Estivemos à conversa com a única vencedora portuguesa do 2024 Slingshot Challenge, promovido pela National Geographic Society.
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| ALEXANDRE VAZ - Marta é a mente por detrás do Trovador, um robô criado com o objectivo de contribuir para a reflorestação de áreas de difícil acesso em Portugal. |
No arranque da leitura da última edição americana da National Geographic, curiosamente dedicada aos “futuros indígenas”, tropeçamos numa palavra praticamente caída em desuso: Trovador. Às tantas, damos por nós a viajar até à Idade Média embalados pela lírica provençal, imaginando homens em trânsito a verter poesia em cantigas enlevadas pelo som mágico de um alaúde ou de um cistre. E, no entanto, duas palavras adiante, o termo robô desperta-nos para o presente – senão para o futuro. Estamos estacionados na página que anuncia os vencedores do 2024 Slingshot Challenge.
No início deste ano, cerca de 3.600 adolescentes e jovens dos 13 aos 18 anos de todo o mundo submeteram as suas ideias criativas a este concurso, promovido pela National Geographic Society. O desafio? Apresentar, num vídeo de um minuto, uma solução inovadora e comprometida com o planeta Terra que contribuísse para a resolução de um problema específico da sua comunidade. Um desses changemakers – na terminologia da organização do Slingshot Challenge – chama-se Marta Bernardino, um nome bem português.
A ericeirense completou recentemente os 18 anos, mas o seu currículo parece o de uma licenciada, no mínimo. Não por acaso, Marta escolheu o curso das Ciências e Tecnologias no ensino secundário; depois de o concluir, decidiu fazer um gap year; e está, neste momento, em Amesterdão a estagiar na empresa Kelp Blue. Se tudo correr conforme os seus planos, ingressará na licenciatura de Engenharia Electrotécnica já em Setembro e, três anos depois, conta aventurar-se num mestrado em Robótica.
Na verdade, as “máquinas” – a expressão é da nossa entrevistada – já fazem parte da sua vida há algum tempo: aos sete, Marta já construía os seus brinquedos recorrendo à electrónica e, meia dúzia de anos depois, já se tinha rendido ao fascinante e vasto universo da automação.
Com a promessa de “proteger a natureza, ao contribuir para intensificar os esforços de reflorestação nas áreas montanhosas de Portugal”, o projecto Trovador: Tree Planting Robot – que lhe valeu um prémio de 10.000 dólares a fundo perdido – não terá nascido do nada, afinal. Um ano em “pousio” , uma passagem por Pedrógão Grande e o sentido de oportunidade deram a Marta Bernardino o impulso que precisava para juntar três áreas que a apaixonam e mobilizam: o ambiente, a robótica e a intervenção na comunidade.
Trovador é o contributo de Marta Bernardino para intensificar os esforços de reflorestação nas áreas montanhosas, de difícil acesso, em Portugal.
Na sequência deste prémio, marcámos encontro com a jovem criadora num espaço verde lisboeta. Da Ericeira, Marta trouxe uma das garras do primeiro protótipo do robô, alguns sonhos na mochila e muita vontade de mudar o mundo. A começar por Portugal.
National Geographic Portugal (NGP): Comecemos pelo nome do projecto que submeteste ao concurso da National Geographic Society. De onde vem?
Marta Bernardino (MB): É uma homenagem a Dom Dinis, que não só permitiu diversos progressos a nível da educação a economia durante o seu reinado, como também ordenou plantar o pinhal de Leiria. Por causa dos seus dotes e da sua fama de poeta, chamavam-lhe O Trovador.
NGP: Como tiveste conhecimento do Slingshot Challenge?
MB: Através de uma colega do programa da Knowledge Society, uma academia de que faço parte já há dois anos. Vou graduar-me neste ano.
NGP: E porque decidiste concorrer?
MB: Achei que fazia muito sentido. O desafio era que, para um problema que existisse na nossa comunidade e que estivesse relacionado com a natureza, arranjássemos uma solução.
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| Alexandre Vaz - Pelos materiais escolhidos, o robô acabou por se partir ao fim de 15 minutos, mas ainda assim conseguiu plantar dezenas de pinheiros. |
NGP: No teu caso, através da tecnologia.
MB: Sempre quis ligar [a minha paixão pela robótica] à protecção climática e aos problemas humanitários. E no ano passado, ao passar por Pedrógão Grande, reparei que a maior parte das encostas estava por reflorestar. Foram áreas que arderam há sete anos! Fiquei super intrigada e fui falar com algumas pessoas que trabalham em organizações de reflorestação. O que me disseram foi “imagina que estás no topo de uma montanha a carregar 100 quilogramas de árvores, olhas para baixo e estás com medo de cair”. Percebi que é mesmo muito arriscado para um humano. Então, a minha ideia foi construir uma máquina que pudesse resolver esse problema.
NGP: Portanto, o Trovador não surgiu propositadamente para este concurso.
MB: Durante o meu gap year [iniciado no Verão de 2023], estive basicamente a fazer o desenvolvimento da máquina, à procura de investimentos e de apoio técnico, entre conferências, pitches e competições [NR: Marta Bernardino venceu também um apoio do fundo 1517, do Medici Project]. E depois soube do desafio da National Geographic Society e achei que fosse interessante [apresentá-la].
Uma passagem por Pedrógão Grande, no ano passado, intrigou a futura vencedora portuguesa do Slingshot Challenge. Surpreendeu-a ver uma área considerável por reflorestar.
