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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Nota de Imprensa | Município de Alfândega da Fé promove “WEBINARS PARA O FUTURO” no âmbito da criação da Agenda Estratégica 2030 para o concelho

 O Município de Alfândega da Fé vai realizar, em 2021, um conjunto de cinco webinars para debater questões e temáticas fulcrais no âmbito da criação da Agenda Estratégica 2030 para o concelho de Alfândega da Fé.


Estes webinars pretendem ser um espaço de participação, debate e partilha de ideias, promovendo o envolvimento da população, instituições, empresas locais e entidades e personalidades regionais e nacionais de relevo em sectores estruturantes para o desenvolvimento sócio económico do concelho.

Assentes na criação da Agenda Estratégica 2030, estes cinco fóruns de discussão online, designados de “WEBINARS PARA O FUTURO” vão ter como temas:

TEMA I: Agricultura, Agroindústria e Florestas 2030
TEMA II: Aposta no Turismo, Cultura e Património
TEMA III: Novos Desafios para a Educação
TEMA IV: Foco na Ação Social e Saúde
TEMA V: Fórum Final Agenda Estratégica 2030

O primeiro é no dia 15 de janeiro.

Lembras-te Francisco?

 No Paraíso… em Brunhoso

(Ao meu bom amigo Francisco Ribeiro, como um irmão. Subimos juntos ou pelo menos à vista as ladeiras da vida.)

Lembras-te Francisco!

- Lembras-te Francisco, quando éramos tão piquenos e íamos com as vitelas por esse termo fora à procura do fnanco para elas comerem!

- Lembras-te de irmos para a Malhada, para Francos, para a Lagariça! Sempre atrás delas e aguardá-las para não irem a fazer mal aos lameiros, onde se estava a criar a erva para o feno! Lembras-te de só as deixarmos comer a erva das bordas dos trigos da Malhada.

- Lembras-te Francisco quando entrámos à escola, com a saquitinha com a lousa, o giz e os livrinhos. Logo no primeiro dia fiquei de castigo porque no Livro da 1ª Classe tinha as figuras do cão, do gato …, e quando abri o livro comecei logo a imitar as vozes desses animais. Ão, ão … miau… quá-quá! Isto tudo alto e bom som, o que provocou a risada geral da escola da professora Fernanda, da sala dos rapazes. E quando perguntou, que animal é este?, e em coro todos respondemos – É um parreco! E ficámos todos de castigo, porque era um pato, é assim que se devia dizer! E da novidade da retrete, lembras-te Francisco!

- Lembras-te Francisco, quando faleceu o Sr. Padre Zé, que fomos em cruzada até Soutelo ao seu enterro! Lembras-te quando lhe ajudávamos à missa e nos responsos nos dava sempre uns tostõezinhos para arrebuçados! E na catequese com a Teresa Piquena! Lembras-te Francisco?

- Lembras-te da segunda classe com a Dona Carminda, que a meio do, ano nos deixou para ir para a África. Lembras-te Francisco da Dona Adriana, tão brava, que a veio substituir e uma vez nos marcou os deveres da tabuada – Uma vez a tabuada do um, duas vezes a tabuada do 2, três vezes a tabuada do três e sucessivamente…

- Lembras-te Francisco, da régua e da vara da Dona Amélia… E daquela surra que deu ao Joaquim Coleila, por não saber, já não sei o quê! E do Joaquim Pitreca, que também levou tantas vezes, sem falar do falecido António Miguel, do António Pitotas, do Francisco Marcos, do António Garruncha, só para falar dos da nossa idade! Lembras-te do Francequinho Cordeiro, do Emídio, como éramos tão pequeninos e já levávamos pela medida grossa.

- Lembras-te Francisco quando íamos à Serra a esperar a professora! E quando plantámos as árvores no recreio, que algumas ainda hoje lá estão!

- Lembras-te Francisco, quando antes das nove horas, no tempo das castanhas irmos à Serra a dar a volta e apanhar as castanhas que havia no chão. E que quando aparecia a Guarda, todos fugíamos para o povo, apesar de andarmos nos nossos castanheiros e por conseguinte não andarmos a roubar.

- E quando fizemos a quarta classe, que fomos à vila, a cavalo nas bestas. E no intervalo de duas provas, a minha mãe levou-me aos Casimiros e comprou-me um fato para ir bem apresentado.

- E depois fomos a estudar para padre, eu e o Emídio para a Régua e tu para Mogofores. E a pena que teve a D. Amélia por o António Pitotas também não ir a estudar, porque, dizia ela, o rapaz ia longe.

- E lembras-te Francisco nas férias, como ajudávamos os nossos pais nas lides agrícolas – Nas férias do Natal era a azeitona. E quando esta acabava, ainda íamos a botar o estrume às oliveiras, botar a água à regada… Havia o mata-porco, a missa do galo, cantar as janeiras e ala p’ros estudos. Lembras-te Francisco das carruagens do gado a que a CP recorria para fazer o trajecto até ao Pocinho, porque as outras não chegavam!

- No Carnaval vestíamo-nos de Caretos, eu tu e o Emídio, e íamos às casas dos familiares a meter medo! Lembras-te em casa da tia Melânia, sermos quase corridos, por não nos ter conhecido, e que quando tirámos a máscara nos tratou como príncipes!

- Lembras-te Francisco, do Entrudo, com os homens todos pelo povo atrás do boneco de palha, a tisnar tudo com cinza, e dos barulhos que sempre havia por se emborracharem.

- Nas férias da Páscoa, havia que desmamonar a vinha, cavar marradas da lavra das oliveiras, tirar-lhe os bravos do toro…

E assim nos criámos e nos tornámos homens!

(Publicado no Fórum de Brunhoso em 12 de Maio de 2006)

ONDA LIVRE TV – A tradição do Charolo das Arcas em tempos de pandemia

O PRÍNCIPE SAPO

 Era uma vez um rei que não tinha filhos e tinha muita paixão por isso, e a  mulher disse que Deus lhe desse um filho mesmo que fosse um sapo. Houve de ter  um filhinho como um sapo; depois botaram as folhas a ver se havia quem o queria  criar, mas ninguém se animava a vir. O rei, vendo que o sopito do filho não havia  quem o queria criar, anunciou que, se houvesse alguma mulher que o quisesse criar,  lho dava em casamento e lhe dava o reino. Nisto aí apareceu uma rapariga e disse:  Se Vossa Real Majestade me dá o filho, eu animo-me a vi-lo criar. O rei disse que sim  e a rapariga veio criar o sopito. Depois passou algum tempo e ele foi crescendo e ela  lavava-o e esmerava-o como se ele fosse uma criança. Foi indo e ele tinha uns olhos  muito bonitos e falava, e a rapariga dizia: Os olhos dele e a fala não são de sapo. 
Já  estava grande, passaram-se anos e ela, uma noite, teve um sonho em que lhe diziam  ao ouvido que o sapo era gente, mas pela grande heresia que a mãe disse que estava  formado em sapo, que se o rei lho desse para ela casar com ele que casasse e  quando fosse na primeira noite que se fosse deitar, que ele tinha sete peles e ela  levasse sete saias e quando ele dissesse: Tira uma saia, lhe dissesse ela: Tira uma  pele. 
Assim foi e casou o sapo com a rapariga e na noite do casamento ele pediu-lhe  que tirasse ela as saias e ela foi-lhe pedindo que tirasse as peles e depois de ele as  tirar ficou um homem. Ao outro dia ele tornou a vestir as peles e ficou outra vez sapo.  E ela disse-lhe: Tu para que vestes as peles? Assim és tão bonito e vais ficar sapo.  Assim me é preciso, cala-te. Ela, assim que se pôs a pé, foi contar tudo à rainha, e o  rei mais a rainha disseram-lhe: Quando hoje te deitares, diz-lhe o mesmo e depois de  ele tirar as peles e estar a dormir, deixa a porta do quarto aberta que nós queremos ir  vê-lo. Foram-no ver e viram que ele era homem. 
Ao outro dia o príncipe tornou a vestir  as peles e vai o pai disse-lhe: Tu, porque vestes as peles e queres ser feio? Eu quero  ser sapo, porque o meu pai tem mão interior e, se eu fico bonito, impõem a minha  mulher. O rei disse-lhe: Eu não a impunha, mas queria que tu ficasses bonito. Depois,  como viram que ele não queria deixar de ser sapo, pediram a ela que, assim que ele  adormecesse, lhes trouxesse as peles para eles as queimarem. Ela assim fez e eles  botaram as peles ao fogo aceso. De manhã vai ele para vestir as peles e não as acha.  Que é das peles? Vieram aqui o teu pai e a tua mãe e levaram-nas. Mal hajas tu se  lhas destes, mais quem te deu o conselho. Adeus. Se alguma vez me tornares a ver,  dá-me um beijo na boca.
A mulherzinha ficou, mas o rei e a mulher, assim que viram que o filho faltou,  puseram-na fora da porta. Ela, coitada, não tinha com que se tratar; o que era do rei  lá ficou e ela estava muito pobrezinha. A todas as pessoas que via perguntava se  tinham visto um homem assim e assim e lá lhe dava as notícias do príncipe. Vieram  por onde ela estava uns cegos e ela fez-lhes a pergunta. Os moços dos cegos  disseram-lhe: Nós vimos no rio Jordão um homem e certamente era ele; estava  botando fatias de pão para trás das costas e dizendo: Pela alma de meu pai, pela  alma de minha mãe, pela alma de minha mulher. Ela disse-lhes: Vocês quando  tornam para essa banda? Nós para o fim do outro mês voltamos para lá; havemos  de passar por esse rio. A mulherzinha aprontou-se e foi com eles. Chegou lá e era o  príncipe. Ela chegou ao pé dele e deu-lhe o beijo na boca como ele tinha dito e  disse-lhe: Ora vamos embora, que se acabou o nosso fado. E foram para casa e  foram muito felizes e tiveram muitos filhos.

