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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.
A apresentar mensagens correspondentes à consulta Por: Paula Freire ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens
A apresentar mensagens correspondentes à consulta Por: Paula Freire ordenadas por relevância. Ordenar por data Mostrar todas as mensagens

sábado, 1 de novembro de 2025

Entre Mortos e Vivos

Por: Paula Freire
(colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


 Chama-se Manuel. Vejo-o todos os dias. É um homem alto e magro, de cabelo grisalho. Com a pele marcada pelo calor e pelo frio, os seus dedos calejados cheiram a terra. O odor que neles permanece, nenhum perfume consegue apagar.

Sei que se levanta pelo cantar dos galos, quando as sombras e o nevoeiro da alvorada ainda se erguem sobre as casas da vila, e os trilhos conservam a humidade da noite e a bruma se enrosca nos tornozelos dos caminhantes.

Ao longe, os cães uivam. E Manuel parte para a sua demanda, com passos lentos, acompanhado por vozes que mais ninguém escuta. Olhos profundos e atentos, que veem aquilo que mais ninguém vê.

A rotina é uma obsessão que se lhe adentra pela pele. Cava pedras e raízes, mexe e remexe, recolhe flores murchas e secas, organiza, limpa. Tarefas essenciais a quem se dedica com esmerado cuidado ao seu trabalho. Por entre lápides e ossos, Manuel participa da morte que os vivos lhe deixam a escorrer dentro das mãos. E ninguém lhe encontra fragilidade. Apenas uma paciência que foi aprendendo a construir no meio de jazigos e sepulturas. Porque até a morte exige atenção.

Manuel é o homem do cemitério. Coveiro dos corpos. O que guarda as almas e as memórias da vila. Secamente, é essa a sua função. E ninguém se preocupa em perguntar-lhe se tem sonhos ou se sente medos. Mas, quem sabe, por passar os dias a lidar com as ausências e o silêncio, se tenha tornado indiferente à sua invisibilidade, à desatenção daqueles que passam apressados, como se nada nele importasse muito. 

E, por isso, não reclama. Agradece que o seu lugar seja aquele, entre os mortos que existem para lembrar aos vivos a verdade de que estes não têm consciência.

É por isso que também gosta de os observar. Aos vivos. Aqueles que fingem que veem. Passam nas ruas, a correr, com os olhos em cima dos telemóveis, a discutir contas, a cabeça à roda nas notícias que nem sequer compreendem bem, os gestos vazios de tudo, as conversas sem alma. A falta de atenção aos sorrisos que vão desaparecendo, aos abraços que deixam de chegar, à vida que se esvai e que já poucos reconhecem. A cegueira contagiosa a surgir como uma espécie de morte antecipada…

E, ironicamente, Manuel sente-se parte de um mundo que ignora a sua própria presença. 

Hoje é dia de tradições e todos se dirigem ao cemitério. Vêm tratar das campas. Talvez por respeito, talvez por saudade. Talvez por receio de serem vistos como deselegantes ou negligentes.

Quem não vem é apontado, julgado. A morte nem sempre acorda a consciência dos vivos. Mas desperta ações que têm mais força do que o luto.

A vila inteira passa por ele. Uns cumprimentam-no por cortesia ou interesse, outros acenam-lhe de forma mecânica, outros ainda desviam o olhar. Postura que se justifica pelo incómodo que lhes traz a tranquilidade com que Manuel encara a morte. 

E enquanto o chão aponta para o céu cinzento, todos cumprem o ritual que se impõe, sem perceberem o estrépito que se expande por baixo dos seus passos. 

Entre os túmulos alinhados, Manuel atenta, como sempre, nos presentes. É incrível como a vida destes dias se movimenta dentro do espaço soturno de uma necrópole! Varrem-se folhas, esfrega-se, desencarde-se o pó, zela-se para que cada flor seja colocada no sítio certo, acendem-se velas. Faz-se o que se espera que seja feito, numa vontade de parecer. E para o seu olhar que já viu mais finais do que princípios, quase tudo lhe parece limpo, mas vago. Como que desabitado de sentimento. 

Lembra-se, então, do rapaz. E daquela sepultura antiga que parecia esquecida, com o nome já gasto pelas intempéries do tempo. O sepulcro de um velho que ninguém visitava há anos. 

Naquela tarde, pelo crepúsculo, uma chuva fina e persistente caía. Chamou-lhe a atenção um rapaz ajoelhado, ali, sobre a terra mole e as folhas em decomposição, curvado a uma quietude que doía. As calças encardidas com lama e ele encolhido debaixo de um capuz puído e ensopado, que parecia engolir todos os invernos de muitos anos, com a água a escorrer-lhe pelos braços estreitos.

Os olhos escuros não pediam qualquer explicação nem redimiam culpas. Neles, somente lágrimas puras a acariciar o ar. O rapaz inclinava-se, levantava-se, debruçava-se de novo. Limpava o musgo da campa com as próprias mãos, devagar. Trejeitos difíceis de encenar. Impossíveis de esquecer.

Os lábios moviam-se numa prece silente. Falava com o pai. Manuel apenas conseguia escutar porque estava vigilante. Fascinado. Naquele ser encontrou a humildade. Uma humanidade nua, sem artifícios, uma espécie de flor a desabrochar na dureza crua da vila. Sem encenação. Sem tradições.

Manuel regressa a casa com as roupas sujas e as vozes dos mortos a confessarem-lhe estranhos segredos. Dizem-lhe que o cemitério não é feito só de argila, barro, covas. É o desenho de uma sociedade.

Sabe que, entre mortos e vivos, são os vivos que já estão mortos. Os que vagueiam por cima da terra e não sabem que já não existem.

Adormece com o frio da noite a entrar-lhe pelas frestas das janelas do quarto mal iluminado. E sente que só o rapaz da chuva não o abandona.

