terça-feira, 2 de maio de 2017

Bragança, Terra de encontros

A cidade mais nordestina de Portugal é uma combinação extraordinária de criação contemporânea e história ancestral. Jorge da Costa, à frente de alguns dos principais espaços culturais, é anfitrião numa terra que também celebra ecumenismo e memória judaica.
Brigantia é fertilidade, crescimento e criatividade. Por alguma razão a antiga divindade celta, personificação da vitória, deu nome a uma cidade, Bragança, que se reinventa, plena de engenho. Bragança, no extremo nordeste de Portugal e uma das principais urbes da região de Trás-os-Montes, está bem viva, e fica a apenas duas horas e meia do Porto. Por aqui o nosso anfitrião chama-se Jorge da Costa. É o diretor do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais e do Centro de Fotografia Georges Dussaud e tem discurso rápido, dinâmico, genuíno e orgulhoso. Um orgulho próprio destas gentes que o também transmontano Adriano Moreira, político e académico, descrevia com humor: “Onde está muita gente, nós não dizemos que somos transmontanos, porque os outros podem não ser e ficar envergonhados”.

Com tais vergonhas postas de lado, as conversas com Jorge da Costa poderiam ter tido lugar no Porto, em Lisboa, em Nova Iorque, junto ao Tamisa ou na capela duriense de São Leonardo da Galafura imortalizada em verso por Miguel Torga. Que mais não fosse pela dimensão da pintora que dá nome ao centro de arte que Jorge dirige, Graça Morais, com um percurso entre a interioridade transmontana e a contemporaneidade universalista das suas obras.

Todas as artes, e memória

Bragança e a área onde se insere destacam-se em quatro grandes atrativos: arte, arquitetura, natureza e gastronomia. Jorge vive a cidade intensamente e vai além dos estereótipos que ao longo dos anos sugeriam uma Bragança longínqua, onde os caretos – as ruidosas e coloridas figuras carnavalescas do folclore local – dançavam junto a fogueiras que enganavam os invernos rigorosos e onde as tradições se mantinham enquadradas num imaginário quase no limite do lugar comum. Hoje esse património está conservado e é recuperado com rigor, e, de qualquer das formas, a cidade tem muito mais para dar.

Pelo caminho do centro há esplanadas, cafés cheios, áreas livres de automóveis pedonais e animação. A urbanidade só é atenuada pela natureza às portas da cidade e pela tranquilidade e bonomia dos próprios brigantinos. Ruas de Bragança fora, as indicações de Jorge exigem atenção, de tanta nota ou história que trazem. Na “rua dos museus”, como já é conhecida a Rua Abílio Bessa, o início é dominado pela antiga casa senhorial que deu guarida ao Banco de Portugal, que Eduardo Souto de Moura, arquiteto com Prémio Pritzker, remodelou e que passou a Centro de Arte Contemporânea Graça Morais, inaugurado em 2008.

Na “sua” casa, Jorge deambula pela exposição Proporção e Desígnio, que revela, até 28 de maio, os esquissos de Souto de Moura e a obra de Graça Morais. A atenção prende-se nos desenhos da artista que mostram mulheres metamorfoseadas. Por entre um amarelo velho nas paredes, quase neutro, e o chão de madeira, os esquissos de Souto de Moura revelam os primórdios das suas casas em Ponte de Lima, na Arrábida, a Casa das Histórias de Paula Rego, em Cascais, o estádio de Braga ou a Pousada de Santa Maria do Bouro.

Estes momentos, interiorizamo-los numa pausa no jardim, cercado pelas linhas direitas tão típicas da escola de arquitetura do Porto, que se prolongam mais à frente. Na mesma rua, a dois passos, fica o Museu Abade de Baçal, historiador ilustre da região, onde Jorge sublinha o ecletismo da coleção. Aqui há uma viagem aos caretos e suas festas pagãs por altura do solstício de Inverno, com as máscaras feitas em cortiça, madeira, folha de flandres ou palha. Somos acolhidos no museu por Amável Antão, ele próprio artesão das máscaras, que nos indica outros tesouros do espaço: a arte sacra, a cerâmica, uma arca dos santos óleos, em pau santo, com três âmbulas de prata usadas no batismo, no crisma e na unção dos enfermos.