Nota:
Adolfo Coelho: "Contos Populares Portugueses" (1879)

JUNTOU-SE O MÚSICO ALEXANDRE MEIRINHOS E O MÚSICO RUI RODRIGUES - Resultou um livro e CD de "Ritmos Tradicionais Mirandeses"

 Os dois músicos elaboraram um livro e um CD que pretendem contribuir para a divulgação do som dos instrumentos de percussão que acompanham, por norma, a tradicional e secular gaita-de-foles mirandesa, disseram hoje à Lusa.
"Este trabalho traz um novo contributo para a divulgação e preservação do património cultural da Terra de Miranda e para imortalizar os sons de dois instrumentos como a caixa de guerra e o bombo, que habitualmente, acompanham a gaita de foles mirandesa", descreveu o músico Alexandre Meirinhos.

O livro "Ritmos Tradicionais Mirandeses" é da autoria deste músico do grupo de música tradicional "Galandum Galundaina" e do também músico Rui Rodrigues.

O trabalho é composto por pautas onde estão inscritos os principais temas tradicionais mirandeses tocados pelos antigos percussionistas (caixa de guerra e bombo) do Planalto Mirandês.

"Esta é uma compilação dos principais sons e ritmos tradicionais da Terra de Miranda e que são muito próprios e exclusivos deste território com padrões únicos e que são tocados com instrumentos como a caixa e o bombo ", explicou o músico.

Segundo o instrumentista, o interesse da recolha encontra-se no designado "toque mirandês", que inclui frases rítmicas específicas, assim como uma forma própria de tocar determinados instrumentos.

"A novidade do registo escrito vem acrescentar à transmissão oral uma outra forma de dar a conhecer a novos públicos os ritmos tradicionais da Terra de Miranda", especificou o autor.

Para além de uma breve contextualização, o livro inclui o registo musical dos ritmos mirandeses em pauta para caixa de guerra e bombo, exercícios práticos, padrões e um CD com gravações dos toques acompanhados pela gaita-de-foles.

"A inclusão, no livro, de um registo sonoro em CD vai ajudar as pessoas que não conseguem ler uma partitura. Neste registo, os sons dos instrumentos estão separados para melhor serem escutadas e interpretados", disse Alexandre Meirinhos.

Os textos deste livro estão traduzidos em três idiomas: mirandês, português e inglês.

A edição do livro teve o apoio da Direção Regional de Cultura do Norte e da Galandum Galundaina Associação Cultural.

Ritmos Tradicionais Mirandeses
Disponível: em MIRANDA do DOURO: no Museu da Terra de Miranda, Papelaria La cunta dedos e Papelaria Andrade.

em MOGADOURO: Transmontanices

no PORTO: Musicarte (rua da Boavista nº80)

em Braga: na Livraria Centésima Página

em ZAMORA: no Consorcio de Fomento Musical de Zamora
 
FYP// ACG Lusa

Aprovado Orçamento Municipal de Carrazeda de Ansiães de 16,5 milhões de euros

 A Assembleia Municipal de Carrazeda de Ansiães aprovou o plano de actividades e respectivo orçamento da câmara para 2021.
Os documentos foram aprovados por maioria, com quatro votos contra e uma abstenção, por parte da oposição do Movimento Unidos por Carrazeda, que, no final, preferiu não explicar o sentido de voto.

O autarca do PSD, João Gonçalves, elege a expansão da área empresarial de Carrazeda como o principal projecto a implementar em 2021 pela importância que tem na fixação de empresas e criação de emprego.

“É um projecto âncora, estruturante e estratégico para o desenvolvimento económico do concelho e que queremos passar à fase de estruturação já no próximo ano e à venda de lotes”, explicou o presidente da câmara.

Só a expansão da área empresarial de Carrazeda leva dois dos 16 milhões e meio de euros inscritos no orçamento do próximo ano, embora não deva ser totalmente executado em 2021.

Por outro lado, João Gonçalves, espera que na próxima semana possam estar concluídas as obras de requalificação no Agrupamento de Escolas de Carrazeda.

“Uma obra muito relevante para criar condições à comunidade educativa, professores, alunos e colaboradores. Teve alguns problemas em face das dificuldades financeiras de um primeiro empreiteiro mas, que felizmente, se conseguiram resolver”, acrescentou.

Dia seis de Janeiro que é a quarta-feira da próxima semana.

Escrito por Rádio Ansiães (CIR)
Foto: Rádio Ansiães

Empresária no Parâmio queixa-se de entraves da junta de freguesia a construção de turismo rural

 Sofia Cardoso, natural da aldeia do Parâmio, concelho de Bragança, queixa-se de alguns entraves que terão sido colocados pelo presidente da junta de freguesia quando decidiu avançar com um empreendimento numa propriedade.
Os constrangimentos começaram quando quis vedar o seu terreno.

“Começámos por vedar junto da nossa casa e tivemos que pedir um licenciamento à câmara municipal, mas antes de o fazermos, o presidente da junta, a pedido de um dos elementos da aldeia, veio ter connosco referindo que não podíamos colocar a vedação naquele local, porque estava muito em cima do caminho rural”, contou.

Sofia Cardoso tem em mãos um projecto de requalificação de uma casa herdada que pretende transformar em turismo rural. Essa propriedade confina com um caminho de herdeiros que, recentemente, foi calcetado e foi ainda instalado o saneamento. A empreitada parece não estar concluída e está atrasar o processo da requalificação da casa.

“O saneamento não ficou bem instalado, porque os líquidos acabam por vir para o nosso lado e as caixas continuam abertas o que dificulta a passagem para as propriedades dos quatro herdeiros”, referiu Sofia Cardoso.

A empresária lamentou ainda não conseguir agendar uma reunião com o presidente da junta e salientou que os responsáveis políticos não estão a criar medidas para fixar pessoas e promover o desenvolvimento.

Contactado o presidente da junta de freguesia do Parâmio, esclareceu que apenas iria “explanar a situação a quem de direito” sobre se a vedação poderia estar a ser feita naquele local. Quanto ao saneamento, Nuno Diz admitiu que a obra ainda não está terminada e que não há qualquer fossa ligada.

“Nem há nenhuma fossa ligada a esse saneamento como é que os resíduos podem voltar para trás? Não há habitações para ligar ali o saneamento. Esta senhora teve reunião marcada na junta de freguesia à qual informou que não podia estar presente. Atendendo à actual situação e às minhas funções que exerço na Unidade de Saúde Pública, não me tem sido possível folgar já há 44 dias, mas, por acaso, até já tem agendada um reunião”, esclareceu o autarca.

Queixas de uma empresária no Parâmio, concelho de Bragança, relativamente a entraves que terão sido colocados pelo presidente da junta face à construção de um turismo rural. O assunto foi levado à Assembleia Municipal, no passado dia 21 de Dezembro.

Escrito por Brigantia
Jornalista: Ângela Pais

A Zona Empresarial

Por: José Mário Leite
(colaborador do Memórias...e outras coisas...)

Apesar de haver quem, à viva força, queira fazer crer o contrário, não me movo por nenhuma cruzada contra nada, nem contra ninguém. Muito menos sou motivado por quaisquer razões pessoais ou familiares, muito menos as que, insistente e teimosamente, querem colar-me. Procuro, dentro das minhas capacidades, estar atento ao governo da nação, às ações que afetam a nossa região e à atuação concelhia. Sempre que, no meu entendimento, encontro situações injustas ou que, de alguma forma, ferem a equidade e a promoção do desenvolvimento e bem estar dos cidadãos, emito a minha opinião crítica, fundada e fundamentada pois de outra forma não faria sentido nem seria útil. 

Obviamente que a gestão corrente do dia a dia, se estiver dentro do expectável não se qualifica para ser comentada ou analisada. A menos que, apesar de ser boa possa, no meu entender, ser melhorada. Mas também não me coíbo nem sinto qualquer constrangimento que me iniba de elogiar atitudes e procedimentos que possam fazer a diferença, para melhor, na vida do dia a dia. Mesmo que me sinta depois, como já aconteceu, na obrigação de fazer um reparo menos elogioso ou mesmo crítico, se o aprofundamento da matéria o justificar.

Apesar de estar datado de setembro, tive conhecimento, recentemente, do anúncio n.º 10470/220, em Diário da República, do Concurso Público para a empreitada de construção da Área de Acolhimento Empresarial da Junqueira (minha terra natal, onde passei a minha infância e parte da juventude, onde vou com frequência e onde moram os meus pais e muitos amigos).

A Junqueira, situada em pleno Vale da Vilariça, no entroncamento da estrada nacional 215 com a nacional 102, e do cruzamento do IP2 com o IC5, com um passado histórico muito ligado às três grandes Propriedade agrícolas do sul da fertilíssima várzea, a Quinta da Terrincha, a Quinta do Carrascal e a Quinta da Silveira, sempre teve um potencial de desenvolvimento assinalável, fruto do espírito de sacrifício, empreendedor e arriscado das suas gentes. Testemunham-no a resistência (desde há muito) ao retrocesso demográfico e a existência e sucesso, desde há já vários anos, dos conhecidos restaurantes O Abade e O Cruzeiro. A instalação da Zona Empresarial vem continuar esse espírito, vem aproveitar a localização de privilégio, relativamente às rodovias mas vem também premiar a vontade e esforço dos junqueirenses, no seu todo. Embora sendo útil para o concelho e dele se colham frutos para quem o promove, é de saudar, louvar e elogiar. Mesmo sendo uma promessa de há já vários anos, vem, de qualquer forma, em boa altura.

