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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sexta-feira, 14 de março de 2014

A Ceuta de Montesinho

Poderão os meus caros compatriotas persistir na ideia de que Portugal, desde que D. Dinis firmou com o rei de Castela o Tratado de Alcanices, mantém as mais antigas fronteiras de Estado do mundo.
Num país que se orgulha de ir acumulando recordes, mormente de carácter gastronómico, é certamente um recorde de que se deve de facto orgulhar. Não fosse ele falacioso… 
Em boa verdade, a generalidade das nossas fronteiras não sofreriam alterações significativas desde 1297, data em que a assinatura deste célebre tratado teve lugar. À parte a grande Questão de Olivença, município português vergonhosamente administrado por Espanha de forma ilegal, desde que esta reconheceu a sua devolução a Portugal no rescaldo do Tratado de Viena de 1815, e sem  contar ainda com o fim das aldeias divididas entre ambos os Estados na fronteira trasmontana do Alto Tâmega já durante o século XIX (esqueceram-se curiosamente de Rio de Onor, Bragança, que permanece ainda metade em Portugal, metade em Espanha), e com o fim do curiosíssimo Couto Misto, Montalegre, as nossas fronteiras terrestres mantiveram-se integralmente estáveis. 
Porém, quando em 1640 D. João IV veio restaurar a independência de Portugal, antigos fantasmas sobre a legitimidade à coroa portuguesa – que tanta instabilidade haviam trazido na esfuziante Crise de 1383/1385 – regressariam, traduzindo-se na vontade de algumas localidades em ficar sob jugo espanhol, ou português. Durante o período da Restauração, o caso mais afamado desta cisão do território português veio de Ceuta, que quis permanecer sob a coroa de Espanha, mantendo ainda assim como armas da cidade o pano de fundo da bandeira de Lisboa, e a própria coroa portuguesa – uma homenagem um pouco hipócrita, mas sempre bonita de se manter e de se ver. E assim, o marco  inicial dos Descobrimentos Portugueses continua hoje ligado a Madrid, e não a Lisboa. 
Contudo, Ceuta não foi caso único. Alguém terá ouvido falar de Hermisende, San Ciprián, e La Tejera? 
Creio que não… 
As aldeias de Ermesende, São Cibrão e Teixeira são povoados do Reino de Portugal, adstritos à zona de influência do castelo de Bragança, num território que delimita com o que são actualmente os concelhos de Vinhais e de Bragança, nas vertentes sudoeste da serra de Montesinho. Em 1640, seguiriam o caminho de Ceuta, e permaneceriam – por vontade própria, ou porque Portugal tinha  como prioridade acautelar-se para uma longa guerra de 28 anos com Espanha para estabelecer definitivamente a sua independência, e não teve meios para reclamar de volta estas três aldeias – sob a coroa de Espanha. Pessoalmente, causa-me grande estranheza que Trás-os-Montes em geral se tenha levantado em favor do Duque de Bragança, e apenas três aldeias se tenham manifestado contra  a sua causa, mas a História tem os seus mistérios… Os nomes Hermisende, San Ciprián, e La Tejera, são apenas o produto da castelhanização dos nomes originais em português. 
Mas terão estes portugueses esquecido de todo as suas origens? 
A resposta, tal e qual à que se aplica aos oliventinos, é não. Apesar de se encontrarem agora na comunidade autónoma de Castela e Leão, o dialecto falado nestes três povoados é vincadamente português, com vocábulos indiferenciáveis dos que se usam nas zonas raianas de Vinhais ou de Bragança. 
Se alguém em Teixeira se queixar que uma abéspra a picou, eu, vinhaense raiano, percebo perfeitamente que foi picada por uma vespa, uma vez que igual vocábulo é aplicado na minha aldeia, a 30 km de distância. 
Um galifate em Ermesende pode dizer que ao ir ao caboco se esgarrabunhou numa silva ao pé da cortinha, e, enervado, lhe ferrungou com uma pedra; no mesmíssimo dialecto.

Por Daniel Conde
in:dodouro.com

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