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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Viriato: O pastor que desafiou um império

 Em 150 a.C., um pastor escapou ao massacre dos lusitanos perpetrado por Galba. Durante oito anos, travou as legiões, mas em que fontes podemos confiar?

MUSEU DO PRADO, MADRID - Este óleo de José Madrazo (pintado perto de 1808) representa o líder lusitano no seu leito, assassinado por homens que julgava próximos, mas que o traíram em benefício de Roma.

Viriato é uma personagem bem conhecida dos portugueses, seja por referências nos bancos da escola, seja por leituras mais recentes, como A Voz dos Deuses, de João Aguiar, ou as biografias publicadas pelo académico espanhol Maurício Pastor, ambas traduzidas em Portugal, ou simplesmente por memória difusa do seu nome e valorosos feitos. Todos sabem que foi um chefe tribal lusitano, que combateu os romanos há mais de dois mil anos, em defesa da sua “pátria” e muitos supõem que essa Lusitânia de Viriato teria sido uma espécie de prefiguração de Portugal, o que faria dele um remoto antecessor. Que teria nascido na serra da Estrela ou seria em Viseu?

Lamento informar os leitores que boa parte dessas ideias são fantasias sem qualquer sustentação em fontes credíveis, embora, como escreveu há mais de século e meio Alexandre Herculano, o nosso primeiro historiador de base científica, “a opinião de que somos os sucessores e representantes dos lusitanos não só se firmou e perpetuou entre os eruditos, mas também se tornou por fim uma crença nacional e quase popular que dificultosamente se poderá desarreigar do comum dos espíritos”. Pois se até no recém-publicado livro Astérix na Lusitânia, uma Lusitânia de homens de bigode negro, de bacalhau, pastéis de nata e mulheres de xailes fadistas, o valoroso lusitano é mencionado como antepassado…

Com a consciência de que é tarefa dificultosa, vejamos o que as fontes históricas nos dizem sobre este chefe lusitano, os seus feitos e a sua “pátria”.

Chefe tribal lusitano

Dispomos apenas de um acervo literário composto por romanos e gregos, já que até nós não chegou nenhuma narrativa de autoria lusitana. Diz o historiador Diodoro Sículo, que seria originário dos lusitanos que vivem junto ao oceano, o que, desde logo, o aparta da serra da Estrela ou de Viseu, remetendo o seu berço para um lugar difuso do Sudoeste da Península Ibérica.

Diz também que era pastor desde criança, estando por isso habituado a uma vida austera e de privações; que essas origens ter-lhe-iam dado uma compleição física extraordinária, com notáveis atributos de força e resistência. Estes traços foram particularmente importantes para a construção de outro Viriato mítico. Diz também que teria juntado um grupo de salteadores, que se dedicou à pilhagem das regiões meridionais ricas e se distinguiu na luta contra o poder romano. À medida que cresceu o seu prestígio guerreiro cresceu também o seu grupo, incluindo gentes de outras comunidades, tendo contribuído também para o levantamento de muitos contra a presença romana.

Olhando para outro tipo de fontes históricas que relatam os sucessos da conquista romana na Península Ibérica, ficamos a saber que houve um prolongado conflito na região ocidental, com confrontos com chefes tribais, de que Viriato foi um entre outros, embora sem dúvida o mais bem-sucedido. Por isso, a historiografia romana assegura que a guerra lusitana durou 14 anos (Tito Lívio), ou 11 (Diodoro Sículo) ou 8 anos (Apiano) – este último circunscreve-a ao período em que efectivamente Viriato dominou o cenário guerreiro, embora haja outros líderes que, em simultâneo, pilhavam e guerreavam os romanos. Assim, os conturbados tempos de instabilidade, de conflitos com chefes tribais e bandos de guerreiros não começaram nem acabaram com a chefatura de Viriato.

