(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
Este conto é a continuação de outro “A Promessa“, publicado em 2021
O dia nasceu cinzento, com gotas de chuva empurradas pelo vento frio — uma daquelas manhãs de inverno em que até o despertador parece pedir desculpa.
José Ferreira, mais conhecido por Zé do talho, estava em frente ao espelho, mirando-se a analisar o que os seus quarenta e seis anos fizeram de si. Baixo, a puxar para o gorducho, cabelo loiro, a rarear, sobre um rosto redondo e rosado. No centro sobressaía a penugem dourada que teimava em chamar bigode.
Desde que herdara o talho do pai — homem cioso do que era seu — mantinha tudo como estava. Solteirão, vivia sozinho numa vivenda ostensiva nos limites da povoação — mais fachada do que lar.
Parecendo satisfeito com o que via, cofiou o bigode, sacudiu as encorrilhas da camisola de gola alta, que tapava o pescoço curto e denunciava a barriga rotunda e depois ajeitou as calças, que repousavam nos sapatos negros imaculadamente brilhantes. Estava pronto para a cerimónia.
Vestiu o casaco das ocasiões, ainda a cheirar a naftalina e a arrependimento, como se o tempo não tivesse passado desde o último velório. Deitou um derradeiro olhar ao espelho antes de sair para o frio e para o funeral do Bruno.
Caminhou apressadamente pela rua calçada em direção ao cemitério, puxando as golas do casaco para cima, na tentativa de manter o vento gelado do lado de fora. Sorriu ao lembrar-se da expressão “Parece que tinha morrido um barbeiro.”, não foi um barbeiro, mas foi um trolha; Bruno Mendes, marido da bela e doce Madalena.
Envolto nos seus pensamentos, ia acenando distraidamente às pessoas que convergiam de todos os lados na direção da igreja. Ia ser um grande funeral.
Bruno não era particularmente amado na freguesia. Era quezilento e beberrão, mas um trolha de excelência. Os trabalhos que fazia eram de qualidade e rápidos, enquanto não entrasse o álcool na equação.
Como todos na povoação, o Zé não gostava nem desgostava de Bruno, ele era “um mal necessário”. Cedo ou tarde, toda a gente precisa de compor uma racha na parede, ou pintar a cozinha e lá tinham de o chamar. Mas o Zé do talho tinha uma mágoa ainda mais antiga; ele fora o rival que roubara a “sua” Madalena.
A nave da igreja estava praticamente cheia. O ambiente reverberava de muitas dezenas de conversas cruzadas em voz baixa e respeitosa. O ar estava pesado e a humidade parecia ter-se passado do exterior para ali. Ecoavam tossiqueiras dispersas. Os cangalheiros estavam a pousar a urna junto do altar e a dar os últimos retoques no tule que saía das bordas. Mesmo ao lado, em pé e com os olhos fixos no ataúde, estava uma figura feminina vestida de negro.
Era uma mulher na casa dos quarenta, cabelo negro, curto, rosto oval, pálido, onde sobressaíam a olheiras da noite mal dormida e de choros recentes. Não era gorda, mas pesavam-lhe mais uns quilos do que lhe era devido. As mãos secas e ásperas seguravam um terço cuja cruz pendia para fora delas. O tronco forte e os seios generosos estavam convenientemente cobertos por uma camisola de lã que caía sobre a saia simples que terminava acima do joelho. As pernas continuavam de pele lisa, torneadas e sem mácula. Nos pés trazia uns sapatos baratos, quase sem tacão, que se via terem sido comprados mais para serem práticos que mostrados.
Zé preferiu manter-se junto da porta, em vez de se submeter às centenas de olhos que o perscrutariam e julgariam se atravessasse o corredor central para dar os sentimentos a Madalena.
Mesmo assim, durante a cerimónia não tirava os olhos da mulher de rosto triste, ladeada pela irmã e a mãe do falecido. Várias recordações lhe acudiam à memória; a escola primária, o amor silencioso que sempre nutriu por ela, as vezes que ela o surpreendeu a olhá-la. Nunca foi, porém, capaz de lhe revelar os seus sentimentos e depois, repentinamente, Bruno tornava-se um obstáculo no caminho para o amor.
