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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 12 de setembro de 2026

Ser bela (ou não ser) é determinante no destino que traçamos para cada espécie de borboleta

 Um estudo internacional, que incluiu dois investigadores portugueses, avaliou quais são as borboletas europeias consideradas mais belas e como isso influencia a atenção que cada uma recebe. Os resultados alertam para os efeitos desse enviesamento nas políticas de conservação.

Borboleta da espécie Zerynthia rumina. Foto: Eduardo Marabuto

Até que ponto é que uma espécie de borboleta mais vistosa recebe mais dinheiro para a sua conservação e mais atenção do grande público e dos cientistas do que acontece com espécies menos bonitas? Será que a estética pode ser determinante para o seu futuro?

Em busca de respostas para estas intrigantes questões, uma equipa internacional de 36 investigadores meteu mãos ao trabalho recorrendo a diferentes áreas de conhecimento, desde a sociologia à biologia. Publicado na revista científica Current Biology, o estudo foi liderado por dois cientistas da Universidade de Florença, em Itália – Leonardo Dapporto, do Departamento de Biologia, e Mariagrazia Portera, do Departamento de Literatura e Filosofia – e concluiu que sim: o viés estético (‘beauty bias’, em inglês), como é chamada a distorção que a beleza pode provocar nas opiniões que formamos sobre algo ou alguém, faz-se sentir também sobre a forma como os humanos olham as borboletas.

“A ideia não é nova: já Leonardo da Vinci notava que o ser humano se deixa seduzir pela beleza”, afirma uma nota de imprensa sobre o novo estudo, enviado à Wilder. “Mas quando essa preferência estética se infiltra na ciência e na conservação, deixa de ser um simples gosto e passa a decidir, na prática, o destino que damos às borboletas: que espécies são estudadas, que projetos recebem financiamento, que atenção mediática se gera e, no fim, que borboletas são esquecidas.”

Para determinar quais são espécies de borboletas que consideramos mais e menos atraentes, e porquê, os cientistas lançaram um inquérito online, disponível em sete línguas diferentes, que esteve ativo de julho de 2022 a janeiro de 2026. O alvo foram as borboletas diurnas europeias, uma vez que no geral são bastante comuns e conhecidas. Receberam mais de 21.000 respostas de mais de 100 países.

Quão bonita te parece?

Portugal, embora se tenha juntado à investigação numa fase mais tardia, foi um dos que contribuiu com maior número de inquiridos. “Fomos o quarto maior país em número de inquéritos respondidos, com cerca de 600 respostas”, indicou à Wilder Tatiana Moreira, que juntamente com Eduardo Marabuto coordenou o estudo em Portugal. Os dois são investigadores no Museu Nacional de História Natural e da Ciência, no centro de investigação CE3C (Universidade de Lisboa) e também na Associação BioLiving.

Quem acedia ao inquérito online, teve de observar nove imagens de espécies de borboletas diferentes e para cada uma, responder à pergunta “Quão bonita te parece?”, atribuindo uma pontuação de zero a dez. A partir das milhares de respostas recebidas, a equipa elaborou então um Índice de Beleza de Espécies para as 492 que foram avaliadas neste inquérito, praticamente todas as borboletas diurnas da Europa.

Ao olharem para o novo índice, os investigadores detetaram três características comuns às espécies classificadas como mais belas: a presença de cores primárias, com destaque para o azul e o amarelo; a existência de asas com contrastes de cores; por fim, ter asas alongadas com margens semelhantes às das folhas ou que terminam numa espécie de cauda, em detrimento de asas mais compactas.

“Estes resultados alinham-se com alguns aspetos da teoria da fluência do processamento, que afirma que as informações ou os estímulos mais fáceis de perceber (por exemplo, por causa da baixa complexidade ou de contrastes elevados) tendem a ser entendidos como mais agradáveis”, lê-se no artigo científico publicado.

Duas espécies relativamente abundantes em Portugal, com ‘destinos’ diferenciados no que diz respeito à percepção de beleza: a espécie Pyrgus malvoides classificou-se modestamente no Índice de Beleza de Espécies, enquanto a borboleta-carnaval (Zerynthia rumina) apresentou os valores mais altos. “Enquanto o público raramente regista a primeira, a segunda é das mais observadas por naturalistas no seu período de voo”, explica Eduardo Marabuto. Fotos: Eduardo Marabuto.

Essas avaliações foram então cruzadas com dados de investigação científica (número de publicações dedicadas a cada espécie nas últimas décadas), de atenção pública (volume de imagens carregadas em plataformas como o iNaturalist, dedicado à ciência cidadã, e o Flickr, de fotografia) e também de proteção legal (inclusão na Convenção de Berna de 1979 e na Diretiva Habitats de 1992) e ainda de estatuto de conservação, este último atribuído pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). “O resultado foi claro e consistente: quanto mais colorida, contrastante e ornamentada era a borboleta, mais investigação, mais atenção pública e mais proteção legal recebeu: sempre e sem excepção”, resume a nota de imprensa.

“Efeito bola de neve”

Os investigadores encaram este resultado como “um verdadeiro ‘efeito bola de neve'”, uma vez que esse viés estético de apreço por certas espécies acumulou-se ao longo de várias décadas. Para começar, as borboletas mais vistosas tornaram-se legalmente protegidas mais cedo, desde logo na Convenção de Berna, e muitas dessas espécies foram mais tarde transpostas para os anexos de espécies protegidas pela Diretiva Habitats, uma das principais bases da conservação europeia.