- Paula Freire -


Paula Freire
- Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside atualmente em Vila Nova de Gaia, Portugal.
Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas do Desenvolvimento Pessoal e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada.
Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna e com o coração em Trás-os-Montes pelo elo matrimonial, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias.
O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora das imagens de capa de duas obras lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021, “Cultura Sem Fronteiras” (coletânea de literatura e artes) e “Nunca é Tarde” (poesia), e da obra solidária “Anima Verbi” (coletânea de prosa e poesia) editada pela Comendadoria Templária D. João IV de Vila Viçosa, em 2023. Prefaciadora dos romances “Amor Pecador”, de Tchiza (Mar Morto Editora, Angola, 2021), “As Lágrimas da Poesia”, de Tchiza (Katongonoxi HQ, Angola, 2023), “Amar Perdidamente”, de Mary Foles (Punto Rojo Libros, 2023) e das obras poéticas “Pedaços de Mim”, de Reis Silva (Editora Imagem e Publicações, 2021) e “Grito de Mulher”, de Maria Fernanda Moreira (Editora Imagem e Publicações, 2023). Autora dos livros de poesia: Lírio: Flor-de-Lis (Editora Imagem e Publicações, 2022) e As Dúvidas da Existência - na heteronímia de nós (Farol Lusitano Editora, 2024, em coautoria com Rui Fonseca).
Em setembro de 2022, a convite da Casa da Beira Alta, realizou, na cidade do Porto, uma exposição de fotografia sob o título: "Um Outono no Feminino: de Amor e de Ser Mulher".
Atualmente, é colaboradora regular do blogue "Memórias... e outras coisas..."- Bragança e da Revista Vicejar (Brasil).
Há alguns anos, descobriu-se no seu amor pela arte da fotografia onde, de forma autodidata, aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

isa bel

Por: Paula Freire
(colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


Quando, um dia a conheci, senti de imediato que era daquelas pessoas capazes desse feito único de pousar o olhar nas estrelas. Penso que seria para as adivinhar. Porque soletrava o nome de cada uma, como se lhe fossem pertença do coração.
Perguntavam-lhe muitas vezes, porque perdia tempo a namorar com os sonhos. Respondia, com os olhos carregados de distâncias, que o tempo… Bem, o tempo serve para guardar vidas irrepetíveis. Por isso se perdia, assim, nele.
Vi-a, muitas vezes, presa nos timbres das sombras onde se permitia descansar das fadigas do espírito. Sabia que, por dentro, murmurava para si própria uma canção de embalar, cujas palavras só o silêncio tinha permissão para entender: “Os pássaros… é tão profundo o som naquele trinar a engrandecer o Ser de ser completo e inteiro!” E a tranquilidade era-lhe apenas isso, aquela música infinita num cair de tarde a aconchegar o horizonte. E um raio de sol que não lhe escondia o sussurro de um outono já a prometer-lhe a alma. O céu inteiro a olhá-la, oferecia-lhe esse instante com cheiro a lilases!
- Ainda sou livre de acreditar que a vida só vale a pena quando os sentidos saboreiam todos os detalhes de um único momento. – Declamava, baixinho, como se brincasse com as letras de um poema.
Sabia de cor todos os segredos da terra. Os muros e as cores, as árvores e os cheiros, a transparência da chuva e a exatidão dos insetos, a solidão das nuvens…
- Com eles, visto as roupas das minhas memórias no espaço exato de um momento. – Ouvia-a, certa vez, murmurar.
Desenhavam-se-lhe no rosto as palavras dos outros como uma brasa que queima por dentro. Às vezes mel. Às vezes fel. Se o mundo nos dói, não quer dizer que destrói… E seguia em frente. O mar dos braços num abraço a si mesma. É que Isa Bel tinha esse dom: a brisa do seu ser aquietava-se-lhe no calor de um simples toque, mesmo que ainda por inventar. Depois, livre, partia num baloiço à procura de todos os céus possíveis…
Diz que descobriu a esperança no dia em que levantou os olhos para sentir melhor o cheiro do vento. O instante em que ficou a saber que dentro dela, todas as almas podiam ser infinitas.
Por isso, foi ao senti-la silenciosa na lonjura daquela janela, que lhe perguntei:
- Então, qual o medo de sonhar quando se carrega, assim, a fé no olhar?...
Não me respondeu. Lentamente, limpou o canto das lágrimas.
Creio que todos os gestos guardam os segredos de uma vida.

Paula Freire


Paula Freire
- Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside atualmente em Vila Nova de Gaia, Portugal.
Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas do Desenvolvimento Pessoal e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada.
Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna e com o coração em Trás-os-Montes pelo elo matrimonial, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias.
O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora das imagens de capa de duas obras lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021, “Cultura Sem Fronteiras” (coletânea de literatura e artes) e “Nunca é Tarde” (poesia), e da obra solidária “Anima Verbi” (coletânea de prosa e poesia) editada pela Comendadoria Templária D. João IV de Vila Viçosa, em 2023. Prefaciadora dos romances “Amor Pecador”, de Tchiza (Mar Morto Editora, Angola, 2021), “As Lágrimas da Poesia”, de Tchiza (Katongonoxi HQ, Angola, 2023), “Amar Perdidamente”, de Mary Foles (Punto Rojo Libros, 2023) e das obras poéticas “Pedaços de Mim”, de Reis Silva (Editora Imagem e Publicações, 2021) e “Grito de Mulher”, de Maria Fernanda Moreira (Editora Imagem e Publicações, 2023). .Autora do livro de poesia Lírio: Flor-de-Lis (Editora Imagem e Publicações, 2022).
Em setembro de 2022, a convite da Casa da Beira Alta, realizou, na cidade do Porto, uma exposição de fotografia sob o título: "Um Outono no Feminino: de Amor e de Ser Mulher".
Atualmente, é colaboradora regular do blogue "Memórias... e outras coisas..."- Bragança e da Revista Vicejar (Brasil).
Há alguns anos, descobriu-se no seu amor pela arte da fotografia onde, de forma autodidata, aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Uma Carta Para Nós

Por: Paula Freire
(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


 Janeiro. Um novo ano. E uma carta para quem a quiser ler. 

Não sei se assim acontecerá. Porque andamos confusos e dispersos, porque nos sentimos vulneráveis. Porque olhamos com mais atenção para a janela que nos mostra dias de grande nevoeiro. Um mundo em overdose, cheio de urgências, de muitas dores a acontecerem demasiado longe e próximo de nós ao mesmo tempo. E tudo nos parece pedir que nos tornemos objetos, tarefas que se cumprem. Que sejamos cada vez mais produtivos, mais funcionais, mais eficientes, mais disponíveis. Menos humanos. 

Porque parar num tempo que desespera por pressa e num mundo que não espera por nós, é opulência, é extravagância. E porque a tristeza e a dor incomodam, são fraqueza e não interessam a ninguém, é preciso também sorrir. Sorrir muito. Fingir que se é feliz, nem que seja pelo efeito do comprimido de quem somos cada vez mais companheiros. 

