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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 4 de setembro de 2021

Participantes do 17º Raid Ibérico vão passar pelo concelho de Macedo no domingo

 Começa este sábado o 17º Raid Ibérico, em Espanha, e segue no domingo para Bragança.


De passagem pela região, e depois das avionetas estacionadas, os participantes vão visitar, durante a tarde, o concelho de Macedo de Cavaleiros, como conta o presidente do Aero Clube de Bragança, Nuno Fernandes:

“Passamos sempre por vários concelhos, o de Bragança já foi visitado muitas vezes, então optamos por Macedo de Cavaleiros para a visita desta vez.

Vamos fazer um passeio de barco e caiaque no Azibo, e depois vamos visitar a aldeia dos Caretos, Podence.

O que pretendemos também é mostrar um pouco da nossa região e cultura. Macedo pertence ao distrito e foi o escolhido desta vez.”

Uma forma de mostrar pontos de interesse da região que, certamente, muitos dos participantes ainda não conhecem:

“Para muitos destes participantes, os Caretos em si não serão desconhecidos, mas sim a aldeia de Podence, assim como o Azibo, pois estão habituados a mar e a outras coisas que não existem aqui, mas não sabem o que é, se calhar, uma boa praia fluvial como a nossa.”

A passagem pelo Azibo está prevista acontecer por volta das 16h e por Podence das 18h.

Depois de uma paragem devido à pandemia em 2020, o Raid Ibérico está de regresso, junta 52 participantes e 27 aeronaves, e termina no dia nove, depois de passar também por Lagos, Granada e Málaga.

A organização é do Aero Clube de Bragança e da Fundación Cielos de Léon.

Foto: Facebook “Aero Clube de Bragança”
Escrito por ONDA LIVRE

Movhera acolhe reabilitação da antiga pedreira de Miranda do Douro

 A Movhera, nova concessionária das seis barragens transmontanas, anunciou hoje que acolhe “positivamente” projetos de reabilitação dos terrenos da antiga pedreira nas proximidades da albufeira do aproveitamento hidrelétrico de Miranda do Douro, no distrito de Bragança.


“No âmbito do nosso compromisso com o desenvolvimento da região onde se encontram as concessões, acolhemos positivamente qualquer projeto que permita a reabilitação dos terrenos referentes à pedreira em Miranda do Douro, criada há 60 anos aquando da construção da barragem nesta cidade”, indicou à Lusa fonte oficial da empresa.

Segundo uma nota enviada à Lusa, a Movhera assume que “este projeto pretende aumentar a atratividade turística da zona, juntando mais um argumento de atração à infraestrutura turística existente”, apontado como exemplos “o barco de cruzeiro que opera neste território do Douro Internacional, os caminhos pedonais, entre outras valências do turismo natureza”.

Nesse sentido, a Movhera disse estar disponível “para contribuir ativamente para um estudo a lançar, com a contribuição e aprovação das entidades públicas competentes”, bem como estar disponível para “facilitar o acesso à área, que se encontra dentro de uma zona da concessão, caso seja decidido avançar com trabalhos no local”.

Desde o início da fundação do Movimento Cultural Terra de Miranda, em 13 julho de 2020, que a recuperação ambiental da antiga pedreira da Miranda Douro é uma das suas revindicações, considerando a não recuperação daquele espaço “como um crime ambiental continuado para a segurança e salubridade da população”.

Há cerca de três meses, o MCTM apresentou uma queixa na Provedoria de Justiça contra o que considera ser a inação do Estado e da empresa concessionaria no seu dever de recuperação daquele espaço.

Por outro lado, a Movhera indicou igualmente que vai realizar ações de desassoreamento na barragem de Miranda do Douro, em pleno Douro Internacional.

“No âmbito da implementação do plano de investimentos, que tem como objetivo melhorar a operacionalidade dos aproveitamentos hidrelétricos de que é concessionária, a Movhera iniciará brevemente ações de desassoreamento no Aproveitamento Hidroelétrico de Miranda do Douro”, referiu a nova concessionária das barragens transmontanas instaladas na bacia hidrográfica do Douro.

De acordo com a Movhera, o processo escolhido para o desassoreamento, “o qual foi devidamente avaliado e aprovado pelas autoridades competentes, foi concebido para minimizar possíveis impactes ambientais e paisagísticos, assim como constrangimentos nas acessibilidades e infraestruturas de transporte locais”.

“Todos os parâmetros relevantes para a operação estarão permanentemente sujeitos a monitorização por entidades devidamente certificadas, que recorrerão a processos previamente aprovados”.

Acrescenta ainda que prevê que “a operação seja concluída no final do verão”, acrescentando que, "no caso de ser detetado qualquer efeito anómalo consequente das ações de desassoreamento no Aproveitamento Hidroelétrico de Miranda do Douro, Movhera solicita que este seja imediatamente comunicado".

A EDP vendeu seis barragens em Portugal a um consórcio de investidores, formado pela Engie, Crédit Agricole Assurances e Mirova, por 2,2 mil milhões de euros.

Alfândega da Fé é Município Amigo do Desporto pela terceira vez consecutiva

 O Município de Alfândega da Fé recebeu, da Associação Portuguesa de Gestão de Desporto - APOGESD e da Cidade Social, o galardão Município Amigo do Desporto 2020. Esta é já a terceira vez que a autarquia recebe a distinção que realça as boas práticas locais na área do desporto. A cerimónia de entrega do galardão Município Amigo do Desporto 2020 decorreu no passado dia 1 de Setembro, em Matosinhos, momento em que a autarquia recebeu também o Selo de Qualidade do Programa de Atividade Física Sénior.


O Município de Alfândega da Fé recebeu, da Associação Portuguesa de Gestão de Desporto – APOGESD e da Cidade Social, o galardão Município Amigo do Desporto 2020. Esta é já a terceira vez que a autarquia recebe a distinção que realça as boas práticas locais na área do desporto.

O Programa Município Amigo do Desporto foi instituído em 2016 pela Associação Portuguesa de Gestão de Desporto – APOGESD e pela plataforma Cidade Social, com o objetivo de distinguir anualmente os municípios que desenvolvem uma política de apoio ao desporto de excelência.

O programa “Estamos ON | Propostas VIRTUAIS – Benefícios REAIS”, que incentivou à prática desportiva em casa durante o confinamento, as iniciativas desportivas e de animação turística, designadamente a Meia Maratona da Cereja, os passeios pedestres, o passeio BTT da Cereja, o Paddle nos Lagos do Sabor, todo o trabalho realizado junto da comunidade escolar, o desporto adaptada e as atividades físicas para seniroes, contribuíram para que Alfândega da Fé continue a ser considerado um Município Amigo do Desporto.

A cerimónia de entrega do galardão Município Amigo do Desporto 2020 decorreu no passado dia 1 de Setembro, em Matosinhos, momento em que a autarquia recebeu também o Selo de Qualidade do Programa de Atividade Física Sénior.

Programa de atividade física para seniores do concelho de Alfândega da Fé conquista selo de qualidade

Promover o envelhecimento ativo e saudável é o lema do programa de atividade física para seniores do concelho de Alfândega da Fé que recebeu o selo de qualidade no âmbito do programa Município Amigo do Desporto, do consórcio de entidades liderada pela plataforma Cidade Social.

O Município, em parceria com a Liga dos Amigos do Centro de Saúde de Alfândega da Fé, a Associação Recreativa Alfandeguense, Juntas de Freguesia e diversas IPSS’s locais, está a implementar junto dos idosos do concelho um conjunto de atividades de estimulação física e cognitiva com o objetivo de promover o envelhecimento ativo, reduzir o isolamento social e melhorar a saúde e bem estar dos mais velhos.

Através da criação de sinergias com as diferentes entidades e técnicos locais são promovidas sessões de atividade física em todas as localidades do concelho, funcionado como motor para a melhoria da qualidade de vida dos frequentadores.

Nem mesmo a situação pandémica interrompeu estas sessões que se adaptaram ao meio virtual e deram forma ao caderno de atividades criativo “Da cabeça aos pés num tempo sem pés nem cabeça”. Um manual com exercícios físicos e de outras áreas de bem estar, distribuídos porta a porta aos idosos durante o período de confinamento.