Que estas rebeliões e guerras eram movidas por gentes chamadas lusitanas parece consensual para todos os autores, mas o que era afinal a Lusitânia para gregos e romanos?

A Lusitânia

MASSIMO RIPANI / FOTOTECA 9 X 12 - Augusto fundou Mérida em 25 a.C. como capital da Lusitânia (em cima, o famoso teatro). Os beligerantes habitantes desta região tinham fustigado até então as legiões de Roma, após a morte de Viriato.

A mais antiga descrição de uma Lusitânia, lugar difuso do Ocidente da Península Ibérica, deve-se ao historiador grego Políbio, que conheceu de facto estas paragens, nos meados do século II antes da nossa era.  

Ao contrário de muitos outros autores que escreveram sobre a guerra lusitana ou sobre a Lusitânia sem nunca aqui terem estado, Políbio escreveu com conhecimento de facto e a sua Lusitânia é uma terra rica em toda a sorte de recursos agropecuários e marinhos: “Devido ao clima favorável, tanto os humanos como os animais são muito produtivos e a terra nunca carece de produtos.” Parece claro que se referia à franja litoral do Sudoeste, a região já controlada pelos romanos.

A descrição é surpreendente, se pensarmos que mais de um século depois, outro autor grego, Estrabão, refere a Lusitânia delimitada a sul pelo Tejo, tendo sido a zona que mais dificultosamente os romanos controlaram, porque “os montanheses” que a habitavam seriam causadores de conflitos “pois ao habitarem em terra mísera e além do mais escassa, ansiavam pelo alheio”.

Confrontando as duas descrições, poderemos encontrar uma das chaves para o entendimento da chamada guerra lusitana: a coexistência de dois mundos nestes territórios: um, rico e próspero, outro de pobreza e escassez. Políbio parece dar-nos também outra chave importante: uma demografia crescente, que gerava a carência de terra para todos os que nela viviam.

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Para os autores antigos, a Lusitânia foi um território difuso a ocidente, que só ganhou contornos precisos com a criação de uma província com esse nome.

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Mas não faltam também outras referências contraditórias sobre quais seriam os limites dessa Lusitânia, parecendo claro que foi para os autores antigos um território difuso a ocidente, que só ganhou contornos geográficos precisos quando os romanos criaram uma província com esse nome. A delimitação provincial foi aparentemente arbitrária, não remetendo para qualquer realidade política preexistente.

Refira-se também que esta província romana não correspondia ao Portugal histórico. A província estava delimitada a sul e ocidente pelo Guadiana e pelo mar e, a norte, pelo rio Douro, estendendo-se para territórios que pertencem hoje a Espanha, com a sua capital na Colonia Augusta Emerita, hoje Mérida. Em área bruta, somente metade da província englobava o Portugal de hoje e a designação de Lusitânia para o nosso país resulta apenas de um exercício erudito, do tempo em que o latim constituía a língua de comunicação entre letrados e se recuperaram os antigos nomes latinos para designar as novas realidades políticas. Mas a tradição manteve-se até aos nossos dias. Esta partilha territorial ajuda-nos a perceber a razão pela qual em Espanha se reconhece e exalta a figura do Viriato lusitano, tanto como em Portugal.

AORONOZ / ALBUM - Escudos, lanças e couraças são as armas destes guerreiros iberos. Na época de Viriato, o Levante peninsular estava plenamente romanizado, ao contrário do interior do território.

A chamada Guerra Lusitana

Há mais de dois mil e duzentos anos, grupos tribais, chamados lusitanos, gente móvel, sem eira nem beira, percorriam em acções de pilhagem as ricas regiões meridionais. Andavam em busca de terras onde se fixar, praticando aquilo a que hoje chamaríamos um “banditismo social”, ou seja, pilhavam e roubavam por não terem recursos próprios suficientes, como o comentário do grego Estrabão sugere. As vítimas destas correrias eram as comunidades meridionais submetidas e enquadradas pelos romanos, e as respostas destes constituíam acções punitivas, que hoje chamaríamos policiais.