E nada nem ninguém quer saber se somos capazes de encontrar forças. E sentimo-nos exaustos de explicar, de justificar, de nos encolhermos, de tentar caber, agradar, simular que está tudo bem. De tentar aguentar. Sentimo-nos exaustos não apenas do corpo mas, sobretudo, da alma. 

Enquanto os meses avançaram, tantos de nós descobriram que se perderam. Não no caminho, mas de si mesmos. O coração cansado, entregue ao abandono, com medo e desejo de ser habitado. 

Sim, o coração cansado. O coração que deixou de se escutar, que se deixou adiar. Perdido em algum lugar entre o que esperavam dele e o que a vida lhe permitiu alcançar. 

Vejo isso tantas vezes! Em ti… em mim.

Talvez te sintas inconformado… A palavra que melhor te veste quando tudo te parece falhar.

Queres saber? É a palavra certa. Ainda moras num lugar verdadeiro. Porque se janeiro continua, não é por causa do calendário. É porque, apesar de muito, o teu coração ainda está disponível, ainda insiste nessa pequena centelha que lhe permite a coragem que basta para o próximo passo.

Afinal, o coração, mesmo que, por vezes, seja um lugar desconfortável porque é honesto quando te diz que a vida te cansa, tem sempre uma teimosia fantástica em esperançar-se! 

E a esperança é incrível quando não é frase feita. Quando não promete. Quando não nos dá garantia. Quando não é entusiasmo nem estardalhaço. Quando não é um penso rápido. Quando não nos obriga, à força, a encontrar um sentido e direção. 

A esperança é prodigiosa quando é pequena e verdadeira. Quando a experimentamos com cuidado, sabendo que ela não evita os trambolhões, não impede de doer, não resolve, mas nos ensina que o que fere não é tudo. Ensina-nos a dizer que hoje não dá e que amanhã talvez seja possível. E que fazer escolhas não é frieza mas um sinal de humanidade. Um direito.

E é por isso que o teu coração insiste no gesto de acreditar.

Acreditar que só tu és a única solução possível quando já não existem respostas certas para as perguntas que ainda te esforças por compreender. Acreditar que não controlar a vida é igualmente um modo de confiar.

Inconformado… é acreditar que ainda sentes e que, apesar do cansaço, ainda não desististe de procurar a tua própria voz. De te procurar.

Então, acredita: viver com esse coração é uma aventura de profunda coragem.

Sim, esta carta não te traz nenhuma solução. Apenas companhia para o que, às vezes, não consegues dizer. 

Pede-te que pares. Que percebas quem já não consegues ser. Que respires. Que acendas a luz e que fiques enquanto procuras. Com tempo. Com consciência. Com gentileza.

É assim que voltamos a aparecer. E o que não pertence aqui… é futuro.

Paula Freire

Paula Freire. Tem curiosidade pelo que se mostra sem intenção: o comportamento que revela mistérios, intimidades. Observa-o enquanto desenha pessoas e fotografa o mundo. As palavras nascem-lhe da escuta atenta do Homem, dos silêncios que deixam vestígios. Escreve a partir de múltiplos lugares. Alguns com rosto, outros sem nome. 
Acredita que a vida não dá certezas absolutas nem tem respostas fáceis. E que a sensibilidade humana nunca deve ser confundida com fragilidade.
É psicóloga e psicoterapeuta. Publicou “Lírio: Flor-de-Lis” e “As Dúvidas da Existência: Na Heteronímia de Nós”. Este último (em coautoria), assinado pelo seu heterónimo Lázaro Rios, a sua forma de liberdade mais pura e crua. 
Gosta de viver sem ruídos desnecessários e inteira dentro da sua escrita. Tudo o resto são só excessos.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Brumadentro – Parte I

Por: Paula Freire
(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


 Félix Vagamundos conduzira durante horas, talvez dias, não sabia ao certo. Sabia apenas que vinha em fuga. Fugia da vida que lhe fora ficando cada vez mais apertada. Sem nenhum destino marcado, mas cansado de muito, andava à procura do tempo, da paz e do rumo que lhe escapavam por entre os dedos.

A verdade é que se perdera. E agora, ali estava ele, num lugar que não imaginava que existisse. Sem GPS que o explicasse, sem uma lógica que o justificasse, a aldeia, situada no cimo de um planalto e envolvida por uma penumbra invernosa, apareceu-lhe depois de uma curva apertada.

À beira da estrada, a placa de madeira, torta como se ali tivesse sido posta por alguém que não dava grande importância a nomes, anunciava: Brumadentro.

Decidiu continuar a pé com a ideia de que a friagem do ar pudesse arrefecer-lhe todos os pensamentos, por resolver, que lhe davam a volta à cabeça. 

A aldeia tinha somente duas ruas. A Rua Direita que, inexplicavelmente, virava para a esquerda. E a Rua Esquerda que, curiosamente, terminava no mesmo ponto onde começava. Se não fosse um erro de construção seria, porventura, uma advertência? Será que andamos tanto para acabar sempre no mesmo lugar? As pessoas habituaram-se a isso, refletiu Félix Vagamundos. 

E não deixou que a aldeia decidisse por ele. Avançou devagar, hesitante, pela Rua Direita. Uma rua deserta, larga e calada, embrulhada numa neblina densa, com terra molhada e pedras que pareciam gastas por muitas histórias que por lá tivessem passado.

As janelas das casas, com cortinas que abanavam como se o vento as soprasse, observavam-no com aquela desconfiança que os lugares remotos, por vezes, nos reservam.

Félix Vagamundos sorriu para si. Que sítio bizarro! Afigurou-se-lhe que, naquele local isolado, até a realidade já teria perdido o norte… 

Parou no centro da rua e olhou em volta. Sentiu o aroma familiar de pão quente a esgueirar-se por uma porta entreaberta. Lá dentro, a padeira, de avental branco, amassava a massa com mãos pesadas.

Levantou os olhos quando ele entrou e fez um movimento semelhante a um aceno de boas-vindas.

— Perdeu-se, não foi? — perguntou-lhe, sem cerimónias.

Ele sorriu, acanhado.

— Acho que sim. Não sei como vim aqui parar.

Ela encolheu os ombros num gesto de descrença.

— Pois, ninguém sabe, meu querido. A verdade é que só descobrimos onde estamos quando deixamos de correr. Correr por correr, que seja atrás de nós próprios para ver se, com jeitinho, chegamos mesmo a algum lado.