Seria relativamente fácil dizer que esta iniciativa só peca por tardia, mas não seria adequado fazê-lo quando o mais importante é pô-la em funcionamento. Também não era difícil reclamar que há ainda muito para fazer para promover a atividade económica e incentivar o emprego, mas, embora sendo verdade, seria injusto enveredar por aí. Roma e Pavia não se fizeram num dia. É verdade que há ainda muito caminho para andar mas todas as caminhadas começam com o primeiro passo e esse acabou de ser dado! E isso é o que agora mais importa. 

Venha a Zona Empresarial, faça-se a inauguração com pompa e festa, com discursos, comes e bebes e com placas, descerramentos e tudo o que já se tornou habitual em ocasiões como esta. Haja regozijo e folia pois é motivo de festa, é motivo de alegria, é motivo para estarmos todos de parabéns: A aldeia da Junqueira, a Freguesia da Adeganha, a Câmara Municipal e o concelho de Torre de Moncorvo.

José Mário Leite
, Nasceu na Junqueira da Vilariça, Torre de Moncorvo, estudou em Bragança e no Porto e casou em Brunhoso, Mogadouro.

Colaborador regular de jornais e revistas do nordeste, (Voz do Nordeste, Mensageiro de Bragança, MAS, Nordeste e CEPIHS) publicou Cravo na Boca (Teatro), Pedra Flor (Poesia) e A Morte de Germano Trancoso (Romance) tendo sido coautor nas seguintes antologias; Terra de Duas Línguas I e II; 40 Poetas Transmontanos de Hoje; Liderança, Desenvolvimento Empresarial; Gestão de Talentos (a editar brevemente).
Foi Administrador Delegado da Associação de Municípios da Terra Quente Transmontana, vereador na Câmara e Presidente da Assembleia Municipal de Torre de Moncorvo.
Foi vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
É Diretor-Adjunto na Fundação Calouste Gulbenkian, Gestor de Ciência e Consultor do Conselho de Administração na Fundação Champalimaud.
É membro da Direção do PEN Clube Português.

Trabalhadores da Santa Casa de Mirandela exigem pagamento do subsídio de alimentação e dos retroactivos das diuturnidades

 O sindicato dos trabalhadores do comércio, escritórios e serviços (CESP), marcou para esta manhã um plenário com as trabalhadoras associadas, em frente à sede da Santa Casa da Misericórdia de Mirandela
Marisa Ribeiro, coordenadora deste sindicato refere que há cerca de dois meses colocaram uma acção em tribunal por causa da alegada falta de pagamento das diuturnidades às trabalhadoras da Santa casa da misericórdia de Mirandela filiadas no sindicato, tendo ganho a acção. Esta dirigente acusa a direcção da Santa Casa de não cumprir a decisão do tribunal. “O que o tribunal veio dizer foi que todos os sócios do sindicato tinham direito a receber as diuturnidades e os retroactivos desde que se filiaram no sindicato. Ganhamos esta acção. Tivemos uma reunião com o provedor da Santa Casa para clarificar que tínhamos vários sócios. O que aconteceu foi que no mês seguinte, em Novembro, a Santa Casa não só não pagou os retroactivos a estes trabalhadores como lhes retirou o subsídio de alimentação”.

Marisa Ribeiro diz que as associadas do sindicato estão a ser discriminadas, ao ter-lhes sido retirado o direito ao subsídio de alimentação. “Aos sócios do CESP, a Santa Casa deixou de pagar os subsídios de alimentação e passou apenas a pagar a diuturnidade que venceram. Não pagou os retroactivos a quem têm direito desde que estão na instituição. Aos outros trabalhadores que não estão em sindicato nenhum continua a pagar subsídio de alimentação. Isto é discriminação”.

Ora, o Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Mirandela, nega estas acusações. Garante que a sentença do tribunal está a ser cumprida e esclarece que não se pode andar à pesca de leis que mais convenham em cada situação. “O sindicato exigiu e o tribunal concordou que fosse aplicado a PRT (Portaria de Condições de Trabalho) de 1996. Essa PRT não prevê subsídio de refeição. O que é que o sindicato queria? Que se aplicasse aos trabalhadores a PRT de 1996, naquilo que era benéfico, a todos agora sindicalizados, e que se aplicasse a convenção no que se refere ao código do trabalho. Um normativo legal aplicasse na totalidade, não se vai à pesca”.

Adérito Gomes diz que está a ser cumprido o acordo do tribunal. “Pagamos a todas as trabalhadoras associadas do CESP as diuturnidades a que tinham direito. Logo de imediato apareceu uma listagem de novas funcionárias sindicalizadas e logo a seguir começamos a pagar as diuturnidades”.

São cerca de 50 trabalhadoras da Santa Casa da Misericórdia de Mirandela que estão filiadas no Cesp, e que estão a manifestar o seu descontentamento face a esta situação. A instituição empregadora diz estar a cumprir a lei.

Escrito por Terra Quente (CIR)

Concluídas obras da Estrutura de Acolhimento e Exposição da Concatedral de Miranda do Douro

 Trata-se de um centro interpretativo da Antiga Sé de Miranda que estará relacionado com a história da Diocese de Bragança-Miranda.
O novo equipamento cultural da cidade está instalado nas ruínas do Paço Episcopal, o que implicou a recuperação da estrutura pré-existente, bem como a construção de um novo edifício.

 “Uma obra que fizemos conjuntamente, câmara municipal e Direcção Regional da Cultura do Norte, que deve estar concluída no final do ano ou início do ano 2021e aguardamos que sejam entregues as obras ao município para que nós façamos o bom uso do edifício para efeitos de um centro interpretativo”, disse o autarca de Miranda, Artur Nunes.

A Câmara Municipal de Miranda do Douro vai agora ser a responsável quer pela gestão do equipamento, quer pela produção dos conteúdos temáticos expositivos para o espaço.

A construção da Estrutura de Acolhimento e Exposição da Concatedral de Miranda do Douro representou um investimento de cerca de 600 mil euros, financiado em 85% por fundos comunitários, no âmbito do programa da Rota das Catedrais.

As obras de intervenção no antigo paço episcopal tiveram início há mais de 2 anos, no entanto a empreitada enfrentou alguns contratempos e esteve mesmo parada alguns meses devido a um processo de insolvência da empresa de construção civil que realizava os trabalhos.

Escrito por Brigantia
Foto: Câmara Miranda do Douro
Jornalista: Olga Telo Cordeiro

Adolfo Coelho: "História do Compadre Rico e do Compadre Pobre"

 Moravam numa aldeia dois compadres. Um era pobre e o outro rico, mas  muito miserável. Naquela terra era uso todos quantos matavam porco dar um lombo  ao abade. O compadre rico, que queria matar porco sem ter de dar o lombo,  lamentou-se ao pobre, dizendo mal de tal uso. Este deu-lhe de conselho que  matasse o porco e o dependurasse no quintal, recolhendo-o de madrugada,   para  depois dizer que lho tinham roubado.

Ficou muito contente com aquela ideia e seguiu à risca o que o compadre  pobre lhe tinha dito. Depois deitou-se com tenção de ir de madrugada ao quintal  buscar o porco. Mas o compadre pobre, que era espertalhão, foi lá de noite e  roubou-lho. No dia seguinte, quando o rico deu pela falta do porco, correu a casa do  compadre pobre e muito aflito contou-lhe o acontecido. Este, fazendo-se  desentendido, dizia-lhe: Assim, compadre! Bravo! Muito bem, muito bem! Assim é  que há-de dizer para se esquivar de dar o lombo ao abade!

O rico cada vez teimava mais ser certo terem-lhe roubado o porco; e o pobre  cada vez se ria mais, até que aquele saiu desesperado, porque o não entendiam.

O que roubou o porco ficou muito contente e disse à mulher: Olha, mulher,  desta maneira também havemos de arranjar vinho. Tu hás-de ir a correr e a chorar  para casa do compadre, fingindo que eu te quero bater; levas um odre debaixo do  fato, e quando sentires a minha voz, foges para a adega do compadre e enquanto  eu estou falando com ele, enches o odre de vinho e foges pela outra porta para  casa. A mulher, fingindo-se muito aflita, correu para casa do compadre, pedindo que  lhe acudisse, porque o marido a queria matar. Nisto ouviu a voz do marido e correu  para a adega do compadre, e enquanto este diligenciava apaziguar-lhe a ira, enchia  ela o odre. Tinha-lhe esquecido, porém, um cordão para o atar, mas tendo uma ideia  gritou para o marido: Ah! Goela de odre sem nagalho! O marido, que entendeu,  respondeu-lhe: Ah, grande atrevida!... Que se lá vou abaixo, com a fita do cabelo te  hei-de afogar! Ela, apenas isto ouviu, desatou logo o cabelo, atou com a fita a boca  do odre e fugiu com ela para casa. Desta maneira tiveram porco e vinho sem lhes  custar nada, e enganaram o avarento do compadre. 

Nota:
Adolfo Coelho: "Contos Populares Portugueses" (1879)

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Continuamos na Rua dos Oleiros

Por: António Orlando dos Santos (Bombadas)
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...") 


