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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Os lugares onde se olha o céu

Por: Paula Freire
(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


 Como habitualmente, o telemóvel do avô demorava alguns segundos a estabilizar a imagem. Primeiro apontava ao teto da cozinha, depois descia para a testa enrugada, seguia-se um olho atento a espreitar. E só por fim o rosto inteiro, sempre demasiado próximo da câmara, iluminado pela luz pálida do candeeiro em cima da mesa.

— E agora?... Já me vês?

Miguel sorria, invariavelmente.

— Sim, vejo.

O ecrã quase perdido na desarrumação da secretária, entre chávenas vazias de café, caixas de comprimidos por abrir e folhas espalhadas ao longo de uma tarde vagarosa que não chegara a transformar-se em trabalho.

— Não te preocupes, avô. Estás cada vez mais moderno.

— Eu? Moderno?... Bom, se calhar sim. Olha, ainda ontem carreguei no botão do micro-ondas e desliguei a televisão da sala.

Riram-se os dois. Miguel, pela primeira vez nesse dia. O avô, devagar, como alguém que já desaprendera a alegria. Quem sabe, talvez ambos ainda guardassem alguma memória dela.

Atrás do avô, a cozinha continuava igual. A mesma toalha de plástico com flores desbotadas; o velho relógio, por cima da porta, a marcar horas desnecessárias; o armário da louça que existia há mais anos do que as paredes da casa. Ao fundo, uma nesga do pátio. O muro de pedra, as duas videiras tortas e, lá longe, uma ponta da serra adormecida sob o anoitecer.

Miguel aguardava aquelas chamadas como se esperasse por uma paz ansiada. Já não conseguia distinguir os dias uns dos outros. Era um acordar cansado, adormecer exausto e, pelo meio, ruídos constantes, sem linguagem, a falarem com ele e a diluírem-se, com o avançar dos minutos, sem a mais ínfima pausa. Já o avô, pelo contrário, parecia viver num mundo cheio de serenidade, com a paciência dos que nunca se adiantam para chegar às palavras. Como se soubesse de algum segredo escondido nos confins da existência.

— E então, choveu por aí, hoje? — perguntou o avô.

Nem reparara. Miguel olhou pela janela. Carros, sirenes de ambulâncias, luzes acesas em prédios onde ninguém se conhecia e, ali dentro, o ar pesado e quieto que se arrastava há meses.

— Não sei, acho que sim… — respondeu, distraído, a encolher os ombros.

— “Acho que sim” não é resposta de quem viu o dia.

Miguel ficou com o olhar silencioso como se qualquer observação fosse prescindível.

Por sua vez, o avô manteve-se calado, por segundos, como se receasse certas lembranças. 

— E tens dormido alguma coisa de jeito?

— Mais ou menos.

— Isso cheira-me a “não”. Que ainda continuas muito longe. 

— Talvez… E não sei bem como se volta.

— Volta-se insistindo — respondeu o avô. — Andas a pensar muito outra vez.

— Achas que dá para desligar o botão?

— Não. Mas dá para não estares desacompanhado enquanto isso acontece.

Miguel deixou escapar um suspiro. Muitas eram as vozes que, diariamente, habitavam o mesmo espaço que ele. Contudo, a solidão ocupava-lhe o corpo. Ultimamente, até o mais simples lhe pedia uma coragem absurda: levantar-se da cama, abrir persianas, atravessar as ruas cheias de caras desconhecidas. A maior insânia? Todos continuavam a falar-lhe da mesma forma. O mundo não reconhece a tristeza que paira, invisível, no ar.

— Acho que ando perdido de mim mesmo — confessou.

— Não. Só estás cansado de existir sozinho. Há quem passe a vida inteira assim.

— Então, não melhora?

— Não. Aprende-se a continuar.

Deu-lhe a única resposta possível. Miguel sorriu com tristeza.

— E tu, avô, tens saído de casa?

— Nem por isso. Às vezes, estou três ou quatro dias sem ouvir uma voz. Nem uma. Só os cães do vizinho.

Afirmou-o com o mesmo desembaraço de quem fala de comida e um bom copo de vinho.

— Mas ontem saí. Fui ao cemitério. A tua avó continua a ter mais visitas do que eu.

Miguel sentiu os olhos húmidos. O avô costumava dizer que a vida é mais severa quando não existe ninguém com quem a dividir. Agora imaginava-o sozinho naquela casa desde a morte da avó. Os dias compridos, o gemido dos móveis à noite, a televisão ligada só para ter companhia. Talvez porque, desde miúdo, o avô lhe parecera pertencer a uma estirpe remota de homens incapazes de serem vencidos, nunca lhe ocorrera perguntar-lhe se a solidão também o afligia.

O avô voltou a aproximar a cabeça do telemóvel.

— Queres que te conte uma coisa curiosa?

— O quê?

— Quando a tua avó morreu, pensei que o pior era deixar de falar com ela. Mas sabes, o pior mesmo foi deixar de ter alguém a quem mostrar as minhas pequenas coisas.

— As tuas pequenas coisas?

— Sim… Os caracóis que encontrei no quintal. A água a pingar da telha partida no telhado. A lenha a estalar na lareira… Essas porcarias sem importância nenhuma. Sabes, nós pensamos que vivemos de grandes momentos mas andamos todos enganados. Vive-se é destas misérias pequenitas que vamos partilhando com alguém, sem nos darmos conta.

Ouviu-se a buzina violenta de um carro, fora do apartamento. Na aldeia do avô, pelo contrário, a calmaria era completa. Sentiu inveja.

— Espera aí… — e o ecrã do telemóvel esvaziou-se da presença do avô durante um minuto.

