de Raças Autóctones, integrado nas comemorações do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, proclamado pelas Nações Unidas para 2026. A iniciativa pretende afirmar o papel do pastoreio extensivo e das raças autóctones na gestão sustentável do território, reconhecendo o contributo dos pastores e dos animais em pastoreio para a gestão sustentável das pastagens, a conservação da biodiversidade, a proteção dos solos, a adaptação às alterações climáticas e a vitalidade das comunidades rurais.

Em Portugal, as pastagens ocupam mais de dois milhões de hectares e constituem ecossistemas fundamentais para o equilíbrio ambiental e para a manutenção de sistemas agro-silvo-pastoris de elevado valor natural. A sua preservação depende da continuidade da atividade pastoril e da utilização de raças autóctones, particularmente adaptadas às condições de cada território, enfrentando atualmente desafios como as alterações climáticas e a renovação geracional.

Ao longo dos dois dias serão debatidos temas como a gestão sustentável das pastagens, a conservação da biodiversidade, a prevenção dos incêndios rurais através do pastoreio, a agricultura biológica, a inovação nos sistemas agro-silvo-pastoris, a valorização das raças autóctones e dos produtos locais e o reforço da resiliência dos territórios rurais.

No dia 6 de setembro, o recinto do Naso, na freguesia da Póvoa, recebe o 7.º Concurso Nacional da Raça Asinina de Miranda, integrado nas festividades em honra de Nossa Senhora do Naso. O evento recupera a tradição da antiga feira de gado e constitui um momento de avaliação zootécnica e de reconhecimento do trabalho desenvolvido pelos criadores na conservação e melhoramento do Burro de Miranda, promovendo esta raça autóctone como património genético, cultural e ambiental de excecional valor e como elemento indispensável dos sistemas tradicionais de pastoreio e da gestão sustentável da paisagem.

Paralelamente ao concurso, realiza-se o habitual almoço-convívio entre criadores, instituições e participantes, reforçando o espírito de cooperação e de partilha que caracteriza esta iniciativa.

Com a realização destas iniciativas, Miranda do Douro reafirma-se como um espaço de referência para a reflexão, a cooperação e a partilha de conhecimento em torno dos desafios do desenvolvimento rural sustentável, valorizando as raças autóctones, as pastagens e o pastoreio extensivo como património vivo e ativos estratégicos para o futuro dos territórios rurais.

Saiba mais INFORMAÇÕES e consulte o PROGRAMA do Mini-Curso: Conhecer a Lã para Produzir Fio, Encontro Ibérico de Raças Autóctones e do Concurso Nacional da Raça Asinina de Miranda.

ENTRADA LIVRE, mas sujeita a inscrição AQUI.

Contamos consigo!

CARTAZ

Ilustração | Marcos Oliveira
Design gráfico | MAAN Design

O FIM DA ESPERANÇA


 Já não há ilusões. Depois de termos assistido à degradação da classe política, depois de termos assistido à degradação faseada das instituições, depois de termos assistido ao aumento generalizado da corrupção que tomou de assalto os cofres públicos, depois de termos assistido ao empobrecimento da população, depois de termos assistido à degradação e controle da comunicação social, depois da constante perda de direitos, depois de tudo isto e o mais que aqui não escrevi e sobretudo depois da complacência silenciosa do Presidente da República perante a extrema gravidade do estado da Nação, constata-se que o país está à beira do tombo final. 

Esta partidocracia favorecida por um sistema eleitoral pouco democrático e por uma sociedade alheada dos seus deveres cívicos, conduziu-nos ao precipício. Fez-se uma teia de leis e contraleis que favorecem uns em detrimento de outros, transformaram a justiça em injustiça e tornam intocáveis os controladores do sistema que se posicionam agora acima da lei. O dinheiro está refém de um sistema bancário usurário que cobra muito aos pobres e perdoa muito aos ricos. 

O desenvolvimento do país há muito que sufocou. O património público foi vendido ao desbarato de forma a favorecer os mesmos do costume e este retângulo à beira mar plantado está agora transformado numa colónia de férias de gente endinheirada. Os portugueses nativos, afogados em impostos para pagar as isenções concedidas a quem os devia pagar, há muito que perderam a qualidade de vida e encetaram uma fuga em massa do país que concede mais direitos aos estrangeiros que aos seus próprios cidadãos. A saga da destruição da sociedade e do país no seu todo, segue a sua marcha sem que ninguém a detenha. 

A dependência de países terceiros aumenta a cada dia que passa. Estamos dependentes da alimentação, do vestuário e de outros bens essenciais e para faturarmos alguma coisa dependemos do turismo. Tornamo-nos num pais onde os ordenados e as reformas do povo são na generalidade os mais baixos da Europa e onde simultaneamente se pagam os preços mais altos pelos bens essenciais. O cerco aperta-se, a corda estica e a esperança num pais melhor, justo e promissor, dissipou-se como nevoeiro em dia de ventania. Mais vez a história repete-se e os portugueses nada aprenderam com ela.

Despiste de veículo faz três feridos em Vale Benfeito

 Três pessoas ficaram feridas na sequência de um despiste na Estrada Nacional 102 (EN 102), em Vale Benfeito, no concelho de Macedo de Cavaleiros, na tarde deste sábado.


Um dos feridos, um homem, foi transportado de helicóptero do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) para o Porto, devido à gravidade dos ferimentos.

Também ficaram feridos outro homem e uma mulher, ambos transportados para o Hospital de Bragança.

As vítimas têm idades compreendidas entre os 19 e os 34 anos.

O alerta para o acidente foi dado às 16h30.

No local estiveram 15 elementos dos Bombeiros Voluntários de Macedo de Cavaleiros, apoiados por seis viaturas.