Estas iniciativas foram reconhecidas com a atribuição do selo de qualidade que distingue as boas práticas nacionais no âmbito dos programas de atividade física sénior. A autarquia de Alfândega da Fé congratula-se com esta distinção e agradece a colaboração de todos os envolvidos na implementação deste programa junto dos seniores do concelho.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Claudina deixa a capital, regressa à aldeia

“Quem celebra a grandeza das cidades não sabe nada, não sabe que quando um galo canta em Barca d’ Alva é ouvido em três distritos e dois países.”

A tia Claudina aguentou-se na cidade a muito custo, vivendo num susto permanente, ora nos períodos de conturbação social, ora nos períodos de acalmia, que adivinhava de curta duração.

Era sempre cheia de medo que se aventurava a ir sozinha às ruas principais, regressava apavorada com as notícias dos jornais sobre a Grande Guerra.

Só pela insistência das cunhadas, ia com elas passear na Rua Augusta, no Rossio, no Chiado e fazer compras, ou assistir a espectáculos de teatro e cinema. Se isso não fosse, teria vivido enclausurada, cuidando dos sobrinhos, sem nada usufruir da vida citadina. O seu íntimo desejo era regressar à sua aldeia onde se andava pelas ruas em sossego, e não havia jornais a levar diariamente a população para os campos de batalha pela Europa toda.

Na aldeia não havia racionamento de bens essenciais. As colheitas dependiam do sol e da chuva no tempo certo. Era esse o único regulador: a clemência da natureza e não o desígnio dos homens. Assim, o cereal amadurecia nas espigas ao ritmo de sempre, o malho ritmado separava a palha do grão, a água movia os moinhos na repetição do movimento, em cada forno a massa levedada entrava e saía sobre a pá que a mulher manejava num vaivém ancestral. E o cheiro do pão acabado de cozer espalhava a notícia do alimento sagrado. (…) Finalmente, Claudina entrou no comboio rumo ao Norte com as malas de roupa e as caixas de chapéus. Foi no Porto, ao embarcar na Linha do Douro, que a estranheza com que a olhavam lhe deu a consciência de regressar outra, diferente da que partira. Na primeira classe, era a única senhora com o vestido dez centímetros acima do tornozelo, meias de seda em tom bege, sapatos de biqueira arredondada, de salto alto confortável com tira e fivela; cabelo cortado e chapéu apequenado com vistoso adereço brilhante. Sentiu- se o alvo da atenção, sobretudo das senhoras que, nas suas indumentárias antigas, a iam inspeccionando em olhares furtivos. (…) O comboio avançava serenamente na margem do Douro onde os vinhedos replantados alternavam ainda com extensas áreas abandonadas. Mas quando se embrenharam na rudeza da paisagem vizinha de Espanha, Claudina guardou o livro, disposta a apreciar os montes, os desfiladeiros abruptos que as pontes ferroviárias transpunham, as aves que planavam no alto e sentia-se de novo filha daquela terra agreste, daquele rio aprisionado pelas margens. Esqueceu o figurino estrangeiro das roupas que a cobriam. (…)

Sílvia Lamas
In Luzeiros na bruma dos dias

GUERRA JUNQUEIRO E A "VELHICE DO PADRE ETERNO"

 Por: Humberto Pinho da Silva 
(colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Velho amigo dos bancos colegiais, já falecido, dizia-me, com graça: " A filha de guerra Junqueiro (que ainda conheci,) é o castigo do Padre Eterno..."
Realmente a Senhora primava pela delicadeza, e pela ausência de beleza...
Guerra Junqueiro faleceu em 1923, a 7 de Julho, com 73 anos de idade, na cidade de Lisboa.
Foi dos principais responsáveis pela queda da Monarquia, e acérrimo demolidor dos Braganças.
Os violentos ataques à Igreja, eram ferozes verrinas à Religião, extremamente arrasadores.
Porém, nos derradeiros anos de vida, arrependeu-se acerbamente do que havia dito e escrito.
Em " Prosa Dispersas", amarguradamente escreveu: " Eu tenho sido, devo declará-lo, muito injusto com a Igreja. A Velhice do Padre Eterno é um livro da mocidade. Não o escreveria já aos quarenta anos. Animou-me e ditou-me o meu espírito cristão, mas cheio ainda de um racionalismo desvairado, um racionalismo de ignorância, estreito e superficial. Contendo belas coisas, é um livro mau, e muitas vezes abominável."
Sobre " A Pátria", considerou que deveriam ser expurgadas ofensas a Oliveira Martins e ao Rei D. Carlos.
Solicitou mesmo, ao amigo Conselheiro Luís Magalhães, que ao reeditá-la, retirasse frases injuriosas. Ele próprio eliminou várias passagens, e deixou declaração escrita, que eram falsas as edições com a versão na integral.
Nos últimos dias, o poeta, tornou-se católico, pedindo que o funeral fosse cristão, e asseveram que se tornou monárquico...
Guerra Junqueiro, raras vezes escrevia em casa, na secretária, mas na rua passeando. Passava depois, a lápis, num retalho de papel.
Era baixinho, tinha enormes e espessas barbas, e vestia-se modestamente.
Certa vez, andava a passear e encontrou pequeno chavelho e levou-o pontapeando, na frente. Ao passar na praça da terra, camponeses, muito altos, ao vê-lo, desataram às gargalhadas, que ao poeta, afigurou-se de troça, e deu-lhes o troco:
- " Ah! Ah! Ah! Quê?! Tantos e tão grandes a rir à custa dum tão pequeno!"
Os que o ouviram levaram para as estaturas, e não para a imbecilidade (chifre) de quem se ria dele.
Foi excelente administrador. Deixou valiosa coleção de Arte e considerável fortuna.
Ao abordar o poeta e seu arrependimento tardio, lembrei-me do ilustre escritor açoriano, Vitorino Nemésio, e sua conversão.
Em 1955, ao conversar com o Bispo Emérito de Aveiro, D. Manuel Almeida Trindade, por longas três horas, o professor, em lágrimas, congraçou-se definitivamente com Deus.
Vitorino Nemésio, além de ser excelente escritor, era professor universitário, diretor do diário lisboeta: " O Dia", antigo mação, e comentador da RTP.
Segundo Agostinho de Campos, em: " Ler & Tresler", os grandes escritores portugueses do último quartel do século XX, foram vítimas do naturalismo: "Eça de Queirós, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, todos morreram arrependidos, de mal consigo próprios, desejosos de refazerem as suas vidas de outro modo, se isso lhes fosse possível."

Humberto Pinho da Silva
nasceu em Vila Nova de Gaia, Portugal, a 13 de Novembro de 1944. Frequentou o liceu Alexandre Herculano e o ICP (actual, Instituto Superior de Contabilidade e Administração). Em 1964 publicou, no semanário diocesano de Bragança, o primeiro conto, apadrinhado pelo Prof. Doutor Videira Pires. Tem colaboração espalhada pela imprensa portuguesa, brasileira, alemã, argentina, canadiana e USA. Foi redactor do jornal: “NG”. e é o coordenador do Blogue luso-brasileiro "PAZ".

Albufeira do Azibo recebe o “I Careto’s Swim Challenge”

 Uma iniciativa que conta com a participação de Angélica André, a única portuguesa presente nos Jogos Olímpicos de Tóquio, na modalidade de natação em águas abertas.


A Albufeira do Azibo recebe este fim-de-semana, nos dias 4 e 5 de setembro pelas 11h45, o I Careto’s Swim Challenge. Trata-se de uma experiência de natação em águas abertas, promovida pela Master Swim Tours e que vai aliar a beleza natural de dois ícones macedenses: os Caretos de Podence e o Azibo.

Uma iniciativa que conta com a participação de Angélica André, a única portuguesa presente nos Jogos Olímpicos de Tóquio, na modalidade de natação em águas abertas.

Ao longo dos dois dias, os participantes vão poder participar em dois percursos de natação, um com saída do Parque de Merendas e outro da Casa do Lago, na Praia da Fraga da Pegada. O fim-de-semana será ainda complementado com uma visita dos participantes à aldeia de Podence, a Aldeia Mais Colorida de Portugal (sábado) e à Estação de Biodiversidade de Santa Combinha (domingo).