TERRITÓRIO EM CHAMAS

Os lusitanos são citados pela primeira vez nas fontes em 194 a.C., data em que atacaram Ilipa, mas a sua presença fez-se sobretudo notar a partir de 154 a.C., após as incursões de um dos seus líderes, Púnico, na Betúria (o território entre os rios Guadiana e Guadalquivir). Sucedeu-lhe Césaro que, em 153 a.C., derrotou um exército romano dirigido por Lúcio Múmio, pretor da Hispânia Ulterior. Em 150 a.C., ocorreu o massacre dos lusitanos, ordenado por Galba, pretor da mesma província, mas Viriato sobreviveu. Em 147 a.C., este é mencionado como líder dos lusitanos que combatiam Caio Vetílio. Derrotou-o e cercou as suas tropas em Carteia, o que lhe deu o domínio da província. Em 146 a.C., venceu Caio Plaúcio, sucessor de Vetílio, e atacou a Hispânia Citerior. Da sua base, em Mons Veneris (que poderá corresponder à serra de São Vicente), tomou Segóbriga e derrotou os governadores da Hispânia Citerior, Cláudio Unimano e Caio Nigídio. Nos anos seguintes, Viriato terá feito de Tuci uma das suas praças fortes e foi sempre incómodo para os exércitos romanos. Em 140 a.C., a vitória sobre Quinto Fábio Máximo Serviliano permitiu-lhe sonhar com um tratado vantajoso com Roma, mas, no ano seguinte, foi assassinado.

Para os autores da época, estes salteadores pretendiam somente terras para se fixarem.  As tensões entre romanos e estes lusitanos resultavam de punições, pactos e promessas nem sempre cumpridas. Nas vésperas da eclosão da guerra lusitana, houve um episódio dramático: o governador romano Sérvio Galba, depois de prometer terras para a instalação dos bandoleiros, recebeu-os, desarmou-os e chacinou-os, num acto que foi condenado pelo próprio Senado de Roma e ficou conhecido na historiografia como “a perfídia de Galba”.

Continuaram as correrias destes grupos tribais, sempre com reiterados desejos de terras e o novo governador, Caio Vetílio, depois de os perseguir e encurralar, de novo prometeu cedência de terras. Foi então que surgiu Viriato, um sobrevivente da chacina de Galba, que terá recordado ao grupo as falsas promessas e traições romanas. Foi aclamado chefe e comandou a fuga do contingente tribal, que de novo se dedicou ao saque.

A guerra prosseguiu por oito anos, por terras das actuais Andaluzia e Extremadura, com alguma eventual extensão a ocidente. Por fim, Viriato pactuou uma trégua, buscando um reconhecimento de Roma, como aliado e legítimo dominador dos territórios que então controlava. O Senado romano não aceitou o pacto. Só aceitaria uma rendição incondicional, como sucedeu com outros grupos e noutras paragens. O conflito reacendeu-se, com avanços dos exércitos romanos e Viriato acabou assassinado por alguns companheiros. Nas palavras do historiador Apiano, Táutalo, que sucedeu a Viriato, entregou-se ao novo governador, Cipião, “este tirou-lhes todas as armas e concedeu-lhes terra suficiente para que não se vissem obrigados a roubar por necessidade”.

JOSÉ ALFREDO - Em 2021, numa  rua de Viseu, emergiu esta estela com vestígios do corpo esculpido de um guerreiro e uma inscrição em escrita lusitana que consagra divindades indígenas, reminiscentes dos povos pré-romanos.