Passava-se o estabelecimento dos irmãos Gomes que tinha duas portas de duas folhas e passadas estas que me pareça era a Pensão Internacional.
Sempre vi esta Pensão como uma peça chave da infraestrutura de hotelaria, pois no meu tempo de miúdo estava sempre cheia e o seu proprietário era um Senhor a quem chamavam, Guarda Rios e do qual me recordo como um adepto dos mais amantes do Velho G.D.B., que seguia a equipa por todo o Norte de Portugal, ou outras terras onde o Desportivo fosse jogar.
Era um personagem já de uma certa idade mas que participava na vida cívica da Cidade com entusiasmo e frequência.
A casa de habitação do Senhor João Cazão havia sido construída pouco tempo antes e sendo ainda nova, era um regalo ver a D. Julieta à varanda ou à janela sempre elegante e sorridente como era seu apanágio. Grande dama esta senhora que derramava simpatia onde se apresentasse. Tinha uma filha e um rapaz mais ou menos da minha idade de quem continuo grande amigo a quem chamávamos Micky. Vive em Lisboa ou arredores e tem uma particularidade que eu aprecio. Sempre que vem a Bragança faz questão de jantar com o Armando Fernandes ex funcionário do Notário que na sua juventude foi empregado do seu pai e a quem vota uma grande amizade e noutro dia também com a Ritinha, antiga empregada lá de casa que ele nunca esqueceu.
Belos sentimentos que demonstra este Bragançano, tão à maneira transmontana, que diz que vinho e amigo "o mais antigo”.
E passada a residência do Snr João Cazão encontrava-se no meu tempo de menino uma casa que tinha sempre Santos velhos na montra. Era a morada e loja de dois irmãos chamados Cepeda que negociavam em antiguidades. Havia também a mãe, Senhora já idosa mas que me parecia ser quem decidia o que eles deviam ou não fazer. Era uma loja pouco apresentável mal cuidada até mas que exercia fascínio sobre mim. Eu perguntava a mim próprio de onde viriam tantos Santos velhos que ali se expunham e que se vendiam com facilidade.
Foi nessa loja ou devido à sua existência que eu comecei a dar atenção ao recheio de capelas e igrejas e a deliciar-me com a beleza de certas imagens e outros ornamentos da arte sacra. O fim que levaram os ditos irmãos desconheço-o mas tenho bem presente o rosto de ambos e uma ideia insegura de que eram oriundos de Izeda, herdeiros de dinheiro Velho e obedientes à mãe que era como uma versão dos anos 50's da Vechia Signora.
Após esta casa onde o Snr Tavares teve o Escritório, abriu no meu tempo de rapaz uma Drogaria denominada Luso, cujo proprietário era o Senhor Eduardo Luso que esteve ali para servir os seus clientes até há relativamente pouco tempo. O Senhor Eduardo Luso faleceu e não imagino qual é a situação actual da sua Drogaria.
E está muito sumariamente visitado o lado ascendente da Rua dos Oleiros, faltando mencionar o Restaurante Cura, que foi por mim propositadamente deixado sem menção, pois tenciono escrever um texto acerca deste marco da cozinha bragançana e dos seus proprietários Senhor Cura e Amelinha.



Bragança 22/12/2020
A. O. dos Santos
(Bombadas)

Município de Mirandela aprova redução do IMI para taxa mínima

 A Câmara Municipal de Mirandela aprovou a redução para o mínimo de 0,3% da taxa do Imposto Municipal Sobre Imóveis (IMI), referente a 2020, que os proprietários de habitações do concelho vão pagar, no próximo ano. Foi também aprovada uma redução de 20 euros para agregados com um dependente, de 40 euros com dois dependentes e de 70 euros para agregados com três ou mais dependentes.
O executivo da Câmara Municipal de Mirandela aprovou a redução de 0,325% para 0,3% da taxa do Imposto Municipal Sobre Imóveis (IMI), referente a 2020, que os proprietários de habitações do concelho vão pagar, no próximo ano.

Os Municípios podem aplicar uma taxa que varia entre um valor mínimo de 0,3 por cento e um valor máximo de 0,45 por cento. A título de exemplo, uma habitação com um valor patrimonial de 100 mil euros, se este ano pagou de IMI 325 euros, em 2021 vai pagar 300, uma redução de 25 euros.

O mesmo exemplo, mas comparado com 2017, quando a taxa de IMI era de 0,4%, quem pagava 400 euros, em 2017, agora paga 300 euros. Para quem tenha filhos a residir na sua habitação, a estas contas há ainda que subtrair os montantes aplicáveis aos diferentes agregados familiares.

Foi também aprovada uma redução de 20 euros para agregados com um dependente, de 40 euros com dois dependentes e de 70 euros para agregados com três ou mais dependentes.

Relativamente aos prédios urbanos foi igualmente deliberado elevar ao triplo a taxa a aplicar aos que se encontrem devolutos há mais de um ano e de prédios em ruínas, considerando-se devolutos ou em ruínas, todos aqueles que, face ao seu estado de conservação, não cumpram satisfatoriamente a sua função ou façam perigar a segurança de pessoas e bens.

O município de Mirandela decidiu ainda aumentar até ao dobro a taxa de 0,8% aplicável aos prédios rústicos com áreas florestais que se encontrem em situação de abandono, não podendo da aplicação desta majoração resultar uma coleta de imposto inferior a 20 euros por cada prédio abrangido.

Aquilino Ribeiro: “O remorso”

 — Carrasco, excomungado, ainda hás de malhar com os ossos numa cadeia! — gritava o padre Claro do alto do patim, que nas costas da casa, descia para o quintal.

O filho afastava-se com faceto desleixo, a assobiar, pelos ombros um casado desbotado de montanhaque, em direção a Norberto, que plantava bacelo ao cabo da propriedade.

Como as chuvas tivessem lavado o céu, a voz do velho penetrava afiada e inteira na imperturbável quietude das veigas. Docemente, a perder de vista, os socalcos estendiam-se cobertos do veludo verde das ferrãs. E por eles abaixo até onde a voz atingia, as mondadeiras e os cavadores paravam a ouvir a contenda injuriosa. Dizia o padre:

— Este ladrão é a ruína de minha casa. Aqui só há que escolher: ou ferrar-lhe um tiro ou dar parte à justiça. Tem vinte e três anos este piranga, e não lhe dói, não sente a mais pequena sombra de vergonha de estar a sugar o suor de dois velhos! Ainda por cima, morde a mão que lhe dá o sustento. Arre! Vá para as Pedras Negras, pegue num bacamarte e saia à estrada!

— Ladra para aí, ladra! Farta-te de ladrar, velho cão! — respondeu Isaac, já de longe, perto da geira cio bacelo.

— Vadio! Gastei com ele quatro contos, melhor fora deitá-los a um poço. Consumições, noitadas, trabalhos, quantas não passei por mor dele! Meu Deus, meu Deus, grande castigo me destes!

— Não se consuma, meu senhor — interveio D. Dorotéia — ele lá terá o pago! Uma alma perdida só anda para perder as mais; é deixá-lo! Se aldemenos comesse, bebesse, calaceasse e não andasse ligado a semelhante choldra?

Olha com que foi se meter, a Amada, a Amada que foi de cão e gato, do Praça do Mões, de quem lhe piscou o olho! Todos estes Amados são raça de má colada. O pai, o Arnadão Velho — dizia meu tio Calhorra — foi dos que assaltaram a casa do Alferes de S. Martinho. Mais tarde, encontraram-lhe umas colchas que haviam pertencido ao Alferes. Teve a morte afrontosa que merecia. Que morte! Ainda estou a ver a Amada Velha a gritar pelo povo arriba: à de el-rei, que mataram meu homem! Alvoroçou-se o povo todo e foi-se ver. Estava o desgraçado estendido de borco, à beira do caminho, junto às Alminhas do Bracejar, com as tripas deitadas fora por um rasgão que tinha mais de palmo. Aquilo só golpe de machada ou com gadanha de feno. Dava engulhos mirá-lo. Pois, mesmo assim, toda a gente de Segões se apresentou a defender o assassino: fora o Amado, homem de maus empréstimos e ruins tornas, que quisera roubar duas moedas ao Pinto Moleiro. O fidalgo da Silvã, pôs-se de peito feito e livrou-o. Oh! os filhos saem ao pai. Tudo lhes serve, couves, galinhas, roupas dos estendedoiros. A Amada mãe não roubou uma saia de folhos à minha Rosa? E como se descobriu?

Vai-se para a Santa Eufêmia e a zarga levanta a saia no bailarico. A Rosa deu fé do que era seu, foi um dia de juízo! Se hoje cerrarmos os olhos, meu senhor, comem-nos tudo o que há na casa; nem as sarapas escapam! Já me disseram que o Norberto andava a cheirar às fraldas da Adelina, a mais nova. É o irmão que lhe mete os vícios no pêlo. Mas ela quere coisa de mais vulto; o Norberto não levanta a grimpa, oprimido do trabalho, coitadinho! Gostava dum fidalgo como arranjou a irmã, vá encomendá-lo ao inferno! Ai, senhor, anda o Demo nesta casa! D. Dorotéia acabou a soluçar, enquanto o padre, sentado nas escaleiras, se velava dum ar sombrio e doloroso.

Lá ao fundo, meio ocultos pela terra dos valados, revoltos como trincheiras, os dois irmãos conversavam. O camponês, de mãos grossas sobre a pá cravada no saibro, ia ouvindo as mofas do irmão mais velho, o fidalgo de mãos alvas e preguiçosas. O ar claro e sutil trazia-lhes, entre o grunhir dos bácoros e os cacarejos das galinhas, as lamentações dos pais. O sol dobava às espaldas do pinhal velho.

Por complacência e desenfadamento, Isaac pôs-se a ajudar o cavador, manobrando a pá com a galhardia de homem forte e folgado. Entretanto, os carros desciam da serra, chiando.

Por trás da casa em que eram nados, a aldeia alapava-se negra e rumorosa, empenachada já do fumo das cozinhas. Escurecia e, de volta da seara, passavam ranchos nos atalhos cantando alegres cantigas. Desceu afinal a noite e, enquanto Norberto plantava o último baceleiro, Isaac entretinha-se com quem ia no caminho, jogando uma chalaça a esta, regressando com aquela a um dito de serão ou das mondas. Quando a Maria Amada apareceu, debruçou-se a falar-lhe de maneira que o irmão não ouvisse:

— Então, a estas horas?

— Os lobos não me comem.

— Que andaste a fazer?

— A limpar o trigo na belga do Pai Moiro. Tanto queria acabar, não houve modos. Então você bulhou com o padre?

— Que queres, o raio de minha mãe foi-lhe dizer que estive a jogar.

— É uma alma do diabo!