Festival Literário PalavrArte regressa este fim-de-semana a Mirandela

 Começa hoje o Festival Literário de Mirandela. O PalavrArte decorre ao longo de todo o fim-de-semana e estende-se até dia 6, segunda-feira.


A iniciativa conta este ano com a segunda edição. Tendo sido a primeira em 2019, no ano passado o festival não pôde realizar-se, por causa da pandemia. Dado o sucesso da primeira edição, a câmara resolveu continuar com a iniciativa, segundo explicou a vereadora da cultura Vera Preto.

“A primeira edição em 2019 teve como grande objectivo fazer um upgrade da feira do livro, 2020 teve edição programada que foi adiada para agora. O propósito é incentivar a leitura e promover a escrita e os escritores da nossa região ou que falem da nossa identidade e da nossa cultura”, referiu.

O programa de 2021 conta com variadas formas de utilização da palavra: quer através da música, do teatro, da literatura, contos e oficinas. Hoje, às 10h30 e às 2h30 da tarde, há uma oficina infantil e ao final da tarde, às 6h30, a apresentação do livro, “Vozes Transmontanas”.

“Este ano, conseguimos dar um impulso ainda maior com edições de livros do município escritos por autores do nosso concelho, com homenagem a duas personalidades do concelho, como o cónego Silvério e a poetisa Maria Augusta Ribeiro”, destacou.

Os objectivos do festival passam por incentivar à leitura, assim como valorizar os livros e os escritores, aproximando-os dos leitores.

O Festival Literário de Mirandela termina na segunda-feira e tem entrada gratuita. 

Escrito por Brigantia
Jornalista: Carina Alves

Programação do Teatro Municipal de Bragança arranca com espectáculo Cabral de evocação da literatura transmontana

 A programação do Teatro Municipal de Bragança é retomada já a partir de hoje, com o espectáculo Cabral, no âmbito do projecto Palavras Cruzadas.


Esta noite, às 21 horas, vai ser evocada a literatura transmontana. Segundo o director do Teatro, João Cristiano Cunha, o espectáculo combina várias formas de expressão artística.

“Será um espectáculo multidisciplinar, com a direcção artística de Rui Spranger, que junta aqui AM Pires Cabral, António Cabral e Rui Cabral, tem mito a ver com literatura transmontana e com estes autores, é uma dramaturgia cénica que vai atravessar a vida e obra destes autores, mas que cruza a música, o teatro, a palavra, o texto e também o audiovisual, vamos ter na praceta Adriano Moreira um palco com uma grande estrutura com um painel de leds”, adiantou.

Já no fim-de-semana regressa também o “Música na paisagem” com dois concertos na aldeia de Montesinho.

Um dos destaques da programação para os próximos dois meses passa por um festival de música erudita, o Bragança Classic Fest.

“Vamos ter, em Bragança, alguns dos mais significativos nomes mundiais da música erudita e clássica, a Orquestra de Câmara de São Petersburgo, a violinista Diana Tishchenko, Karen Gomyo violinista, o bandolinista Hector del Curto, que foi discípulo de Astor Piazzolla, que vãos homenagear por ocasião do centenário. Isto entre 1 e 10 de Outubro, sendo que alguns espectáculos têm entrada gratuita no teatro e espalhados pela cidade, nomeadamente na igreja de Santa Maria e na Igreja da Sé”, destacou.

Apesar de as restrições estarem a diminuir, a pandemia ainda impõe limitações na lotação da sala e por isso alguns dos espectáculos vão ser fora de portas.

A aposta no hip hop é também visível na programação que regresso do Teatro Municipal de Bragança, assim como em peças de teatro, com algumas reposições de espectáculos cancelados com a pandemia, é o caso da ‘Morte de um caixeiro viajante’ ou ‘Próspero’, a partir de Shakespeare. Também para Setembro e Outubro está previsto o regresso do serviço educativo, com especáculos para crianças e jovens. 

Escrito por Brigantia
Jornalista: Olga Telo Cordeiro

Castelo de Miranda do Douro

O castelo de Miranda do Douro foi edificado num segundo momento de povoamento de Trás-os-Montes, ocorrido no reinado de D. Dinis, que em 1286 terá mandado edificar um castelo numa das extremidades da vila, a que se associava uma cerca urbana destinada a proteger a população.
Às naturais transformações nos séculos posteriores, juntou-se uma violenta explosão, em 1762, que desfigurou partes fundamentais da obra gótica.

Castelo de Mogadouro

Com provável origem anterior, o Castelo de Mogadouro aparece documentado no século XII, quando Fernão Mendes, o Braganção, dele faz doação aos Templários. A torre de menagem é deste período.
Sede de comenda da ordem de Cristo e a partir do séc. XIV, Paço dos Távoras, senhores de Mogadouro e alcaides-mor. Após o processo dos Távoras (1759) o edifício degrada-se e arruína-se por completo ao longo do séc. XIX.

Castelo de Outeiro

O castelo de Outeiro instala-se no cimo de um pronunciado cabeço quartzítico, que lhe confere excelentes condições de defesa natural e um controlo geoestratégico sobre uma extensa área envolvente.
O povoado fortificado assenta numa pequena plataforma localizada a nascente. No cume da elevação são ainda visíveis algumas estruturas restos da torre de menagem e troços da antiga muralha.
O Monte do Castelo de Outeiro, cujo cume se eleva a cerca de 800 metros de altitude, é um ponto estratégico de inegável importância na paisagem do Nordeste transmontano.

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Fabulosa Pintura Mural em Agrochão – Vinhais

 Fui acompanhando, à distância, o decorrer dos trabalhos de conservação e restauro da pintura mural existente na Capela de Nossa Senhora do Areal, em Agrochão, aldeia e freguesia do município de Vinhais, distrito de Bragança, feitos por Joaquim Inácio Caetano, grande especialista na área da conservação-restauro de pintura mural, Professor Doutor no Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Painel completo da pintura mural

Assim que soube do término dos trabalhos, e pude tirar férias, desloquei-me a Agrochão, 2 de agosto de 2021, para poder ver a pintura, interpretá-la e recolher imagens de tão importante legado do século XVI. Fiz-me acompanhar por Maria Isabel Morais, Docente e Licenciada em História D’Arte, que me ajudou na leitura e interpretação de tão magnífica pintura. Tive o privilégio de ser acompanhada pela Leandra Pereira, da Junta de Freguesia de Agrochão, e pelo Sr. João Carvalho, em tão magnífica visita. Foi um dia memorável, que enriqueceu os meus conhecimentos!

Coroação de Nossa Senhora

Pudemos verificar que os traços são de grande perfeição e requinte, levando-nos a constatar que este painel - de pintura mural -, foi executado por um bom mestre, desconhecendo-se o nome do autor. A delicadeza dos rostos, das mãos e as três cenas em que se enquadra todo o retábulo, revelam-nos um trabalho de excelsa qualidade, dentro da pintura mural.


Ao centro, do painel, temos a representação da coroação de Nossa Senhora, ladeada por dois monges, de ordens religiosas diferentes, que nos pareceram desintegrados da realidade, sendo que um deles tinha a cabeça rapada, o que não era habitual à época; do lado direito, a anunciação do Anjo a Maria, não faltando a pomba e o chão quadriculado, representando o quarto onde dormia quando lhe apareceu o Anjo; do lado esquerdo, os pais de Nossa Senhora, Sant’Ana e São Joaquim abraçados, e uma imagem no extremo esquerdo, onde se pode ver parte do rosto e uma mão, de uma delicadeza ímpar, levando-nos a aventar que poderá ser feminina. As três cenas marianas estão delimitadas por colunas e aludem a supostos locais onde tal tenha acontecido. Apurámos tratar-se de uma representação iconográfica de um retábulo fingido, tendo como objetivo mostrar a vida de Maria.

Este tipo de arte sacra – pintura mural -, era utilizado quando os recursos monetários escasseavam, não retirando valor à obra e mérito ao mestre executante.

A Capela de Nossa Senhora do Areal só abre ao público no primeiro domingo de agosto. Para visitarem tão importante Capela e desfrutarem da beleza ímpar da pintura mural, assim como de toda a envolvência, contactem a Junta de Freguesia de Agrochão.

