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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Desfolhada de Murçós termina com balanço positivo

 Com pouco mais de 100 habitantes, a aldeia de Murçós, ganhou mais vida com a segunda edição da Desfolhada, que aconteceu este sábado e que contou com muitos participantes.


Para além dos grupos que participaram na atividade, muitos emigrantes e curiosos vieram assistir a esta prática ancestral que outrora era uma das formas de garantir pão para o resto do ano.

Para quem visitou a iniciativa foi muito boa:

“Muito bom reviver esta tradição na aldeia e é um prazer estar aqui este ano. Venho de França”, disse Cristiana da Luz, de Murçós, emigrante.

“Penso que sim, que cada região tem a sua característica e as suas formas de vivência e de fazer as coisas. De uma região para a outra há sempre diferenças, mas no fundo é sempre recriar as tradições antigas. Do que viu, gostou? Sim,sim. Já acompanho há bastante tempo e gosto. Gosto muito” salientou Laura Sousa.

“Ah, eu acredito que sim, porque sim, no Minho era mesmo tudo muito manual e eles aqui já estavam mais a trabalhar com as máquinas, tal como agora com o trator. Nós tínhamos vacas a puxar o carro, era mesmo tudo muito manual”, dando conta das diferenças entre com a região do Minho e Trás-os-Montes”, afirmou Ana Santos.


O dia começou bem cedo, com a ida para o campo para o corte do milho, o transporte, onde a recriação esteve a cargo dos cerca de 20 elementos do grupo de Cantares de Abragão que mostraram como era realizado e chamavam o público também para uma mãozinha, num trabalho que era sempre acompanhado pela alegria e a animação:

“Temos que tirar a água. Olha a merenda, Zé.”

Já Celestino Silva matava a sede carregando um garrafão ao ombro e com uma caneca na mão:

“A minha missão é dar de beber o vinho. Está a correr bem? Sim, está. Estou a distribuir vinho verde”.

Vera Pinto oferecia o mata-bicho, numa recriação autêntica dos antepassados:

“Isto é um pequeno almoço, que é o que antes se fazia nos trabalhos do campo. Era tudo realizado por gente pobre, era a única coisa que se podia, era trazer a sardinha, azeitonas e a broa. Hoje o nosso povo não está muito habituado e acham isto uma novidade. E estão a aderir, sim, porque acham uma novidade e vão experimentar.

E é raro comer estas sardinhas que são fritas com a farinha do milho, que se está a colher no campo. É diferente do que muita gente tem em casa, por isso aderem muito”, também do grupo de Abragão.

Acabado o corte, é hora de ir para a eira onde se irá desfolhar o cereal. Pelo caminho encontramos Maria Rodrigues, que foi à horta, carregada da colheita do dia. Parou pelo caminho para ver onde ia tanta gente, atrás do trator carregado. Afirma estar muito feliz por ver a aldeia com tanta gente:

“Fico muito contente, porque me faz lembrar tempos antigos. Esta atividade é muito boa, porque o povo estava deserto, já não havia ninguém. Organizaram esta atividade e é muito bonito”.

A coordenadora do grupo de cantares de Abragão, que pela segunda vez participa nesta recriação, Alice Gonçalves conta os seguintes passos deste processo da apanha do milho do campo até à moagem:

“Vamos fazer a desfolhada, vamos fazer a escanada, que é tirar as espigas da palha e vamos desfolhar depois esse milho. A palha vai ser aproveitada, para fazermos alguns molhos, em que será feita uma meda, que é feita num ponto estratégico e será posta em vários molhos, de forma a que a água não penetre e que tenhamos essa palha para alimentar os animais e para extremar a corte durante todo o ano. Em cima levará aquilo que nós chamamos um feixe, que é o tal que está mais fechado, de forma a que realmente a água não penetre. Normalmente por cima, depois levava uma bandeirinha feita de papel e duas maçãs. Mas que tinha alguma simbologia? Eu penso que sim, que a maçã tem a ver com o Adão e Eva e, portanto era um bocado por aí, para finalizar o trabalho.”