Nas operações de socorro estiveram também o helicóptero do INEM, sediado em Macedo de Cavaleiros, a Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) de Bragança, a Guarda Nacional Republicana (GNR) e a Brigada de Trânsito.

A EN 102 esteve cortada até à conclusão dos trabalhos de limpeza da via.

Maria João Canadas

Dia Internacional em Memória do Tráfico de Escravos e da sua Abolição – 23 de Agosto


 O Dia Internacional em Memória do Tráfico de Escravos e da sua Abolição, assinalado a 23 de agosto, é uma data de profunda importância histórica e simbólica, instituída pela UNESCO para recordar uma das páginas mais sombrias da história da humanidade: o tráfico transatlântico de escravos e a luta pela sua abolição. Esta comemoração não se limita à evocação do passado, mas procura também promover a reflexão sobre as consequências duradouras da escravatura e o combate ao racismo e às desigualdades que dela ainda hoje derivam.

A escolha do dia 23 de agosto não é casual. Esta data remete para a noite de 22 para 23 de agosto de 1791, quando teve início a Revolução Haitiana, na então colónia de São Domingos (atual Haiti e República Dominicana). Foi o primeiro e único levantamento de escravos bem-sucedido da história moderna, conduzindo à abolição da escravatura naquela região e à criação do Haiti como o primeiro Estado independente governado por antigos escravizados.

Este acontecimento teve um impacto profundo no sistema escravocrata das Américas e no mundo atlântico. A revolta demonstrou que os milhões de africanos escravizados não eram apenas vítimas passivas, mas agentes históricos capazes de resistência organizada e de transformação social.

Entre os séculos XVI e XIX, estima-se que mais de 12 milhões de africanos tenham sido capturados, vendidos e transportados à força através do Atlântico. Este sistema brutal, conhecido como comércio triangular, ligava a Europa, a África e as Américas.

Da Europa partiam produtos manufaturados. 
Em África, estes bens eram trocados por seres humanos capturados. 
Nas Américas, os escravizados eram explorados em plantações de açúcar, algodão, tabaco e outros produtos altamente lucrativos. 
Os produtos coloniais regressavam à Europa, alimentando o crescimento económico das potências coloniais. 

As condições da travessia atlântica — conhecida como “Middle Passage” — eram desumanas: navios superlotados, fome, doenças e violência extrema resultavam na morte de milhares de pessoas antes mesmo de chegarem ao destino.

Apesar da brutalidade do sistema escravocrata, a resistência esteve sempre presente. Houve revoltas a bordo dos navios, fugas, formação de comunidades de quilombos e movimentos organizados de insurreição.

Ao longo do século XVIII e XIX, cresceu também na Europa e nas Américas o movimento abolicionista, impulsionado por filósofos, religiosos, ativistas e antigos escravizados. Figuras como Olaudah Equiano, que relatou a sua experiência de escravização, e movimentos como a Sociedade Antiescravatura britânica tiveram um papel fundamental.

Gradualmente, diferentes países foram abolindo o tráfico e a escravatura:

Reino Unido: 1807 (tráfico) e 1833 (escravatura) 
França: 1848 (com interrupções e reintroduções coloniais) 
Estados Unidos: 1865 (13.ª Emenda) 
Brasil: 1888 (Lei Áurea) 

No entanto, a abolição legal não significou o fim imediato das desigualdades nem das formas de exploração.

O Dia Internacional em Memória do Tráfico de Escravos e da sua Abolição não é apenas um momento de recordação histórica, mas também de consciência crítica. Ele convida à reflexão sobre:

O legado do racismo estrutural nas sociedades atuais 
As desigualdades sociais e económicas herdadas do colonialismo 
A importância da educação histórica para combater o esquecimento e a negação 
O reconhecimento da contribuição das populações africanas e da diáspora para a construção do mundo moderno 

A UNESCO promove este dia como parte de uma estratégia mais ampla de educação sobre a história da escravatura e de valorização da memória das suas vítimas, sublinhando que compreender o passado é essencial para construir sociedades mais justas.

Recordar o tráfico de escravos não significa apenas olhar para a dor e a violência do passado, mas também reconhecer a resistência, a dignidade e a humanidade daqueles que foram escravizados. Significa igualmente reconhecer que as consequências desse sistema ainda se fazem sentir hoje, sob formas mais subtis, mas igualmente injustas.

Assim, esta data convida governos, instituições educativas e cidadãos a promoverem o diálogo, a investigação histórica e a educação para os direitos humanos, reforçando o compromisso global contra todas as formas de discriminação e exploração.

Texto: HM - com IA e IN

sábado, 22 de agosto de 2026

Ontem foi noite de Arraial nas Festas de Bragança!

 O Parque Eixo Atlântico encheu-se de música e animação com D.A.M.A, Noz Pimba e o espetáculo “Sai do Chão – Ivete Sangalo”, numa noite que teve ainda como ponto alto um espetáculo de fogo de artifício que iluminou o céu de Bragança.
E antes disso, no dia 20, Bruno Sendas e Sara Correia também fizeram a festa acontecer!

Hoje é o último dia das Festas de Bragança. Vamos terminar em grande!

MARIZA É O GRANDE DESTAQUE DA 29.ª FEIRA DA MAÇÃ, DO VINHO E DO AZEITE EM CARRAZEDA DE ANSIÃES

 Carrazeda de Ansiães prepara-se para receber, entre 28 e 30 de agosto, mais uma edição da Feira da Maçã, do Vinho e do Azeite, um dos principais eventos do concelho e uma das maiores montras dos produtos e tradições locais.


A 29.ª edição reúne cerca de 120 expositores e aposta num programa diversificado, que cruza promoção económica, gastronomia, cultura e entretenimento. A abertura oficial acontece na sexta-feira, dia 28, às 18h00.