— Só está contente quando nos vê pegados. Às vezes estamos a palestrar e a rir em muito bons termos e logo ela aparece a dizer-lhe: “Ande, ande; beijam-se logo, mordem-se”. Sempre assim.

— Ele nem é homem, nem é nada. Se fosse cá comigo endireitava-a...

— É fraco, mas um santo homem. Os fracos são assim, amam a todos e, mais que ninguém, àqueles que os dominam. Minha mãe está nestas condições — manda mais nele que o bispo, e o pobre meteria as mãos no lume só para lhe agradar. Coitado, quere-me mais que às meninas dos olhos; o que não temos ambos é paciência para ruminar em silêncio os nossos aziúmes.

Pois o que tem a fazer é afastar-se quando se derem tais passos. Quem cala vence. E você, a bater despique, não leva sua mãe à parede. Tem uma língua mais comprida que as bandeiras. .

— São nervos...

— E o asco que me tem...!?

— Então... meteu-se-lhe em cabeça que és tu que me desvias para o mau caminho.

— Pois serei. Vá, navegue para a África; que espera?

— Resposta.

Um grande silêncio passou entre eles. Estridentemente, Norberto sacudiu a fraga a greda da ferramenta.

— Se me quisesse bem, não partia proferiu ela.

— Pois se parto é por isso. Lá irás ter...

— Dizem.me que se cai lá como tordos...

— Histórias da carochinha; para onde conto ir é saudável. Mas deixa-me...

— És tola. Todos os meses hás de receber a tua mesada; depois, quando as coisas marcharem de feição, avantas para lá.

— Olhe que eu não vou jurá-lo, mas palpita-me que ando grávida.

Isaac envolveu-a num longo olhar de ternura em que ia o agradecimento pelas voluptuosidades sentidas juntos, não enganadas. E disse, emergindo ao cabo dum pensamento:

Esta noite não vás ao serão: vou lá a casa.

— Dialhos! Meu tio fartou-se ontem de pregar, porque à de el-rei era forte escândalo, você não me recebia e, depois de me fazer um filho, dava-me o pontapé...

— Teu tio é uma basta chapada...

— É meu tio; não há de velar?

Pois sim, mas que não seja sendeiro. Faze o que te digo, fica em casa; obra das dez horas lá apareço.

— Para a pouca vergonha, está você sempre pronto! — disse ela sorrindo, e fungando como poldra ao sentir macho.

— E tu não?

Romperam às gargalhadas, e eia, dando um passo, despediu-se:

— Até logo.

— Até logo.

— Ah! já me esquecia — tornou, voltando atrás. — A Maria Carradas quer saber se sim ou não ficamos com o cordão...

— Agrada-te?

— Se agrada! Anda meio povo morto por lho caçar.

— Quanto pede ela?

— Cinco moedas... quanto lhe davam no S. Silvestre, sem tirar nem pôr. Diz que é por ser num aperto...

— É de ouro fino?

— Ouro antigo, maciço...

— Bem, vai buscá-lo; lá pago. Mas ouve: eu falo primeiro com ela.

— Olhe que, se nos demoramos, a Ludovina atravessa-se...

— Não te apoquentes; amanhã tens o cordão.

— Adeus; lá espero.

Norberto dispunha-se a partir, de enxada, pá e alavanca ao ombro. De bom modo disse a Isaac:

— Não largas essa rês, e isso há de acabar mal.

Mal... por quê? — questionou o irmão desabrido.

Tu sabes, são umas vagabundas, ela, a mãe, a irmã. Ninguém lhes dá aceitação. A Maria Amada, essa, está mais corrida que as chinelas que traz calçadas.

Lérias. Por serem pobres não quere dizer que sejam más mulheres.

— Não, mas são de quem as comete.

Lá se viu se a Adelina te deu ouvidos.

Beh! Não dá porque anda o Zé Militão com sentido nela, e o que quere é casamento. Talvez a não desmoçasse o Arruda?

— Olha que alanzoeiro! Onde há ele mulher, muito recolhida ou casta que seja, que o lambão não tenha gozado? Bem sei que o Mões teve relações com a Maria; pouco me importa. Isso é para vocês... fazerem caso dessas coisas; eu não faço.

— Lá te avenhas; sustentas à mãezona, ao Amado, que é uni bêbedo, a todos. A familiagem não te há de ficar barata. Onde vais cavar dinheiro para ustir com as despesas? Tu não o ganhas; nossos pais’ não to dão. Roubas-lho? Olha, assim que deitem conta ao centeio que falta na arca grande, temo-la bonita. Quarenta alqueires em dois meses!...

Subiram vagarosamente o carreiro; Norberto, carregando da ferramenta, Isaac das palavras do irmão e do cuidado de ter de desencantar cinco moedas, para satisfazer, na amante, a cobiça do cordão de ouro.

***

Com o trabalho extenuante, a linha estatuária de Norberto tinha vergado. Uma corcova testemunhava nele o jogo fero e constante do esforço. Era um moiro, de sol a sol, para quem as raparigas não sorriam, porque a lida o tornara disforme e andava sempre um côdeas do sujidade.

Apenas ao domingo lhe viam tréguas as costas dobradas e os tendões formidáveis de vergalho bem curtido.

Nesses dias, vestia o fato de serrobeco, lavava mal a cara, e ia para o adro jogar o fito. Ganhava quartilhos, perdia quartubos, à custa dum ou de outro pataco esquecido sobre as mesas e caçado no vôo, ou que os fidalgos lhe davam quando, por causa de Isaac, lhes ia levar as trutas da ribeira. Na manhã, o vinho, bebido de véspera, enliçava-o traiçoeiramente na enxerga como corda de muitas voltas, O padre, que ao florir da alba devia encontrar a égua aparelhada para correr às obrigações, despertava-o a sopapo.

— Ainda não são horas, cagaçal? Deixa, que a jogatina há de te dar de comer!

Norberto erguia-se praguejando, e abalava para o trabalho, enquanto Isaac dormia a sono solto, e D. Dorotéia aquecia a vianda dos porcos, que logo de manhã cedo, começavam a grunhir. Como não quisessem pagar soldada, não tinham criado nem criada. Uma ou outra paqueta passara pela casa. Mas o gênio irritável dos amos espavoria-as e elas abalavam sem ter aquecido lugar. Chegou, entrementes, o sorteio, e Norberto foi apurado para artilharia. Foi uma tristeza na casa, porque se ia embora o bom trabalhador. O moço, como andava impando da labuta, agradeceu a caderneta que o mandava para a Capital, onde pela certa, a vida devia ser menos áspera.

Na véspera da partida, modo de honrar nele o irmão, a rapaziada deitou descante pelo povo, da venda do Travanca para a venda do Rolim.

Isaac, que tinha conta aberta nos taverneiros, fartou o adjunto da vinhaça.

Depois, já os mais morfenhos dormiam, meteram para os serões, e o senhorito, tão longe do que fora, cantou à desgarrada sobre a viola do Carquejo.

No serão da Ambrósia, entre outras moças louçãs, pousavam as Amadinhas. Ia para dois meses que haviam rompido com Isaac, a isso obrigados por juramento público e formal, uma vez que o padre Claro lhes fora surpreender o tio, de gorra com os filhos, a saquear-lhe a arca das ceveiras. Em má hora voltou ele a aproximar-se: o Amado, que conservava uns restos de honradez, ergueu o sacho em ameaça e o estouvado desistiu. Mas como lhe faltasse fêmea, cansava-se a suspirar, lamentando que a gravidez, que Maria lhe anunciara, não existisse realmente, visto desse modo a ter segura. Como era uma mocetona forte e sadia, outros lhe andavam na cola e, ao que se rosnava, com intentos de casar.

Em voz sonora de homem bem comido e bebido, ao fadinho que chorava entre os dedos sujos do Carquejo, Isaac cantou:

Por que a teus olhos daria

Deus assim uma tal sorte?

Ao desafio co’a morte,

Matam eles mais, Maria.

E, dlim-dlim-dlim-dlão, na pausa, que se seguiu perpassou a vênia dos cantadores ao fidalguinho e a bisbilhotice cochichada das mulheres. E todas as caras se voltaram mofinas ou curiosas para a Maria Amada, que metera olhos confusos no chão. Mais alta e ardente, Isaac atirou segunda trova, ante Norberto que, soturno, o espiava:

São negras — é bom dizer,

As penas das andorinhas,

Mas co’a negrura das minhas

Não se podem parecer!

O Zé Militão retrucou-lhe com cantiga da sua lavra, a puxá-lo ao desafio.

Isaac correu à roda, e lá foi na cadeia girante saltando de par em par, sem erguer o repto do cantador.

Um dançarino — picava na viola a Caninha Verde ribaldia — deitou mão à Maria Amada.

— Deixa-me — proferiu e, como se apoquentasse mágoa, apartou-se para um canto a fiar.

Norberto volteava com Adelina e, contente da sua sorte, esquecia-se de vigiar o irmão. O fado de Anadia deu aso à moída letra:

Oh! D. Carlos de Bragança e, depois, deste, aparado e sapateado, ainda se armou a Chula. Outra vez, defronte de Maria Amada, a voz cariciosa de Isaac garganteou:

Fiandeira, ruim hora

Em que te fiei meu carinho;

Enquanto fias no linho,

Meu amor em fio chora.

E, desta feita, a moça suspirou, um suspiro que lhe fez tremer o seio forte e alevantado. E Isaac, que tal viu, dali em diante desvairou de alegria. Na penumbra, Adelina deixava-se palpar por Norberto e isso fazia-lhe esquecer todas as juras da terra.

Era já tarde quando o descante desmanchou, e Norberto, que não dera fé de o irmão se sumir, entrou sozinho em casa. Ia cheio de Adelina, dos beijos que lhe pudera furtar, e tanto fogo impedia-o de dormir.