O fim da chamada guerra lusitana não foi o fim dos conflitos destes com os romanos, que se prolongaram por longas décadas e decorreram já, na maior parte dos casos, em território hoje português. A ligação entre lusitanos e a serra da Estrela refere-se a uma narrativa mais tardia, quase um século depois de terminada a guerra de Viriato, quando Júlio César atacou os lusitanos do “monte Hermínio”, usualmente identificado com o maciço central português. Contudo, os episódios destes confrontos também são pouco claros, uma vez que os lusitanos, depois dos primeiros confrontos se refugiaram numa ilha, não se percebendo como os lusitanos em fuga da serrania interior encontraram refúgio num ponto do litoral.

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Viriato pactuou uma trégua, buscando um reconhecimento de Roma, como aliado e legítimo dominador dos territórios que então controlava. O Senado romano não aceitou o pacto.

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Viriato mítico

Ao lado do Viriato histórico, conhecido apenas por escassos apontamentos quase sempre relacionados com os seus êxitos guerreiros, tomou forma outro Viriato. Este nasceu no ambiente cultural do Segundo Estoicismo, que enaltecia os valores naturais, contrapondo-os à suposta degenerescência resultante do progresso e sofisticação da sociedade.

Assim, o “bárbaro”, vindo de uma vida de montanha, resistente, forte, veloz, acostumado à actividade física e à alimentação frugal e repousando o mínimo, sóbrio e austero, desprezando os bens materiais, tornando-se o justo líder dos seus, constituía o modelo de virtudes então enaltecido.

GIOVANNI SIMEONE / FOTOTECA 9 X 12 - A resistência lusitana extinguiu-se à entrada no século I a.C., o que permitiu a Augusto fundar a província da Lusitânia, onde se ergueu a magnífica ponte de Alcântara.

O CASAMENTO DE VIRIATO

Um episódio sugestivo da personalidade de Viriato é o relato do seu casamento com a filha de Astolpas, um rico proprietário lusitano da área controlada pelos romanos. Devemos ao historiador grego Diodoro Sículo, que escreveu cerca de cem anos mais tarde, a narração deste episódio. Segundo a crónica, Viriato chegou a casa de Astolpas acompanhado apenas de uma pequena guarda pessoal. “Como estava exposta uma grande quantidade de copos de prata e ouro e vestidos de muitos tecidos e cores, Viriato, apoiando-se na lança, olhou com desdém para estas riquezas sem se maravilhar com elas, manifestando aliás desprezo.” Não se sentou à mesa do banquete. “Provou apenas pães e carne e distribuiu-os em seguida pelos que o acompanhavam. Depois, ordenou que o conduzissem à presença da noiva, fez o sacrifício aos deuses à maneira dos iberos, sentou a donzela a cavalo e partiu para a serra, na direcção da sua morada oculta.” Diodoro refere também que, tendo visto todos os tesouros de Astolpa e sabendo-o aliado dos romanos, Viriato perguntou-lhe porque decidira aliar-se a ele, homem de vida nómada e origens humildes.

É na obra do historiador Diodoro Sículo que encontramos os principais tópicos deste Viriato, onde não falta outro apontamento importante: a eloquência e sageza, resultante de ser somente “educado na compreensão das coisas práticas”.

Este historiador contribuiu com dois dos mais conhecidos apontamentos da sabedoria prática de Viriato: o seu casamento com a filha de um rico proprietário e o discurso aos habitantes da cidade de Tuci. No primeiro caso, diz-nos que o lusitano desprezou os ricos presentes do seu sogro, que convivia com os romanos, e o interpelou, perguntando-lhe pela razão por que o acolhia se tinha nos seus ami-gos a protecção. No segundo, conta-se que teria usado uma pequena história para reprovar o comportamento dos de Tuci, que por vezes tomavam o seu partido, acolhendo-se ao amparo dos romanos, noutras ocasiões. Contou-lhes então a história do homem de meia-idade que tinha duas mulheres, uma jovem e outra mais idosa e que a primeira lhe arrancava os cabelos brancos, para que se parecesse com ela, e a outra os cabelos negros, para que parecesse mais velho. No final, o homem acabou calvo. Assim aconteceria com eles, mortos pelos romanos de cada vez que seguissem Viriato e chacinados pelos lusitanos de cada vez que se acolhessem ao amparo dos romanos, a ponto de a cidade ficar deserta.