Texto e fotos:
© Teresa do Amparo Ferreira, 02-09-2021

Trindade Coelho: "Tragédia Rústica"

 I

“Madrugada de segunda-feira de Entrudo, tapada dos Nobres, Alentejo, à porta do José Grilo.” 

Truz! truz! truz!

Os de casa acordaram, sobressaltados.

— Schiu! nem pio! — fez o José Grilo para a mulher. — Moita!

— Truz! truz! truz!

Do seu cubículo, a Ana, filha do José Grilo, pôs-se a chamar pelo pai. — Bem ouvia, que deixasse bater. Algum bruto que se queria divertir...

Mas logo outra vez na porta:

— Truz! truz!

— Arre que é bruto! vá bater ao inferno, quem é! gritou de dentro o José Grilo, zangado. E pois que se pôs à coca, de orelha fita, olhos cravados na telha-vã do casebre, sentiu distintamente os passos de alguém que fugia.

— Eu não te disse? aquilo foi bruto que se quis divertir — explicou ele para a mulher.

Mas palavras não eram ditas, pareceu-lhe ouvir o vagir de um cachorrinho, mesmo rente à porta. Veio-lhe logo à ideia que lhe tinham vindo pôr zorro...

— Ó mulher, queres tu ver que há novidade?

De um pulo saltou da cama, embrulhou-se na manta e abriu a porta do casebre.

— Ele que demônio de embrulho...?

Pegou-lhe com muito jeito. Era efetivamente uma criança, envolta em dois trapinhos muito velhos.

— Coitadinho! fez o ganhão achegando ao peito a criancinha.

— Grandes cadelas! — E pôs-se logo a fazer uma algazarra, alarmando a gente da casa.

— Andem! a pé! levantem-se! está aqui este inocentinho que vem dar os Bons-dias à gente!

Correu a filha, veio a mulher. Mas ao tempo, já o bom do José Grilo metera a criança na cama, visto que a pobrezinha estava gelada...

— Ele quem diabo há por aí que tenha leite? A filha do Antônio das Varedas, é verdade, a Brites que lhe morreu o cachopo.

Despediu imediatamente a filha, a Ana, à procura da Brites que chegasse o peito ao inocentinho. E da porta, gritando para a rapariga que ia correndo:

— Que se não demore, ouves? que se lhe paga aquilo que for.

Mas a mulher do José Grilo, a senhora Joana, de pé no meio da casa, a saia amarela deitada pela cabeça, de braços cruzados, muito embezerrada, permanecia sem dizer palavra.

— Ó mulher, nada de aflições, é tal e qual como se fosse nosso, faz de conta... — observou-lhe logo o José Grilo que percebia o ar taciturno da fêmea.

Ela só redarguiu que “nosso” era um modo de falar. Seria dele, mais de qualquer desavergonhada...

O José Grilo, que estava a enfiar as calças, parou no serviço e pregou-lhe uma gargalhada.

— Ajeita-me o pequeno, ouves? Vê lá que talvez esteja molhado. E deixa-te de cantigas, que hoje é dia de Entrudo.

A mulher ia reguingar; mas ele, pegando-lhe de um braço, levou-a ao pé da criança, afirmando-lhe às  risadas que sim, que o pequeno era filho dele.

— O pequeno?... mas é que pode ser cachopa — disse o José Grilo para a mulher. — E certificando-se: — Nada! é rapaz.

Seguiu-se uma altercação. A senhora Joana, a chorar, ia jurando pela sua salvação que «o crianço» era filho do seu homem.

— Ai Jesus que estou perdida! chamava ela muito cômica, braços no ar, o balandrau da saia amarela enfiado pelo pescoço num jeito de sobrepeliz. — Má hora em que me eu casei! ai Jesus que vai ser de mim!

— Olha que é rapaz, ouves? anda cá ver que é rapaz — disse-lhe de lá o José Grilo, muito fleumático, debruçado sobre a criança.

Mas como visse que a mulher continuava num estardalhaço, muito aflita, desaustinada pelos cantos da casa, o José Grilo virou-se para ela e disse-lhe muito solene:

— Pois assim me Deus salve como não é meu o rapaz.

Ao ouvir assim falar o seu José, a senhora Joana voltou-se logo para ele, olhos esbugalhados, muito suspensa.

— Juras pelas cinco chagas, ó homem?

— Juro pelas cinco chagas.

— Assim te Deus dê saúde, ó José?

— Assim me Deus dê saúde.

— Preto sejas tu como o teu chapéu?

— Preto seja eu como o meu chapéu.

A senhora Joana botou-se logo a correr para um canto da casa, e abrindo a arca de pinho, do bragal, entrou aos beijos a uma Nossa Senhora da Conceição, pegada na face interna da tampa, com bocadinhos de hóstia.

Depois desabafou, muito aliviada:

— Ai!

O José Grilo pôs-se a rir. — «O demônio da Joana, com ciúmes!»

— Mas ciúmes de quê, ó mulher? não farás favor de me dizer de que diabo tens tu ciúmes? — perguntava muito casto o amigo José Grilo, sereníssimo diante da mulher desconfiada.

A outra, muito delambida, redarguiu com ironia — «que o seu homem era um santinho...» — O José Grilo ia defender-se. Mas ela, atalhando logo, reguingou de alto:

— Sabes tu que mais? estafermos é o que mais há. Olha a cadela que enjeitou este...

Aqui, fez uma suspensão; depois perguntou, muito lampeira:

— Mas quem seria a grande cadela?

Pôs-se então a mirar muito o pequeno, a ver se lhe dava ares de alguém, murmurando frases de ódio, moralistas:

— Precisava ser enforcada, a tua mãe; quem quer que é tem mesmo entranhas de lobo.

O pequenino entrou a vagir, muito friorento, embrulhado numa camisa do José Grilo.

— É fome, coitadinho! o infeliz inda não sabe que coisa é mamar—disse contristado o lavrador.

Foi-se logo à porta, a ver se a Brites chegava. Mas quem vinha com a Ana era a outra, a Doroteia do Antônio das Veredas.

— Tua irmã, tua irmã é que se cá precisava. Que demônio vens tu cá fazer? Ouves? não me dirás que diabo vens tu cá fazer? — E deu um bofetão na filha, «para que soubesse dar o recado».

A Doroteia pôs-se a explicar que a rapariga não tinha culpa. A irmã é que a mandara para levar a criança, porque ela, adoentada, fazia-lhe mal sair de casa assim cedo...

— Só se lhe queres tu dar de mamar — insistiu ainda o José Grilo, virado para a Doroteia, irreverente pelos seus dezanove anos inda virgens.

A senhora Joana fez-lhe de dentro que se calasse:

— Credo, homem! essas coisas não se dizem, nem por graça.

— Eu sei lá se não se dizem? — observou o lavrador, muito zangado. — Dá cá daí o pequeno.

Veio a senhora Joana com o embrulhinho, que entregou ao José Grilo. O lavrador depô-lo nos braços da Doroteia, com mil cuidados, e depois ele mesmo ajudou as mulheres a ajeitar o pequenino, em termos que fosse bem quente.

— Roda forte, ouves? E diz lá a tua mãe que eu de tarde por lá apareço, pra ver isto do ajuste.

A rapariga saiu. E como o lavrador desse fé que tinham ali ficado os farrapos, gritou para a rapariga:

— Ó Doroteia! espera que inda cá ficou isto.

Então pôs-lhe os farrapos ao ombro — uns pedaços miseráveis de velha chita — e a Doroteia partiu onde à irmã.

II

“Quarta-feira anterior a Domingo Gordo. Monte do Rosário. Em casa de Antônio Palma, casado com Rufina Maria.”

O Antônio Palma tinha acabado de jantar, rodeado da pequenada. A mulher, a Rufina, principiava a lavar a louça, quando à grade do quinchoso uma voz chamou:

— Ó Sra. Rufina!

Vieram os pequenos, veio o Antônio Palma, a mulher com as mãos fumegantes. Foi preciso fazer calar o “Farrusco” para se poder ouvir o que dizia aquela mulher que lhes estava falando do caminho.