É desse aparato espiritual que partimos – ainda naquela rua, onde ficava a antiga judiaria e sinagoga – para mais um território de memória igualmente elevado: o Centro de Interpretação da Cultura Sefardita do Nordeste Transmontano. Somos transportados para a história brigantina dos judeus de Sefarad, o nome hebraico da Península Ibérica. Relata-se um mundo de silêncio e violação de consciências, onde a crença sobreviveu como criptojudaísmo quando, em finais do século XV, a coroa portuguesa ordenou a expulsão ou batismo dos judeus. “Volveu-se em numerosas famílias uma forma de protesto íntimo, guardando do ritual tão só a lembrança de uma ou outra prática observável na intimidade do lar”, escreve-se numa publicação do museu. Hoje, explica Jorge, “vem gente de fora à procura das origens, neozelandeses, americanos, de muitos cantos do mundo”. Há até uma referência ao escritor argentino Jorge Luis Borges, cujo bisavô Francisco, natural de Torre de Moncorvo, saiu do distrito em 1817 para a América do Sul, como militar.

Terra e encantamento

O espanto não cessa: agora estamos perante as imagens a preto e branco de George Dussaud, o fotógrafo francês que dedicou – e continua a dedicar – grande parte do trabalho a Portugal e a Trás-os-Montes. O centro de arte seu homónimo acolhe uma coleção extraordinária (e em breve vai funcionar ali uma cinemateca). Para Jorge, esta obra é “uma declaração de encantamento, dos encontros diretos de Dussaud e da convivência fraterna com as pessoas e os seus modos de vida”. Respira-se o peso da região, epicamente contido na obra do poeta Miguel Torga, que se referia aos habitantes que cavavam a vida inteira e “quando se cansam, deitam-se no chão com a serenidade de quem chega honradamente ao fim dum longo e trabalhoso dia. E ali ficam nuns cemitérios de lívida desilusão, à espera que a lei da terra os transforme em ciprestes e granito”.

É o peso da dureza de outros tempos que hoje se confunde com a natureza. Note-se: Bragança é uma cidade cercada por duas grandes serras e o Parque Natural do Montesinho, com aldeias muito preservadas como Rio de Onor ou a que dá nome ao parque. E há a Serra da Nogueira, com a maior mancha de carvalhos da Europa. Lobos, veados, javalis, aves de rapina e imensas zonas de rio como a Albufeira do Azibo, “a melhor praia fluvial do país”. Para lá seguimos, com Jorge revelando a pequena praia onde se esquece do trabalho e se perde num horizonte de quietude ímpar. E falamos também sobre a referida Rio de Onor, que ainda hoje mantém as suas características únicas – “mas mais atenuadas, porque não é imune ao despovoamento e envelhecimento”: uma aldeia dividida, com a fronteira pelo meio, parte portuguesa, parte espanhola, conhecida pelo comunitarismo e também pela sua variante da outra língua oficial de Portugal: o mirandês.

De tudo isto falamos à mesa do restaurante O Careto, na aldeia de Varge, a pouco mais de 10 quilómetros de Bragança, onde os assados na brasa, o galo estufado e os doces de cereja, abóbora e marmelada têm fama além-fronteira.

Danças modernas e antigas

No regresso à cidade fala-se de Modernismo. O arquiteto Viana de Lima (1913-1978), um dos expoentes portugueses de defesa da Carta de Atenas de Le Corbusier, coordenou em 1960 o Plano Regulador de Bragança e espalhou pela urbe várias obras, e Jorge da Costa não falha uma. Aponta o antigo hotel e cineteatro, avança para o Hospital do Nordeste, passa pela Escola Superior de Saúde e Escola Primária e termina no Bairro das Estacadas. Um circuito numa cidade que Viana de Lima chegou a descrever como “a cabeça de uma região cheia de pequenos núcleos que se agarram à terra com a poderosa força dos líquenes”, sendo ela própria, “em substância e em expressão, como um deles, só que muito maior”.

E muito maior também pela dimensão de capital de distrito, 553 anos de cidade, com vaidade no castelo com muralha em forma de coração, na Torre da Princesa e no museu militar mais visitado do país, instalado na torre de menagem, e ainda no interior desta bem preservada cidadela, o ex-líbris: o Domus Municipalis, único exemplar de arquitetura civil em estilo românico na Península Ibérica, que funcionou como cisterna e conselho dos homens-bons da cidade. Na cidadela fica também o imperdível Museu Ibérico da Máscara e do Traje, que conta a história cruzada do distrito e da vizinha espanhola Zamora com danças do diabo, da morte e da censura personificadas nas máscaras. Hoje são recuperadas para o Carnaval, em que finalmente participam moças, numa antiga tradição reservada a rapazes que antes se faziam homens por força do ritual.

Terminamos estes dias, aliás, com outro ritual: apreciando os pratos do Javali, na Estrada do Portelo, memorável restaurante onde é rei o feérico bicho das matas que lhe dá nome. Eis Bragança, onde outrora se fazia o culto antigo da deusa Brigantia, nome que significa eminente, alta, elevada.

A UP agradece à Câmara Municipal de Bragança toda a ajuda prestada nesta reportagem.

in:upmagazine-tap.com

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