** / **
Durante a escola, o seu rival nunca lhe parecera isso mesmo — era um “gandulo”, “gazetão” e turbulento. Mais velho que eles dois anos, mas colecionava repetições de anos letivos. Exatamente o tipo de personagem que meninas bem-educadas como Madalena deviam evitar.
Quando terminaram a quarta classe, tanto Zé como Madalena fizeram-no com mérito, mas Bruno reprovou uma vez mais. Foi trabalhar nas obras com um tio empreiteiro que, na verdade, pouco mais era que um trolha com espírito empreendedor. Madalena foi trabalhar com a mãe no seu ofício de costureira em casa e ele com o seu pai, assumindo definitivamente o apelido de Zé do Talho.
Bruno entregava o ordenado em casa, para ajudar a mãe, viúva há alguns anos e a irmã, ainda demasiado jovem para trabalhar. Ao terceiro mês de trabalho, porém, “desviou” o ordenado e deu a entrada para comprar uma “fenomenal” moto Casal Cross 125. Ele contava que “levou uns valentes cascudos da mãe”, mas valera a pena.
Não tardou que o trolha motorizado mostrasse interesse na bela Madalena e esta se encantasse pelo imponente cavaleiro que percorria ruidosamente as ruas da freguesia. Era oficial; Zé perdera a oportunidade e a sua amada trocara o seu coração de talhante pelo ronco da Casal 125 do Bruno.
** / **
Após uma cerimónia que lhe pareceu interminável, o sino começou a tocar a finados. Os funcionários da funerária iniciaram o transporte da urna para o cemitério que ficava mesmo ao lado da igreja.
À medida que se formava o cortejo atrás dos agentes funerários ele foi apreciando a quantidade e qualidade de gente que acompanhava o féretro até à última morada; eram todos mais ou menos humildes, com exceção do presidente da junta, primo direito do Bruno. Até o tio, Ex empreiteiro e pai do presidente, comparecera. Fora o empregador do sobrinho, mas não fazia já parte dos abastados; abrira falência há uns anos, deixando os empregados com ordenados em atraso e horas extraordinárias por pagar.
Alguns dos acompanhantes trocaram palavras de circunstância e pena com Zé. Aquele era um meio pequeno e, se todos conheciam o trolha Bruno e a família, melhor o conheciam a ele, talhante de terceira geração. Enquanto os vizinhos murmuravam sobre a tragédia, Zé fingia compaixão, mas estava concentrado em cada gesto de Madalena — o lenço, o olhar perdido, o silêncio.
A perda de um dos habitantes da freguesia por acidente, era uma grande tragédia, quando todos estavam habituados a velórios e funerais relativos apenas aos idosos da terra.
Enquanto decorriam as despedidas à boca da sepultura, Zé manteve-se afastado enquanto levantava a gola do sobretudo para se proteger do vento gelado. Na sua mente corriam as memórias do antigamente; os bilhetinhos passados de carteira em carteira, os olhares tímidos e os sorrisos envergonhados. Quando começaram a trabalhar, ela vinha com a lista da mãe, escrita por vezes na margem de uma folha de jornal. Sem saber como dizer o que sentia, ele desenhava corações no papel pardo com que se embrulhava a carne. Nunca disse nada. Mas cada bife levava um pedaço do seu coração. Ela nunca comentou. Ele nunca perguntou.
Entregue o corpo à terra, todos começaram a dispersar apressadamente para sair do frio e da chuva que ameaçava começar a todo o momento.
Zé sabia que aquela era a única oportunidade que tinha de se aproximar novamente dela. Tentar recuperar um segundo que fosse, de um tempo que nunca fora seu.
Decidiu-se. Deixou o farmacêutico, que lhe dizia não sabe o quê, a falar sozinho e atirou uns passos largos até chegar ao trio de mulheres que se afastavam da sepultura onde o coveiro começava o serviço.
O olhar dela, posto no chão, focou-se nos sapatos pretos, brilhantes, maculados apenas por pequenas manchas de lama. E depois subiu para o rosto dele, que esperava exibir pesar suficiente.