Na música, o destaque vai para Mariza, que sobe ao palco principal no sábado, dia 29. A fadista é o nome maior de um cartaz que inclui ainda Dillaz, responsável pelo arranque da programação musical na sexta-feira, e os Vizinhos, que encerram o certame no domingo.

Ao longo dos três dias, haverá também atuações de artistas e grupos locais e regionais, entre eles Super Rua, Moustache Brass Band, Bloquinho Aperta, Reixelo & Amigos e o Grupo de Cantares de Carrazeda de Ansiães. A programação noturna inclui ainda DJ sets e um tributo a Rui Veloso protagonizado por Zé Tó e os Velhos do Jardim.

A gastronomia volta a ter lugar de destaque, com um showcooking do chef Fábio Bernardino, que irá apresentar propostas inspiradas nos produtos e vinhos do concelho.

O programa inclui ainda o tradicional Cortejo Etnográfico, arruadas de bandas filarmónicas e fanfarras, a celebração religiosa dos padroeiros do concelho, fogo de artifício e uma exposição integrada no Concurso Internacional de Fotografia da Sidra.

Mais do que um espaço de animação, a Feira pretende colocar em evidência a maçã, o vinho e o azeite enquanto produtos fundamentais para a economia e identidade de Carrazeda de Ansiães, juntando produtores, visitantes e comunidade local numa celebração que se prolonga durante três dias.

PARQUE NATURAL DE MONTESINHO CELEBRA 47 ANOS COM PROGRAMA DEDICADO AO PATRIMÓNIO E À NATUREZA

 O Parque Natural de Montesinho assinala no próximo domingo, 30 de agosto, o seu 47.º aniversário com um programa que convida a conhecer de perto a riqueza natural, cultural e humana deste território transmontano.


As comemorações arrancam às 09h30, em Carragosa, no concelho de Bragança, com a receção aos participantes e uma sessão de abertura que reúne representantes dos municípios de Bragança e Vinhais, do ICNF, da CCDR-N e o secretário de Estado do Ambiente.

Ao longo do dia, especialistas vão abordar diferentes dimensões do Parque Natural de Montesinho, desde os soutos tradicionais e os bosques de carvalho-negral à fauna e flora, passando pelos modos de vida, tradições e património cultural das comunidades que habitam este território.

O programa inclui ainda uma reflexão sobre o papel dos baldios, do pastoreio extensivo, da agricultura, da floresta e da apicultura na gestão da paisagem e na preservação dos ecossistemas.

Depois do almoço de aniversário, os participantes são convidados a percorrer vários pontos do Parque Natural numa road trip dedicada ao turismo de natureza, com passagem por Carragosa, Parâmio, Zeive, Mofreita, Santa Cruz, Travanca e Zido, incluindo uma paragem no miradouro natural de Travanca.

Em Vinhais, o destaque da tarde vai para a visita a um souto notável, em Zido, e para uma sessão dedicada à preservação de castanheiros antigos enquanto refúgios de biodiversidade. O programa termina com a libertação de uma ave de rapina pelo ICNF e um lanche campestre acompanhado pela música dos gaiteiros de Zido.

A iniciativa pretende assinalar quase cinco décadas de proteção e valorização de um dos territórios naturais mais emblemáticos de Trás-os-Montes, aproximando as comunidades e os visitantes do património que caracteriza o Parque Natural de Montesinho.

Jornalista: Vitória Botelho
Foto: DR

A raia de Trás-os-Montes e Zamora: as suas gentes

 As viagens têm mais valor quando se conhecem pessoas e as suas histórias. Neste caso falamos de pessoas que decidiram ficar e empreender onde muitos não quiseram estar.

A raia de Trás-os-Montes e Zamora sempre foi importante para ambos os lados: as trocas comerciais, os casamentos “mistos”, o contrabando dissimulado, a fauna e flora partilhadas, a semelhança das festas, etc. Hoje existem projetos transfronteiriços e vontade de se ajudarem mutuamente contra males comuns: o abandono jovem que leva ao despovoamento e a falta de investimento.

A fronteira é traçada por homens, através dos rios, serras e vales, mas as gentes da terra não se importam com isso. Nem ditaduras, guerras ou fome travaram o salto para o lado de lá e desde sempre as regiões se conhecem. A raia de Trás-os-Montes e Zamora não é diferente e está intimamente ligada.

Falamos de pessoas resistentes, corajosas, empreendedora, que acreditam que os territórios têm potencial e futuro. Conhecemos algumas pessoas, tanto em Espanha como em Portugal, que nos mostram como é possível ter sucesso em zonas onde os outros não querem ficar.

Somos dois jovens que decidiram sair de “casa”. O Tiago de uma cidade, Fafe, a Raquel de uma aldeia que pertence a Albergaria-a-Velha. Saiu primeiro a Raquel para emigrar com os pais, depois o Tiago para estudar. Mais tarde, ambos “desistimos” do nosso país, saímos para trabalhar e foi nesse contexto emigrante que nos conhecemos, à procura de um emprego melhor, de oportunidades, de crescer. Mas pode-se fazer diferente. Não nos interpretem mal, emigrar é duro e exige coragem, mas ficar num local em que todos nos dizem que não há futuro e tudo fazer para o alcançar tem muito mérito.

Nestes dias na raia de Trás-os-Montes e Zamora conhecemos várias pessoas: a Maria, o Kiko e a Noelia, o Victor, o Vicente, o Mikel, a Patricia, o Gustavo, a Marisa, a Angela e o Acácio, a Sofia, o João, o Sr. Domingos, e muitos mais. O que têm em comum? A sua força e a sua generosidade. Todos nos apresentaram, não apenas o seu negócio, mas também outros negócios locais, com quem formam parcerias. Os vinhos casaram com queijos e enchidos, os alojamentos com todos estes, as atividades lúdicas casaram entre si, mas já lá vamos. Estamos perante pessoas que sabem que chegar longe sozinho é mais difícil, então dão as mãos aos seus vizinhos e avançam todos muito mais.

