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Sobre o Blogue
(Henrique Martins)
COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
terça-feira, 2 de agosto de 2022
Sunset juntou obras de arte e música na antiga Estação Ferroviária de Macedo de Cavaleiros
O renovado edifício da Estação Ferroviária de Macedo de Cavaleiros, um dos polos expositivos da Bienal de Arte Contemporânea de Trás-os-Montes – Linha de Água serviu de palco para um sunset intitulado “Verão Azul”, que contou com Djs e as portas abertas para quem quisesse visitar as obras de arte.
O evento fez parte da programação da bienal e além de divertir, pretendeu dar a conhecer as obras, explica Inês Falcão, Diretora Artística e Curadora da Bienal de Arte Contemporânea de Trás-os-Montes, Linha de Água:
“Como a bienal tem um polo neste espaço, que é magnífico, achámos que as pessoas não tinham ainda muito a noção do que temos lá dentro.
Então pensámos que fazendo uma festa, com o espaço de portas abertas, para as pessoas terem a possibilidade de verem as os obras de arte.”
“Surpresa” foi a principal emoção transmitida pelos participantes, refere Filipe Rodrigues, um dos curadores da bienal, que faz um balanço positivo da iniciativa:
“O balanço é extremamente positivo, pela possibilidade de termos a exposição aberta em outro horário e surpreendermos as pessoas com boa música e boas obras.
O feedback que temos é de surpresa. Primeiro porque, sendo de noite, as luzes criam outro cenário, mas sobretudo pelos sorrisos estampados nos rostos e a vontade de dançar e experienciar, olhando para as obras de arte numa outra perspetiva.”
A Bienal de Arte Contemporânea de Trás-os-Montes – Linha de Água está patente em Macedo de Cavaleiros até 29 de setembro. Além do Sunset “Verão Azul”, que aconteceu no sábado, a organização, embora sem revelar pormenores, adiantou que até ao fim da exposição vai haver outras iniciativas associadas à bienal.
A PÁTRIA E A LÍNGUA
Filandorra leva teatro a castelos, parques e largos de aldeia neste verão
A companhia de teatro sediada em Vila Real disse, em comunicado, que as produções a apresentar durante o mês de agosto são dirigidas a “todos os públicos” e visam proporcionar às populações do Interior o reencontro entre gerações nas noites quentes de verão, bem como celebrar o regresso dos emigrantes às vilas e aldeias.
O ciclo “Meu querido mês de agosto” sobe aos palcos improvisados em castelos, jardins, parques verdes, praças e largos transmontanos.
A Filandorra explicou que a comédia “O Velho da Horta”, de Gil Vicente, é o espetáculo que nesta primeira semana de agosto faz a abertura de três festivais de artes e teatro que acontecem na região.
Na quarta-feira abre o Festival Sabrosa Summer Fest, com o espetáculo a decorrer no anfiteatro da Fonte Luminosa, na quinta-feira é a vez do V Festival de Teatro de Rua de Chaves, que este ano tem o seu palco no largo General Silveira e, na sexta-feira, apresenta-se no FARPA – Festival de Artes de Pombal de Ansiães, numa organização da Associação Recreativa e Cultural de Pombal de Ansiães (ARCPA).
A adaptação dos "contos proibidos” da tradição oral das terras do Barroso, que Bento da Cruz reproduziu na obra “Histórias da Vermelhinha”, é outra das produções que integram o cartaz do ciclo de teatro de verão, que vai “subir” ao palco da aldeia de Torgueda.
A mais recente produção da companhia, “Sonho de uma noite de verão”, de William Shakespeare, também faz parte desta digressão pelo Interior do país.
A produção vai passar pelo parque fluvial do rio Teixeira, em Mesão Frio, segue depois para os jardins do castelo de Montalegre, o parque verde de Artes e Ofícios de Vinhais, pelos jardins e arvoredos da piscina municipal de Vila Flor e, a 11 de agosto, a companhia apresenta-se nas ruínas do paço episcopal, em Miranda do Douro.
“Sonho de uma noite de verão” é a 80.ª produção deste coletivo teatral e está inserida no projeto “Reportórios, Territórios e Identidades”, apoiado pela Direção-geral das Artes (DGartes).
O ciclo de teatro de verão “Meu querido mês de agosto” foi lançado em 2021 e conta com o apoio dos municípios parceiros da Filandorra.
José Afonso partiu há 35 anos
Em 1930 os pais foram para Angola, onde o pai tinha sido colocado como delegado do Procurador da República em Silva Porto. José Afonso permanece em Aveiro, na casa da Fonte das Cinco Bicas, por razões de saúde, confiado à tia Gegé e ao tio Xico, um «republicano anticlerical e anti-sidonista».
Por insistência da mãe, em 1933 Zeca segue para Angola, com três anos e meio, no vapor Mouzinho, acompanhado por um tio advogado em lua-de-mel. Um missionário é a companhia de José Afonso que permanece três anos em Angola, onde inicia os estudos da instrução primária.
Em 1936 regressa a Aveiro, para casa de umas tias pelo lado materno.
Parte em 1937 para Moçambique ao encontro dos pais, com quem vive juntamente com os irmãos João e Mariazinha.
Regressa a Portugal, em 1938, desta vez para casa do tio Filomeno, presidente da Câmara Municipal de Belmonte. Aqui conclui a quarta classe. O tio, salazarista convicto, fá-lo envergar a farda da Mocidade Portuguesa.
Vai para Coimbra em 1940 para prosseguir os estudos. É matriculado no Liceu D. João III e instala-se em casa da tia Avrilete, tia paterna que vivia à Av. Dias da Silva, actual nº112. No liceu conhece António Portugal e Luiz Goes. A família parte de Moçambique para Timor, onde o pai vai exercer as funções de juiz. Mariazinha vai com eles, enquanto seu irmão João vem para Portugal. Com a ocupação de Timor pelos Japoneses, José Afonso fica sem notícias dos pais durante três anos, até ao final da II Guerra Mundial, em 1945.