Como sucede nestes casos, ambas as histórias terão algum fundamento, já que sabemos que durante a guerra lusitana Viriato terá recebido apoios locais das populações instaladas que escolheriam ora uma ora a outra parte consoante o lado para onde penderiam os sucessos da guerra. É este Viriato mítico que se tornou popular na posteridade. Um retrato mítico, do chefe providencial, que lidera com firmeza e justiça os seus, que é sóbrio, austero e desprendido de bens materiais que prefere repartir com os seus. Uma figura virtuosa, cujos atributos podem ser escolhidos e valorizados, consoante as épocas.

ANTONIO REAL / AGE FOTOSTOCK - A sul do Tejo, Viriato podia saquear as ricas terras meridionais. Mais tarde, com a criação da província da Lusitânia, uma nova via, a chamada “Via da prata” estabeleceu as comunicações entre norte e sul, pelo interior (em cima, o arco de Capara).

Viriato português e espanhol

A apropriação de Viriato pelos portugueses é antiga. O lusitano é herói em Os Lusíadas, de Camões, como o é no poema épico Viriato Trágico, de Brás Garcia de Mascarenhas, composto durante a guerra da independência do reino de Portugal contra Castela, depois do fim da Monarquia Dual. Neste caso, as andanças do lusitano contra os romanos aparecem associadas à oposição que o autor, defensor da fronteira beirã, moveu contra castelhanos.

No início do século XIX, quando houve que escolher os nossos antepassados ilustres para decorar o coroamento do Arco da Rua Augusta em Lisboa, Viriato foi um dos contemplados e ali figura, com cabeleira longa e túnica curta, uma imagem que remete para o estereótipo dos filósofos gregos, representando bem o herói estóico de Diodoro.

Não se pense, porém, que esta apropriação portuguesa foi pacífica. Também em Espanha Viriato foi apropriado por múltiplos autores e regiões. Cite-se, a título de exemplo, o livro publicado por Anselmo Arenas com o sugestivo título Viriato no fué português sino celtibero, su biografia, onde se mesclam denominações modernas (português) com referências da Antiguidade (celtibero), ou a monumental pintura neoclássica de José de Madrazo, exposta no Museu do Prado, em Madrid, ou o Viriato de Zamora representado em estátua naquela cidade espanhola.

AISA - Em 1880, o pintor Alejo Vera recriou o suicídio dos numantinos, que preferiram morrer a render-se. Com a queda de Numância, terminou o ciclo das guerras celtiberas e lusitanas. 

UMA FRASE HISTÓRICA?

“Roma não paga a traidores” Segundo a tradição, esta foi a resposta que o romano Quinto Servílio Cipião deu aos assassinos de Viriato quando se apresentaram perante ele para reclamar a sua recompensa, e a expressão passou ao acervo das frases feitas. Mas, como sucede com tantas outras, não há testemunhos que sustentem a sua autenticidade. Apiano limita-se a dizer que Cipião “lhes concedeu que usufruíssem de quanto tinham, mas quanto ao que pediam remeteu-os para Roma”. O mais parecido com a famosa frase é o trecho do autor bizantino Eutrópio, de um famoso Breviário de compêndio à História de Roma escrita por Tito Lívio: “Quando os seus assassinos pediram ao cônsul Cipião o seu prémio tiveram como resposta que aos romanos nunca lhes agradara que os soldados assassinassem os seus chefes.” A este autor devemos as palavras que poderíamos considerar o mais nobre epitáfio de Viriato: “Foi considerado o melhor defensor da liberdade da Hispânia frente aos romanos.” Não é de estranhar que, ao longo da história, a figura do líder lusitano tenha sido reivindicada por Portugal e Espanha como emblema da resistência pátria frente ao invasor.