Tirou dois pães de um cesto, pousado em cima do balcão, e ofereceu-lhos:

— Vejo que tem fome. São para si. Fique com estes sonhos em forma de pão… Leve-os consigo e atente para que, desta vez, não embolorem.

Félix Vagamundos, espantado com o presente e com a afirmação da padeira, quis agradecer mas nada lhe saiu.

Quem saiu foi ele, da padaria, com os pães na mão e uma estranha impressão de ter acabado de ser alvo de um gracejo urdido pelo universo.

Continuou a caminhar. Minutos depois, ao virar numa esquina, deu de caras com uma pequena barbearia. Ah, o salão nobre da aldeia! Entre mexericos, muito palavrório, cabelos cortados e bigodes aparados, há sempre respostas para tudo. Talvez lá encontrasse quem conseguisse esclarecer as suas dúvidas. 

Afinal, estava vazia de gente. Só o barbeiro o viu entrar, ao mesmo tempo que afiava, energicamente, uma tesoura.

Apontou-lhe o cadeirão giratório em frente ao espelho.

— Ora então diga-me, caro senhor, quer cortar o quê? 

— Nada. Não vim para cortar cabelo ou barba — respondeu-lhe o outro, um pouco apreensivo com a interpelação.

O barbeiro levantou uma sobrancelha e deu um leve toque nas costas da cadeira.

— Ninguém vem ao que pensa que vem. Sente-se. Sabe que metade dos problemas do mundo nasce porque não paramos um minuto para escutar?

Félix Vagamundos obedeceu, ligeiramente intimidado.

— Perdi-me enquanto viajava. Esperava que soubesse dizer-me qual a direção que devo tomar para regressar a casa — elucidou.

— Oh, uma necessidade séria! E legítima, claro — ironizou o barbeiro. — Não se preocupe, também sou especialista em aparar dúvidas. 

E começou a passar-lhe a mão pelo cabelo. Analisava Félix Vagamundos como se este fosse um enigma filosófico.

— A tesoura corta, mas o pensamento também — proferiu, por fim. — Diga-me lá uma coisa… quando foi a última vez que olhou para o espelho e gostou do que viu?

A pergunta inesperada teve pontaria certeira. Vacilante na resposta a dar, ele engoliu em seco e não retrucou.

O barbeiro sorriu, zombeteiro, como se já estivesse à espera daquele silêncio.

— Então, o cabelo ou a indecisão, meu amigo?... Vá lá, siga em frente. Esta nossa aldeia não gosta de quem mente para dentro de si.

— Não sei — titubeou Félix Vagamundos.

— Pois devia saber.

Por cima da cabeça intocada, a tesoura, nas mãos do barbeiro, fez um clic no ar como se fosse um ponto final.

Aquele obsequiou-o com um conselho:

— Repare, o espelho não nos engana… A vida não fica perfeita porque mudamos de lugar. Ela melhora quando alteramos a rota. Quer chegar a casa? Troque o seu modo de olhar.

Félix Vagamundos retomou o caminho com a sensação de ter levado um murro no pensamento. Para aquietar o espírito optou, nesse momento, por seguir pela Rua Esquerda. Acelerou o andamento com o vento a soprar-lhe, vagaroso, sobre o rosto como a querer serenar-lhe a perturbação interior.

Mas uma dúzia de passadas à frente e ainda não recomposto, ouviu um assobio. Aproximou-se dele um homem alto e magro, vestido de farda e com um saco ao ombro. 

— A pressa é inimiga da alma… e olhe que a alma precisa de sossego para saber quem é — observou, entregando-lhe um envelope. 

Em seguida, baixou a voz e continuou, em jeito de confidência.

— O senhor tem cara de quem devia ter recebido isto há muitos anos.

O outro piscou os olhos, confuso, e o carteiro clarificou.

— Coisas que se esquecem e que o tempo entrega atrasadas. Sabe como é.

Não, ele não sabia. Ainda estava a tentar compreender todo aquele cenário inusitado e misterioso.

— Desculpe, eu ando perdido e só queria mesmo que alguém me explicasse qual o percurso de regresso a casa — aventurou-se, mais uma vez Félix Vagamundos, impaciente.

Mas o carteiro apenas declarou, apontando para a vereda à frente deles:

— Ninguém se perde, meu bom amigo. As pessoas só adiam. E quem adia, corre o risco de chegar sempre ao mesmo lugar. Como esta rua, por exemplo.

E afastou-se, sem mais explicações.

Félix Vagamundos ficou parado no chão a imaginar que devia ter caído, desamparado, numa qualquer realidade paralela. Pensou no encontro metafísico com aquelas figuras caricatas e ocorreu-lhe, com um arrepio, que todos pareciam estar a aguardá-lo e que aquela aldeia atípica sabia mais sobre ele do que ele próprio.

Subitamente apercebeu-se, ao fundo, onde as duas ruas quase se tocavam, de uma luz quente e acolhedora a tremer. Talvez um convite a chamá-lo. Caminhou, decidido, até lá. Deparou-se com uma casa de madeira com telhado baixo. Por cima da porta, o nome de batismo: Chalé dos Filosofemas.


Nota: 

Ouso fazer aqui, caro leitor, um breve intervalo sobre os motivos porque trouxe Brumadentro até ao seu olhar. Se tiver curiosidade em conhecer o que Félix Vagamundos encontrou e, sem o saber, veio a todos lembrar-nos, regresse quando se sentir preparado. Estarei ao seu lado na próxima parte.