Nesse mesmo ano começa a cantar serenatas como «bicho», designação da praxe de Coimbra para os estudantes liceais (José Afonso andava no 5.º ano do liceu). Era conhecido como «bicho-cantor», o que lhe permitia não ser «rapado» pelas «trupes». Vida de boémia e fados tradicionais de Coimbra.
De 1946 a 1948 completa o curso dos liceus, após dois chumbos. Conhece Maria Amália de Oliveira, uma costureira de origem humilde, com quem vem a casar em segredo, por oposição dos pais. Faz viagens com o Orfeão e com a Tuna Académica. Joga futebol na Associação Académica de Coimbra.
Em 1949, dispensado do exame de aptidão à Universidade, inscreve-se no primeiro ano do curso de Ciências Histórico-Filosóficas da Faculdade de Letras. Vai a Angola e Moçambique integrado numa comitiva do Orfeão Académico da Universidade de Coimbra.
Em Janeiro de 1953 nasce-lhe o primeiro filho, José Manuel. Dá explicações e faz revisão no Diário de Coimbra. São editados os seus primeiros discos. Trata-se de dois discos de 78 rotações com fados de Coimbra, editados pela Alvorada, dos quais não existem hoje exemplares. Os dois discos foram gravados no Emissor Regional de Coimbra da Emissora Nacional.
De 1953 a 1955 cumpre, em Mafra, serviço militar obrigatório. Foi mobilizado para Macau, mas livrou-se por motivos de saúde. Depois é colocado num quartel em Coimbra. Tem grandes dificuldades económicas para sustentar a família, como refere em carta enviada aos pais em Moçambique. A crise conjugal é muito sentida. Após o serviço militar, já com dois filhos, José Manuel e Helena (nascida em 1954), conclui em 1963 o curso na Faculdade de Letras de Coimbra com 11 valores com uma tese sobre Jean-Paul Sartre: «Implicações substancialistas na filosofia sartriana».
Vai dar aulas num colégio privado em Mangualde de 6 de Janeiro a 30 de Setembro de 1957. Passa a, então, à cndição de estudante voluntário da Universidade, inod com frequência a Coimbra, não só para fazer exames na Faculdade de Letras, mas por continuar a ser bastante solicitado para cantar em serenatas, espectáculos e digressões dos organismos autónomos. Inicia-se o processo de separação e posterior divórcio de Amália (1 de Junho de 1963). José Afonso manterá uma névoa de silêncio em redor desta sua experiência conjugal.
Em 1956 é editado o seu primeiro EP, intitulado Fados de Coimbra. De 28 de Outubro de 1957 a 22 de Julho de 1958 foi professor provisório nas Escola Industrial e Comercial de Lagos.
Por dificuldades económicas, em 1958 envia os dois filhos para Moçambique, para junto dos avós. Neste ano fica impressionado com a campanha eleitoral de Humberto Delgado. Digressão de um mês em Angola da Tuna Académica. José Afonso é o vocalista do Conjunto Ligeiro. «Actuámos vestidos com umas largas blusas de cetim, cada uma de sua cor, imitando a orquestra de “mambos” de Perez Prado, o máximo da altura», conta José Niza.
A 4 de Dezembro de 1957, José Afonso actua em Paris, no Teatro “Champs Elysées” ao lado de Fernado Rolim, voz, António Portugal e David Leandro nas guitarras de Coimbra e Sousa Rafael e Levy Baptista nas violas.
De 7 de Outubro de 1958 a 18 de Julho de 1959 é professor provisório nas Escola Industrial e Comercial de Faro.
Em 1959 começa a frequentar colectividades e a cantar regularmente em meios populares.
Nos inícios do ano lectivo de 1959/60 é colocado por 10 dias num colégio em Aljustrel, transitando depois para a Escola Técnica de Alcobaça onde é professor provisório entre 3 de Outubro de 1959 e 30 de Julho de 1960.
Em 1960 é editado o quarto disco de José Afonso. Trata-se de um EP para a Rapsódia, intitulado Balada do Outono.
Em Agosto faz nova digressão com o orfeão Académico de Coimbra a Angola. Ainda em 1960 desloca-se a Paris e Genebra, onde grava com Fernado Rolim, voz, António Portugal e David Leandro nas guitarras de Coimbra e Sousa Rafael e Levy Baptista nas violas, onde naquela cidade helvética grava uma serenata para a Eurovisão.
De 1961 a 1962 segue atentamente a crise estudantil deste último ano. Convive em Faro com Luiza Neto Jorge, António Barahona, António Ramos Rosa e Pité e namora com Zélia, natural da Fuzeta, que será a sua segunda mulher.
Realiza digressões pela Suíça e Alemanha onde gravam para a televisão e Suécia onde actua na Gala dos Reais Clubes Suecos, integrado num grupo de fados e guitarras, na companhia de Adriano Correia de Oliveira, José Niza, Jorge Godinho, Durval Moreirinhas e ainda da fadista lisboeta Esmeralda Amoedo.
Em 1963 é editado outro EP de Baladas de Coimbra. Volta a ser professor provisório nas mesma escola em Faro, de 19 de Outubro de 1962 a 31 de Julho de 1963.
Em Maio de 1964, José Afonso actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde se inspira para fazer a canção «Grândola, Vila Morena», que viria a ser no dia 25 de Abril de 1974 a senha do Movimento das Forças Armadas (MFA) para o derrube do regime ditatorial.
Nesse mesmo ano é editado o EP Cantares de José Afonso, o único para a Valentim de Carvalho.
Também em 1964 é editado, pela Ofir, o álbum Baladas e Canções, que virá a ser reeditado em CD pela EMI em 1996.