Zamora

A Maria e os irmãos Kiko e Noelia dedicaram-se ao vinho. Maria tem as vinhas mais altas de denominação de origem Toro e produz o seu vinho de forma ecológica (certificado). O seu irmão trabalha com ela em Sanzoles. Da sua Finca Volvoreta saem dois vinhos: Volvoreta e L´Amphore. Este último produzido em ânforas. Tanto as ânforas como as barricas estagiam numa “bodega” subterrânea com mais de 400 anos. Fez-nos uma visita guiada a algumas das suas vinhas, onde alfazema e águias circulam livremente, produzindo um ecossistema funcional. As águias afastam as corujas, que fazem parte, mas incomodam a produção. Serviu-nos o vinho com produtos Exquisiteza, produtos gourmet da região.

Enologia

Maria tem à volta de 30 anos, mas uma garra que a fez voltar à terra da mãe, no fim do curso de engenharia feito na Galiza, para empreender este projeto É uma das produtoras de vinho mais jovens de toda a Espanha. Há artigos sobre ela, ganhou prémios e participa em eventos, como o Salão Gourmets.

Kiko e Noelia trabalham juntos no Vino Bigardo e a eles junta-se o primo designer que faz os rótulos fora da caixa que os ajudam a tornarem-se mais especiais. Ao contrário de Maria que conhecemos num ambiente mais formal, o Kiko foi-nos apresentado num jantar em casa de Victor. Haverá forma melhor de quebrar o gelo do que com comida à frente? Kiko tem uma van, La Bigarda, e o seu vinho Satélite é uma homenagem ao seu transporte que o fez viajar pelo mundo. Fez Erasmus em Portugal e tem um espírito livre. Diz que tem uma “bodega” JASP (jovem, mas muito capaz ou JÓVEN AUNQUE SOBRADAMENTE PREPARADA, no original). Provámos quatro vinhos, Bigardo, Maldito Parné, Satélite e Pellejo. O último é o nosso preferido.

Ambas as marcas recebem visitantes.

Culinária

No mesmo jantar em que conhecemos Kiko, também nos foi apresentado Vicente. Vicente vende delícias da serra na sua Cárnicas la Culebra. Os seus produtos são de javali, veado, codorniz e perdiz. Vende enchidos, patés, escabeche de codorniz ou perdiz e carne seca em azeite, e tudo o que provámos era maravilhoso. A sua paixão acima de tudo são os lobos, foi ele nos que falou do Centro del Lobo Ibérico de Castillo y Léon. É isto que nos surpreende nas pessoas, a sua gentileza e entrega, mais do que falar dos seus produtos (que não precisavam de apresentação, já que estavam a ser servidos pelo Chef Mikel Zeberio) falou-nos dos lobos que podem ser visitados em Sanabria, perto de Rio de Onor. No Centro, para além de se visitar as instalações, faz-se sempre observação dos lobos em semi-liberdade.

O Chef Mikel é basco e criou o Basque Culinary Center, que pretende desenvolver e impulsionar a gastronomia da região. Com ele também se tem conversas divertidas e profundas e sente-se o espírito empreendedor. Tem um projecto na região – Petramora – cujo nome presta homenagem às pedras do mosteiro em ruínas em Granja de Moreruela. Petramora é criado para vender o melhor, como a melhor carne de vitela de raça parda da montanha e os melhores lacticínios de ovelhas churras. Nós provámos os iogurtes de arando e são muito bons. O seu gado pastoreia livremente, respeitando-se o animal e a natureza. Na página da empresa encontram a loja online e receitas para utilizar os seus produtos.

O Gustavo vem de uma família forte, os Chillón, produtores de queijo (Quesos Chillón). Foi o bisavô Manuel que deu o salto como empreendedor em 1890. Um dos filhos, Valentin, com o apoio da sua mulher, fez o negócio crescer e caminhar na direcção do que é hoje. Gustavo já é neto, e mostrou-nos com orgulho o seu museu, onde vimos a história da família. A avó, que faleceu cedo, deixou uma marca na família, e ainda fala nela como uma figura muito presente.

No museu vimos o percurso da família e da marca e terminámos com a prova dos seus queijos com vinho local. Não só manteve a fábrica em funcionamento e as memórias familiares transformadas em museu, como o carro à porta ainda é o do avô. E usa-o sempre que pode. Sobre os queijos, os nossos preferidos são a emulsão de queijo e mel e o queijo de leite cru de ovelha com manteiga. A sua produção é bastante artesanal, sendo envolvidos à mão.

Alojamento

O Victor conta-nos que tinha um emprego de responsabilidade em Madrid e que se fartou. Largou tudo, investiu numa casa de família na terrinha e abriu o seu Dondé Victor Luna. O seu alojamento é muy chulo. As paredes são pintadas por uma artista local, teve o cuidado de o tornar um espaço apelativo e tem um quarto perfeitamente adaptado para hóspedes com mobilidade reduzida. Há quadros pelos espaços, inclusive pintados por ele, e foi com lágrimas nos olhos que nos mostrou alguns. A casa tem nove quartos, uma piscina, um snooker, zona de grelhador e uma vontade enorme de receber bem, como quem recebe amigos. É um cuidador, transpira atenção e cuidado para com os seus hóspedes. Aluga a casa completa ou os quartos em separado. Adora o mosteiro em Granja de Moreruela.

Falta-nos a Patricia. Mãe, mulher e empreendedora. Tem uma perninha em vários projectos, incluindo o AZTUR (Asociación Zamorana de Turismo Rural), do qual é presidente. Comprou uma casa de família e transformou-a em coliving.

