segunda-feira, 19 de junho de 2017

A Toponímia também é Património

Soube pelo Boletim electrónico Municipal de Mirandela que estavam a «mexer» na toponímia do casco velho da cidade de Mirandela. Dar atenção à toponímia é de louvar. Contudo, muitas vezes mexe-se nos nomes das ruas deitando fora placas em perpianho e centenárias substituindo-as por um granito gaiteiro, lustroso e brilhante que não tem nada a ver com a zona histórica em que se enquadram. O gosto (ou mau gosto) com que se colocam placas toponímicas nos centros históricos é directamente proporcional ao empenho na sua preservação.

Não se pode (ou não se deve) ir a uma serração graniteira e mandar fazer tantas placas para um centro histórico duma aldeia, duma vila ou duma cidade, sem primeiro avaliar o que deve ser feito. Se estamos numa zona de mármore é desta rocha que devem ser feitas as placas; se estamos numa zona de pedra de lioz, será nesta que se deve lavrar o topónimo; se estamos numa zona de xisto ou granito serão destas rochas nobres que se devem fazer as placas toponímicas. Mas, num centro histórico, as placas não podem aparecer deslavadas, porque devem ter a mão de pedreiro artista no perpianho. Se assim não for, as placas em vez de se enquadrarem no espaço arquitectónico antigo são um enxerto enquistado que abona pouco em favor da cidade, de quem a gere e dos seus moradores.

Antes de se fazer uma intervenção urbana deve-se explicar aos moradores o que se pretende e se têm alguma sugestão a fazer. Isto, em parte, é ultrapassado quando existem um conselho cultural ou uma comissão de toponímia que dá o seu parecer ao município. Infelizmente, poucos são os municípios que têm estes órgãos consultivos (que são auxiliares de uma boa gestão do património) porque alguns se julgam como donos do saber e do poder. Afinal, o poder é efémero e quando dão por ela já passou ou são apeados por novos inquilinos, muitas vezes piores que os anteriores. Faço esta reflexão porque vejo o coração da minha mulher a sangrar sempre que os dois vamos a Chaves ou falamos de Chaves. O antigo Mercado Municipal de Chaves, uma estrutura em ferro trabalhado quase centenária, no coração da cidade, foi destruída para plantarem casario privado de betão e de mau gosto. O tal «dono» já partiu apenas com as quatro tábuas de pinho. Ficou a dor de um bem que se perdeu e que hoje podia ser uma atracção cultural e turística a gerar mais desenvolvimento para os flavienses.

Também, na remodelação profunda da Praça Nova de Mirandela não foi acautelado o seu valor histórico e patrimonial. Houve o bom senso de se deixarem algumas marcas, os portões a norte e uma amostra do rico gradeamento mural e pinhas de embelezamento, mas tudo o mais foi por água abaixo. Só a fachada da Escola Primária da Praça e a sua escadaria de acesso era digna de se admirar. Se o projecto de remodelação tivesse sido elaborado pela arquitecta municipal vimaranense que durante décadas preservou com mão de ferro ou de granito aquele centro histórico, seria bem diferente para muito melhor.

Hoje, Guimarães é património de valor cultural inestimável e patrimonial muito valorizado no presente. É assim, destruir o património urbanístico na ânsia de ganhar efémeros patacos «é cuidar que se ganha em se perder». Todos perdem. As gerações presentes e as futuras. Essa gente que só vê dinheiro à frente são uma espécie de «talibãs pelo dinheiro». No caso de Mirandela, espero que as placas toponímicas ajudem a valorizar o seu centro histórico.

Jorge Lage
in:atelier.arteazul.net

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