De 1964 a 1967, José Afonso encontra-se em Lourenço Marques com Zélia, onde reencontra os seus dois filho. Nos últimos dois anos, dá aulas na Beira. Aqui musicou Brecht na peça A Excepção e a Regra. Em Moçambique nasce a sua filha Joana (1965).
Em 1967 regressa a Lisboa esgotado pelo sistema colonial. Deixa o filho mais velho, José Manuel, confiado aos avós em Moçambique. Colocado como professor em Setúbal, sofre uma grave crise de saúde que o leva a ser internado durante 20 dias na Casa de Saúde de Belas. Quando sai da clínica, tinha sido expulso do ensino oficial. É publicado o livro Cantares de José Afonso, pela Nova Realidade. O PCP convida-o a aderir ao partido, mas José Afonso recusa invocando a sua condição de classe. Assina contrato discográfico com a Orfeu, para quem grava mais de 70 por cento da sua obra.
Expulso do ensino, em 1968 dedica-se a dar explicações e a cantar com mais assiduidade nas colectividades da Margem Sul, onde é nítida a influência do PCP. Pelo Natal, edita o álbum Cantares do Andarilho, com Rui Pato, primeiro disco para a Orfeu. O contrato é sui generis: contra o pagamento de uma mensalidade (15 contos), José Afonso é obrigado a gravar um álbum por ano.
Em 1969 a Primavera marcelista abre perspectivas de organização ao movimento sindical. José Afonso participa activamente neste movimento, assim como nas acções dos estudantes em Coimbra. Edita o álbum Contos Velhos Rumos Novos e o single «Menina, dos Olhos Tristes» que contém a canção popular «Canta Camarada». Recebe o prémio da Casa da Imprensa para o melhor disco, distinção que repete em 1970 e 1971. Pela primeira vez num disco de José Afonso, aparecem outros instrumentos que não a viola ou a guitarra. Trata-se do último álbum com Rui Pato. Nasce o último filho, o quarto, Pedro.
Em 1970 é editado o álbum Traz Outro Amigo Também, gravado em Londres, nos estúdios da Pye, o primeiro sem Rui Pato, impedido pela PIDE de viajar. Carlos Correia (Bóris), antigo músico de rock, dos Álamos e do Conjunto Universitário Hi-Fi, substitui Pato. A 21 de Março, por unanimidade, a Casa de Imprensa atribui a José Afonso o Prémio de Honra pela «alta qualidade da sua obra artística como autor e intérprete e pela decisiva influência que exerce em todo o movimento de renovação da música ligeira portuguesa». Participa em Cuba num Festival Internacional de Música Popular.
Pelo Natal de 1971, é lançado o álbum Cantigas do Maio, gravado perto de Paris, nos estúdios de Herouville, um dos mais caros e afamados da Europa. O álbum é geralmente considerado o melhor disco de José Afonso. A editora Nova Realidade publica o livro Cantar de Novo.
No ano de 1972 o álbum chama-se Eu Vou Ser Como a Toupeira, gravado em Madrid, nos Estúdios Cellada, com a participação de Benedicto, um cantor galego amigo de Zeca, e com o apoio dos Aguaviva, de Manolo Diaz. O livro, editado pela Paisagem, tem apenas o título de José Afonso.
Em 1973 José Afonso continua a sua «peregrinação», cantando um pouco em todo o lado. Muitas sessões foram proibidas pela PIDE/DGS. Em Abril é preso e fica 20 dias em Caxias até finais de Maio. Na prisão política, escreve o poema «Era Um Redondo Vocábulo». Pelo Natal, publica o álbum Venham Mais Cinco, gravado em Paris, em que José Mário Branco volta a colaborar musicalmente. No tema-título, participa Janine de Waleyne, solista dos Swingle Singers, o melhor grupo vocal de jazz cantado da altura, na opinião de José Niza.
A 29 de Março de 1974, o Coliseu, em Lisboa, enche-se para ouvir José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Manuel Freire, José Barata Moura, Fernando Tordo e outros, que terminam a sessão com «Grândola, Vila Morena». Militares do MFA estão entre a assistência e escolhem «Grândola» para senha da Revolução. Um mês depois dá-se o 25 de Abril. No dia do espectáculo, a censura avisara a Casa de Imprensa, organizadora do evento, de que eram proibidas as representações de «Venham Mais Cinco», «Menina dos Olhos Tristes», «A Morte Saiu à Rua» e «Gastão Era Perfeito». Curiosamente, a «Grândola» era autorizada. É editado o álbum Coro dos Tribunais, gravado em Londres, novamente na Pye, com arranjos e direcção musical, pela primeira vez, de Fausto. São incluídas as canções brechtianas compostas em Moçambique no período entre 1964 e 1967, «Coro dos Tribunais» e «Eu Marchava de Dia e de Noite (Canta o Comerciante)».
De 1974 a 1975 envolve-se directamento nos movimentos populares. O PREC (Processo Revolucionário Em Curso) é a sua paixão. Cantou no dia 11 de Março de 1975 no RALIS para os soldados. Estabelece uma colaboração estreita com o movimento revolucionário LUAR, através do seu amigo Camilo Mortágua, dirigente da organização. A LUAR edita o single «Viva o Poder Popular» com «Foi na Cidade do Sado» no lado B. Em Itália, as organizações revolucionárias Lotta Continua, Il Manifesto e Vanguardia Operaria editam o álbum República, gravado em Roma a 30 de Setembro e 1 de Outubro, nos estúdios das Santini Edizioni. As receitas do disco destinavam-se a apoiar a Comissão de Trabalhadores do jornal República ou, caso o jornal fosse extinto, como foi, o Secretariado Provisório das Cooperativas Agrícolas de Alcoentre. Desconhecido em Portugal, o álbum inclui «Para Não Dizer Que Não Falei de Flores» (Geraldo Vandré), «Se os Teus Olhos se Vendessem», «Foi no Sábado Passado», «Canta Camarada», «Eu Hei-de Ir Colher Macela», «O Pão Que Sobra à Riqueza», «Os Vampiros», «Senhora do Almortão», «Letra para Um Hino» e «Ladainha do Arcebispo». Francisco Fanhais colaborou na gravação do disco, juntamente com músicos italianos.