Assim, mal os galos cantaram, saltou da enxerga; e, depois de renovar a manjedoura da égua, começou a pôr em ordem a troixa. Embrulhou as camisas num lenço da cabeça e noutro de assoar, em cujas pontas havia, bordada a retrós vermelho, uma quadra de amor, atou os seus seis tostões em níquel; em seguida meteu tudo numa bolsa de sarja e, de mansinho, foi bater à porta da casa onde dormiam os pais.

Já estavam ambos a pé e o padre Claro pigarreava alto, fumando o cigarro. O Moiro veio, percorreu a casa farejando e, assentando-se sobre o travesseiro, bocejou e uivou.

— Então, pronto? — perguntou-lhe o padre em voz rude, fitando-o muito, o que nele era indício de comoção.

— Pronto, falta aparelhar a égua.

— Bem; vai tirá-la cá para fora. E quem vai contigo até a vila?

— O Toninho. Vou chamá-lo e depois aparelha-se.

Na rua, as vozes e os passos retiniram sob o toldo refrangente do céu gelado. Era no inverno e águas nos cômoros choravam, O padre pôs-se a aparelhar a besta. Meio oculta na treva, a mãe estendia o braço com o lampião de azeite erguido ao alto, O padre Claro dispôs os alforjes em aparatoso, estudado equilíbrio, enquanto o Toninho e Norberto tiritavam. Depois, deitou a gualdrapa d,e pele de vitelo por cima e afivelou a cilha.

A um aceno de Dorotéia, meteram para dentro de casa, a fim de que os rapazes engolissem uma bucha e dois tragos de aguardente. Havia na sala uma atmosfera consoladora de agasalho. E Norberto, afagado, rompeu na sua loquela de aldeão. A mãe, entretanto, trouxera a açafate e, sobre a tampa voltada, serviu pão, queijo e azeitonas e um gole de aguardente no fundo verde duma garrafa.

Os porcos, sentindo passos, começaram a roncar, e ela disse:

— Aqueles grulhas estão sempre prontinhos para comer.

Alumiando sempre e teimando com Toninho para que se servisse, D. Dorotéia fez as suas recomendações, de olhos no filho: “Tivesse muito juízo, e nada de maluqueiras se queria chegar a ser um homem. Deixasse-se de camaradagens, que sempre vinham a dar em droga, e de fumar, que o fumo era bom para os peralvilhos”.

O padre tossia, sorvendo o cigarro a grandes goladas.

“Juizinho, que ninguém as deita em saco roto. E aos superiores, aos comandantes, fosse sempre obediente, e tão fiel que não existisse nunca um argueirinho por onde lhe pegar. Todas as manhãs, não se esquecesse de se recomendar à Senhora do Livramento que o livrasse das más horas e dos maus repentes. Três meses passavam depressa e cinquenta mil-réis sempre se haviam de conseguir para resgatá-lo. As matanças ainda estavam longe, mas a chouriça da carne lá lhe ia ter, se tivesse tento na bola.”

As recomendações dela correram durante muito tempo, enternecidas e molhadas de lágrimas. Norberto escutava-as, cabisbaixo, a vista cravada na toalha sobre duas moscas que voltejavam friorentas ou moribundas.

Logo que os rapazes acabaram de trincar a última dentada, o padre Claro foi à porta escrutar o horizonte. E volveu a dizer que eram horas, se queriam botar à vila antes de o carro da carreira ter abalado.

D. Derotéia perguntou se não se esqueciam de nada. Norberto circunvagou o olhar numa operação remissiva de memória, palpou a carteira de couro, verificou que levava o canivete e o lenço de assoar. Restava ir ao quarto do irmão dar-lhe um abraço. A mãe, por curiosidade, acompanhou-o. Mas o leito estava na compostura da véspera, sem sinal de se terem deitado nele.

Norberto compreendeu e Dorotéla desatou em exclamações:

— Aquela alma perdida não dormiu em casa. Já por lá anda metido de novo com a Amada. Olha que amor de irmão, nem um abraço te veio dar, meu filhinho!...

Norberto calara-se; de semblante dorido, voz trêmula, o padre perguntou:

— Então não dormiu em casa?

— Não, meu senhor. Já se meteu outra vez com a porca tinhosa.

— É um desgraçado.

— Quando ontem andaste pelos serões, ele falou-lhe? Fala franco... — inquiriu Dorotéia.

— Não sei; não vi.

— E tu, Toninho?

— Também não vi, senhora D. Dorotéia.

— Pois onde havia de dormir, senão em casa dela! Foi garrafada que lhe deram a beber.

— Trata de te aviar — disse o padre em voz cada vez mais trêmula e sentida — que o carro não espera.

E, chamando-o de parte, deu-lhe dinheiro:

Aqui está para o caminho. Não tenho mais, mas todos os meses lhe mandarei. Vá com o santo Anjo da Guarda.

— Três meses passam depressa — proferiu com voz artificiosamente desenganada, enquanto metia, a chorar, os 3$000 no bolso.

Fora, a neblina esfarelava-se em gotas miudinhas e mormacentas. A este, o céu acalentava uma vaga promessa de luz. Via-se já luzir a espinha dos telhados. O Toninho ajeitou a égua a um pouso e subiu; Norberto ia montar, o padre gritou-lhe:

— Não pedes a bênção a tua mãe, malcriado?

Não andava habituado a despedidas e quedou confuso. Mas engatilhou as mãos para a mãe, que estava na calçada, ao lado dele. Coberta de lágrimas, ela abençoou-o e, metendo- lhe mão no colete, acrescentou num sopro:

— Pega. É pro vinho. Olha que fui vender os ovos da pedrês para te dar.

Norberto pulou sobre a albarda atrás do Toninho e tangeu...

A égua abalou e os dois velhos foram até atrás das casas vê-los ir. À Dorotéia, que soluçava, disse o padre:

***

Nessa tarde Isaac Claro sentia toda a voluptuosidade de viver. A primavera, o amor e a força andavam em volta dele como três aias de bom servir. Já os centeios apendoavam, e chegara o tempo das romarias e arraiais. Grimpadas às cerejeiras, as raparigas debicavam as cerejas, de perna morena à dependura por entre os ramos, e, das hortas, os mostajeiros ofereciam seus frutos de tão esquisito sabor.

Isaac, como todos os ociosos da aldeia, tinha o culto da bela sazão, nada o encantando tanto como os dias de sol, em que a figura dos homens, pelos caminhos, se nimba de tons velasquenhos, e a melancolia é varrida da fisionomia das coisas. Andava satisfeito, além disso, no amor-próprio: o rapaz que lhe cortejava a amante atirara-o pela porta fora, a cachação e a pontapé; e ela, volvidos dois meses de ruptura, voltara a ser a amante apaixonada, rendida agora, de todo, à sua força de macho. Mas, acima de tudo, saboreava a revolução muda que, involuntariamente, provocara no ânimo de Adelina. A mulher acordara nela ao contato da mal disfarçada voluptuosidade que ali se estava vivendo e, mormente, ao contato das fortes manifestações da sua varonia. A inveja e o ciúme estremeciam a cada palavra na boca da mocinha; se ele aparecia, corava, e punha-se a tremer, como uma paveia ao vento, sempre que com a irmã se fechava na Casa de Cima. Uma vez fora surpreendê-la a chorar e, sob os seus afagos, desandara cabisbaixa, num amuo em que a puberdade alvoroçada retrocedia a jeito de criança.

Entendedor em psicologia feminina, Isaac palpitava de todos os palpites daquele sangue e coração revoltos. E a imaginação eriliçava-lhe o gozo sonhado duma perversão; e pensava, descia a uma destas reflexões superficiais que acodem automaticamente, que nem sequer são importunas e se esvaem, como os zumbidos no ar: como me poderia aguentar entre as duas?! Diabo de sorte!

Interpretava assim, limpando a caçadeira, quando a Maria Carradas apareceu a passos de fera:

— Muito boa tarde. Venho buscar o dinheiro que ainda me deve...

— É para o que a gente os cria! É para o que a gente os cria!

Isaac ergueu-se a puxá-la para um canto, donde os pais não ouvissem. Em voz desabrida, retorquiu-lhe a criatura:

Se me tira de parte para se desculpar, perde o tempo. Quero cá o meu dinheiro, o mais é nisga.

— Quem lho nega, mulher?!

— Quem lho nega?! e vai em quatro meses para me dar uma bisbórria! Homens, até parece propósito!

— Sossegue, vai-se-lhe pagar. Quanto devo?

— Nem você sabe quanto me deve! Vá, pergunte à sua amiga quanto me deu...

— Deu-lhe 7$000, não é verdade? Restam 14$000; amanhã ou depois lhe serão entregues.

— Quero-os aqui já; promessas e cantigas não enchem barriga. Mas que seca! Raios partissem o cordão e a hora em que tive a idéia de lho vender! Olhe, senhor Isaac: quem boda não tem, gaiteiros não roga. Não podia pagar, não comprasse.

— Cale-se, mulher! Já lhe disse que, depois de amanhã o mais tardar, recebe a importância. Os negócios nem sempre correm...

— Não me importa, quero para cá o dinheiro! Não o tenho aqui, como lho hei do dar?

— Ai sim? Vou-me queixar ao senhor padre Claro...

A Maria Carradas deu uns passos resolutos para a escaleira; Isaac, num repelão, sacou-a para trás. Intimidada, tornou:

— Pois olhe: torne-me o cordão. Por que me não torna o cordão?

— Agora é impossível. Eu pago-lhe, já disse. Era feio tirá-lo à rapariga; que não diriam para aí?

— Mais feio é roubar e não pagar a quem se deve!

Isaac rangeu os dentes, de cólera, do sentimento da sua fraqueza, vendo-se espremido nas mãos grosseiras daquela mulher:

— Juro-lhe pela minha boa sorte...

— De juras estou eu farta.

