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| Chacal-dourado. Foto: Dhaval Vargiya/WikiCommons |
O chacal-dourado poderá colonizar até 75% da Europa nas próximas décadas, o que corresponde a quase seis vezes a área que hoje ocupa. Portugal, Espanha e França têm condições altamente favoráveis à expansão desta espécie, concluiu um estudo publicado a 25 de maio na revista científica Nature Ecology & Evolution.
O trabalho, que reuniu investigadores de 13 países europeus, analisou 8,991 pontos de levantamentos acústicos de uivos de chacais-dourados entre 2001 e 2017. O objetivo foi perceber que factores determinam a presença de grupos territoriais de chacal-dourado.
Entre os autores está Francisco Álvares, investigador do CIBIO/BIOPOLIS, com trabalho realizado, por exemplo, com chacais-dourados no Irão. Este especialista em carnívoros disse à Wilder que, na sua opinião, a principal relevância deste estudo é mostrar “como ainda há muitos países europeus com elevada adequabilidade para a ocorrência da espécie, apesar de ainda não terem populações residentes”.
“Face à velocidade a que têm aparecido registos, o chacal pode vir a colonizar alguns desses países num futuro relativamente próximo”, explicou.
Actualmente, os núcleos reprodutores mais próximos da Península Ibérica estão em Itália. Em Espanha existem, para já, apenas dois registos confirmados, ambos feitos em 2023 no País Basco: um animal atropelado e outro detectado por foto-armadilhagem, mais concretamente na zona montanhosa entre Álava e Burgos.
“O chacal tem uma grande capacidade de dispersão e há animais a aparecer a milhares de quilómetros das populações residentes da espécie”, salientou Francisco Álvares.
Apesar disso, acrescentou, “o chacal-dourado ainda está a chegar timidamente ao nordeste de Espanha. O processo de se tornar territorial e reprodutor em Espanha e depois chegar a Portugal pode demorar décadas”.
Durante milénios, o chacal-dourado, animal com um tamanho entre um lobo e uma raposa, esteve restrito ao sudeste da Europa, a países como a Sérvia, Bulgária ou Roménia. Mas nas últimas décadas, a espécie expandiu-se rapidamente por grande parte do continente, chegando já à Península Ibérica e a regiões próximas do Ártico, como por exemplo partes da Finlândia e Noruega.
O “escudo humano”
O resultado mais inesperado do estudo foi o peso da relação entre chacais, lobos e humanos.
Os investigadores concluíram que a presença do lobo reduz significativamente a probabilidade de ocorrência de chacais. Mas esse efeito enfraquece perto das zonas humanizadas. Ou seja, os chacais conseguem coexistir melhor com lobos quando vivem próximos de pessoas.
“O principal factor que determina a expansão desta espécie foi inesperado: o lobo, que pode funcionar como um travão”, explicou Francisco Álvares. “Mas verificámos também que a presença humana pode facilitar essa expansão.”
O fenómeno é conhecido como human shielding, ou “escudo humano”. Na prática, os grandes predadores tendem a evitar áreas muito humanizadas, enquanto espécies mais pequenas e generalistas aproveitam essa proximidade como refúgio.
Ao contrário do lobo, o chacal-dourado adapta-se facilmente a zonas agrícolas, periurbanas e humanizadas. Alimenta-se de pequenos vertebrados, cadáveres, restos orgânicos e lixo.
“Eles conseguem conviver muito bem com áreas agrícolas e zonas periurbanas”, explicou Francisco Álvares. “Essa associação aos humanos faz com que o efeito do lobo fique mais atenuado.”
O investigador destacou ainda que o chacal-dourado pode trazer um benefício ecológico: a remoção de biomassa orgânica.
Um estudo publicado em 2016 na revista Biological Conservation concluiu que os chacais-dourados removem anualmente milhares de toneladas de resíduos animais na Europa, funcionando como verdadeiros “limpadores” naturais dos ecossistemas humanizados. Os investigadores estimaram que, só na Europa, os chacais removem todos os anos mais de 13 mil toneladas de restos animais descartados e consomem cerca de 158 milhões de roedores considerados pragas agrícolas. Na Sérvia, onde a espécie é abundante, o estudo calculou que a população de chacais elimina anualmente mais de 3.300 toneladas de restos de animais domésticos e cerca de 13,2 milhões de roedores associados a danos agrícolas.
O estudo alerta ainda que os mesopredadores são frequentemente vistos apenas pelos seus impactos negativos, apesar de poderem prestar serviços semelhantes aos atribuídos a espécies necrófagas mais valorizadas, como os abutres.
Além da remoção de cadáveres e resíduos orgânicos, os autores sugerem que os chacais podem ajudar a limitar populações de roedores e até contribuir indirectamente para reduzir riscos sanitários associados à acumulação de matéria orgânica em decomposição.
Embora o aparecimento de um novo predador possa gerar preocupação, Francisco Álvares considera que não existe razão para alarmismo. “Não é um animal que cause tantos prejuízos como o lobo”, disse. “Há pouquíssimos ataques a animais domésticos. É uma espécie generalista e menos ousada.”
O investigador sublinha que os principais impactos poderão sentir-se sobretudo sobre espécies cinegéticas, como o coelho-bravo.
O lobo como aliado
Para os autores do estudo agora publicado, a recuperação das populações de lobo na Europa poderá funcionar como uma solução natural para limitar a expansão do chacal-dourado.
“Se o chacal chegar cá, talvez o nosso melhor aliado seja o lobo”, afirmou Francisco Álvares. “Temos de perceber que a natureza funciona assim: os grandes predadores têm um efeito muito forte sobre as espécies abaixo deles.”
Para o investigador, é importante pensarmos nesta questão “quando estamos a querer perseguir o lobo. Este pode ser o melhor aliado para, mais tarde, não termos que lidar com tantos chacais”.
O estudo estima que a recuperação futura do lobo poderá reduzir em cerca de 18% as áreas adequadas à expansão do chacal-dourado.
Este é um cenário que já aconteceu na América do Norte, mas com outra espécie, o coiote. “A expansão do coiote na América do Norte também tem sido grande nos últimos anos. E já foi provado que tal ocorreu porque, durante várias décadas, o lobo desapareceu de muitas regiões. Estes são processos que duram várias décadas. E aqui também a presença humana acabou por facilitar a expansão do coiote.”
Francisco Álvares recordou que “a relação entre lobo e coiote é muito semelhante à relação entre lobo e chacal, até porque quer o coiote quer o chacal são mesopredadores”. Um mesopredador é um carnívoro de médio porte, generalista, situado abaixo dos grandes predadores na cadeia alimentar.
“O nosso estudo fornece evidências de que a recuperação de predadores de topo pode atuar como uma solução baseada na natureza para regular a expansão das populações de mesocarnívoros”, explicou, em comunicado, Miha Krofel, investigador da Universidade de Liubliana e autor sénior do estudo. “No entanto, manter estes efeitos ecológicos exige populações de predadores ecologicamente eficazes e estabilidade social suficiente, o que é particularmente desafiador em paisagens dominadas por humanos.”
Ainda assim, os investigadores consideram que a combinação entre alterações climáticas, paisagens humanizadas e o efeito de “escudo humano” continuará a favorecer a disseminação da espécie.


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