A cozinha silenciosa. O relógio. O chiar de uma porta a abrir.

Quando ele voltou, trazia uma maçã na mão.

— Os médicos dizem que faz bem ao coração — explicou, a sorrir, depois de uma dentada. — Vem comigo. Vê o que te vou mostrar.

Saiu para a rua. A aldeia completamente recolhida. Não se viam anúncios cheios de cores, nem trânsito, nem prédios a interromper a noite. Somente a estrada estreita, as pedras cobertas de musgo, dois postes de eletricidade, a escuridão ao fundo. 

Depois, o avô estendeu o aparelho ao céu. 

— Aqui ainda dá para olhar para cima — anunciou. — Acho que te esqueceste de como é. 

Um céu gigante, carregado de estrelas. Luminoso. Miguel já não se lembrava da última vez que vira um assim.

— Acho que me fui esquecendo de muita coisa, avô…

Demoraram-se os dois, durante algum tempo, naquela quietude do firmamento abraçada pela tremura branda do vento.

Depois, Miguel teve uma ideia.

— Agora é a tua vez.

Abriu a janela do quarto. Os vidros dos prédios em redor refletiram a agitação noturna. Ali, a cidade permanecia desperta. Excessivamente iluminada. Exageradamente viva. 

— Estás a ver aquela janela ali em frente? — perguntou.

O avô aproximou os olhos do ecrã.

— Qual delas?

— Aquela com a luz azul.

— Sim, estou a ver.

— Naquele apartamento mora uma senhora que chega todas as noites a esta hora. Nunca a vi acompanhada. Não deve ter marido nem filhos.

O avô observou, diligente.

— E ali em baixo, naquele café da esquina… está sempre um homem de boné e com o seu cachecol, a comer torradas e a beber cerveja, enquanto vê os jogos de futebol.

Miguel desceu ligeiramente a câmara. Num quarto andar, uma rapariga, de pijama, regava as plantas na varanda. Mais abaixo, um rapaz magro fumava, encostado ao parapeito da janela. Junto a um semáforo, um idoso, apoiado na bengala, tentava acelerar o passo para conseguir passar antes do vermelho dos peões.

— Um mundo cheio de pessoas que, ao mesmo tempo, procuram não se sentir sozinhas! — comentou Miguel.

— Sabes, meu rapaz, antigamente eu achava que as pessoas eram diferentes umas das outras. Que algumas eram mais fortes e mais preparadas para a vida. Agora sei que andamos todos a ver se encontramos a mesma coisa. Só mudam os sítios onde o procuramos e a maneira como o fazemos.

As estrelas espalhavam-se sobre a aldeia com uma nitidez esplendorosa. No ponto oposto, milhares de luzes continuavam acesas no berço noite. Debaixo de todo esse manto, uma imensidão humana que, quer ao avô como ao Miguel, já não lhes pareceu, assim tanto, composta por estranhos. Somente por pessoas. Preocupadas. Assustadas. Cansadas. A silenciosa fragilidade de toda a gente.

Afinal, a idade não cura a solidão nem a cidade a deixa distraída. Mas, pelo menos, que haja alguém, para lá de todas as distâncias, com quem possamos olhar o nosso céu e dividir as nossas pequenas coisas. Tudo aquilo que não cabe em nenhum modo de escrever ou de falar. 

Só para não permitir que o escuro nos aconteça sozinhos. Só para que o outro saiba onde pode regressar quando a noite se tornar demasiado grande.

Paula Freire


Paula Freire
. Tem curiosidade pelo que se mostra sem intenção: o comportamento que revela mistérios, intimidades. Observa-o enquanto desenha pessoas e fotografa o mundo. As palavras nascem-lhe da escuta atenta do Homem, dos silêncios que deixam vestígios. Escreve a partir de múltiplos lugares. Alguns com rosto, outros sem nome. 
Acredita que a vida não dá certezas absolutas nem tem respostas fáceis. E que a sensibilidade humana nunca deve ser confundida com fragilidade.
É psicóloga e psicoterapeuta. Publicou “Lírio: Flor-de-Lis” e “As Dúvidas da Existência: Na Heteronímia de Nós”. Este último (em coautoria), assinado pelo seu heterónimo Lázaro Rios, a sua forma de liberdade mais pura e crua. 
Gosta de viver sem ruídos desnecessários e inteira dentro da sua escrita. Tudo o resto são só excessos.

2 comentários:

  1. Os dois últimos parágrafos são comoventes. Não podemos resolver a solidão dos outros mas podemos estar lá. O teu texto, Paula, é profundamente sensível, cheio de ternura e de verdade, que nos faz pensar na importância das pequenas ligações humanas e no poder imenso de não deixarmos ninguém sozinho na escuridão.
    Mesmo à distância, um gesto simples pode iluminar a vida de alguém. Há no texto uma enorme delicadeza ao lembrar-nos que envelhecer não apaga a necessidade de afeto, de escuta e se possível, de presença.
    Profundo e verdadeiro.

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    1. Fico feliz por este pequeno conto ter alcançado o teu olhar dessa maneira. A sensibilidade da tua leitura, e o modo singelo como acolheste aquilo que tentei deixar vivo nas entrelinhas, é um dos sentimentos mais bonitos que qualquer texto pode receber do seu leitor. E sabes, tu que tens o dom da palavra, percebes bem o quanto escrever pode ser o resultado dessa vontade de iluminarmos, ainda que por poucos instantes, os lugares mais silenciosos uns dos outros. Obrigada, Henrique, pela tua ternura e humanidade e pelo espaço que nos dás — hoje, algo tão raro — para sermos realmente escutados com olhos de ver.

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