— Queria-lhe uma palavrinha, a si mais ao seu homem.

O Palma foi abrir o cancelório. E foi com grande desgosto que deu de cara com a Francisca Fortunata, de grande ventre alçado, uma desavergonhada que tinha fugido ao marido, o José Tomás negociante de gado. Entrou, fizeram-lhe uma recepção fria. Os próprios pequenos olhavam desconfiados e silenciosos aquela grande mulher gorda que eles não conheciam. Ela sentou-se logo num saco, muito esfalfada, enquanto o Palma e a mulher afetavam procurar ambos um banco, acotovelando-se, com trejeitos de quem se sentia arreliado com a visita. O “Farrusco” investiu com a mulher, achando-a estranha; mas uma vez enxotado com o pontapé do Palma, fez-se na casa um grande silêncio, e a mulher começou assim:

— Venho pedir por caridade e esmola que me deixem aqui estar uns dias. Já vêem como eu ando, isto deve estar por pouco. Logo que tenha o meu filho, em arribando da quebreira do parto, deixo-os e vou-me embora. Lá em casa de minha mãe aquilo é uma grande miséria, passam-se dias que não comemos. Não há uma cama, a gente dorme sobre umas palhas, sem jeitos de roupa com que se cubra. Mas eu ando neste estado, bem vêem como eu ando...

Aqui desatou a chorar, levando aos olhos o avental miserável. O Palma e a mulher diziam não sei que monossílabos, o “Farrusco” rosnava. A outra prosseguiu:

— Não é por mim, sabem? não é por mim. É este inocentinho que tem de nascer no chão, como os cães... Bem sabem que isto custa. Pouco se me dava de morrer, afinal, mas queria que o meu filho vivesse... Coitadinho!

Ergueu-se num ímpeto, depois caiu de joelhos, mãos erguidas para o Palma e para a mulher.

— Pelas cinco chagas de Nosso Senhor! exclamou.

O Palma fez para a mulher um gesto resignado e de lástima. Cada um de seu lado, ajudaram-na a levantar-se, dizendo-lhe submissamente que tudo se havia de arranjar, que sossegasse.

— Que a falar os pontos de verdade, Sra. Fortunata, vossemecê é que tem a culpa desses trabalhos, disse-lhe logo o Palma.

Ela escondeu a cara no avental, fazendo-lhe com a mão que se calasse.

— Má sorte daquele pobre José Tomás, acabou-se! Quando ele casou com vossemecê antes tivesse quebrado uma perna.

Ela chorava cada vez mais, parecendo muito aflita.

— Agora aí o tem, anda por esses caminhos que parece doido. Nem gado, nem o diabo. Desde que vossemecê alvorou que o rapaz não vai a uma feira. Pois olhe que era homem para juntar, videiro como poucos.

Pôs-se a fazer um cigarro, olhando os pequenos atônitos. Depois continuou:

— Esteve aqui um destes dias, por sinal que sentado nesse mesmo saco...

A Fortunata levantou-se num ímpeto, como se o saco a repelisse. O Palma prosseguiu:

— Sente-se vossemecê, mulher, o saco não faz ao caso. Pois foi aí mesmo que ele esteve, até parecia um pobre de pedir. Nem botões na camisa, coitado! Mas pela conversa bem se vê que inda lhe não quer mal. Que a bem dizer ele quase não conversa, anda a modos que amalucado, sempre a levar a mão à cabeça, como se lá dentro aquilo andasse azoado. E mais é que bem pode o rapaz dar em doido...

A senhora Rufina foi de parecer que doido já ele andava. Passavam-se dias que não aparecia em casa do tio José Garção, que o levara logo para ele, mal a Sra. Fortunata o deixara. Por onde andava? que fazia? Contava-se que uma noite dormira numa coutada, no mesmo telheiro que os porcos. Que doutra vez fora ter com o vigário para que lhe batizasse o filho, dizendo que já tinha nascido.

— No filho inda ele aqui se pôs a falar, lembrou o Palma. — Anda com ela ferrada que o filho já nasceu.

Aqui, a Fortunata, de pé junto à porta, rompeu numa choradeira, ouvindo falar no filho. O Palma interveio, condoído, dizendo que se não afligisse, que o filho sempre teria uma caminha onde nascesse.

Ela ia ajoelhar, o Palma não deixou.

— Não é por vossemecê, mulher, assim me Deus salve como não é por vossemecê. Mas é que o inocentinho que aí traz esse é que não tem culpa. Faço de conta que é o pai que me pede, o pobre José Tomás. Vossemecê bem sabe que eu era amigo do José Tomás. Diabo! a gente já diz  “era”, já fala nele como se o pobre tivesse morrido...

Nisto vieram chamar o Palma, que no lameiro ali em baixo andavam uns bois que não eram dele. Foi-se a buscar um marmeleiro, e depois, quando já ia para sair, disse em resumo:

— Fique vossemecê então, Sra. Fortunata. Ouves, Rufina? Talvez que ela inda não jantasse. Faz-lhe a cama lá dentro, e o resto arranjem-se.

Caso é que a Maria Fortunata, amanhecendo para Domingo Gordo, desentupiu e teve um filho. Mas nem sequer o tinha ainda beijado, nem lhe tinha feito uma carícia, quando por volta do meio-dia a avó do pequeno ali chegou, vinda de longe. O Palma que estava no quinchoso, a dar a bolota aos cevados, ficou espantado:

— Pois senhores! havia de jurar que você adivinha, Sra. Ana!

Ela, sem mais rodeios, perguntou se a criança já tinha nascido.

— Já nasceu, sim senhora, vá lá dentro se a quer ver. Venha daí.

Mas iam ainda à porta, quando a velha, filando o braço do Palma, lhe perguntou num sobressalto:

— Vivo ou morto, Sr. Antônio?

O Palma percebeu. O estafermo da velha queria que a criança nascesse morta. Aquilo fez-lhe nojo, deram-lhe ganas de correr a mulher a pontapés. Conteve-se. Mas todo ele vibrou de cólera, quando em presença do pequenino a velha, sem o beijar, perguntou o que se lhe havia de fazer.

O Palma, furioso, repeliu a mulher com desprezo. E como ela insistisse com a pergunta: «que se há de agora fazer a isto?» ele redarguiu, irado;

— Dar-lhe de mamar, está bem visto. Inda você pergunta o que se há de fazer à criança. Talvez você queira que o pequeno vá já cavar...

A velha ia falar.

— Nem pio, seu estafermo! Que tal é o amor que você lhe tem, que inda nem sequer a beijou. Nem a mãe o beijou ainda, coitadinho! Você já viu uma cadela quando tem os filhos, já viu? Com mil diabos, qualquer cadela vale mais que vocês duas.

O Palma ia-se pondo amarelo, a Sra. Rufina interveio, aconselhando-o a que saísse.

— Saio, e vou-me embora, ouviste? Ouviste? Aparelho a égua e vou-me de véspera até à  feira.

Pôs-se a procurar pelos cantos, aqui os estribos, além o freio da égua.

— Tanto faz ir amanhã cedo, como ir já agora. É já de cara. Mete-me qualquer coisa nos alforges, que vou já aparelhar a égua.

Daí a meia hora, o Palma montava à porta, no meio do rancho dos cevados, e chamando a mulher dizia-lhe com má cara:

— Em estando capaz, rua!

— Daqui a três dias, talvez...

— Então até daqui a quatro. Ouves? E olha se defumas a casa, quando esses estafermos saírem.

Ora o Antônio Palma a virar costas, e a velha a sair porta fora — com o embrulhinho do neto ao colo...

Como ela corre, a maldita! Parece que o leva roubado...

Onde passou ela o dia? Onde passou ela a noite? Não sei. Caso é que na madrugada seguinte, a desavergonhada abandonava o pequenino à porta do José Grilo.

Madrugada de Fevereiro, nevava...

III

Quando a Doroteia saiu com o pequeno, para o levar à irmã, tinha amanhecido havia pouco. A neve cessara; mas um nordeste frigidíssimo retalhava a cara da rapariga, encolhida sob aquela atmosfera de gelo. Nunca o souto que ia atravessando lhe parecera tão comprido e tão triste. Os grandes castanheiros despidos, cheios de neve até ao alto, faziam-lhe mais viva e mais cortante aquela impressão de frio. O chão estava coberto de neve; e lá em cima, muito alto, o céu muito azul anunciava um dia de sol.