Juro-lhe pela vida de meus pais; quere mais?

— Mas oh! senhor, por que não me há de tornar o cordão, se eu lhe restituo os 7$000 que cá tenho? Onde não há, el-rei o perde!

— Que havia de pensar a rapariga?

— Que havia de pensar? Mande-ma para o inferno. Se ela lhe quere bem, será a primeira a desatar o cordão do pescoço.

— Nem todos são como vossemecê, senhora Maria Carradas.

— Não são, não; se fossem, não vinha tanto mal ao mundo. Houve urna pausa e Isaac compreendeu que a mulher abrandava. Calculadamente instou:

— Tenha paciência, amanhã ou depois lá lhe levo o dinheiro. Verá!

— Quantas vezes mo repetiu! Agora é certo.

A mulher olhava o chão, refletindo; ao cabo dum longo silêncio, volveu, porém:

— Mas por que não larga essa mulher? Largue-a. Ora, eu a prender-me com tretas. Não, não quero cá saber... Vou ter com o senhor padre...

Isaac voItara a limpar a caçadeira e não pôde impedir que, a correr, a mulher subisse a escada. Lá em cima, à porta verde, entreaberta, gritou:

Senhor Reitor! Senhor Reitor!

Dentro da casa soaram passos e D. Dorotéia respondeu:

— Quem chama? Ah! é a senhora Maria Carradas. O senhor Reitor não está, foi dar um anjinho à terra. Se é recado que eu lhe possa dar...

A Maria Carradas parou indecisa, depois, encarando Isaac interdito ao fundo do pátio, proferiu:

— Então eu volto quando estiver.

D. Dorotéia, que espreitara por uma grelha, fechou a porta.

—  Espero até depois de amanhã pela manhãzinha — disse embaixo, a sós com Isaac. — Dentro desse prazo, ou me dá o dinheiro, ou entro em posse do cordão, ou faço grande escândalo. Depois não se queixe!

Anuviou-se o espírito de Isaac e, num rápido exame de consciência, reconheceu quanto era nojenta a sua situação: dos dois destinos, ele representava na família o destino dos inúteis e dos maus. Norberto o dos oprimidos, de Caim. Mas a perver são era grande, e pouco sólido o remorso para emendar seu caminho. Nessa noite, todavia, na friorenta e voluptuosa Casa de Cima, Isaac dormiu mal. Manhã cedo, ainda o campanário não havia tangido para a missinha, saltou da cama.

— Onde vais tão cedo? — perguntou Maria.

— Vou a casa, porque o filho do Capitão há de lá aparecer para irmos pescar. Ao meio-dia estou de volta.

Lavou-se numa prateira que estava por terra e, como não visse toalha, perguntou:

— Maria, onde me limpo?

— Limpa-te à fralda que a vesti ontem.

Enxugou-se a regougar, mal humorado, e foi beijá-la em despedida:

Adeus.

A Amada, a miar ternuras, passou-lhe os braços em volta do pescoço.

— Deixa-me!

Quem te pega?

Isaac arremessou-a contra a parede, num gesto de saciedade, e abalou. Rompia a madrugada e, na paz morta dos seres e das coisas, os campanários de seis aldeias falavam uma linguagem alta e religiosa.

Pelos estábulos, um ou outro chocalho badalejava. Detrás duma esquina, esperou Isaac que os pais saíssem de casa para a igreja. Primeiro apareceu o padre, trôpego, dobrado, de batina, o cálice debaixo do braço numa bolsinha de chita vermelha; pouco depois a mãe, embrulhada no xale preto de todos os dias, a tamancar.

Assim que desapareceram no cotovelo da rua, Isaac entrou para o quintal e daí, escalando a janela, penetrou em casa. Em seguida, ràpidamente, servindo-se do podão com que o pai aparava as videiras, fez saltar a tampa, toda a parte superior da mesa em que era costume arrecadarem as economias. Ficavam-lhe, deste jeito, escancaradas as três gavetas. Procurando, entre papéis, encontrou a caixinha amarela onde o padre metia as notas e moedas de prata: a caixa estava porém, vazia. Revolveu os papéis: em vão. Nas outras gavetas havia canecas de marmelada, mecha para petiscos, circulares, pastorais, bulas antigas, receitas de botica e toda uma correspondência de anos. Um a um examinou os sobrescritos, não escondessem dinheiro. Bem esperluxou: nem uma cédula de tostão descobriu. No meio da papelada, topou com um retrato seu, cartas, dele umas, outras dos diretores dos colégios por onde passara e várias cuja letra lhe não era familiar. E começou a ler as que se lhe afiguraram desconhecidas. Uma delas era de Norberto, datada do regimento, e rezava assim:

“Meus queridos pais: lanço agora a mão à pena para lhes contar a minha triste vida. Saberão que tive oito dias de calabouço por ter rejeitado o rancho, em que encontramos um rato morto. Só me deram pão e água e levei o tempo todo a chorar, não tanto pelo mal que me faziam como pelas saudades que me vieram da nossa casa. Meus queridos pais, vejam se me arrancam a este degredo, senão, mato-me.

Os sargentos são verdadeiros cães para mim, e os soldados fazem-me muita troça porque sou marrânica e não quero ir com eles para as moças do fado. Um dia destes, enquanto fazia guarda às cavalariças, arrombaram-me’ o baú e urinaram-me dentro. Tinha lá o resto dos dez tostões que me mandaram pelo Quim da Joana e mesmo esse me levaram. Fui-me queixar ao tenente, mas ele pôs-se a rir e a mangar comigo. Ainda que me desfaça todo para os ver contentes, não há maneira. Sei bem o exercício e, no tiro, sou dos que melhor batem no alvo. Mas isto pouco vale, porque não sou bem-falante, nem ponho vulto ao pé dos alfacinhas. Estou a escrever, com os olhos rasos de água, enquanto não chega o meu quarto. Mandaram-me dizer que o Moiro estava surdo; coitadinho, não o mandem matar, que tão fiel era e tão amigo da égua! Tinha muita pena se fizessem mal ao pobre cãozinho, ainda que não ouça, nem seja lampeiro como nos bons tempos. Saibam que aqui encontrei um condiscípulo de Isaac; contou- me muitas anedotas dele e que era muito esperto, mas às vezes com pouco miolo. Sempre lhe arranjaram emprego? Se ele ainda anda metido com a Amada, deixem-no lá, que o dia do relego há de chegar. Dêem-me novidades da terra e façam muitas visitas a quem por mim perguntar. Mandem-me dizer se o Militão já casou com a Antônia Borralha.

Deitem a bênção a este seu filho Norberto Claro.”

Isaac dobrou a carta, repôs os papéis no seu lugar, e disfarçou com arte o arrombamento da escrivaninha. Duas angústias lhe cerravam a garganta; a frustração de seus esforços para encontrar dinheiro, e a hediondez de seus atos perante as lástimas de Norberto, juntas à tristeza que cobria aquela casa, como uma mortalha de defuntos. Mas de que jeito quebrar o destino? Como todos os seres rebeldes à lei das coisas, tinha a curiosidade de viver. Viver para ver os homens, as loucuras, as repúblicas, as estações, para se sentir nas infinitas modalidades da terra. Esse instinto, ajudado do pessimismo sorridente que considera o tudo como pó, o tudo como musgo do nada, passageiras a virtude, o vício, as emoções, sustinha-o à beira das resoluções vigorosas.

O pensamento nele era profundo, mas rápido. Levantava a poeira violenta dum tropel de cavalos numa estrada de’ verão e desaparecia. A própria dita de se sentir sentindo lhe fazia volver o rumo das idéias.

Num minuto volveu até as fezes à porcaria de sua condição. Viu-se o parasita do pobre velho, o ladrão de Norberto, a lagarta doirada daquela pobre casa. Um minuto, para logo voltar a si, ao seu pessimismo confortável, preocupado apenas com a perspectiva dum escândalo e a exautoração pública, em que fatalmente perderia a amiga.

Nesse dia, tendo percorrido a escala dos expedientes, gizou um plano arriscado e difícil.

Se o pai não tinha o dinheiro na gaveta é porque o trazia nos bolsos. Como chegar-lhe, se não largava a carteira e dormia com ela debaixo da almofada, escarmentado de gatunices? Lá cismou e, depois de muito cismar, escolheu o seu jogo.

Antes que dessem graças a Deus, depois de cear, esgueirou-se da cozinha para o quarto do pai e, cautelosamente, meteu-se debaixo da cama. Aí esperou uma boa meia hora estendido sobre o sobrado, acalentando a esperança de resolver o grave problema. O padre veio por fim, resmungando, praguejando contra égua, que não comia o feno e estava fidalga, e contra a mariolagem do filho, e começou a despir-se. Do seu esconderijo, Isaac apenas lhe via as pernas mirradas e secas como cabos de faca. Ao cabo dum quarto de hora, o padre estava na cama, fumando. A mãe veio dar-lhe as boas-noites e perguntar:

Tem roupa bastante?

— Tenho. Dorme com Nossa Senhora.

Uma longa hora havia decorrido e só se ouvia a égua mascando no estábulo. A respiração do velho sibilava. Isaac arrastou-se, então, como um réptil debaixo do leito, reprimindo o fôlego ao mais leve estalido das velhas tábuas. E, ajoelhado, sutil, insinuou o braço por debaixo do travesseiro. A sua mão fina e preguiçosa, destas mãos afusadas de parteira, sondou, passeou, divagou enquanto o coração lhe batia um galope louco de cavalo. A carteira foi arpoada. Folheou-lhe as bolsas, enxergando como se tivesse olhos de nictalope. A velha carteira guardava quatro notas de mil-réis, não mais. Descoroçoado, assaltado novamente por uma matilha confusa de sentimentos, quedou-se indeciso; resoluto, enfim, tirou as quatro notas e meteu-as no peito. Docemente, com mais decisão mas não com menos prudência, colocou a carteira saqueada no seu lugar. O pai pigarreou e a alta e antiga cama de cerejeira rangeu dolorosamente. Isaac suspendeu-se um instante e, de rastos, como um ladrão consumado, atravessou o aposento escuro, a sala, o seu quarto, abriu a janela e saltou.

