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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Acerca do topónimo «Ledra», das medievais «Terras de Ledra» e outros «disparates carnavalescos»… «Contra a desinformação, marchar, marchar!»

Por: Rui Rendeiro Sousa
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


 Uma porção do actual distrito de Bragança correspondeu, em medievais tempos, às «Terras de Ledra». Circunscrição essa que não detinha, à semelhança dos conceitos de fronteira da actualidade, limites perfeitamente definidos, correspondendo, grosso modo, a territórios inseridos nos actuais concelhos de Mirandela e Macedo. A vetusta designação, evolução dos tempos, perderia, gradualmente, a sua importância, substituída sendo, ao longo do tempo, por outras circunscrições, particularmente os concelhos e os julgados. No entanto, a denominação «Ledra» permaneceu viva na toponímia, chegando aos dias de hoje por via das povoações de Vilar de Ledra (Mirandela) e Fornos de Ledra (Macedo). Acrescente-se a estas, até bem tarde, a designação de Vale de Prados de Ledra, que era dada à anexa da freguesia das Múrias (Mirandela), hoje apenas mencionada por Vale de Prados.

No universo da toponímia, ocorrem nomenclaturas perfeitamente identificáveis no Português actual (como o Vale de Prados acima referido), outras havendo que existência não têm nos dicionários, como é excelente exemplo o «Ledra» que aqui trago. Isto é, caso se pergunte a alguém qual o significado de «Ledra», o mais provável é que ninguém saiba responder. De vez em quando, lá surge uma explicação popular, à semelhança de tantas outras explicações para nomes de terras, maioritariamente oriundas do «imaginário mouro». Assim, de repente, e como paradigma, lembrei-me de Espadanedo, que diz o Povo que deriva de «espada nele», com mouros pelo meio. Todavia, Espadanedo é um fitotopónimo derivado de um substantivo colectivo. Mas há muitos mais exemplos por aí… Onde até já vi «Ledra», por sugestão «homófona», associada a uma família Romana. Só que…

Os estudos toponímicos, epigráficos ou linguísticos, têm muito mais que se lhe diga do que o «amadorismo» de descobrir uma qualquer semelhança num qualquer livro que nos vem parar à mão, por vezes, por mero acaso, ou por vir referenciado na Wikipédia... Os referidos estudos envolvem coisas «raras» que incluem o «indo-europeu», as respectivas influências na evolução dos idiomas actuais, particularmente naquele que mais respeito nos diz, o Latim. Mas também noutros que influência tiveram no nosso idioma, como serão bons exemplos o Árabe, o Celta ou os chamados idiomas «germânicos». Ou até, estudos genéticos e de etnologia, e outras coisas ainda mais «raras». À custa disso fica a saber-se, por exemplo, que «Ledra» é um topónimo cuja existência mais remota data de 3.500 a.C., muito antes de os Romanos começarem a deixar a sua marca pela Europa… À custa disso, fica a saber-se muito mais, como, por exemplo, que há mais sítios no mundo que até tomam, ou já tomaram, a referida designação «Ledra». Um muito mais que já tive a oportunidade de publicar, a propósito de umas terras que, em medievais tempos, se situavam, precisamente, nas «Terras de Ledra». Parece, no entanto, que o topónimo «Ledra», para lá de outros disparates, até passou a contribuir para o topónimo «Mirandela»...

O que, mesmo para qualquer iniciado nos estudos toponímicos, que saiba “algua cousita” acerca de sufixos de origem latina, lhe soará a «desinformação». Porque qualquer iniciado em estudos toponímicos saberá, de antemão, porque básico é, que os topónimos em cuja constituição entram os sufixos [elo] e a sua versão no feminino, [ela], se tratam de diminutivos originados a partir do Latim [ellu / ella]. Assim acontece em vulgar Português, como é bom exemplo [rua / ruela], ou em topónimos bastante comuns e conhecidos como Vouzela, Penela ou Vizela. E até, pelas nossas bandas, com Fradizela, Cernadela ou Pinela, ou até no nosso Tuela, por exemplo. Parece, no entanto, que o topónimo «Mirandela» será diferente, mesmo que seja comummente aceite que se trata do diminutivo de «miranda», palavra que deu o nome a povoações como Miranda do Douro, Miranda do Corvo ou Miranda de Ebro… E não vou aqui explicar as possíveis origens da palavra «miranda», que ao caso não vem…

Regressemos, porém, a Ledra. Uma designação cujo primeiro registo conhecido, por estas bandas, poderá apontar para um «terminus augustalis» de época Romana, conforme notícias que nos chegaram acerca de uma inscrição. Nome esse que permaneceu em época Sueva e, posteriormente, em período Visigodo, assim o rezam os documentos, escritos e numismáticos, que chegaram até nós. Tal como, já na Baixa Idade Média, se pode atestar o mesmo nome, nas suas diversas variantes, em documentos eclesiásticos ou provenientes das chancelarias régias. Todavia, sempre referido a uma região, nunca a uma povoação em concreto. Tal como aconteceu, por exemplo, com as regiões de Lampaças ou da Vilariça. Ou, até terem sido fundadas as povoações homónimas, com as regiões de Bragança, Miranda e Vinhais. Ao confrontar-me com alguma «desinformação» que por aí circula, um dia destes ainda hei-de ver alguém a afirmar que havia uma povoação chamada Minho e outra chamada Galiza… 

Não, não há documento algum que mencione uma povoação específica designada como Ledra! Assim como não o há relativamente a qualquer povoação chamada Lampaças ou Vilariça! Estas eram regiões, assim como, na actualidade, o Minho ou a Galiza são regiões… E Bragança, Miranda ou Vinhais só passaram a ser povoações individualizadas depois de terem tomado o nome das «terras» das quais faziam parte… A não ser que, sei lá, a Wikipédia ajude na descoberta de novos documentos… Já agora, a finalizar, e para os mais curiosos, «Ledra» é um hidrónimo… Que deu nome a uma região em cuja área foi vulgar ver associada a sua designação “possessiva” à nomenclatura de povoações… 

Tudo o resto é lirismo, ou confusão de desejos com realidade. O que não abona muito a favor do critério e do rigor com que esta magnífica página sempre foi feita. Uma coisa é a escrita ficcional, através da qual poderemos escrever o que nos «der na real gana». Uma outra, completamente diferente, é partilhar conhecimento, que nunca deverá ser alicerçado num «só porque me apetece». Esse tipo de «conhecimento» já conduziu a «afastar-me». Todavia, isso também representava um mau serviço a esta página que, felizmente, tanto me diz… Por isso regressei… «Contra a desinformação, marchar, marchar!»… 

(Foto: Fornos de Ledra – Igreja abandonada do antigo Recolhimento das Oblatas do Menino Jesus - que o foi, inicialmente, no Loreto, em Bragança)


Rui Rendeiro Sousa
– Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer. 
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas. 
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana. 
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros. 
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.

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