Estão prontos para atravessar a fronteira, mas continuar na raia de Trás-os-Montes e Zamora?

Trás-os-Montes

Atravessaram para Trás-os-Montes, bem-vindos a Portugal, a paisagem mudou, mas pouco. Tornou-se menos amarela da couve-nabiça e mais roxa do alfazema, com salpicos vermelhos das papoilas, as vinhas continuam baixas, só que aqui já têm folhas, fala-se português, mas quase toda a gente arranha o castelhano.

No PINTA, que já conhecíamos, os funcionários são da terra e os mesmos. Falam nela com prazer, com gosto de pertencer ali, e reconhecem-nos, já que é a nossa segunda visita (podem ler sobre a nossa visita anterior ao Vimioso). Voltámos a ver o Cláudio, que se lembra da nossa anterior visita e da Maria. No castelo do Algoso estamos até perante a mãe das duas únicas crianças da aldeia. Pensamos na Maria (2 anos) e não sabemos se teríamos a coragem de regressar às origens para lhe dar mais campo e ar puro, mas menos escola como a conhecemos. (As fotos são de 2021)


É em Macedo de Cavaleiros que conhecemos três projectos que se unem. Marisa e o irmão, do Hotel Alendouro, trabalham com a Ângela e o Acácio do Sun Azibo Cruzeiros. E estes trabalham também com a Sofia, em Podence. A Sofia começou o seu projecto com o namorado, o Filipe, a Quinta do Pomar. Conhecemos o Filipe noutros carnavais, e aqui a expressão assenta que nem uma luva, porque foi no Carnaval de Podence.

Filipe no carnaval de Podence, em 2020

Comecemos pela Sofia. Enfermeira de formação, desistiu para ajudar o Filipe. Filipe quis trazer à terra o fabrico do fato de careto. Hoje, Sofia é capaz de produzir um fato completo, só os chocalhos vêm de fora, e por coincidência conhecemos quem os faz. Aprendeu a tratar o tear por tu e demora duas horas a produzir um metro da manta que é a base do fato. Ensina a Raquel a pintar a máscara e a criar as franjinhas. E se pintar a máscara parece fácil, já as franjas foram difíceis de criar. A Quinta do Pomar é o seu projecto pessoal. Tem 24 anos e pode ter desistido de servir os outros num hospital ou centro de saúde, mas serve a tradição da sua terra, não a deixando morrer.

Vamos à albufeira do Azibo? A Sun Azibo Cruzeiros não tem um projecto novo para nós, que já tínhamos testado na ria de Aveiro. É igualmente bonito na Albufeira e igualmente silencioso. São o único tipo de embarcação permitida no Azibo, por questões ecológicas e de preservação. Fazem passeios com jantar (junta-se a Marisa a eles) ou com lanche, vendem programas completos de 2 dias e programas à medida, podendo até incluir um passeio de avioneta.

Ângela e Acácio admitem que o sonho de navegar na Albufeira não era seu, mas assumiram-no em memória de quem o sonhou. Agora já fazem contas à vida para ver se está na altura de se dedicarem a ele a 100%. As suas tábuas de queijos e enchidos são de produção local e o bolinho é a mãe que faz. O vinho também é local. Ficámos cheios de vontade de testar os seus programas mais extensos.

A Marisa serviu-nos um jantar de sonho no seu Alendouro. A bonita mesa tinha as tábuas preparadas com enchidos locais, queijos, compotas feitas por ela, uma salada de mozarela e tomate cherry, e tudo estava divinal. As alheiras que chegaram depois foram feitas ali e são o que se espera de alheiras da região (e caseiras). Como prato principal serviu-nos posta, açorda de cogumelos (apanhados por ela), batatas fritas e uma salada de meruje (também apanhada por ela) com bolgur. As sobremesas também não ficaram atrás. O pequeno-almoço do dia seguinte foi digno de reis, destacando-se os iogurtes caseiros, padaria e pastelaria variadas e favos de mel.

Foi o irmão que nos contou a história do espaço: são Alendouro de sobrenome e a casa foi baptizada assim. Começou por ser uma tasca pequena onde criaram apartamentos por cima para alugar. Decidiram transformar tudo em quartos e agora são o Hotel/Restaurante Alendouro.

Falta-nos o Flavio, chef na Taberna do Javali. Aqui não podemos dizer que tenhamos falado muito com ele, mas as suas criações falaram por ele. A sua taberna respira tradição, ou não tivesse o Flávio crescido entre tachos e panelas, mas também explode em inovação. Trouxe o javali para a mesa, com o seu hambúrguer e francesinha de javali. É uma casa de tapas de frente para a Domus, dentro das muralhas, que merece a visita. O jovem Flávio estudou hotelaria mas nunca deixou de ajudar os pais no Restaurante “O Javali”. Hoje tem o seu espaço, mas a família tem também alojamentos, um apartamento no centro de Bragança e outro no Rabal.

Também temos de falar do Sr. Domingos de Rio de Onor. Não é o Ti Mariano que conhecemos na visita anterior, mas é mais um embaixador da aldeia que a fronteira divide. Percebemos através das suas respostas que temos uma ideia de aldeia comunitária mais abrangente do que é hoje em dia. Vivemos naquela utopia de que tudo se partilha e já não é bem assim, aliás, basta pensar que até se podem ver como uma única aldeia, mas as entidades atribuem-lhes nacionalidades diferentes consoante a sua morada ou filiação, e países diferentes têm, por exemplo, salários mínimos diferentes.