Por sua vez, os projetos de conservação apoiados pelo programa europeu LIFE tendem a dar mais atenção às espécies prioritárias, precisamente aquelas que estão inscritas na Convenção de Berna e na Diretiva Habitats. Esse maior investimento gera também mais investigação científica dedicada a essas mesmas borboletas, que tendem também a ter o seu ADN mais vezes sequenciado e guardado em bases de dados.

Mas não é tudo, alerta o artigo publicado na Current Biology. À medida que os dados de ciência cidadã se têm tornado fontes de informação mais comuns em avaliações de conservação, a maior atenção que é dada por muitos cientistas-cidadãos aos insetos mais vistosos pode contribuir também para enviesar as decisões políticas a nível europeu, com um peso importante para o futuro de muitas espécies.

Como resultado deste “efeito de bola de neve”, sublinham os investigadores, “muitas borboletas mais discretas foram ficando para trás, ainda que se saiba hoje que algumas delas estão muito mais ameaçadas e precisam da nossa ajuda”.

Quatro das espécies de borboletas que ocorrem em Portugal mais bem classificadas nos critérios de beleza. De cima para baixo, fritilária-mediterrânica (Euphydryas desfontainii), borboleta-vírgula (Lycaena virgaureae), Vanessa atalanta e Papilio machaon. As duas primeiras estão ameaçadas e apenas recentemente foram avaliadas segundo a UICN, enquanto as duas últimas são comuns. Fotos: Eduardo Marabuto

O contraste mais impressionante surge, precisamente, entre a proteção legal e o risco real de extinção. “Muitas das espécies atualmente em maior risco são borboletas discretas que historicamente receberam menos atenção”, explica Leonardo Dapporto, um dos coordenadores do estudo. “Isto torna-se evidente ao examinar as Listas Vermelhas europeias da UICN, que quantificam o risco de extinção com base em critérios científicos padronizados”.

De facto, a última Lista Vermelha das Borboletas Europeias, de 2025, revela que as espécies mais ameaçadas pelas alterações climáticas são muitas vezes borboletas escuras e alpinas, consideradas menos bonitas, que têm sido ignoradas pela pesquisa científica e pelas leis.

“As espécies ameaçadas não são necessariamente as mais belas, muito pelo contrário”, confirma o investigador da Universidade de Florença. “Nas avaliações mais recentes, as espécies sob maior ameaça revelaram-se mais propensas a ser menos atraentes e menos conspícuas. Surgiu assim uma tensão crescente entre as prioridades históricas da conservação e a urgência ecológica actual: decisões tomadas há décadas continuam a influenciar a distribuição de recursos, independentemente do risco real de extinção das espécies.”

Ainda assim, ressalva a equipa, isso não significa que as espécies “feias” não recebam qualquer proteção, mas sim que a beleza influencia as escolhas humanas: por serem menos belas, essas borboletas recebem menos atenção e são menos protegidas.

“Isto não é sobre ignorar a beleza da natureza”, acrescentam Leonardo Dapporto e Mariagrazia Portera. “É sobre reconhecer as nossas tendências implícitas humanas que moldaram a conservação europeia.”

“Ainda que exista um forte sinal filogenético de beleza entre as borboletas europeias (isto é, espécies aparentadas têm valores semelhantes), no caso em que existe forte dimorfismo sexual por vezes machos e fêmeas são classificados muito diferentemente”, explica Eduardo Marabuto. Neste caso da borboleta Polyommatus thersites, os machos (em cima) ficaram muito bem qualificados no Índice de Beleza de Espécies, contrastando com as fêmeas (na foto inferior). Fotos: Eduardo Marabuto

Ou seja, avisam, não há nada de errado em sentirmos deslumbramento e apreço estético pelo meio natural, mas importa refletir sobre como essas preferências afetam a gestão ambiental. E sugerem que, em vez olharmos para a natureza como uma espécie de coleção de jóias, podemos integrar esse sentimento do belo como uma “experiência sensorial e profunda da interligação ecológica”, como fizeram Charles Darwin, Barbara McClintock ou Rachel Carson.

“Bem canalizada, essa mesma beleza pode tornar-se num motor de envolvimento público, em vez de uma fonte silenciosa de viés na conservação”, sublinha Tatiana Moreira.

Além disso, diz Eduardo Marabuto, podemos construir soluções vencedoras de conservação das espécies e dos seus habitats se usarmos as espécies mais bonitas como bandeiras. “Protegendo os locais onde ainda ocorrem, estamos a proteger todas as outras que não achamos tão bonitas… e até as que ainda não conhecemos”, afirma.

Para já, ficaram fora deste estudo as borboletas nocturnas, mas talvez não por muito tempo. “Embora o estudo não aborde as borboletas nocturnas, a questão imediata constrói-se”, comentam Tatiana Moreira e Eduardo Marabuto, citados na nota de imprensa.

“Sabemos comparativamente pouco sobre borboletas nocturnas, sobretudo dados de biologia e distribuição para dizermos mais sobre a sua conservação. Por isso, apenas uma fracção de países europeus possui Listas Vermelhas para elas e, mesmo aí, a atenção foca-se tradicionalmente nas espécies maiores e mais garridas, deixando a imensa diversidade das micro-borboletas de fora da equação”, concluem os dois cientistas, para quem “investigar se existe um viés semelhante na investigação e conservação das traças é o passo óbvio a seguir.”

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