Em 1976 apoia a candidatura presidencial de Otelo Saraiva de Carvalho, cérebro do 25 de Abril e ex-comandante do COPCON (Comando Operacional do Continente), apoio que reedita em 1980. Fase cronista de José Afonso, que publica o álbum Com as Minhas Tamanquinhas. O disco tem a surpreendente participação de Quim Barreiros. É, na opinião de José Niza, «um disco de combate e de denúncia, um grito de alma, um murro na mesa, sincero e exaltado, talvez exagerado se ouvido e lido ao fim de 20 anos, isto é, hoje». É a «ressaca» do PREC.
O álbum Enquanto Há Força, editado em 1978, de novo com Fausto, representa mais um exemplo da fase cronista do cantor, ligada às suas preocupações anti-colonistas e anti-imperialistas e à sua crítica mordaz à Igreja. Inclui as participações, entre outras, de Guilherme Inês, Carlos Zíngaro, Pedro Caldeira Cabral, Rão Kyao, Luís Duarte, Adriano Correia de Oliveira e Sérgio Godinho.
Em 1979 é editado o álbum Fura Fura, com a colaboração musical de Júlio Pereira e dos Trovante. O disco inclui oito temas de música para teatro, compostos para as peças Zé do Telhado, de A Barraca, e Guerra do Alecrim e Manjerona, da Comuna. Actua em Bruxelas no Festival da Contra-Eurovisão.
Em 1981, após dois anos de silêncio, regressa a Coimbra com o seu álbum Fados de Coimbra e Outras Canções. Trata-se da mais bela versão do fado de Coimbra, interpretada por Zeca Afonso em homenagem a seu pai e a Edmundo Bettencourt, a quem o disco é dedicado. Actua em Paris, no Théatre de la Ville.
Em 1982 começam a conhecer-se os primeiros sintomas da doença do cantor, uma esclerose lateral amiotrófica. Actua em Brouges no Festival de Printemps.
Em 29 de Janeiro de 1983 realiza-se o espectáculo no Coliseu com José Afonso já em dificuldades. Participam Octávio Sérgio, António Sérgio, Lopes de Almeida, Durval Moreirinhas, Rui Pato, Fausto, Júlio Pereira, Guilherme Inês, Rui Castro, Rui Júnior, Sérgio Mestre e Janita Salomé. É publicado o duplo álbum Ao Vivo no Coliseu.
No Natal desse ano, sai Como Se Fora Seu Filho, um testamento político. Colaboração de Júlio Pereira, Janita Salomé, Fausto e José Mário Branco. Alinhamento: «Papuça», «Utopia», «A Nau de António Faria», «Canção da Paciência», «O País Vai de Carrinho», «Canarinho», «Eu Dizia», «Canção do Medo», «Verdade e Mentira» e «Altos Altentes». Algumas das canções foram escritas para a peça Fernão Mentes? do grupo de teatro A Barraca. Publicado o livro Textos e Canções, com a chancela Assírio e Alvim. Contra a sua vontade, é publicado pelo Foto Sonoro um maxi-single, Zeca em Coimbra, com um espectáculo dado por Zeca no Jardim da Sereia, na Lusa Atenas, a 27 de Maio. A cidade de Coimbra atribui a José Afonso a Medalha de Ouro da cidade. «Obrigado Zeca, volta sempre, a casa é tua», disse-lhe o presidente da Câmara, Mendes Silva. «Não quero converter-me numa instituição, embora me sinta muito comovido e grato pela homenagem», respondeu José Afonso. O Presidente da República, general Ramalho Eanes, atribui a José Afonso a Ordem da Liberdade, mas o cantor recusa-se a preencher o formulário. Em 1994, o Presidente da República Mário Soares tentou de novo condecorar, postumamente, José Afonso com a Ordem da Liberdade, mas a mulher, Zélia, recusou, alegando que se José Afonso não desejou a distinção em vida, também não seria após a sua morte que seria condecorado.
Em 1983 José Afonso é reintegrado no ensino oficial, tendo sido destacado para dar aulas de História e de Português na Escola Preparatória de Azeitão. Tinha sido expulso em 1968. A doença, agrava-se.
Em 1985 é editado o último álbum, Galinhas do Mato. José Afonso já não consegue cantar todos os temas, sendo substituído por Luís Represas («Agora»), Helena Vieira («Tu Gitana», Janita Salomé («Moda do Entrudo», «Tarkovsky» e «Alegria da Criação»), José Mário Branco («Década de Salomé», em dueto com Zeca), Né Ladeiras («Benditos») e Catarina e Marta Salomé («Galinhas do Mato»). Arranjos musicais de Júlio Pereira e Fausto. Outras canções do álbum: «Escandinávia Bar-Fuzeta» e «À Proa».
José Afonso morreu no dia 23 de Fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal, às 3 horas da madrugada, vítima de esclerose lateral amiotrófica, diagnosticada em 1982. O funeral realizou-se no dia seguinte, com mais de 30 mil pessoas, da Escola Secundária de S. Julião para o cemitério da Senhora da Piedade, em Setúbal, onde a urna foi depositada às 17h30 na sepultura 1606 do quadro 19. O funeral demorou duas horas a percorrer 1300 metros. Envolvida por um pano vermelho sem qualquer símbolo, como pedira, a urna foi transportada, entre outros, por Sérgio Godinho, Júlio Pereira, José Mário Branco, Luís Cília, Francisco Fanhais. A Transmédia editou o triplo álbum, o primeiro da história discográfica portuguesa, Agora e Sempre, duas semanas depois da morte do cantor.
segunda-feira, 1 de agosto de 2022
18.°ENCONTRO DE ANCIÃOS DO MUNICÍPIO DE MOGADOURO
🔶️Sábado, 06 de agosto.