Paula Freire


Paula Freire
- Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside atualmente em Vila Nova de Gaia, Portugal.
Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas do Desenvolvimento Pessoal e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada.
Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna e com o coração em Trás-os-Montes pelo elo matrimonial, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias.
O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora das imagens de capa de duas obras lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021, “Cultura Sem Fronteiras” (coletânea de literatura e artes) e “Nunca é Tarde” (poesia), e da obra solidária “Anima Verbi” (coletânea de prosa e poesia) editada pela Comendadoria Templária D. João IV de Vila Viçosa, em 2023. Prefaciadora dos romances “Amor Pecador”, de Tchiza (Mar Morto Editora, Angola, 2021), “As Lágrimas da Poesia”, de Tchiza (Katongonoxi HQ, Angola, 2023), “Amar Perdidamente”, de Mary Foles (Punto Rojo Libros, 2023) e das obras poéticas “Pedaços de Mim”, de Reis Silva (Editora Imagem e Publicações, 2021) e “Grito de Mulher”, de Maria Fernanda Moreira (Editora Imagem e Publicações, 2023). Autora dos livros de poesia: Lírio: Flor-de-Lis (Editora Imagem e Publicações, 2022) e As Dúvidas da Existência - na heteronímia de nós (Farol Lusitano Editora, 2024, em coautoria com Rui Fonseca).
Em setembro de 2022, a convite da Casa da Beira Alta, realizou, na cidade do Porto, uma exposição de fotografia sob o título: "Um Outono no Feminino: de Amor e de Ser Mulher".
Atualmente, é colaboradora regular do blogue "Memórias... e outras coisas..."- Bragança e da Revista Vicejar (Brasil).
Há alguns anos, descobriu-se no seu amor pela arte da fotografia onde, de forma autodidata, aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

A Tecedeira de Névoas

Por: Paula Freire
(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


 
Tempos houve, desses já bem distantes, que ninguém sabe contar por reis nem reinados, em que numa pequena aldeia afundada nos densos vales do alto do nosso país, morou uma mulher de nome Madalena da Veiga. Como se fruto fosse de um batismo duplo, o apelido vinha-lhe do pai e do remoto lugar onde nascera e fora criada. 
Madalena, cabelos longos, embranquecidos sem pudor pelas geadas da vida, rosto duro e corpo talhado pelo trabalho com as enxadas, e torcido pela roupa lavada na água gelada do rio, era mulher de poucas posses. Cedo soubera que a vida não se adianta aquecida por confortos humanos. Habitava a pequena casa de xisto na orla da povoação. O povo conhecia-lhe a história, pese embora, com os anos ela tivesse aprendido a calá-la: viúva muito cedo e um filho igualmente perdido para a morte, quando era ainda criança.
Certo findar de dia, com uma nébula traiçoeira a descer como forra de algodão sobre os ramos das árvores, Madalena, com o seu feixe de lenha às costas e o pensamento longe, regressava a casa mais tarde do que devia. Um percurso amiúde percorrido mas que, dessa vez, se lobrigava mais longo, como se os pés lhe houvessem esticado a distância em direção ao destino.
Numa curva do caminho, e por entre a quebra fugaz dos cordões de neblina, reparou com estranheza na posição da lua já nascida. Não ascendera ao céu. Turva e embaciada, ficara parada a meia altura entre o chão e as nuvens escondidas, confundida entre o desejo de subir e a vontade de cair. 
Com os olhos enregelados como pássaros fugidos do ar gélido da invernia, Madalena não queria deixar-se perder em distrações. Não era pelo luto do céu, era a moinha nos ossos que a faziam adivinhar chuva iminente na ânsia de derreter a neve da estação que já se prolongava. 
Mas de maior assombro foi acometida quando lhe soou ao ouvido um estranho cântico, sem que nenhuma boca lhe saltasse à vista. Talvez tivesse surgido das entranhas da própria terra, pensou com pasmo e desconfiança. E, com coração mais lento, acelerou o passo pelo estreito carreiro, afundada na erva molhada da orvalhada, enquanto a canção suave se elevava e descia, com insistência. 
A espécie de récita em forma de melodia aproximava-a do rio, ali perto, e por maior que lhe parecesse a singularidade da situação, trazia-lhe uma paz interior que não conseguia entender.

“Fio do vento fio da bruma, leva a noite traz a lua.  
Fio da água fio do prado, leva a noite e deixa o teu fado”

Foi quando viu a Velha. Debaixo de uma árvore de grande porte, sentada em tosco banco de madeira, que ocupava como se sempre lhe fora pertença. De espessos cabelos nevados a penderem-lhe sobre os ombros, e com dedos firmes e decididos, trabalhava vagarosamente no seu tear a névoa que se agigantara por cima das serenas águas do rio, fazendo-a cerrar caminhos e abrir clareiras, sob o comando da sua voz. 
Madalena não recuou. Fora criada para respeitar o que não compreendia. Fez descansar a lenha no chão achando por bem mostrar de cortesia. 
— Boa noite, Madrinha. 
Observou a figura à sua frente. Por momentos, sentindo um frio miúdo pelo corpo acima, julgou reconhecer nela os seus próprios traços.
A Velha ergueu a cabeça na sua direção com uma severidade pouco ameaçadora. Não se mostrava surpreendida com aquela presença repentina ao raiar da enevoada noite. 
— Boa não é. Mas também não é má. A noite não se julga. Seguimos apenas por ela adentro — respondeu simplesmente, num gesto que lhe bastou para ler as ideias de Madalena. 
Ditou-lhe, com um sorriso de compreensão:
— É exatamente isso. Nem sempre os que vês fora de ti te são estranhos. Pensas-te só, mas todos somos feitos da mesma meada. Muitos nomes a correr por vários fios. A mesma dita.
Madalena ficou quedada a ruminar o sentido daquelas palavras. 
— O que estais a tecer? — perguntou, por fim. — Nunca assim vi fiar, sem lã.
— Porque te ensinaram a olhar apenas para o que tem fim. — disse a Velha. — Mas ele há afazeres que só a morte põe ponto final. 
E estendeu-lhe o fuso.
Madalena tocou no objeto e a Velha fitou-a, demoradamente, a medir-lhe as sombras que lhe moravam no coração, como se segurasse entre as mãos pedaços de argila húmida acabada de escavar. O corpo do marido na última noite, o filho que partira, as madrugadas vazias, os campos sem pão, as labutas em vão. A lentidão magoada dos dias com fome de alimento e de abraços.
— Não há mão que não tenha passado por este tear, minha filha. É dele que todos saímos — esclareceu. — O que te dói já doeu a muitos antes de ti e assim a cada passo haverá de ser. Ele não nos faz diferentes, só nos gira e emaranha de maneira desigual. Se largares constantemente os fios que te dão forma, a memória perde-se no tempo e esqueces tudo o que aprendeste e aqueles que já amaste. Se te agarrares demasiado a eles, acabarão por te ferir e impedir de continuares a tecer o trilho que te é devido. O segredo está em conhecer o exato instante de saltar o fio adiante. Quando o conseguires, terás aprendido os mistérios do teu curso.
E desviou o olhar profundo para o vale abrigado no manto branco da neblina.
Madalena lançou-lhe ainda uma última indagação:
— E vós, que guardais todos esses ocultos saberes, quem sois?
A Velha soltou dos lábios um riso velado.
— Sou aquela que permanece quando todos partem. Muito mais velha do que a própria idade. Trago em mim aquilo que nos homens sempre lhes escapou ao entendimento. Talvez te tivesse fadado, para hoje, este encontro.
Madalena sentiu-se frágil perante aquela personagem misteriosa que lhe calhara em caminho, nessa noite, a fiar o tempo enquanto a aguardava junto às fronteiras de um mundo desconhecido. Mas, curiosamente, encontrava um inexplicável conforto ao observar-lhe o semblante como se já há muito lhe estivesse em sorte tal revelação. 
Enquanto a névoa se abria, devagar, libertando finalmente a lua e tornando o ar mais leve e o carreiro limpo, Madalena regressou a casa, sem aquela pressa dos que receiam os silêncios da noite, ciente de que algo em si já não era o mesmo, como quem sabe que o seu interior fora tocado por uma mão impossível de se ver.
Para trás ficou o banco onde encontrara sentada a velha tecedeira.
Desde essa noite, Madalena da Veiga passou a ter um trato diferente com o mundo. Viam-lhe o mesmo porte de quem se dedicava aos dias sem alarde, a mesma atenção de quem vislumbrava as gentes sem se deixar enganar por aparências, a mesma expressão de uma paciência cautelosa. Mas dizia o povo que ela passou a atender às coisas com outros olhos e outros ouvidos. 
Sem pretensões de mestra, inteirava os mais novos sobre a desilusão do descanso fácil, quando a vida lhes pesava nos ombros ainda tenros e a impaciência lhes fervia no sangue, fazendo-os ver que a dor não nos aparta, que ela é uma herança comum e que, por isso, há lidas que nos acompanham a todos até ao fim. 
E ao passo que a vizinhança se afligia com as maleitas da vida e a quietação da solidão, Madalena confiava. Dizia que tudo vem quando é hora de vir. E a essa sina nada escapa. O maior perigo, advertia, é a memória não saber desprender-se do que convém. E que só quem se faz sabedor desta lição deixa de andar às cegas.
Foi desde esse outro tempo, que não ficou assentado em papel, mas somente lavrado na lembrança dos vales, com o rio a correr-lhes por baixo das terras, que a história chegou até nós. Em dias idos, contou-me o meu avô que, até ao presente, quando a noite acorda súbito no seu véu de nevoeiro, se avisa na aldeia:
— Põe sentido no teu rumo. Olha que a Velha ainda está a fiar…

