terça-feira, 20 de junho de 2017

Memórias de SEFARAD ou a História que não foi

Sobre a História não vale a pena derramar prantos, porque o tempo é um caminho sem retorno e o que foi feito não se apaga, pelo contrário, revela-se uma força a ter em conta quando se procuram novos horizontes. 
Durante três dias Bragança, no congresso Terras de Sefarad, pôde retomar consciência do que foi o tempo em que a cidade e a região eram uma referência de Sefarad, a Ibéria dos hebreus, um centro de grande dinamismo nas actividades económicas e financeiras, com reflexos na renovação da inteligência, na senda da racionalidade, que nos conduziu a um mundo em que, apesar de todas as perplexidades, a razão é a luz que continua a impor-se contra todos os reinos das trevas ululantes.
Foram dezenas de comunicações importantes para a compreensão do legado filosófico, artístico e ético dos sefarditas, que pontificaram nestas terras desde a alta idade média e que foram literalmente enxotados, quando não simplesmente aniquilados pelos esbirros de um Santo Ofício de má memória, que nos tolhe ainda hoje, quando queremos apontar o dedo aos cobardes degoladores e assassinos sem freio, que nos ensombram os dias. 
Sabemos que estas misérias são resultado do entendimento milenar que os “filhos” do Deus único alardearam, reclamando sempre serem, uns ou outros, os detentores da verdadeira revelação.
Naturalmente os judeus e, por consequência, os sefarditas também terão os seus pesos na consciência. 
Mas, não há dúvida de que o percurso judaico-cristão, com todas as iniquidades que arrasta, tem dado contributos notáveis para a verdadeira construção civilizacional e o abrir das portas de novas utopias.
Os sefarditas serão, entre os judeus, dos que têm feito um percurso renovador relativamente ao tradicionalismo arcaizante. Voltando à sua relação com a península e com a nossa região, valerá a pena trazer à reflexão geral o trabalho apresentado por Fernando de Sousa, da Universidade do Porto, que tornou evidente a relação entre as investidas inquisitoriais em Bragança e o declínio da cidade e da região, oscilações que viriam a redundar na decadência quase final no séc. XIX, depois de períodos de grande esplendor industrial, nomeadamente no sector dos têxteis de seda. 
Esta comunicação leva-nos a revisitar o grande texto de Antero de Quental, de 1871, “ As causas da decadência dos povos peninsulares”, que já detectava no fundamentalismo inquisitorial uma das razões do atraso do país e da dependência em relação a outras potências, onde a inovação e o espírito empreendedor encontraram terreno fértil e acolhedor.
Outra fora a história do nordeste transmontano se os industriosos sefarditas tivessem aqui enraizado a modernidade, que partilharam noutras paragens. Talvez hoje não nos víssemos no desespero da quase agonia e nos pudéssemos sentir realmente no centro do mercado ibérico, como deixou dito, em Bragança, o actual primeiro-ministro.


Teófilo Vaz
in:jornalnordeste.com

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