🟢 Inscreva-se na sua Junta de Freguesia ou na Câmara Municipal de Mogadouro.
☎️279 340 100
SANTIAGO E FÁTIMA
Alguns são idosos, outros, bastante jovens – quase adolescentes, – que caminham aos pares ou isoladamente, levando, em regra, a tradicional vieira.
Admiro a coragem dessa gentes – quase todos estrangeiros, – que se aventuram a percorrer caminhos quase desertos, expondo-se à intempérie, aos salteadores e às frias Nortadas, por lugares ermos e perigosos.
O governo da Galiza, a bem da sua terra, tem realizado convincente propaganda, difundindo e reavivando os antigos caminhos, que levam à catedral do Santo.
Certa ocasião, estando na esplanada de bar, em, A – Ver – o – Mar, ouvi conversa do proprietário com um desses peregrinos, que vinha pedir a colocação de carimbo da firma, garantindo, assim, que passou por ali.
Admirei-me que os "peregrinos" estejam interessados em tais carimbos!...
Admirei-me, mas rapidamente me informaram estar na moda, e até é chique fazer tais "peregrinações."
Soube, também, por jovens, que alguns fazem o percurso de carro, atravessando apenas as povoações, a pé.
Onde chega o snobismo a vaidade ou a ânsia de ser importante! - Como se isso desse alguma importância!...
Bem diferente são os peregrinos de Fátima, que caminham em grupo, rezando e cantando, palmilhando por atalhos e estradas, e muitos chegam ao Santuário em lamentável estado de saúde.
São devotos de Nossa Senhora. Não colhem carimbos, nem se hospedem em hotéis, nem comem em restaurantes elegantes, nem intercalam etapas, de carro e a pé.
Uns vão a Compostela para fazerem turismo, por estar na moda; outros vão a Fátima para cumprir promessas e pedir graças.
CULTURA | CONCERTO OPERÁTICO
O Município de Mogadouro promove o Concerto Operático - "Aberturas e Coros de Ópera" da Ópera na Academia e na Cidade🎼
📅06 de Agosto 2022
📍Anfiteatro do Parque da Vila de Mogadouro
⏱21:30 horas
Contamos com a vossa presença🎻🪕🎤
Edição deste ano da Festa da História de Bragança retrata a Paz de 1371
Com entrada livre e com atividades pensadas para todas as idades, o Castelo de Bragança, um dos mais bem preservados de Portugal, acolhe durante quatro dias diversas atividades: música, teatro, danças do povo, histórias para crianças e graúdos, marionetas, artes circenses, esgrima medieval, oficinas de tecelagem, demonstrações de falcoaria e, claro, não pode faltar o bobo e o cortejo oficial, no qual diversas personagens vão marcar a experiência do visitante.
Segundo nota de imprensa do município “para proporcionar uma experiência diferenciadora e realista, foram idealizadas diversas áreas temáticas, entre as quais: Posto de Controlo, onde os soldados irão controlar quem pode passar para lá das muralhas. Na Rua do Restolho, decorrerá o mercado e onde histórias de amor e traições (e alguns furtos) acontecem. Na Rua dos Larápios, vão esconder-se os foragidos às autoridades e onde as classes sociais mais desfavorecidas vão surpreender os visitantes com ações inesperadas. Na Praça, um espaço central serão comercializados e trocados os produtos produzidos pelos artesãos. Na Praça do Sustento, vai ser possível confraternizar, beber e degustar as mais variadas iguarias. No Largo da Feira, chegarão diversos mercadores oriundos de terras longínquas e que chamam a atenção pelos produtos que comercializam. Por último no Beco do Oculto, vão localizar-se os videntes e vendedores de produtos com poderes mágicos“.
Cada edição da Festa da História proporciona a quem a visita momentos históricos passados na região ou inspirados no seu extraordinário património simbólico, nomeadamente na tradição oral.
Entre os dias 13 e 14 de agosto, será retratado o Tratado de Paz que devolveu Bragança às mãos de D. Fernando. Uma reconquista consumada após D. Fernando ter invadido a Galiza e tomar o Trono Castelhano a Henrique de Trastâmara, alegando ser o seu legítimo herdeiro. D. Henrique decide, então, invadir o Norte de Portugal, tomando Braga, passando por Guimarães e conquistando, por fim, Bragança, que somente retornaria às mãos de D. Fernando mediante a assinatura do Tratado de Alcoutim em 1371 – momento que a edição deste ano da Festa da História assinala.
Para participar nas atividades da Festa da História, basta fazer a inscrição prévia (até 30 minutos antes de cada sessão). De destacar, ainda, o “Torneio Medieval” que acontece nos dias 12 a 14 de agosto, às 19H00, e no dia 15, às 22h00, no Castelo de Bragança.
METAMORFOSE
Entre lembranças e recordações obsoletas, os meus dedos esguios e vadios, vão rasgar epidermes, romper casulos, e mesmo de alma vazia, deixar nascer, belas e frágeis borboletas!
Crisálias entorpecidas, vacilantes e cheias de medo, vou abrir-lhe as asas, para fazerem frente ao mundo e á vida.
Quero tatuar um anjo na saudade, com corpo de veludo acetinado, e de gala colori-lo e pintá-lo, sem véus nem mantilhas. Vou apenas metamorfoseá-lo.
Desenhar-lhe no rosto e no dorso, pétalas douradas, para que ali, jaza a saudade, sem lágrimas nem partidas, apenas abraços e beijos, eternas primaveras floridas.
Seco meus olhos vermelhos e lacrimosos!