Domingos, ao contrário de Ti Mariano, não tem o comum sobrenome Preto, ou Prieto, se falarmos de origem espanhola, mas não lhe falta o sangue, já que a mãe era do lado de lá (Rihonor de Castilla) e Prieto de nome. Falámos das regras e da vara da justiça noutro artigo sobre Rio de Onor, na nossa visita de 2020. Desta vez não tínhamos fronteira fechada e pudemos visitar Rihonor de Castilla. Apanhámos Rio de Onor chuvoso e cinzento, e foi assim que a Raquel se sentiu ao saber que o Ti Mariano tinha falecido em 2021.

Voltando aos irmãos empreendedores temos os Sá de Miranda Patrício (Bernardo e Paulo), que preservam, tal como os Chillón fazem com o queijo, as memórias da família empreendedora. Criaram o Núcleo Museológico do Azeite “Solar dos Cortiços” em Macedo de Cavaleiros. O antigo lagar de azeite foi recuperado em 2005. Bernardo conta-nos a história da família, mas também da aldeia, falando de prémios que ganharam os azeites da região. Houve o cuidado de apresentar informação comprovada, tendo feito levantamentos de documentos na Torre do Tombo. Deram-nos uma prova de azeite feita por uma especialista e foi algo inédito para nós. Fizemos uma prova sensorial de azeite, aprendendo a cheirar, saborear e reconhecer os diferentes paladares que compõem este néctar dos deuses.


Queremos falar sobre o João, um forasteiro que veio por trabalho, um geólogo que sabe explicar os solos, a água e desvendar pequenos mitos urbanos e maldições. João, se leres isto queremos fazer uma prova de água contigo. O João é a prova que podemos não ser da região, mas ela cair-nos em graça e puxar pela nossa criatividade.

Por fim, acrescentamos aqui alguém que infelizmente ainda não conhecemos pessoalmente, mas TODA a gente nos diz que temos de conhecer, a Tia Maria Luísa. Estamos a falar de uma senhora com mais de 70 anos e que ainda faz e ensina a cozer pão em workshops. A Tia Maria Luísa é da Lagoa, Macedo de Cavaleiros, e deve ser das figuras mais famosas da região, com várias “presenças” nos programas da manhã e da tarde dos canais generalistas da televisão. O que a torna especial? É vivida, tem sabedoria popular, experiência de vida, é divertida, uma mulher do norte com garra e muito “trabalhadeira”.

Já em Lisboa, a Raquel conversa com alguém que lhe diz ser de Bragança e lhe conta histórias de infância passadas dentro das muralhas. Do castelo quando era quase uma ruína até receber o museu militar. Do Montesinho e da distância a Espanha. Falámos de Rio de Onor e Rihonor de Castilla. E percebemos mais uma vez que quem somos é um misto também da história da nossa família, como ouvimos no Fórum Territórios com Futuro, acima de tudo “os territórios têm memória”.

É a memória que (n)os faz voltar para escrever novas páginas na história da família.

Nota: este artigo tem poucas fotografias, porque não somos de fotografar retratos, preferimos ouvir as histórias na boca de quem as contas sem a máquina na mão. Podem sempre ver as caras indo a cada uma das páginas.

365 dias no mundo estiveram na Raia de Trás-os-Montes e Zamora de 18 a 22 de abril de 2023 a convite da AEICE (acção no âmbito do Projeto DURADOURO, co-financiado pelo FEDER).

Atualizado em: 9 de Novembro, 2025

Raquel Morgado

PSP DETÉM 13 PESSOAS EM BRAGANÇA E MIRANDELA, 12 POR CONDUÇÃO EM ESTADO DE EMBRIAGUEZ

 O Comando Distrital da Polícia de Segurança Pública (PSP) de Bragança deteve 13 pessoas, entre os dias 18 e 21 de agosto, nas cidades de Bragança e Mirandela, no âmbito da atividade operacional e das ações de prevenção e fiscalização desenvolvidas naquele período.


Entre os detidos encontram-se 11 homens e duas mulheres, com idades compreendidas entre os 19 e os 59 anos. A condução sob influência do álcool esteve na origem da esmagadora maioria das detenções: 12 dos casos ocorreram por condução de veículo em estado de embriaguez.

Na cidade de Mirandela, a PSP deteve, no dia 19 de agosto, um homem de 25 anos, de nacionalidade estrangeira, por permanência irregular em território nacional.

Já em Bragança, a Divisão Policial, através da Esquadra de Trânsito e da Esquadra de Intervenção e Fiscalização Policial, deteve 12 pessoas, dez homens e duas mulheres, por condução em estado de embriaguez.

As detenções resultaram de operações de prevenção e fiscalização rodoviária realizadas em diferentes pontos da cidade, durante as quais foram igualmente identificadas várias infrações rodoviárias graves e muito graves.

Entre as infrações detetadas pelas autoridades estiveram situações relacionadas com a condução sob influência do álcool, desobediência à ordem de paragem e circulação em sentido proibido.

Perante estes números, a PSP volta a alertar para os riscos associados à condução depois do consumo de bebidas alcoólicas, recordando que a segurança rodoviária começa antes de ligar o motor.

A autoridade de segurança recomenda que quem consumir álcool não conduza e planeie antecipadamente o regresso a casa, recorrendo, sempre que necessário, a transportes públicos, táxi ou outras alternativas seguras.

A PSP sublinha ainda que o álcool reduz a capacidade de reação, altera a perceção do risco e compromete a capacidade de decisão, aumentando significativamente o perigo para o próprio condutor e para os restantes utilizadores da estrada.

Jornalista: Paulo Silva Reis
Foto: DR

O que revela a ciência sobre o calor extremo

 Um novo estudo afirma que, ao ter em conta o factor idade, as ondas de calor colocam em risco muito mais pessoas do que as estimativas convencionais.

