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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 11 de março de 2014

Despovoamento do interior - «O problema é de uma tal dimensão que exige uma estratégia nacional»

O investigador Eduardo Anselmo de Castro, da Universidade de Aveiro, liderou o projecto Demospin que analisou as tendências demográficas do interior do país. A falta de população em idade fértil é um dos maiores problemas identificados. Isto num território que, até 2040, pode perder um terço da população. O investigador considera que é necessário atrair pessoas, mas também empregos e assegurar acesso a bens essenciais como ensino e saúde. A agricultura é apenas parte da solução, porque o futuro passa pela indústria transformadora.

Café Portugal - Em termos latos, gostaríamos que nos definisse o vosso grupo de estudo.
Eduardo Anselmo de Castro - Este grupo de trabalho tinha como base três universidades da região Centro. Universidade de Aveiro, Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Universidade da Beira Interior e participação do Instituto Politécnico de Castelo Branco e Instituto Politécnico de Leiria. O projecto terminou em Novembro, foi financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia.
CP – O vosso trabalho teve como objectivo fazer um diagnóstico do interior do país. Como alterar a assimetria populacional tão acentuada em Portugal, com um interior progressivamente despovoado e uma faixa litoral superpovoada?
E.A.C. - Quisemos perceber o que é a realidade no interior, o que acontecerá se as tendências expectáveis se mantiverem, se nada se fizer, ou se as coisas correrem com trajectórias que são extensões das actuais. Quisemos descrever a situação para que as pessoas percebam o que está a acontecer. Se não gostarem do resultado - e obviamente não são resultados para se gostar - então têm um número da dimensão do problema e isso é o ponto de partida para o desenvolvimento de algumas políticas. O que mostrámos é que o problema é de uma tal dimensão, geograficamente alargado, que ou há uma estratégia nacional ou iniciativas daqui e dacolá não fazem mais do que regar no deserto. 
Eduardo Anselmo
CP – O vosso estudo «Demografia economicamente sustentável – Reverter o declínio em áreas periféricas» () é, aliás, alarmante: revela que cinco regiões do interior do país vão perder um terço da 
população já em 2040, o equivalente a menos 157 mil habitantes do que em 2011. Pode pormenorizar?
E.A.C. – Fizemos o estudo das Unidades Territoriais Estatísticas (NUT) III. Todo o interior, desde Alto Minho ao Baixo Alentejo. Essencialmente, estudámos o país todo, excepto o Algarve e o Litoral. A região que pior está é a Beira Interior Sul. O que nos parece melhor é Dão Lafões [Viseu]. Se nada se modificar, todas essas regiões perderão um terço ou mais da população até 2040. A não ser que haja fluxos migratórios para lá. O despovoamento do interior não é efeito de migração, ou seja de saída de pessoas. Os tais 157 mil habitantes, é um número que acontece se não entrar nem sair ninguém. A população está a ficar envelhecida. Mas, mais do que mortalidade é a falta de natalidade. Há baixo número de filhos porque a fecundidade é baixa porque o número de mulheres em idade fértil a viver no interior do país é baixo. Isto significa que a ideia de que fazendo incentivos ao aumento da natalidade se resolve o problema é uma ilusão, porque a estrutura da sociedade não permite. Há poucas mulheres em idade fértil no interior do país, portanto, não se pode incentivar quem lá não está. Ou são atraídas pessoas em idade fértil ou não tem solução.
CP - Pode a nossa economia dentro de três décadas ser viável com este cenário traçado?
E.A.C. - Aquilo que é a economia realmente forte do país está no litoral. Não tem a ver com a viabilidade económica, nem demográfica do país. Tem a ver com a opção de se queremos ou não, abandonar 70% do território, ou seja, património natural, histórico, cultural. Se decidirmos destruir isto, economicamente o país não ficará pior. Agora queremos esse preço? Destruir o interior? Esse é que é o problema. Se não queremos, as pessoas têm de lá ficar e não é apenas criar emprego. Há um ciclo vicioso, o emprego não é criado nestas regiões porque não têm pessoas e vice-versa. Alguns estudos apontam para cenários de um crescimento económico muito negativo, com quedas do emprego total, até 2040, na ordem dos 30% e mesmo assim as pessoas que vão ficar no interior não são suficientes para esse emprego que subsista nestas regiões. É preciso atrair pessoas e empregos atractivos. As pessoas não vão trabalhar na mercearia de esquina ou para a agricultura. A solução pode passar por atrair empregos e pessoas ao mesmo tempo. Mas depois não é só o emprego, é preciso que as pessoas saibam que têm escolas, saúde, todo este tipo de coisas.
CP - Não obstante os resultados que apresentam no estudo, parece estar na moda referir o «regresso à terra». Têm dados a este respeito e de que forma se está a «regressar à terra»?
E.A.C. - Isso pode ser muito interessante para a economia e para esses jovens, mas em termos demográficos isso são as chamadas andorinhas. Por exemplo, a Dinamarca, uma economia desenvolvida, tem 90% do solo arado, agricultado, exporta produtos agrícolas. Mas apenas 2% da população trabalha na agricultura. A agricultura é uma base económica fantástica para a Dinamarca porque depois tem agroindústrias mas emprego directo na agricultura é baixíssimo. Voltar a aumentar significativamente a população agrícola, seria voltar para a miséria. As pessoas foram embora porque não é possível ter um país minimamente rico com metade da população a trabalhar na agricultura. Isso é uma ilusão. 
CP - A questão anterior entronca num outro ponto. É possível desenvolver o interior sem alterar a base das economias locais, sectores de actividade, substituição de gerações, etc…?
E.A.C. - Depende muito do sítio, cada sítio tem as suas capacidades diferentes. É necessário que isto seja olhado globalmente a nível nacional ou mesmo europeu porque este problema não é só português. Um país como a Alemanha tem um gravíssimo problema em parte do seu território. A parte espanhola pegada a Portugal tem um cenário parecido. Globalmente não há nenhum país que tenha um problema tão grande como o português, mas há outros países que têm problemas semelhantes. Penso que o governo português e responsável europeu devia fazer um grande esforço para sensibilizar as pessoas para este problema.
CP - Por um lado há o envelhecimento da população e a emigração. Pode, por outro lado, a imigração, com população em idade fértil, colmatar nos territórios do interior do país, o despovoamento?
E.A.C. - O que estou a ver é o contrário. Como há obsessão económica e financeira, tudo aquilo que implica despesa é rejeitada. Por exemplo, as políticas que estão a ser tomadas de estrangulamento das universidades e politécnicos afectam sobretudo as instituições do interior. Contudo, são os pólos mais importantes de fixação de população no interior. Portanto estas políticas são extremamente danosas. As políticas sociais que estão a ser tomadas têm um impacto muito mais negativo do que positivo.

Sara Pelicano
in:cafeportugal.net

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