Relembro o sol a florir, uns olhos a sorrir e dias…dias e dias, saudosos!
No luar das horas mortas, fico cada vez mais convicta que Deus escreve direito por linhas tortas.
MORGADO - Parte III
Numa sexta- feira, depois de todos cearem, Morgado limpou a boca com as costas da mão e disse para a mulher:
- Mas donde irás tu, home dum raio, c´uma noute destas?! No se bê um palmo à frente do nariz! – Protestou a Glorinha.
- Eu sei o caminho d´olhos fitchados. Num há-d´haber nubidade.
- Inda cai por i alguma nebada…
- Boa nebada, terra ´strumada – desarmou- a o marido.
- Sete nebadas e um nebão, fazem munto pão- acrescentou o filho mais novo de sete anos, que herdara as manhas do pai.
- Tamãe já `judas à missa?! – riu-se a Mãe.
- Boa é a nebe que a seu tempo bem – desafiou-o o Pai.
- Ano de nebão, ano de pão – respondeu-lhe o filho.
- Folga o trigo debaixo da nebe, como a obelha debaixo da pele.
- Em ano de munta nebe, pagó labrador o que debe – continuou o filho, não querendo ficar para trás.
- Mas ondé qu´este inxalmo bai buscar tanta pantominice!! – Disse a Mãe orgulhosa, acariciando-o na cabeça.
- Só quero que no banha mais nenhuma nebe buraqueira c´má d`há há quinze dias, que nos obrigue a andar coa pá e coa bacia a tirá-la de casa.
- Este bosso pai é mais tilhudo do qu´a mula do ti Lampreia. Inda t´há-des meter nalguma alhada – resmungou a Glorinha.
- Ó mulher, já te disse que sei bem o qu´ando a fazer. Mas afinal falo eu, ou tchia um carro?
Morgado foi à pilheira e tirou de lá um foco com as pilhas novas que tinha comprado em Moncorvo, na casa Moreira. O céu estava lavadinho e areado como a panela de ferro em que Glorinha fazia o caldo e os feijões com couves. As estrelas pareciam furinhos no manto azul-escuro do céu. Desceu a rua da Lameira, passou pela capela do Senhor dos Aflitos, pela capela de Santo António, a seguir pelo chafariz e pela capela de Nossa Senhora da Assunção. Seguiu até ao concelho e virou à direita para a rua da Igreja, que ficava no estremo da aldeia, pegada ao cemitério. Continuou a subir pelo caminho do Sesmo, um caminho rodeado de paredes altas, em ambos os lados. Ao cimo, no lameiro da Quintã, tirou de entre duas fragas, um saco com um lençol branco e um funil de lata. Pôs o saco ao ombro, bebeu um forte gole de aguardente de figo, duma garrafinha que trazia sempre consigo, apertou a gola do capote e enterrou mais o chapéu de feltro. Pôs-se a caminho da quinta do Doutor Castro Lima. Levava na alma a sombra de uma vida de fadigas. Ia em andar apressado para aquecer do frio e da geada – que já se acumulava nas ervas da beira do caminho- e por que ainda eram cerca de duas horas para cada lado. A Lua, em início de quarto crescente, era parca na luz que projectava e ampliava a sombra do lado esquerdo.
Ao passar pelos Vales de Lá uma lebre levantou-se e Morgado ainda lhe atirou com a foice, sem sucesso. “Debia ter trazido a “canhota” – disse como se conversasse com a própria sombra.
A noite era gigante e medonha e Morgado calava o medo. Quando passou pela Costa da Ferreira dois mochos mudaram de poiso e aterrorizaram ainda mais a noite com o seu piar doentio e lânguido, adensando ainda mais a profundidade da escuridão. Dum lado e doutro os olivais negros, que mais pareciam assombrações com o seu perfil escuro e hirto, dormiam o sono gelado, engranhadas e escuras, tal como a solidão dos seus donos. Permaneciam estáticas e serenas, querendo poupar energia. Ali estavam eternamente sossegadas, humildes, conformadas, domesticadas, ponderadas, casmurras, saturadas e exaustas, mas resistindo interiormente – que é assim que se conseguem as grandes vitórias, em surdina, sem espalhafatos - às agruras e intempéries dos rigorosos invernos e à torreira do sol do verão. Lá deviam estar as “negrutchas”, as verdeais, as “cordobezas” “e as “borreiras” juntamente com as “bicais”, que misturadas e bem espremidas pelas prensas, dão o melhor azeite do mundo. Esse óleo que desde tempos imemoriais já era usado não só na culinária, mas também na medicina e em produtos de beleza. Era igualmente usado como combustível, lubrificante de alfaias agrícolas, ferramentas e como impermeabilizante. Era essencial nos rituais religiosos e os Romanos consideravam-no o “elixir da juventude”. Depois dos capachos bem espremidos nas prensas e depois de secos e batidos com paus, soltavam o “bagaço”, que servia para misturar na vianda dos porcos, acender e espevitar o lume na lareira e nas fornalhas do lagar. O lagar, que era local de convívio e de aconchego nas noites frias de Inverno. Com uma fatia de pão, espetada na ponta afiada de uma varita, faziam - se torradas na fornalha, que se embebiam em azeite acabado de fazer.
Permitam-me lembrar ainda que das borras do azeite as mulheres faziam o sabão. E as alcaparras? – Tão saborosas com sal grosso! E já agora, as azeitonas “squart´lhadas “, que eram muitas vezes o “peguilho”. Pensa-se até que a oliveira é anterior à presença do homem na terra. Em homenagem à oliveira havia até uma ladainha:” A oliveira dá-nos azeitonas; as azeitonas dão-nos o azeite; o azeite dá-nos luz na candeia, saúde no mal e gosto no prato.”