E existem algumas diferenças, entre o Minho e a região de Murçós, acrescenta a responsável:

“Nós estivemos a fazer um apanhado e sabemos que não tem nada a ver com a desfolhada de Murçós, era feita de forma mais caseira, muito familiar. Era uma coisa muito pequena. Muitas das vezes eram duas ou três famílias ou só uma que tinha um pequeno campo de milho e durante a noite fazia a desfolhada.

Na nossa terra não, eram grandes quintas em que se apanhava o milho e depois havia a tarde e ia pela dentro. até de madrugada. E portanto, havia mesmo muita gente, era uma forma das raparigas poderem sair à noite, os rapazes também, haver brincadeiras, haver namoricos. Estava-se à espera de encontrar o milho-rei, que é um milho de cor diferente, vermelho.

E nessa altura, quando se encontrava o milho rei, tínhamos a possibilidade de dar um beijo ou um abraço a todas as raparigas ou rapazes, principalmente a todas as raparigas, e sobretudo àquela que estava debaixo de olho, sem ter a autorização pelos pais, que neste dia havia mais liberdade.”

A atividade também contou com venda de produtos típicos e regionais, assim como artesanato, com cerca de 15 expositores que fazem um balanço da sua participação:

“O balanço normalmente é positivo, porque dou a conhecer a minha atividade. Uma vez que sou invisual, e é estimulante criar peças de artesanato. Agora, a nível de lucro financeiro, não é rentável, mas a minha atividade acaba por ser um passatempo e eu vou passando o meu tempo”, contou Carlos Martins.

Também Hermínio Coelho faz um balanço positivo, uma vez que havia muita gente que não sabia que pintava. Por isso, é uma surpresa para muita gente. Estou a gostar e é muito agradável”.


Já Sandra Fernandes trouxe velas artesanais e referiu que tem corrido bastante bem, apesar de estar à espera de mais gente, como já é a segunda edição, e na primeira tivemos muita gente, pensei que viria mais gente. Não estou desiludida, até porque já vendemos qualquer alguma coisa, mas estava à espera de mais”.

“Muito bom. Nem que fosse só por amor à terra. Mas foi muito bom“, contou Maria Fernandes.

Também a presidente da União de Freguesias de Espadanedo, Edroso, Murçós e Soutelo Mourisco, Natália Carrazedo confessou que a alta adesão a deixou lisonjeada:

“Sinto-me de coração cheio. Saber que os nossos imigrantes estão a colaborar connosco, estão de coração cheio também, vê-se no rosto deles a felicidade e faz com que eu, como presidente de junta de freguesia, me sinta feliz e realizada, no fundo. Saber que os nossos imigrantes estão felizes com aquilo que têm na aldeia deles.”

A iniciativa foi organizada pela Associação Viver Mais Murçós. O presidente, Manuel Rodrigues faz um balanço positivo, relembrando que o orçamento do evento é de sete mil e 500 euros, provenientes de donativos e das quotas dos cerca de 250 sócios:

“Fazemos um balanço positivo, até pela moldura de pessoas que vemos aqui à nossa frente, que nos visitou e que nos vai continuar a visitar durante a tarde e noite, uma vez que o programa é bastante extenso e, portanto, é um balanço francamente positivo.

Num evento com um orçamento já significativo para a nossa associação, com valores a rondar os sete mil e 500 euros, que é fruto daquilo que tem sido o nosso trabalho e donativos dos próprios sócios.

E deixe-me dizer que esta associação está quase a tocar na barreira dos 250 sócios, o que para uma localidade com este tamanho é bastante significativo. Todos os donativos para nós têm sido essenciais.”

O dia terminou com a prova dos milhos no pote e um serão com desgarradas com Pedro Cachadinha e Deolinda Passos & Júnior. No evento também marcaram presença um grupo de Itália, da Sardenha, “As Janas di Maist’é”, assim como representações de grupo locais, do Grupo de Cavaquinhos de Matosinhos e Romarias de Travanca.

Maria João Canadas

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