NGP: Fala-nos então do primeiro protótipo de robô-reflorestador que criaste.
MB: Com 15 euros, desenvolvi o primeiro protótipo de robô e testei-o na minha zona [Ericeira] com a plantação de pinheiros. Usei materiais reciclados, desde caixas de ovos a PVC, e a parte electrónica veio de projectos antigos. Claro que só funcionou cerca de 15 minutos. Pelos materiais que escolhi, acabou por se partir e não conseguiu andar mais. Pelas minhas estimativas, o robô tinha capacidade de plantar cerca de 128 árvores por hora.
NGP: Que particularidades terá o robô final?
MB: Será, certamente, muito maior do que o primeiro. Em termos de velocidade, o protótipo que estou a projectar será 500% mais rápido que a mão-de-obra humana. Depois, será 90% mais eficiente [do que o ser humano] porque respeita todo um conjunto de regras estritas de plantação, de forma a que as árvores consigam viver a longo prazo.
Marta testou o primeiro protótipo do Trovador – feito com recurso a materiais reciclados, desde caixas de ovos a PVC – na Ericeira, onde vive.
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| MARTA BERNARDINO - A árvore escolhida para o primeiro teste foi o pinheiro, acomodado e transportado pelo Trovador numa caixa de ovos. |
NGP: Lá fora, que outros exemplos de máquinas de apoio a humanos na reflorestação destacarias?
MB: Não há nenhum [robô] como o Trovador. Utiliza-se muito drones, por exemplo, mas a sua eficiência é cerca de 20%. Isto significa que apenas 20% das sementes acabam por sobreviver. Depois existem outros tipos de robô que não são tão flexíveis em termos de terreno. Existem aqueles de quatro patas, que não conseguem escalar montanhas, principalmente as nossas, e depois há também aquela maquinaria pesada que acaba por danificar o solo e que também não tem flexibilidade nenhuma.
NGP: Que alcance esperas que a tua iniciativa, ainda em fase de desenvolvimento, obtenha no futuro?
MB: O que preciso mais neste momento é financiamento, porque o apoio do Slingshot Challenge e dos outros fundos que obtive não são suficientes. Só o preço da máquina será mais ou menos cinco mil euros e até eu chegar a um protótipo viável e funcional, vai haver muita iteração à volta. Ou seja, há muito dinheiro que vou precisar de investir.
NGP: Neste momento, estás então a abordar instituições públicas e privadas para te apoiarem neste projecto. O que se segue?
MB: Até ao final de Novembro quero desenvolver o próximo protótipo e tê-lo completamente funcional em termos de software, porque gostava de lançar um piloto em Dezembro e, a partir daí, perceber o que preciso de melhorar.
O protótipo que a jovem está a projectar será, se tudo correr como desejado, 500% mais rápido que a mão-de-obra humana.
NGP: Isso em simultâneo com as aulas do curso de Electrotécnica, no qual esperas ingressar em breve. Que ferramentas e valências esperas que a universidade te possa proporcionar já neste ano?
MB: Conhecimento. Os professores e alunos têm sempre muito mais experiência a nível da parte electrónica. Eu estou a experimentar, falhar, mudar e tudo mais. Nesse sentido seria uma grande ajuda. Outra [vantagem] são as oficinas, porque têm máquinas de impressão em 3D, máquinas de corte, etc., tudo que eu não tenho em casa.
NGP: O Slingshot Challenge premeia jovens inovadores que tem ideias para resolver problemas da comunidade. Desde quando sentes essa veia construtiva?
MB: Comecei [a explorar a electrónica] com os brinquedos, mas a dada altura sentia a falta de um propósito. A robótica era a minha paixão, mas não tinha nenhum objectivo [que orientasse essa] paixão. Por volta dos treze, quatorze anos, comecei a preocupar-me muito com as mudanças climáticas e com os problemas humanitários... e a robótica era o encaixe perfeito para tentar resolver alguns destes problemas...
NGP: Começando pelo faça-você-mesmo caseiro para o, digamos, faça-você-mesmo-para-o-mundo...
MB: O programa Knowledge Society é mesmo para jovens que queiram fazer a diferença no mundo com a tecnologia. Eles ajudam-nos a descobrir como é que podemos criar as nossas próprias soluções para os problemas reais e depois levá-los para a realidade. É muito isso que eu fiz com o Trovador.
“Por volta dos treze, quatorze anos, comecei a preocupar-me muito com as mudanças climáticas e com os problemas humanitários... e a robótica era o encaixe perfeito para tentar resolver alguns destes problemas...”
NGP: Por último, qual a importância de teres recebido este prémio da National Geographic Society?
MB: Em primeiro lugar, a validação: o facto de a National Geographic acreditar na tua solução dá-te força. E depois a nível financeiro também é incrível. Além disso, convidaram-me para ir a Washington ao Explorers Festival. Estive, durante uma semana, em contacto com exploradores da National Geographic, que são pessoas super corajosas que realmente se preocupam com as suas próprias comunidades. E isso foi muito inspirador e ajudou-me a ambicionar mais e a querer fazer mais. Houve várias aulas de capacity building, mas acho que as actividades mais interessantes foram mesmo os simpósios, onde os exploradores falaram dos seus projectos, dos seus erros e de como deram a volta aos problemas.
Desde a sua fundação em 1888, a National Geographic Society atribuiu mais de 15.000 bolsas. Conheça os outros vencedores da edição de 2024 do Slingshot Challenge AQUI.




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