— Madalena… — rouquejou, tossindo imediatamente para aclarar a garganta —… os meus sentimentos. Como te sentes? — Percebendo a estupidez da pergunta, corrigiu-se, contristado — Como estás a aguentar-te? E os teus filhos?
— Oh, Zé, bom amigo. — Miou ela, quase em sussurro. — Ainda não acredito no que aconteceu… logo no aniversário dele… o meu Bruno…
Ele tinha vontade de a abraçar, conseguir finalmente sentir aquele corpo encostado ao seu, ainda que pelos motivos errados. Limitou-se a agarrar-lhe uma das mãos gélidas e apertá-la nas suas: — Como vai ser agora? Onde estão as crianças?
— Ficaram com uma vizinha, não os queria aqui. — Confessou mansamente, sem retirar a mão que ele apertava com avidez. — Não sei que vou fazer da minha vida, que já não estava fácil…
— Ainda é muito cedo para saber o dia de amanhã. — Grasnou a sogra, puxando-lhe o braço, suave, mas firmemente, de forma que nos soltássemos. — O futuro a Deus pertence e se Ele quiser, não lhes há de faltar nada.
— Se precisares de alguma coisa… — ele não acabou a frase, enquanto o olhar de Madalena se despegava lentamente do seu e elas começavam a afastar-se. Trocaram poucas palavras, mas o peso do passado estava omnipresente naqueles segundos.
Ele ignorou o olhar interrogativo da cunhada dela, embora sentisse o ressentimento da sogra. Várias das pessoas ainda dispersas pelo cemitério observavam a cena e cochichavam entre elas. Desconfortável, virou-lhes as costas e foi-se embora por sua vez.
Entrou no talho como um furacão, ainda envergando a roupa do funeral e mal cumprimentou os atarefados funcionários. Pegou num bocado de alcatra e cortou quatro generosos bifes, depois cortou e aparou bons pedaços de entrecosto e entremeada, ao que juntou algumas chouriças.
Colocou todos os sacos individuais num saco branco sem asas. Tirou a caneta com o seu nome gravado do bolso e desenhou um coração que não conseguiria passar despercebido. Depois meteu tudo num saco de azul de asas, com que saiu do estabelecimento, perante o olhar interrogativo dos funcionários.
Enquanto caminhava em passos largos pelas ruas, debaixo da chuva que começava a cair sem vergonha, as suas memórias voltavam ao passado.
** / **
O pai dele deixava que ela fosse atendida pelo filho em exclusividade, que eram colegas de escola.
O olhar de Madalena quando ia buscar as compras, não sabia se era de amor, se simples simpatia, mas havia sempre um calor onde ele gostaria de mergulhar para sempre.
Ela nunca comentou nada dos corações que lhe enviava no papel de embrulho, não sabia se os vira, ou se os ignorava e ria-se dele à socapa… achava que não.
O seu sonho começou a ser perturbado pelo roncar da Casal 125 que percorria ruidosamente as ruas da freguesia e que fazia-a correr para a porta do talho para o ver passar.
Ela não percebia, ou se percebia, disfarçava, o olhar de tristeza dele quando ela voltava para o interior do estabelecimento.
Como raramente falavam mais do que o necessário, o acanhamento tolhia-o, nunca ela lhe disse quando começou a namorar com o Bruno.
O dia do casamento de Madalena, passou-o ele a chorar de arrependimento, trancado no quarto. Dali em diante nunca mais os corações apareceram no papel pardo que embrulhava a carne.
**/**
Chegara à porta de casa dela. A chuva caía copiosa e ele estava todo encharcado. Agora que ali chegara, estava hesitante e a sua mão erguia-se, num gesto que não terminava, para tocar à campainha.
A porta abriu-se, surpreendendo-se ele e a mulher que saía.
Era a cunhada de Madalena, que lhe deitou um olhar desconfiado:
— Senhor José? Que está aqui a fazer à chuva? A Madalena está lá dentro, que entrar?
— Não, não! — Desculpou-se atabalhoadamente. — É só para entregar isto para os ajudar neste momento difícil. — Virou costas e afastou-se a passos largos, quase a correr, ignorando as poças no caminho.
Manuel Amaro Mendonça é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/

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