ISTOCK

Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), uma onda de calor ocorre “quando num intervalo de pelo menos 6 dias consecutivos, a temperatura máxima diária é superior em 5°C ao valor médio das temperaturas máximas diárias, no respectivo mês, para um determinado período de referência”. 

Desde que existem registos (1941), a onda de calor ocorrida em Agosto de 2003 foi a mais intensa, especialmente no interior do país. Elvas, Beja, Alvalade, Évora, Amareleja, Portalegre, Castelo Branco, Guarda e Miranda do Douro foram algumas das estações meteorológicas em que a onda de calor atingiu 16 a 17 dias consecutivos.

Também os episódios recentes de calor extremo têm revelado um impacto significativo na mortalidade em Portugal. Ao cruzar dados da Direcção-Geral da Saúde (DGS), do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e do IPMA, é possível verificar que, entre 27 de Julho e 15 de Agosto de 2025, se registaram cerca de 1.331 mortes acima do esperado (“excesso de mortalidade”) no país. Só no primeiro episódio de calor intenso, entre 26 e 30 de Julho, a DGS estimou 264 óbitos em excesso, sobretudo entre pessoas com mais de 75 anos.

Poderia ser pior? É claro que os resultados são terríveis, mas o pior é que não os estamos a contabilizar correctamente. Ou, pelo menos, é isso que afirma um estudo recente publicado na Nature Communications. Desenvolvido pela Universidade Nacional da Austrália e liderado por Sarah Perkins-Kirkpatrick, o estudo afirma que as ondas de calor têm vindo a criar condições insuportáveis há mais de duas décadas e que as métricas oficiais não reflectem exactamente a realidade devido a um problema de base que, à primeira vista, parece bastante evidente.

O bulbo húmido

Os investigadores australianos que elaboraram o artigo aperceberam-se do problema enquanto analisavam a chamada temperatura do bulbo húmido, que é um indicador que mede a temperatura tendo em conta a humidade do ambiente. Mais concretamente, poderia ser definida como a temperatura mais baixa alcançável através da evaporação da água no ar, combinando humidade e calor para medir o arrefecimento. Obtém-se cobrindo o bulbo de um termómetro, que é o compartimento que contém o mercúrio, com uma malha porosa humedecida com água.

Este procedimento costuma apresentar um valor mais baixo do que o obtido através do bulbo seco, que mede apenas o calor ambiental. Com o passar dos anos, o bulbo húmido ganhou uma importância capital para a saúde humana, uma vez que representa eficazmente a forma como o suor arrefece o organismo. Tendo isto em conta, costuma-se dizer que uma temperatura do bulbo húmido superior a 35 ºC pode causar a morte numa questão de poucas horas, uma vez que acima desse limiar o corpo humano não consegue arrefecer através da transpiração. 

A consequência: o golpe de calor

ISTOCK - O trabalho ao ar livre expõe-nos mais ao risco de insolação, mesmo entre pessoas jovens e saudáveis. 

A consequência final dessa impossibilidade de arrefecer o organismo através da transpiração é a insolação, uma emergência médica grave que ocorre quando a temperatura corporal atinge os 40 ºC em consequência de uma exposição prolongada ao calor. A perda da capacidade do organismo para regular a sua temperatura, uma vez ultrapassado o limiar do bulbo húmido, acaba por conduzir a falência multiorgânica, danos cerebrais e morte, se não for tratada imediatamente.

É por isso que, caso se notem sintomas de insolação, é preciso agir rapidamente. O primeiro sintoma é a cessação repentina da transpiração. Em seguida, surgem a confusão e a fala incoerente. Por fim, surgem as convulsões, o coma e a morte. Entretanto, náuseas, vómitos e dores de cabeça intensas também não são raros. Chamar rapidamente as emergências é essencial para salvar a vida da pessoa afectada.

Um mistério que envolvia 6 ondas de calor

Cientes de tudo isto, os investigadores decidiram analisar as ondas de calor ocorridas no primeiro quarto do século XXI. Foi então que se aperceberam de que algo de estranho se passava: seis delas não atingiram o limiar crítico de temperatura do bulbo húmido, mas dispararam os níveis de mortalidade. Mais concretamente, as que lhes chamaram a atenção foram Meca (Arábia Saudita, 2024), Banguecoque (Tailândia, 2024), Phoenix (Estados Unidos, 2023), Monte Isa (Austrália, 2019), Larkana (Paquistão, 2015) e Sevilha (Espanha, 2003).

Este último caso, por ser o que nos é mais próximo, revela-se especialmente revelador. Embora os números oficiais da época fossem muito mais baixos (141 em toda a Espanha, 20 na capital andaluz), a realidade é que o cemitério de San Fernando registou 400 óbitos apenas na primeira quinzena de Agosto de 2003, ou seja, 92,5 % a mais do que no mesmo período do ano anterior.

Os modelos clássicos não têm em conta a idade

Os autores da investigação parecem ter encontrado a resposta para o enigma: o limiar de 35 ºC a que nos referimos anteriormente não é válido para toda a gente. E é que, ao que parece, não têm em conta a idade das vítimas para determinar se uma pessoa faleceu devido ao calor ou não. Por isso, decidiram elaborar um novo modelo de sobrevivência humana que tivesse em conta esse critério.

Ao introduzir a variável da idade no cálculo, perceberam que as seis ondas de calor tiveram eventos irreversíveis para os maiores de 65 anos que não encontraram sombra. Os casos de Larkana e Phoenix foram os mais graves. Em ambos, o episódio de temperaturas extremas registou eventos irreversíveis para pessoas com mais de 65 anos, mesmo que encontrassem sombra onde se abrigar. A de Larkana chegou a ter um período de não sobrevivência para pessoas entre os 18 e os 35 anos de idade, apesar de não ter atingido o limiar crítico de temperatura de bulbo húmido em termos gerais.