Um poderoso impulso para a afirmação do Viriato português veio da publicação da sua biografia pelo académico alemão Adolf Schulten, especialista em temas da Antiguidade da Península Ibérica. Nessa obra, o berço de Viriato é estabelecido na serra da Estrela, sem qualquer fundamentação histórica, mas só porque “hoje mesmo [entenda-se, no início do século XX] habita ali, no meio de privações e na solidão, uma população livre e selvagem, com os seus rebanhos de ovelhas e cabras”, rematando com a afirmação que “desde então, o nome e a fama do herói tornaram-se propriedade patriótica da nação portuguesa”.

A obra de Schulten é “filha do seu tempo”, de ascensão e exaltação dos nacionalismos, e não falta mesmo o capítulo dedicado à “guerra da independência” movida por Viriato, que não encontra eco nas narrativas antigas, a não ser na etapa final de proposta de um pacto que lhe concedesse o domínio das terras que ocupara. Mas serviu bem à ideia portuguesa de ter no lusitano o seu remoto ancestral, tanto mais por ser um estrangeiro a afirmá-lo.

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No início do século XIX, quando houve que escolher os nossos antepassados ilustres para decorar o coroamento do Arco da Rua Augusta em Lisboa, Viriato foi um dos contemplados e ali figura.

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AORONOZ / ALBUMA PRISMA - Viriato foi contemporâneo da rebelião dos celtiberos contra Roma, que teve o seu epicentro em Numância.

Em 1940, ainda que à margem das comemorações oficiais do oitavo centenário, de fundação do reino de Portugal e do terceiro da independência face a Espanha, foi inaugurada em Viseu, junto do recinto medieval conhecido como “cava de Viriato” um grupo escultórico encimado pelo herói. Aqui, a personagem é representada em registo que convoca os dados arqueológicos para lhe dar autenticidade: na mão, empunha uma espada curva e o escudo redondo ostenta o complexo umbo encontrado na necrópole celtibérica de Quintanas de Gormaz.

A popularidade do chefe lusitano foi estimulada pelo programa escolar do Ensino Básico de 1960, centrado na apresentação da galeria dos “Grandes Portugueses”, personalidades que deveriam instigar nas crianças o culto pelos valores nacionais. O primeiro era justamente Viriato, em claro anacronismo, uma vez que as suas façanhas se reportavam a um tempo anterior à existência de Portugal e a sua pretensa guerra de independência, para usar a expressão de Schulten, decorrera fora do espaço português. O programa escolar encontrava expressão também num álbum de banda desenhada, publicado pela Mocidade Portuguesa, contendo notas biográficas de cada um destes históricos modelos de virtudes.

Em 1964, a reforma do ensino suprimiu da lista dos “Grandes Portugueses” a figura de Viriato. Com o país envolvido em guerras em três colónias africanas, não deveria ser interessante transmitir aos futuros incorporados no Serviço Militar as virtudes de alguém que, com um punhado de companheiros, enfrentou em acções de guerrilha um exército imperial.

Com a chegada da democracia a ambos países ibéricos, uma nova etapa se abriu no relacionamento entre Portugal e Espanha, que passaram a partilhar sem disputa o seu longínquo herói. Por isso, o livro de João Aguiar,  A Voz dos Deuses (memórias de um companheiro de Viriato) conheceu edição espanhola, como as biografias de Viriato do académico espanhol Maurício Pastor foram traduzidas e editadas em Portugal. O Viriato mítico, chefe providencial e carismático, líder do seu povo, homem livre e vivendo de um modo natural, desprezando os bens materiais e repartindo pelos seus com justiça o que obtém, apresenta, afinal, um catálogo de virtudes, passível de distintas leituras, consoante o espírito dos tempos. Em suma, é uma personagem para todas as estações.  

Artigo publicado originalmente na edição nº 28 da revista National Geographic História. 

Carlos Fabião
Actualizado a 15 de maio de 2026

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