Diz a lenda que na antiga Grécia, as mulheres que queriam engravidar, ficavam longas horas sentadas à sombra de uma oliveira e era considerada o símbolo da sabedoria, da paz, da abundância e da glória. Aliás, pensa-se até que Romo e Rómulo nasceram debaixo de uma. Já Sófocles se referiu a ela com sendo “ a árvore invencível que renasce de si mesma “. E a pomba de Noé, trouxe no bico um raminho de oliveira. Antes do querosene era o azeite que nos alumiava e ainda hoje, no tempo em que decorre a história, é a candeia de azeite que ilumina todos os lares, pelo menos em Trás-os-Montes.
Quando Morgado chegou perto da casa da Quinta, subiu para uma oliveira do mesmo lado da janela. Cobriu-se com o lençol branco e pegou no funil:
- Ó Zé da Cruz! ´Stás a dromir?
O eco da voz enchia a noite e espalhava-se pela serrania. Acendeu o foco e passou três vezes com a luz pela casa e apagou-o. Zé da Cruz ficou petrificado de medo e, talvez pelo susto, teve um ataque de tosse.
- Pois ´stás bem bô, Zé da Cruz! Já no passas o Inberno.
A voz, amplificada pelo funil, ecoava assustadoramente e ribombava profundamente de ladeira em ladeira como um trovão forte. Aqueles cabeços milenares, testemunhas do choque tectónico de há mais de trezentos milhões de anos, devolviam, dilatados, os ecos cavernosos. Zé da Cruz agachado, tossia convulsivamente.
- Tens umas belas botas, mas já no as rompes, Zé da Cruz.- Voltou novamente à carga.
Passou mais umas vezes a luz do foco em círculos pela casa.
- Sabes quem eu sou, ó Zé da Cruz? Sou uma alma penada e bim-te bescar p´ra te lubar pró outro mundo.
O eco difundia-se no vazio e era ainda mais tenebroso do que a profundidade da escuridão daqueles ermos, onde parecia não haver vivalma. Zé da Cruz estremecia a cada projecção do foco e a cada ecoar sinistro da voz aumentada pelo funil.
Morgado tirou o lençol e desceu. Com muito cuidado pôs-se a caminho de casa. Vinha satisfeito e plenamente convencido do êxito, mas não imaginava em que estado ficou o pobre do Zé da Cruz. Há momentos únicos na vida de um homem tão extraordinários, que só por eles, já valeu a pena ter nascido. E aquele era, sem dúvida, o momento na vida de Morgado.
Batiam as onze horas no relógio da torre, quando entrou na povoação.
- A gobernar a bida, respondeu-lhe enquanto guardava o foco na pilheira.
- Mas que grandes bidas se gobernam cum tempo destes e a uma hora destas …!
- Amanhê ou D´mingo, já o bamos a saber. Eu cá trago a meada na dobadeira.
No Sábado, depois de jantar uma boa pratada de batatas com bacalhau e grelos e um ovo cozido e de beber três quartos de tinto do Altinho do Prado, Morgado desceu à loja a tratar dos animais. Trouxe a caldeira da vianda dos recos e despejou-a na pia quadrangular de pedra. Passou mais algum tempo a preparar as varas da azeitona e a separar os toldes e os sacos bons dos rotos para a mulher os remendar. Foi até à taberna do “Tchic´Augueira “.
Por volta das três da tarde, entrou o Zé na taberna. Deu as boas tardes de fugida e dirigiu-se ao balcão.
- Atão cá por cima? – Perguntou-lhe admirado o taberneiro.
- É c´mo bês – respondeu secamente.
Morgado estava atento e veio sentar-se cá fora, nas pedras, junto à parede, à espera do desejado momento.
O Zé emborcou o vinho, pôs o dinheiro no balcão e saiu.
- Bô?!!Já ´stás libre?!! - Perguntou fingindo-se admirado.
- Mas bou ficar inda houje. Se quiseres, na sigunda já tas boto. – Disse batendo com o cajado no chão,continuando a tossir.
- S´assim quiseres, p´ra mim ´stá bem, mas no quero que ´stragues a tua bida por bia de mim.
- Conta comigo. Inda houje ou amanhê bou a falar co Amadeu p´rarranjar oitro guardador p´rá quinta, qu´eu no tanho bida p´ráquilo .
- Mas aconteceu-t´alguma cousa?
- No sou guardador. Sou pastor.
- ´Stá bem. Intende-te lá atão co Amadeu e amanhé combersemos milhor – disse Morgado em tom condescendente com o ar mais cínico que pode haver.
- Atão inté amanhé – despediu-se o Zé.
Morgado entrou em casa a cantarolar.
- Este já cá canta. Este já no fuge.
- Bens munto sastifeito, home! Isso já é pinga a mais?
- Qal pinga, nem meia pinga! Eu no to dixo? Já temos pastor – disse triunfalmente, batendo as mãos.
- Bô!! E quem é ele? – Perguntou-lhe a Glorinha incrédula.
- É o Zé da Cruz, c´mo já te tinha dito – disse com um sorriso largo.
- Bô?! Mas atão esse no ´stá lá p´ra baixo?!
- `Staba, mas já no ´stá.
- O qu`é que tu fizestes ó rapaz? Boa cousa no seria – disse sorrindo carinhosamente.
- Nada. No le fiz nadinha!!
E a vingança consumou-se passados onze anos
Fontes de Carvalho, Verão de 2017
Encontro Equestre animou a localidade de Grijó
Paulo Ribeiro, da Escola Planeta Equestre fez um Balanço muito positivo de todas as atividades e realçou as boas condições do Centro Hípico de Grijó, depois de todas as abras realizadas pelo Município.
Além das provas e demostrações, decorreu uma mostra e venda de produtos locais.
Para o Presidente da Junta de Grijó, Acácio Ferreira estas atividades são importantes para a economia local e para promover o nosso território.
