Num país que se orgulha de ir acumulando recordes, mormente de carácter gastronómico, é certamente um recorde de que se deve de facto orgulhar. Não fosse ele falacioso…
Em boa verdade, a generalidade das nossas fronteiras não sofreriam alterações significativas desde 1297, data em que a assinatura deste célebre tratado teve lugar. À parte a grande Questão de Olivença, município português vergonhosamente administrado por Espanha de forma ilegal, desde que esta reconheceu a sua devolução a Portugal no rescaldo do Tratado de Viena de 1815, e sem contar ainda com o fim das aldeias divididas entre ambos os Estados na fronteira trasmontana do Alto Tâmega já durante o século XIX (esqueceram-se curiosamente de Rio de Onor, Bragança, que permanece ainda metade em Portugal, metade em Espanha), e com o fim do curiosíssimo Couto Misto, Montalegre, as nossas fronteiras terrestres mantiveram-se integralmente estáveis.
Porém, quando em 1640 D. João IV veio restaurar a independência de Portugal, antigos fantasmas sobre a legitimidade à coroa portuguesa – que tanta instabilidade haviam trazido na esfuziante Crise de 1383/1385 – regressariam, traduzindo-se na vontade de algumas localidades em ficar sob jugo espanhol, ou português. Durante o período da Restauração, o caso mais afamado desta cisão do território português veio de Ceuta, que quis permanecer sob a coroa de Espanha, mantendo ainda assim como armas da cidade o pano de fundo da bandeira de Lisboa, e a própria coroa portuguesa – uma homenagem um pouco hipócrita, mas sempre bonita de se manter e de se ver. E assim, o marco inicial dos Descobrimentos Portugueses continua hoje ligado a Madrid, e não a Lisboa.
Contudo, Ceuta não foi caso único. Alguém terá ouvido falar de Hermisende, San Ciprián, e La Tejera?
Creio que não…
As aldeias de Ermesende, São Cibrão e Teixeira são povoados do Reino de Portugal, adstritos à zona de influência do castelo de Bragança, num território que delimita com o que são actualmente os concelhos de Vinhais e de Bragança, nas vertentes sudoeste da serra de Montesinho. Em 1640, seguiriam o caminho de Ceuta, e permaneceriam – por vontade própria, ou porque Portugal tinha como prioridade acautelar-se para uma longa guerra de 28 anos com Espanha para estabelecer definitivamente a sua independência, e não teve meios para reclamar de volta estas três aldeias – sob a coroa de Espanha. Pessoalmente, causa-me grande estranheza que Trás-os-Montes em geral se tenha levantado em favor do Duque de Bragança, e apenas três aldeias se tenham manifestado contra a sua causa, mas a História tem os seus mistérios… Os nomes Hermisende, San Ciprián, e La Tejera, são apenas o produto da castelhanização dos nomes originais em português.
Mas terão estes portugueses esquecido de todo as suas origens?
A resposta, tal e qual à que se aplica aos oliventinos, é não. Apesar de se encontrarem agora na comunidade autónoma de Castela e Leão, o dialecto falado nestes três povoados é vincadamente português, com vocábulos indiferenciáveis dos que se usam nas zonas raianas de Vinhais ou de Bragança.
Se alguém em Teixeira se queixar que uma abéspra a picou, eu, vinhaense raiano, percebo perfeitamente que foi picada por uma vespa, uma vez que igual vocábulo é aplicado na minha aldeia, a 30 km de distância.
Um galifate em Ermesende pode dizer que ao ir ao caboco se esgarrabunhou numa silva ao pé da cortinha, e, enervado, lhe ferrungou com uma pedra; no mesmíssimo dialecto.
Por Daniel Conde
in:dodouro.com

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