Paula Freire


Paula Freire
. Tem curiosidade pelo que se mostra sem intenção: o comportamento que revela mistérios, intimidades. Observa-o enquanto desenha pessoas e fotografa o mundo. As palavras nascem-lhe da escuta atenta do Homem, dos silêncios que deixam vestígios. Escreve a partir de múltiplos lugares. Alguns com rosto, outros sem nome. 
Acredita que a vida não dá certezas absolutas nem tem respostas fáceis. E que a sensibilidade humana nunca deve ser confundida com fragilidade.
É psicóloga e psicoterapeuta. Publicou “Lírio: Flor-de-Lis” e “As Dúvidas da Existência: Na Heteronímia de Nós”. Este último (em coautoria), assinado pelo seu heterónimo Lázaro Rios, a sua forma de liberdade mais pura e crua. 
Gosta de viver sem ruídos desnecessários e inteira dentro da sua escrita. Tudo o resto são só excessos.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Na eternidade do teu abraço

Por: Paula Freire
(colaboradora do Memórias...e outras coisas...)
 

Hoje, não sei se reconheces o som da minha voz mas, mesmo assim, vou falar-te. Vou falar-te devagarinho, como quem fala gentilmente para os olhos que, tantas vezes, me iluminaram e me fizeram ser força no tempo. Vou falar-te como quem semeia flores num jardim que insisto em cuidar e amar. Porque sei que me escutas com o coração e porque enquanto eu me lembrar, tu viverás.
Pergunto-me, muitas vezes, onde vais quando partes de mim. Se encontras no refúgio das tuas lembranças o riso onde as horas pareciam tão simples quanto o respirar. Ou talvez te descubra a dançar com as sombras felizes do que um dia foi presente e, então, talvez o silêncio já não seja o vazio mas um lençol invisível, tecido de saudades, uma oração muda de quem contempla o passado e venera o sagrado da nossa existência.
Sabe que mesmo quando te perdes de mim, quando não sabes quem sou, há uma ternura imensa a segurar-me o olhar. É que o perfume que mora nessa lonjura onde já te não chego, diz-me que a esperança é um raio de luz que descobre sempre o caminho de volta, numa viagem em que o coração reconhece o eco do que de nós, em nós ainda permanece.
Por isso, talvez, nesse limbo onde o tempo já não tem direção, por vezes o teu rosto é um sol que se atreve a nascer mais uma vez e onde tu, por um instante, recordas o nosso nome. Um sol que atravessa o meu horizonte, pousa nele com a doçura de outros dias e continua a contar-me todas as histórias que vivemos, como se apenas um leve sorriso teu pudesse ser o farol que me guia de volta à margem de mim mesmo. E vejo ali um sopro de nós. Ainda vivo. Ainda cheio de um aroma tão quente que nos sabe a amanhecer. Como nos dias em que os dias se abraçavam ao infinito. 
Falo-te sim, meu amor, falo-te que não te perdi porque sei que o amor é nascente e, nesse breve encontro, os meus olhos são apenas mar porque tu voltas a ser casa. E é nesses momentos raros e preciosos em que o tempo parece hesitar, que o universo inteiro faz sentido. E eu acredito. Não num milagre - que esses já há muito se perderam em distâncias - mas no poder de um amor que transcende o imortal. 
O amor, meu amor, é uma devoção que não pede respostas, apenas a presença. Porque amar na ausência é amar o que é eterno. E, por isso, meu amor, toco a tua mão, tão leve, que descansa na minha e falo-te baixinho, como quem canta à terra, com o sonho de que a tua pele, ao menos, me sinta. E toco a tua pele como quem procura água e seguro a tua mão como quem segura o céu. Sim, ainda estamos aqui, neste lugar invisível, um lugar onde, todos os dias, acordamos juntos.
É na tua alma, suspensa entre dois tempos, que reside a nossa eternidade.