***

Isaac correu a fechar a boca da Carradas com os 4$000; ela, como era boa alma e sentia a consumição do seu semelhante, concedeu mais um prazo de 24 horas.

Estava um dia remançoso, sem ventania. Não havendo perigo de incêndio, D. Dorotéia lembrou-se de fazer a barrela — que estava a roupa a encardir nos cestos, há muitas semanas. Para isso chamou a Narcisa, uma afilhada que morava a dois passos, e a fogueira foi acesa no alpendre, onde havia mais largueza que na cozinha e a lenha estava à mão de semear. Seriam dez horas da manhã, o fogo chamejava de rijo, e nuvens densas de fumo se esfarelavam através da telha-vã sobre a aldeia. Já fervia a dupla fila de potes e panelões quando D. Dorotéia chamou para a mesa. O almoço foi silencioso e breve, e Isaac não provou garfada.

Ao levantar, Isaac perguntou ao pai se podia ir a Forles a cavalo. Como ele não tornasse resposta, cavalgou e desapareceu na velha calçada romana, por entre os pinhais imóveis. Os manos Isidros receberam-no afetuosamente, deram-lhe muitos conselhos, mas de dinheiro nem pinta. Cheio de desespero, entrou em casa quando o pai lavrara o óbito do anjinho, dado à terra na véspera. Como era muito idoso, a mão tremia- lhe em sacolões nervosos, e cada palavra lhe levava tempo imenso a escrever. Além disso, a letra era miúda e humilde como anotações de monge nas margens dum homiliário.

— Quere que lhe lavre o assento? — perguntou Isaac, condoído.

— Não senhor.

Isaac foi sentar-se meditabundo num degrau do patim. A mãe, mal o viu, teve dó dele, que não almoçara, e apressou-se a servir o jantar.

Quando o padre entrou, os vapores da sopa evolavam-se olorosamente das tigelas atestadas. Não obstante o bom caldo de feijão branco e o farto salpicão de lombo, Isaac absteve-se, como de manhã, de tocar em prato. O padre, à sobremesa, perguntou:

— Então, não come?

— Obrigado; não tenho apetite.

— Quere que lhe faça alguma coisa? Que tem, senhor?

— questionou a mãe, a seu turno.

Isaac despediu um mau sorriso por entre dentes.

— Lá se arranje — tornou ela. — Já não está em idade de se lhe fazer a papa.

O padre continuava o registro quando Isaac se acercou resoluto:

— Tenho uma coisa grave a comunicar-lhe...

O velho nem pestanejou.

— Muito grave...

Continuava ele a sua caligrafia difícil e laboriosa e Isaac rangeu os dentes:

— Escuta-me, ou não me escuta?

A pena trêmula cantava: enterrado no cemitério desta freguesia...

Isaac deu um salto sobre ele e, paralisando-lhe a mão, disse de ar torvo:

— Há de me ouvir!...

O velho olhou-o de face e, com a voz a estalar de cólera, lançou-lhe:

— Oh! malvado. Já nem o pão me queres deixar ganhar?

Isaac largou-o de arremesso e, saindo à sala, escreveu:

“Sou um desgraçado, mas a minha desgraça vai ter fim. Devorei-lhe quatro contos de réis e hoje vou matar-me por causa de 1O$000. Sim vou matar-me; hoje à noite, se não tiver restituído 1O$000 que me emprestaram, dou um tiro na cabeça. É quase cômico que uma vida dependa duma contingência tão fraca. Senhor Abade... meu pai, salve-me, arranje-me este dinheiro; eu queria ainda viver, ser bom, ser útil. Senhor Abade, lave-me da vergonha e serei outro.”

Escrito o bilhete, foi com uma certa fatuidade romântica pô-lo diante dos olhos do padre, e saiu a ver a lixívia para dar tempo a que uma resposta raciocinada lhe fosse dada. A água fervia em cachões nos potes bojudos de dois almudes. Nas panelas esgrouviadas, o vapor cantava. A labareda enrubescia o alpendre todo. E Narcisa ia e vinha, rubicunda e alegre, escorrendo suor.

O velho, feito o assento, desceu as escaleiras e, de sacho na mão, foi-se a mondar na terra de batatal, de que as primeiras folhas, em ferretes de esmeralda, despontavam. Isaac correu ao escritório e, por baixo de sua súplica, encontrou a máxima jocosa: Qui lavat asinitm perdit aquam et saponem. Desvairado, então, começou a soluçar sobre a sua desdita. Caía a noite, uma noite suave e negra sem rumor de vento, nem lucilações de estrelas. Lá fora a fogueira crepitava esbrasiada, infernal, alimentada de novo para a segunda água. O padre entrou fazendo chocalhar os tamancos. Isaac correu-lhe ao encontro e, em voz submissa, interrogou:

— Que resposta me dá?

O pai abanou a cabeça, franziu os lábios num esgar mirado:

— Ainda tem a desfaçatez de me pedir dinheiro?

— Escuso pois de contar...

— Dinheiro que eu tivesse, não era você que mo larpava. Antes gastá-lo em rosalgar...

— É a última vez que lho peço.

Já disse, não o tenho; mas, ainda que o tivesse não lho dava.

— É possível que o não tenha, mas autorize-me a ir pedi-lo a alguém...

— Pedi-lo, peça-o a quem lhe apetecer. Que tenho eu com isso?

— Mas em seu nome; bem sabe que não tenho crédito...

— Pois arranje-se — proferiu dando uns passos para a janela. — Não está farto de me roubar? de me tirar as sarapas?

— Bem, tenho então de acabar com a vida?

— Acabar com a vida!... Ah! ah! ah! um homem que nunca teve dignidade! Acordou-lhe tarde a honra.

— Não me insulte; ninguém tem nada que me jogar à face.

E os latrocínios contínuos que tem cometido nesta casa? e as ofensas à sua mãe, e as pancadas que lhe tem dado?

E a exploração sórdida de seu mano? Não lhe podem jogar isso à face?

— Podem, embora metade do que está dizendo não seja verdade. Mas na sociedade, no público, ninguém me poderá imputar a mais leve mácula.

— Vadio! Melhor fora tê-lo estorcegado ao nascer. Mariola!

— Senhor Abade, dê-me os 1O$000!... Quere deixar dar cabo de mim por uma bagatela?...

— Escusa de teimar; não tenho dinheiro, mas tendo-o, não lho dava.

— Pela alma de seu pai, não me abandone...

— Mas que rala! Não o tenho...

— Deixe-me ir pedi-lo emprestado...

— Quem lhe pega?...

Isaac reconheceu a decisão inabalável do pai. Ele, tão fraco e tão bom, não se rendia à evidência da sua angústia.

Lentamente a cólera subia-lhe ao peito, fazia-lhe trepidar as artérias como o motor duma máquina afadigada. A idéia de que se via em embaraços por uma coisa ínfima, como uma agulha e insuperável como o infinito, o desespero sufocava-o.

— O senhor não é pai nem é nada; o senhor é um monstro de crueldade!

— Isso, isso, sou um monstro.

— É um monstro, é! Vê-me aqui a seus pés, amarfanhado como um farrapo, e não tem comiseração.

— Já lhe disse que não tenho dinheiro...

— Mande pedi-lo... — gritou Isaac de arranco.

Humildemente, dir-se-ia que, tomado de medo, o padre retorquiu:

— Pedi-lo... se você me arranjasse 50$000 para remir Norberto?...

— Roube-o do cofre das almas... Não é certamente a primeira vez.

— Malvado! Deus te dê mais que o que eu furto às almas. Não comias um almoço!

— Ata ou desata? — tornou o filho com exaspero.

Já lhe disse, não tenho dinheiro; há muito que não tenho dinheiro...

— Quere então o meu suicídio?

— Nem quero nem deixo de querer. O senhor já tem idade para ter juízo.

— E não há de ter pena? — proferiu em voz escarninha. — Não?

— Não venha ele outro mal à minha casa.

A mesma voz chocarreira, alucinada, tornou:

Então há muito que não vê dinheiro?

— Assim a bênção de Deus me cubra.

— Ah! ah! ainda por cima é perjuro... Isso é o que se chama um sacerdote exemplar!

— Então, esses 4$000 que traz na algibeira?

O velho levou a mão ao bolso e, sacando a carteira, num abrir e fechar de olhos reconheceu o roubo. De salto e com garra formidável atirou-se ao pescoço do filho:

— Ah! ladrão! Ah! ladrão!

Isaac não pôde furtar-se e rolaram no soalho abraçados. A luta foi cega, feroz e rápida. Quando Isaac se safou de baixo do velho, caía ele para o lado, inerte. Os olhos saíam-lhe das órbitas e da língua pendia-lhe um fio de espuma. Os dentes negros arruaçavam.

O moço lançou em torno um olhar desvairado e, possesso, sacudiu o velho com frenesi e roquidos de espasmo:

Pai! Meu pai!

Um instante de dor imensa e, numa carreira louca, saiu de casa, desceu o patim. Cingia a terra uma abóbada de breu. O alpendre, logo abaixo, irradiava como um inferno. E o desgraçado correndo para lá, dum pulo, projetou-se na fogueira, mergulhou a meio dos carvões incandescentes. Contra ele, potes de dois almudes caíram de borco, quebraram-se as panelas em mil astilhas. E com a carne assada, cabelos e fato a arder como archote, correu na noite, uivando um uivo que atemorizou cinco aldeias.

Fonte:
Contos Portugueses - Volume I. Poeteiro Editor Digital. São Paulo, 2014.