Aproveitou para agradecer a todos aqueles que colaboraram com este nono encontro:
Escola Planeta Equestre, Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, Comissão de Festas da Aldeia, e a todo a população.
Documento do mês de agosto - Nossa Senhora das Graças Padroeira da cidade de Bragança
O programa religioso dedicado à padroeira da cidade tem o seu ponto alto com a missa na Catedral seguida da grandiosa procissão Solene pelas ruas da cidade onde a devoção é o espelho das almas envoltas de esperança e fraternidade. Diríamos em última estância que universo religioso envolve sempre a noção de sagrado e de profano e a experiência religiosa acontece através do símbolo, do rito e do mito. Sagrado é todo aquele espaço, objeto, símbolo, que tem um significado especial para uma pessoa ou grupo.
Profano é tudo que não é sagrado, toda a vida comum do dia a dia, os factos e atos da rotina. Contudo, a diferença entre profano e sagrado só acontece na experiência individual e dos grupos, ou seja, aquilo que é profano ou comum para uns, pode ser sagrado para outros, dependendo de sua experiência religiosa. Para a experiência religiosa é sempre pessoal e relacional, condicionada ao indivíduo na sua forma de ser e situada em um contexto histórico e cultural, numa vivência relacional com o mundo, com o outro e com o grupo familiar, comunitário, político, etc. Está presente numa dimensão individual, dos projetos de vida, dos desejos e frustrações, amparando e direcionando os homens diante da constatação de sua finitude e da necessidade de crescimento em todas as suas dimensões, desde a biológica, intelectual, material e transcendente, um ser em constante busca.
Só se pode falar em religião, estritamente, quando aparece uma organização complexa, espiritual e social, com base numa revelação de Deus.
Assim o documento do mês celebra a Nossa Senhora das Graças num artigo da revista “Amigos de Bragança” de 1960 onde emana o fervor e a devoção da padroeira e a exaltação das festividades como elo de união. Ela foi a a escolhida de Deus (cheia de Graça) para carregar em seu ventre o Menino Jesus. O dia de Nossa Senhora das Graças é o espaço intemporal, onde todos os fiéis tem a oportunidade de demonstrar sua gratidão pelo amor da Mãe, a mesma que acolheu Jesus Cristo, e que cuida de todos com tanto amor e devoção na plenitude de humanismo. Na verdade a história da Nossa Senhora das Graças corresponde a tempos antes da criação da humanidade, onde Deus, planeando o nascimento de Seu Filho Jesus, escolheu a mais materna e pura energia que carregaria a criança em seu ventre. No momento em que o Senhor pensou em Jesus Cristo, ele também logo analisou uma mãe humana para gerá-lo, e por isso criou Maria. Uma mulher honesta, que possuía toda a delicadeza de uma flor cintilante, mas seria forte como os ventos do céu musical. Deus a criou pensando em uma representante de todas as mulheres e para que Ela fosse rainha da terra, seguida com o seu entendimento, passou a ser portadora de toda graça que a humanidade inteira poderia receber. E foi a partir de sua fé e devoção que ela proporcionou a salvação para tantas pessoas. Eis o esplendor e a celebração de tão belo ritual na intimidade da existência. Por último o artigo da revista finaliza com um ditado /dizer popular que carateriza a alma transmontana :
Reviver o ciclo do pão animou os visitantes e habitantes de Palácios
Os cânticos ajudavam a amenizar o trabalho árduo que era fazer a segada manual. Mal o sol nascia, os campos eram ocupados por pessoas de foice na mão que pouco a pouco cortavam o centeio para depois ser malhado. Este sábado, os mais velhos puderam reviver estes tempos e os mais novos puderam perceber como se fazia. Adriana Rodrigues tem 70 anos e lembra-se bem dos tempos da ceifa.
“Na minha juventude fazíamos isto. Aprendi com os meus pais, com os meus avós. Tinha muitas saudades. Naquele tempo era muita gente a ceifar e muita alegria. Cantava-se com alegria e faziam-se estes trabalhos duros com alegria”, contou.
Mara José Fernandes é de uma aldeia vizinha, mas quis marcar presença na segada. Com 79 anos recorda aqueles tempos com saudade.
“Segamos muito e passámos muitos calores. São boas as recordações, porque era mais alegre, andávamos sempre a cantar. Era muito trabalho, mas era mais alegre”, relembrou.
Cédric Ferreira é emigrante e aproveitou estar na aldeia de férias para acompanhar os trabalhos manuais. Já não é a primeira vez que participa no festival, mas reconhece a importância de transmitir aos jovens as tradições.
“Acho que é uma iniciativa muito interessante e que deveriam continuar a fazer. Tenho um filho, que ainda é jovem, não está a perceber tudo, mas espero que um dia possa ver como se fazia antigamente”, disse.
Depois da segada manual, era hora de encher a barriga com a merenda característica das seivas, como o pernil, as pataniscas e o queijo. Ao almoço, era servido canhona e arroz doce. Festival da Música e Tradição da Lombada procura reavivar memórias e preservar esta tradição.
“O objectivo da associação é transmitir e dar a conhecer às pessoas mais novas como é que se fazia. Temos aqui gente de idade que fica contente por reviver o que faziam quando eram jovens e os mais novos estão curiosos, há aqui gente a querer experimentar e a pegar na foice”, referiu Raúl Tomé, da Associação Cultural e Ambiental de Palácios, responsável pela organização.
A segada manual é um dos pontos altos do festival, que contou com a transmissão de conhecimentos foi feita pelos mais velhos e a curiosidade não faltou aos mais novos. A animação esteve ao rubro.
O Encontro de Gaiteiros e Tocadores do Nordeste foi outra das atracções. Além de animação musical e recriação de trabalhos agrícolas tradicionais, o festival contou com feira de artesanato e produtos da terra e workshops de fabrico de cestas.






