Paula Freire
- Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside atualmente em Vila Nova de Gaia, Portugal.
Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas do Desenvolvimento Pessoal e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada.
Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna e com o coração em Trás-os-Montes pelo elo matrimonial, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias.
O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora das imagens de capa de duas obras lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021, “Cultura Sem Fronteiras” (coletânea de literatura e artes) e “Nunca é Tarde” (poesia), e da obra solidária “Anima Verbi” (coletânea de prosa e poesia) editada pela Comendadoria Templária D. João IV de Vila Viçosa, em 2023. Prefaciadora dos romances “Amor Pecador”, de Tchiza (Mar Morto Editora, Angola, 2021), “As Lágrimas da Poesia”, de Tchiza (Katongonoxi HQ, Angola, 2023), “Amar Perdidamente”, de Mary Foles (Punto Rojo Libros, 2023) e das obras poéticas “Pedaços de Mim”, de Reis Silva (Editora Imagem e Publicações, 2021) e “Grito de Mulher”, de Maria Fernanda Moreira (Editora Imagem e Publicações, 2023). Autora dos livros de poesia: Lírio: Flor-de-Lis (Editora Imagem e Publicações, 2022) e As Dúvidas da Existência - na heteronímia de nós (Farol Lusitano Editora, 2024, em coautoria com Rui Fonseca).
Em setembro de 2022, a convite da Casa da Beira Alta, realizou, na cidade do Porto, uma exposição de fotografia sob o título: "Um Outono no Feminino: de Amor e de Ser Mulher".
Atualmente, é colaboradora regular do blogue "Memórias... e outras coisas..."- Bragança e da Revista Vicejar (Brasil).
Há alguns anos, descobriu-se no seu amor pela arte da fotografia onde, de forma autodidata, aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.

sexta-feira, 18 de abril de 2025

“O pão vem da árvore”

Por: Paula Freire
(colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


 Recordo hoje, um dia em que a minha filha me surgiu com uma curiosa expressão da sua autoria, a propósito de um livro que andava a ler. Ainda que nada a propósito de religião, deixou-me a considerar que as suas palavras vieram mesmo a propósito. Disse-me ela que lhe parecia apropriado concluir, após a leitura do dito livro, que “o pão vem da árvore”. Ouvi-a e fiquei curiosa. Como é que o pão vem de uma árvore? Curiosidade minha não satisfeita, pois se foi sem quaisquer justificações.
Mas o pensamento não se me deu por vencido e procurei compreender o fenómeno à minha maneira. Por vezes, no meio do improvável, até existem acasos que nos fazem algum sentido. Afinal, encontramo-nos precisamente a viver uma época especial. E, enquanto cristãos, refletimos no tema da morte e da ressurreição e no que isso representa para nós…. Será que refletimos mesmo? 
Tradições, comemorações e umas quantas outras questões se levantam quando tentamos perceber onde, no meio de tudo, fica a fé de cada um. 
Fé, uma palavra pequena para um sentimento grandioso e que, por esta altura, vemos reduzida à Páscoa dos ovos de chocolate e de tantas iguarias, eventuais prazeres tão distantes da suposta contenção própria desta celebração. A Páscoa tão vazia por dentro como os tais ovinhos ocos de casca fina. A Páscoa tão distante de um tempo em que, quem sabe, talvez se acreditasse mais.
Aquela Páscoa em que o pão simbolizava vida; em que o pão, além de alimento para o corpo, era considerado também alimento para a alma em gestos de humildade, de bondade, de união, de partilha. E com estes se procurava a renovação. Em particular a renovação interior, o aperfeiçoamento de um modo de estar e de ser. 
Acredito pois, então, que o pão possa mesmo vir da árvore, como afiançava a minha filha. É que as árvores da vida presentes neste mundo, desde a sua génesis até ao seu apocalipse, fazem-me sempre lembrar a alegoria perfeita da caminhada de cada ser humano. 
Seremos nós como os olmos, dignos e confiáveis, a espalhar a magnífica beleza dos nossos ramos e folhagem ao olhar dos que connosco se cruzam? Ou como os fortes e perseverantes Carvalhos que resistem às intempéries do tempo? Ou ainda como os majestosos ciprestes de olhos postos no infinito a tocar as mãos da esperança? Ou teremos semelhanças com os vigorosos cedros que ladeiam as ruas e jardins da vida? Ou seremos tantas vezes como orgulhosos álamos, incapazes de se curvarem perante o sofrimento daqueles que padecem?
Árvores que procuram naturalmente a luz. Árvores com raízes profundas de firmeza e segurança, capazes de resistir às tribulações do seu percurso. Árvores capazes de dar frutos com verdadeiro significado.
A Páscoa de hoje não mostra produzir frutos dignos desse nome. Vive da aparência. E muitas árvores que existem parecem querer contar-nos a parábola do homem e da figueira plantada na sua vinha. São árvores sem vida que terminam cortadas nos lugares que vão ocupando inutilmente. O seu espaço, então deserto, é como o deserto na vida de tantas pessoas. 
Porque é tempo de Páscoa, mais importante do que abundante banquete, diria ser maior outro repasto que nos sustenta. E talvez o deserto não fosse o desse silêncio em que cada ser se afunda pela dor, pelo medo e pela solidão. Mas sim o silêncio que se faz experiência de reencontro dentro de nós e nos conduz à aceitação das nossas verdades e à valorização das nossas limitações e daqueles que fazem parte da nossa viagem. E, se assim for, talvez a fé não esteja dentro de quatro paredes, mas sim no interior do coração de cada um. 
Posso dizer-te, filha, que terias a tua razão. É da flor e do fruto que nasce o perfume de cada um de nós. É da árvore que vem o pão.