A rapariga ia triste. Dir-se-ia que a tristeza lhe nascia toda daquele lado em contato com o pequenino...

Por isso quando passou pela azenha, e que a mulher do Paulo lhe perguntou o que levava ali, erguendo a voz sobre o ruído forte da levada, a rapariga entrou de chorar e respondeu que era um enjeitadinho.

— Um quê, mulher? que dizes tu? insistiu a outra.

Mas o moleiro, que vinha chegando, especou diante da mulher, e repetiu como um eco:

—...Um enjeitadinho.

Entreolharam-se os três, numa incerteza vaga.

— Sim, um enjeitadinho, deve ser isso... — continuou o moleiro.—E daí... pode ser que não seja...

A rapariga, muito impaciente, perguntou se sabiam alguma coisa.

— Nada! pode ser que a história seja outra — elucidou o moleiro.—Onde foi que isso foi posto?

— Esta madrugada, à porta do José Grilo.

— Olá! isso então pode ser coisa dele — observou a rir o moleiro.—Esse diabo não é seguro.

Puseram-se a rir da lembrança. Já dentro do moinho, o homem pôs-se a explicar à rapariga:

— É que ontem à noite veio aqui um homem pedir pousada, um homem a modos que adoidado. Boa figura de homem, por sinal. Assim às  primeiras, tanto eu como a Luísa tivemos o nosso medo...

— Ó Doroteia! interrompeu a mulher do moleiro, dá cá o menino e senta-te. Vou-lhe dar de mamar, que o pobrezinho há de ter fome.

A Doroteia passou a criança para os braços da moleira. Foi uma alegria ao verem-no sugar no peito, minúsculo, com os olhitos inda fechados.

— Meu rico anjinho, meu amor! A fome que o desgraçadinho tem! Quem seria a desavergonhada?...

— Mas depois? inquiriu a Doroteia, voltando-se para o moleiro.

— Depois, dormiu cá, aí lhe demos da ceia e aí ficou. Mas dá-se o caso que o homem não pregou olho em toda a noite, sempre a malucar, num falatório pegado. «Que o filho era dele, que se a cabra da mãe teimasse em o enjeitar, ele ia dar parte à justiça.» Um arrazoado assim, muito comprido.

Espantada, a Doroteia ia falar.

— Mas espera, que o melhor da festa é que o homem tão depressa dizia isto, como dizia que o filho já tinha nascido, que era muito lindo, que onde ele o tinha escondido ninguém lho ia roubar.

Ficaram-se um instante a mirar consolados a criança.

A pobrezinha vagia, mamando com sofreguidão.

— Mas então sempre ele sabe do filho, reatou com interesse a Doroteia. — Ora! assim este enjeitadinho soubesse quem era o pai, coitadinho!

A Sra. Luísa, que não gostara que se recolhesse o homem, resumiu com ar compungido:

— Um doido, o pobre de Cristo! Deixá-lo ir!

Fez-se um silêncio, mirando todos a criança. A taramela do moinho batia, num ritmo vivo. Maquiando uns sacos, o moleiro explicou ainda que o homem alvorara muito cedo, debaixo de neve, sem ao menos dizer obrigado. Mas que perguntando-lhe onde ia aquelas horas, o outro lhe respondera: — «Para a feira. Vender um gado.»

— Ora vá lá o diabo entender isto! — rematou por fim o moleiro. Um doido a vender gado.

Conversaram sobre o caso, algum tempo. Até que a Doroteia, com pressa por causa da irmã, pegou outra vez na criança e abalou pela porta fora, direita à casa do pai.

— Olha os trapos, ó Doroteia! olha que deixas cá isto. — E o Paulo correu a levar à rapariga os trapos segunda vez esquecidos, e que eram todo o enxoval do triste pequenino...

Ia mais contente, a Doroteia. Ao menos levava a certeza de que a criança não ia com fome. E para que também não fosse com frio, a boa da rapariga achegava ao peito o enjeitadinho, numa solicitude toda materna.

— Louvado seja Deus! ia dizendo a rapariga. Como haverá gente que seja capaz destas crueldades! A nevar, e deixa-se assim um inocentinho, embrulhado em dois farrapos, na soleira de uma porta! Vamos que o José Grilo não dava fé! Ali se morria de frio o anjinho, capaz de virem depois os cães e comê-lo.

E espreitando pela fenda estreita do xaile:

— Meu anjinho! que ruim cadela que foi a tua mãe, ora foi?

— Foi! rugiu uma voz detrás dela, como um eco.

A Doroteia deitou a fugir, espavorida. Mas aquele homem que já de longe a acompanhava, sem ela dar fé, corria também atrás dela, e não tardou que a filasse, como um lobo. A rapariga soltou um grito, ia cair com o susto; mas valeu-lhe que nesse mesmo instante uma voz que ela conhecia gritou ali de perto:

— Larga a rapariga, ó José Tomás! Larga a cachopa!

E de um pulo, o pastor caiu entre os dois, separando-os.

— É o José Tomás que está doido, — explicou o pastor. — Desde que a mulher lhe fugiu, que o pobre anda assim, coitado!

Mas palavras não eram ditas, eis que o José Tomás de novo se arremessa à rapariga.

— Tu que levas aí? Tu levas aí o meu filho! — rugiu ele com voz furiosa.

E como se sentisse agarrado, e visse que acudia mais gente, o pobre lançou-se por terra, de joelhos sobre a neve, as mãos erguidas, impetrando a chorar que lhe dessem o seu filho...

A Doroteia cobrou ânimo, ao ver-se rodeada de gente.

E fez-se luz no seu espírito, quando reparou que os trapos do enjeitadinho eram reconhecidos pelo doido que os estava mirando, a rir-se...

— Conheces? perguntou-lhe a rapariga.

No êxtase em que caíra, mirando e remirando os farrapos, o doido não respondeu.

— Se conheces isso? perguntaram-lhe uns poucos.

Nem palavra. Nada a não ser um riso nervoso que o sacudia todo. Como estava de joelhos, quiseram levantá-lo; mas ele então opôs-se, caindo sobre os calcanhares.

E ria... ria... enquanto dos olhos amortecidos, cravados no miserável farrapo, as lágrimas corriam, copiosas...

Mas daí a pouco, pelas palavras soltas do doido, todos ficaram percebendo. Os farrapos que embrulhavam a criança eram da saia da mãe. A mãe era a mulher do José Tomás, e o pequenino era filho dele... A grande cadela tinha abandonado o pequeno, depois de ter fugido ao homem!

— Um raio venha que a parta! rogou do lado o pastor. — Ora vês aí um estafermo que precisava que a matassem!

O José Tomás pôs-se a rir muito, fitando aquela gente. Uma forte impressão de piedade estampava-se em todos os rostos.

— Ó Doroteia! chamou então um dos do grupo. Traz aqui o menino. Um pai deve sempre beijar o seu filho. Traz cá o pequeno, ó rapariga.

Mas não foi preciso; que o José Tomás, sempre de joelhos sobre a neve, foi para ela de mãos postas humilde como um rafeiro... E como aos lábios do pai a rapariga achegasse o pequenino, no silêncio que se fez ouvia-se o rir convulso do louco, beijando de joelhos o filho.

Como se fora uma chuva de pétalas, do céu de madrepérola a neve caía mais densa... — ao mesmo tempo que nos ramos altos dos castanheiros, como no seio imenso de um órgão, o vento sul — gemia...

Nota:
Trindade Coelho: "Os Meus Amores" (1891)

Dos rebuçados doces da Régua ao amargo, "lesivo e fraudulento" fecho das linhas do Tâmega e do Corgo

 Ainda há rebuçados da Régua e sabem ao mesmo, mas a realidade já não é a mesma coisa. Quando chego, pouco depois das 11h00, apenas Maria Leitão está sentada à entrada da estação. Já nem apregoa com antigamente. Está cansada.