Um novo modelo de sobrevivência

“As mortes por calor, particularmente em áreas em desenvolvimento e densamente povoadas, foram, sem dúvida, seriamente subestimadas”, indicam os autores nas conclusões do estudo. Em declarações concedidas ao The Guardian, Perkins-Kirkpatrick é ainda mais contundente: “O meu primeiro pensamento foi: ‘Oh, merda... Não esperava mesmo ver isto’”. Deixou também uma reflexão incómoda: “Se já está a acontecer agora, então, o que acontecerá no futuro, quando o clima estiver dois ou três graus mais quente?”

Os estudos climáticos são categóricos ao afirmar que as ondas de calor atingem temperaturas mais elevadas em todo o mundo e, além disso, duram mais tempo. Isto levou os investigadores a desenvolver um modelo que simulasse a reacção do organismo à exposição ao calor extremo, de acordo com a idade. Obviamente, colocando o foco nos maiores de 65 anos, que são os mais vulneráveis.

“Muitas vezes definimos as ondas de calor apenas pela temperatura”, explicou Perkins-Kirkpatrick, acrescentando depois que “usando este modelo, que tem em conta como o corpo funciona, é mais fácil compreender como estes eventos podem tornar-se mortais”. Por sua vez, Steve Sherwood, climatologista da Universidade de Nova Gales do Sul que ajudou a realizar as primeiras investigações sobre os limites teóricos de temperatura que o ser humano é capaz de suportar, acrescentou que “o facto de estarmos tão perto dos limites fisiológicos significa que mitigar as temperaturas mais elevadas é essencial para que os seres humanos possam viver e prosperar”.

Não devemos pensar apenas na mortalidade

Saumya Khandelwal, New York Times via Redux - O calor torna o ar condicionado cada vez mais necessário, mas a sua utilização gera emissões que agravam o problema. 

Vivemos numa época em que a ciência nem sequer consegue prever o perigo das ondas de calor utilizando os parâmetros clássicos: temperatura máxima do ar, índice de humidade e bulbo húmido. Um estudo publicado na revista Nexus, que analisou um episódio com estas características ocorrido na Andaluzia em 2022, confirmou isso mesmo. Na verdade, os valores utilizados pelos climatologistas e especialistas em saúde não foram suficientes para prever o que veio a acontecer e alertar antecipadamente a população para os riscos a que estava exposta.

Outras investigações também se têm centrado nas consequências do aumento das temperaturas em diferentes aspectos da saúde. Por exemplo, um estudo elaborado pela Universidade de Adelaide e publicado na Nature Climate Change alertou que a incidência de perturbações mentais e comportamentais poderá aumentar até 50% nas próximas décadas, caso se concretizem as previsões de aquecimento global. Da mesma forma, embora o calor não pareça ser um factor capaz de desencadear enxaquecas por si só, há cada vez mais evidências de que actua como um amplificador.

E quanto ao dinheiro que isso nos custa?

Não podemos ignorar que vivemos numa época em que o negacionismo climático ganhou força. Por isso, também não é de mais falar sobre como as alterações climáticas afectam os nossos bolsos. Um estudo elaborado pelo Banco Central Europeu, publicado na revista European Economic Review, estimou o custo dos fenómenos meteorológicos do ano de 2024 em toda a União Europeia: 43 mil milhões de euros. Países como a Grécia, Malta, Bulgária e Chipre sofreram perdas superiores a 1% do seu PIB.

Por outro lado, quantificar o custo de um incêndio é difícil, mas não impossível. Por exemplo, o preço a pagar por um hectare queimado é de 2.440 euros, incluindo os custos de extinção, embora em muitos casos esse valor possa multiplicar-se. Em Portugal, a associação ambientalista Quercus estimou que os incêndios florestais custam à economia portuguesa cerca de 1.000 milhões de euros por ano, considerando impactos mais amplos e indirectos (a prevenção custaria bem menos: 165 milhões de euros por ano). Já a o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) estimou perdas médias anuais de cerca de 153 milhões de euros entre 2006 e 2016. 

Neste sentido, vale a pena referir também o relatório Prevenção versus Extinção: o custo dos incêndios, da Greenpeace, publicado em meados de Agosto de 202. A organização estimou na altura que, por cada mil milhões de euros destinados à prevenção de incêndios em áreas florestais, poupavam-se 99 mil milhões de euros em trabalhos de extinção. Quase nada.

União Europeia, Copernicus Sentinel-2 - Os incêndios florestais do Verão de 2025 eram perfeitamente visíveis do espaço.

O futuro que nos espera

O Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia não é propriamente optimista. No que diz respeito às projecções relativas a fenómenos extremos de calor e frio no contexto do aquecimento global,

vaticinava num relatório de 2020 que, num clima 3 °C mais quente em comparação com a era pré-industrial, uma onda de calor com a duração actual de 50 anos poderá ocorrer quase todos os anos em Espanha e em partes de Portugal, a cada 3 anos na maioria das outras zonas do sul da Europa e pelo menos a cada 5 anos noutras regiões da Europa.  

Fica claro que, mesmo que consigamos controlar a chuva, a aridez, as tempestades e as alterações no nível do mar, o aquecimento global vai causar sofrimento. Mas hoje, em que, como todos os dias 22 de Abril, celebramos o Dia da Terra, nem tudo pode ser negativo. A actual crise geopolítica, traduzida no aumento do preço dos derivados do petróleo, pode obrigar-nos a dar mais um passo na aposta nas energias renováveis e nos meios de transporte eficientes. Ou talvez os incêndios do ano passado nos sirvam para evitar que se verifiquem outros semelhantes neste Verão. Passos pequenos, sim, mas indispensáveis para deixar um mundo melhor às gerações futuras.

Rubén Badillo
Actualizado a 21 de maio de 2026