Vende rebuçados da Régua há mais de 40 anos e sempre a ver chegar e partir os comboios, agora só os da linha do Douro, mas até março de 2009 ainda via também, embora composições mais pequenas, a partir e a chegar da linha do Corgo. "Eles têm andado cheios", diz-nos, e a razão, mais do que pelos turistas (muitos) que chegam à Régua, reside no facto de muitas aldeias destas encostas do Douro não terem outro tipo de transporte para "se deslocarem ao médico ou para outros afazeres no Porto". 


É mesmo, segundo a vendedora, "a melhor forma de deslocação". Se à rapidez conjugarmos a vista, não devem restar muitas dúvidas. Ainda assim, o comboio inter-regional demora quase duas horas a ligar as duas cidades, embora a viagem se faça com grande conforto nas melhoradas carruagens Schindler, produzidas em 1940 e colocadas ao serviço entre 1949 e 1977 (sobre o MiraDouro havemos de falar na crónica de amanhã).

Maria Leitão vende cada saco de rebuçados da Régua a 1€ e assim adoça a boca de quem passa, ao mesmo tempo que lembra tempos amargos, quando decidiram encerrar a linha do Corgo, acentuando genuinamente o primeiro "ó". É comum que as vogais sejam abertas nesta zona de Vila Real, ao contrário daquilo que foi o processo de encerramento da ferrovia, feito quase "à boca pequena, pela calada", a mando da secretaria de Estado, à altura, tutelada por Ana Paula Vitorino. "Mas também havia a linha para Mirandela e agora não há", pois não... e lembra que "havia a linha do Pocinho para cima e que chegava quase a Miranda e agora também não há", pois não... "E lá mais abaixo havia a linha de Amarante e já não há", pois não... É, de novo, Maria Leitão, a senhora dos rebuçados da Régua, que nos lembra o principal problema de todos estes encerramentos: "isso tira a facilidade às pessoas de irem visitar essas terras". Diz-nos isto e depois recorda-se e conta-nos sobre os tempos em que ia, por lazer, pela linha do Sabor até terras de Miranda.

Na altura em que fazia isto, só a vender rebuçados no largo da estação da Régua estavam, diariamente, onze mulheres. Os tempos mudaram (muito). "Agora sou só eu e uma rapariga que anda aí e, ao fim de semana, somos três."

No cais da estação da Régua observo atentamente o que sobre dos carris da linha do Corgo, quatro vias junto à estação e depois outra mais afastada no lado oposto, todas elas interrompidas (cortadas) uns metros mais à frente. Foram arrancados depois da promessa de um melhoramento profundo da via, que já só ia até Vila Real, a capital de distrito, mas que chegou a ligar a Régua a Chaves. Em 2010 foi anunciado o encerramento definitivo desta linha de comboio.

Daniel Conde esteve na criação do Movimento Cívico em Defesa da Linha do Corgo e também da linha do Tua. Falamos à distância, com a ajuda das tecnologias, porque Daniel está em Vila Real onde trabalha. Houvesse comboio e teria ido ter com ele, falando a viva voz. Não quer falar em esperança na reabertura desta linha e das outras linhas de bitola métrica transmontanas porque "isso aponta para o coração" e diz estar "pela razão", acreditando que existem todas as condições para que o comboio volte à região, que "da noite para o dia" viu ser-lhe subtraídos 97 km de linha do Corgo, 134 km de linha do Tua e 105 km de linha do Sabor. "O processo foi sempre o mesmo. Deixar a via envelhecer de tal forma que as velocidades tiveram forçosamente de regredir, o material circulante era sempre débil para aplicar um eufemismo, para além disso, os horários raramente serviam os dois principais grupos que utilizam os transportes públicos no mundo, os trabalhadores e os estudantes", lembra. Foram convites para que as pessoas não andassem de comboio.

Daniel Conde até me dá um exemplo caricato, que tenho de aqui partilhar: imaginemos então agora uma carreira de expressos feita com autocarros da década de 60, pelas piores estradas do país, sem abrigos decentes e com horários desajustados. "É obvio que iria falir". De facto, dá que pensar.

"O comboio foi-nos subtraído sem justificação para isso, através de um processo opaco, lesivo e fraudulento dos interesses da região e dos seus habitantes, mas também do Estado em geral. Não podemos ter dois distritos inteiros de Portugal sem ferrovia, é completamente contraproducente em relação às políticas de coesão territorial e desenvolvimento sustentável", refere.

Se o olharmos o mapa de Portugal vemos um vazio de ferrovia na região transmontana. É um facto que a região tem baixa densidade populacional, mas se não forem criadas condições de mobilidade sustentáveis e acessíveis, alguma vez a região poderá ser atrativa à fixação de pessoas? "É uma questão de justiça social"

Numa crónica mais para a frente havemos de falar de novo com Daniel Conde sobre a "praga" das ciclovias em corredores de linhas de comboio, na falta de visão autárquica, no "preconceito da via estreita" e nos milhões que estas infraestruturas também custam aos cofres das autarquias. Havemos também nessa mesma crónica de falar das linhas do Tua e do Sabor, da aproximação de Bragança à estação de alta velocidade de Puebla de Sanabria, à qual os espanhóis, em 2015, chegaram a querer dar o nome de Trás-os-Montes. Uma estação que colocam numa localidade minúscula, a 6km de Puebla de Sanabria, que é uma vila pequena, diria (porque conheço) até muito pequena para as dimensões espanholas, só que a intenção, como se lê na comunicação social de nuestros hermanos é que sirva toda a região de Zamora e também o nordeste transmontano, em especial a cidade de Bragança. Nesta próxima conversa será inevitável abordar os planos nacionais para a ferrovia na região e aquilo que Daniel Conde chama de linha transversal transmontana (a sair do Porto, passando por Vila Real, Mirandela, Macedo de Cavaleiros e Bragança) que, no seu ponto de vista, não irá nunca acontecer.

Sem comboios na linha do Tâmega, a relembrar as escalas de horas na Livração...

Volto aos carris, desço a parte do Douro que subi, para sair no desterro. Desculpe... para sair em Livração - Caldas de Canaveses. Tenho fome, já passa e muito da hora de almoço. A antiga estação não tem nada. À volta, nada. Subo (muito) e encontro um restaurante com snack-bar fechado, uma pastelaria fechada, continuo a subir e nada. Tudo o que havia fechou, os passeios encheram-se de ervas, a estrada está com a vegetação a invadi-la. Vim a Livração porque era daqui que partia o comboio pelo vale do Tâmega, que chegou a Arco de Baúlhe, fechando em 1990, e mantendo-se com ligação a Amarante até 2009. Na verdade, não só a linha foi fechada. Tudo fechou aqui à volta. Há uma escola a meio da subida, que faço de mochilão às costas e pergunto a um funcionário que sorri e me diz que "agora que pergunta, pensando bem, tudo fechou". Resigno-me. Vou percorrer os cerca de 200 metros que deixaram de carris. A azul, a placa com a inscrição de "Amarante" é ainda indicativa dos comboios que daqui partiam e qual o seu destino. Sigo ao lado da via, já parcialmente tapada por ervas e vou à procura de de seguir o conselho que me deram dentro do comboio na linha do Douro. "Quando chegamos à estação, do nosso lado direito, tem ainda um armazém grande com duas Allan lá dentro. Os vidros estão partidos, por isso espreite". E foi o que fiz. Espreitei e tirei fotos. Lá estão as duas automotoras Nohab, carcomidas pelo tempo. No fundo, servem de casa de banho às dezenas de pombos que conseguimos avistar da rua. "Acho que elas vão sair dali e vão ser arranjadas, é o que dizem", conta-me o meu companheiro de viagem, que conheci ao entrar no comboio na Régua.

Sigo os carris. Passo pela zona que servia de abastecimento de água às locomotivas a vapor e entro numa curva mais apertada e vejo um edifício abandona ao longe com um letreiro. Aproximo-me. Leio: "dormitório" e logo ao lado está a redonda, que permitia invertir a marcha das locomotivas. Penso: esta estação foi tanto e hoje não é nada. Olho em frente, os carris terminam logo ali, depois deste edifício, calcados por um pedregulho, que impede a passagem de automóveis no canal da linha.

A suspensão irónica da linha do Tâmega até Amarante, dois dias depois das comemorações do centenário

É aqui em Livração que me encontro com Lurdes Ribeiro, do movimento de cidadãos que luta para reabrir a linha do Tâmega até Amarante. A suspensão desta linha chegou a ser até irónica: a um domingo celebravam-se os cem anos desta ferrovia de bitola estreita e na terça-feira seguinte (25 de março de 2009) suspendiam-se os serviços de um dia para o outro "sem ninguém contar" com esta "infeliz coincidência". Chega a parecer uma cena de um bom filme de comédia francês.

Este "sem ninguém contar" é irónico porque nos anos anteriores "os horários já vinham a reduzir e já não eram compatíveis na Livração com os comboios da Linha do Douro". A própria Lurdes lembra-se bem das idas ao Porto e das esperas na estação de Livração, de mais de duas horas, para entrar na automotora para Amarante. "Era evidente que, esta altura, já havia menos gente nos comboios", conta-me ao lado das vias que ainda aqui se mantêm e da placa, com a palavra Amarante a azul, presa no cais por uns arames. E o processo é sempre o mesmo, tal como me havia contado o Daniel Conde sobre o Corgo, aqui me conta o mesmo a Lurdes Ribeiro: "já quando fecharam a linha entre Amarante e Arco de Baúlhe, em 1990, tinham reduzido antes de cinco para três horários e depois deixou de existir". A Lurdes chama-lhe "o velho truque" e encarrila a conversa no mesmo eixo que o Daniel: "primeiro deteriora-se, estraga-se, deixa de haver verdadeiro serviço público e a malta começa a procurar outra coisa, outras alternativas".


É com tristeza que vejo por detrás de nós as linhas, ainda visíveis e é impossível não sentir nostalgia de tempos mais vivos. Durante dois anos, a CP ainda assegurou o transporte rodoviário alternativo, mas também isso terminou. Em 2010, ainda chegou a ouvir-se rumores de que as obras iriam começar, mas nada, e em 2012 foi decretado o encerramento definitivo.

"É uma tristeza o que sentimos, a malta de Amarante e do Marco de Canavezes", desabafa, dizendo-me que a solução tem sido recorrer ao carro, mas que há população muito idosa que paga "uma fortuna" para irem de táxi.

Promessas para reabrir a linha existem, "mais do que muitas", tal como os estudos, que já ponderaram a bitola larga e a bitola estreita. E parece que há interesse dos autarcas locais, embora até agora nada tenha acontecido. Os amarantinos até já ouviram há oito anos, um plano B, que era a criação de autocarros elétricos, que iriam aproveitar o canal (onde é que já ouvimos isto? Já sei... o metrobus do Mondego...).

E a nova linha do vale do Sousa?

Quando questiono sobre a nova linha que agora se começa a falar para servir o vale do Sousa, Lurdes Ribeiro não consegue conter o sorriso duvidoso. E a explicação é simples. A acontecer, isso "é muito lá para a frente". Consta que primeiro se fará uma ligação de Valongo a Felgueiras e só depois extensível até Amarante, "mas isto há de ser nas calendas, não é?"

Até lá, os amarantinos (que são para cima de cinquenta mil) sobretudo os estudantes de ensino superior continuam a fazer toda uma saga de deslocações para chegar, por exemplo, ao Porto. E, de acordo com a porta-voz deste grupo de utentes, há muitos que, devido aos preços altos das rendas no Porto vão e vêm todos os dias. E, nestes casos é assim: transporte próprio da aldeia até à cidade, aqui apanham um autocarro proporcionado pela autarquia que os leva à estação de Vila Meã (na linha do Douro), para seguirem para a Invicta. Várias destas aldeias eram servidas pela linha do Tâmega.

Agora, as filas... filas extensas sobretudo à sexta e ao domingo, assegura Lurdes Ribeiro fazem-se na rodoviária de Amarante. "É uma verdadeira romaria".

Por Miguel Midões
Foto Miguel Midões/TSF

Prémio literário Guerra Junqueiro homenageia grandes nomes da literatura lusófona

 A vila manuelina de Freixo de Espada à Cinta acolhe a 5ª edição entre amanhã e sábado, a quinta edição do FFIL – Freixo Festival Internacional de Literatura, uma iniciativa tida “como uma referência cultural para a literatura em língua portuguesa”.


O poeta Guerra Junqueiro (15 de setembro de 1850 a 07 de julho de 1923), natural de Freixo de Espada à Cinta, é patrono deste evento e dá o seu nome a um prémio que pretende destacar, todos os anos, autores que, de alguma forma, refletem a influência de Guerra Junqueiro, pelo compromisso e pela importância que o escritor e diplomata foi no seu tempo.

"O Freixo Festival Internacional de Literatura - FFIL reflete o ideal que prosseguimos, e a missão que nos cumpre, enquanto administração autárquica, fazedora e mobilizadora de causas. Acresce ainda o cruzamento com todas as nações que têm o português como a sua língua mãe, onde cabe a atribuição do Prémio Literário Guerra Junqueiro para a Lusofonia," revelou a anfitriã em Portugal do FFIL e presidente da câmara de Freixo de Espada à Cinta, Maria do Céu Quintas.

O Prémio Literário Guerra Junqueiro 2021 é atribuído é nesta edição do FFIL à escritora Hélia Correia, também ela uma influência de Guerra Junqueiro tanto na parte literária, na sua poesia e no discurso poético da sua obra, como nas convicções políticas que sempre entusiasmaram estes grandes nomes da literatura nacional.

A vida e obra do poeta freixenista Guerra Junqueiro será o mote para todas as intervenções culturais, com destaque para o uso da língua portuguesa, onde os escritores se reúnem para debater e explorar toda a vivência do seu tempo, sempre atual.

A autora Lídia Machado dos Santos marcará presença no festival literário do Douro Superior com ‘A Velhice do Padre Eterno de Guerra Junqueiro’ uma obra que foi a base do seu pós-doutoramento em Literatura Portuguesa e Lídia Praça, outra autora transmontana, levará até Freixo de Espada à Cinta ‘O Eco das Minhas Pátrias’, “uma viagem da autora onde não faltará a exaltação a Guerra Junqueiro”.

“A defesa da comunidade lusófona, quando informada e participativa, apresenta contributos vitais e decisivos para um desenvolvimento tanto a nível individual como coletivo, de uma comunidade em diáspora, se manifesta e desenvolve”, realçam os promotores do festival literário.

Este prémio literário, alargado à Lusofonia, “realça aquilo que deve ser a valorização e defesa da língua portuguesa como veículo e património cultural de uma identidade lusófona”, acreditam os promotores.

Francisco Pinto

PAI E FILHO, DUAS GERAÇÕES DE POLÍCIAS

 Fernando Pessegueiro, natural de Macedo de Cavaleiros, é Agente da Polícia de Segurança Pública (PSP) em Mirandela, no distrito de Bragança, há 31 anos.
Agora, o filho, André Pessegueiro, decidiu seguir o mesmo rumo.

VIMIOSO VOLTA A RECEBER KING OF PORTUGAL PELA PRIMEIRA VEZ DESDE 2018

 Após dois anos de interrupção, a prova de corrida off-road King of Portugal (KOP) realiza-se novamente em Vimioso, durante os dias 15, 16 e 17 de outubro.


O evento conta com a participação de 40 equipas, sendo confirmados já pilotos das respetivas nações: Malta, Israel, Inglaterra, França, Espanha, Alemanha e Portugal.

Contudo, a organização tem o receio de que esse número seja inferior, devido aos obstáculos que impediram a realização do evento em 2019 (risco de incêndios) e 2020 (pandemia).

Algumas modificações entram em efeito nesta edição, nomeadamente, a divisão de duas para três etapas e o facto do KOP não contar para a pontuação do Campeonato Europeu de Ultra 4, sendo uma prova livre. Já dentro das categorias da prova, não há mudanças, continuando a existir Stock, Modified, Legend e Unlimited.

A competição é organizada pelo Clube Nortex4 e apoiada pelo Município de Vimioso, que se prepara para a receber novamente.

Por: Marcos Brea
Foto: King of Portugal