Paula Freire
- Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside atualmente em Vila Nova de Gaia, Portugal.
Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas do Desenvolvimento Pessoal e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada.
Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna e com o coração em Trás-os-Montes pelo elo matrimonial, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias.
O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora das imagens de capa de duas obras lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021, “Cultura Sem Fronteiras” (coletânea de literatura e artes) e “Nunca é Tarde” (poesia), e da obra solidária “Anima Verbi” (coletânea de prosa e poesia) editada pela Comendadoria Templária D. João IV de Vila Viçosa, em 2023. Prefaciadora dos romances “Amor Pecador”, de Tchiza (Mar Morto Editora, Angola, 2021), “As Lágrimas da Poesia”, de Tchiza (Katongonoxi HQ, Angola, 2023), “Amar Perdidamente”, de Mary Foles (Punto Rojo Libros, 2023) e das obras poéticas “Pedaços de Mim”, de Reis Silva (Editora Imagem e Publicações, 2021) e “Grito de Mulher”, de Maria Fernanda Moreira (Editora Imagem e Publicações, 2023). Autora dos livros de poesia: Lírio: Flor-de-Lis (Editora Imagem e Publicações, 2022) e As Dúvidas da Existência - na heteronímia de nós (Farol Lusitano Editora, 2024, em coautoria com Rui Fonseca).
Em setembro de 2022, a convite da Casa da Beira Alta, realizou, na cidade do Porto, uma exposição de fotografia sob o título: "Um Outono no Feminino: de Amor e de Ser Mulher".
Atualmente, é colaboradora regular do blogue "Memórias... e outras coisas..."- Bragança e da Revista Vicejar (Brasil).
Há alguns anos, descobriu-se no seu amor pela arte da fotografia onde, de forma autodidata, aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.

sexta-feira, 19 de julho de 2024

ao teu compasso...

Por: Paula Freire
(colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


No húmido ventre do teu nome há uma árvore antiga
onde os pássaros invisíveis cantaram 
promessas de uma outra luz.
Um fio infinito de eternidade, preso à melodia que o coração reconhece.
O rio que não se vê, mas que sabe existir
só para que as estrelas despertem 
no murmúrio dos lábios, harmonias sublimes…

.

É esse o som esfíngico do segredo
que entoa o teu rosto num acorde de nova esperança,
a surpresa que sobressalta na fala íntima do compasso, além 
de todo o entendimento.

.

E é suave a penumbra do sol claro onde o desejo se faz céu
quando num interlúdio de sombra e olhos velados, o silêncio fala 
… e a alma dança.

@Lázaro Rios
(heterónimo de Paula Freire)
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Paula Freire
- Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside atualmente em Vila Nova de Gaia, Portugal.
Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas do Desenvolvimento Pessoal e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada.
Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna e com o coração em Trás-os-Montes pelo elo matrimonial, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias.
O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora das imagens de capa de duas obras lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021, “Cultura Sem Fronteiras” (coletânea de literatura e artes) e “Nunca é Tarde” (poesia), e da obra solidária “Anima Verbi” (coletânea de prosa e poesia) editada pela Comendadoria Templária D. João IV de Vila Viçosa, em 2023. Prefaciadora dos romances “Amor Pecador”, de Tchiza (Mar Morto Editora, Angola, 2021), “As Lágrimas da Poesia”, de Tchiza (Katongonoxi HQ, Angola, 2023), “Amar Perdidamente”, de Mary Foles (Punto Rojo Libros, 2023) e das obras poéticas “Pedaços de Mim”, de Reis Silva (Editora Imagem e Publicações, 2021) e “Grito de Mulher”, de Maria Fernanda Moreira (Editora Imagem e Publicações, 2023). Autora do livro de poesia Lírio: Flor-de-Lis (Editora Imagem e Publicações, 2022).
Em setembro de 2022, a convite da Casa da Beira Alta, realizou, na cidade do Porto, uma exposição de fotografia sob o título: "Um Outono no Feminino: de Amor e de Ser Mulher".
Atualmente, é colaboradora regular do blogue "Memórias... e outras coisas..."- Bragança e da Revista Vicejar (Brasil).
Há alguns anos, descobriu-se no seu amor pela arte da fotografia onde, de forma autodidata, aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.

terça-feira, 15 de julho de 2025

A Preto e Branco: confissões de um homem (des)atento sobre linhas curvas e umas quantas (con)tradições

Por: Paula Freire
(colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


Às vezes, tenho a singular capacidade de me ver inteligente. Aquela inteligência útil de um adulto que cresce à força e continua a sonhar castelos, com a mesma certeza de que existem impostos para pagar. E todas as rugas me enganam a dizerem-me que sei da vida, quando é só o futuro, transformado em passado, que me desarranja o corpo. 

Faço coleção de absurdos. Contas, papéis, e-mails, agendas, horários. Quando abro a gaveta a transbordar, estas desconfortáveis responsabilidades já ganharam o estatuto de monstros. De olhos fechados, volto a enxotá-las para um canto, na expetativa de que não cheguem a devorar-me. A incapacidade de quem não nasceu para ser prático. Para habitar este mundo consciente dos seres funcionais que vivem com os pés na terra, a nadar no betão armado e nos artifícios do quotidiano - quando eu mal adivinho onde deixei os sapatos - como grandes coisas que não me merecem o esforço da memória. É nesses momentos incautos que lamento a ausência de uma assistente, precavida e de boa lembrança, que preveja onde estarão escondidos os meus óculos.

Por falar em óculos, gosto de escrever. Mas suspeito que por ter lido demasiado Pessoa, nunca mais voltei a ser um sujeito normal. Mastigo ideias e cuspo palavras enquanto engulo copos de silêncios. E vou traduzindo o que sinto para a linguagem daqueles que desconhecem não conseguir sentir. Assim gosto de ficar, sem pedir autorização a ninguém, a morar em cima do meu sofá simples em segunda mão, entre pensamentos cheios daquilo que gostava de compreender. Sou pessoa de poucas aventuras, portanto. A adrenalina sobe o recomendável se passar um par de horas a alinhar, de forma insuperável, quatro adjetivos, esquecido do motivo porque me sentei em frente à mesa do restaurante.

Com todas as certezas de quem já me leu o horóscopo, uma amiga tenta convencer-me de que para me tornar num escritor a sério, de sucesso, é urgente que, pelo menos, tire umas quantas fotografias. Para o meu “perfil de autor”, para o meu press kit como agora está na moda dizer. Para vender mais nos eventos literários, remata. Um literato que dispensa a sua própria biografia e cuja maior história pessoal de amor é a que vive com as teclas do computador... Porquê parecer aquilo que sei que não sou? Uma caricatura de mim mesmo?! A fama está a tornar-se uma figura frívola, embrulhada em maquilhagem, que desfila nos palcos do mundo… Faço de conta que ouço a minha amiga, enquanto me sinto uma falsa estrela a fugir da órbita do sistema solar.

E fico sempre desconfiado quando me dizem que me compreendem. Se isso aconteceu, é porque me mostrei excessivamente objetivo. A banalidade do entendimento fácil está longe de ser um privilégio. A mim soa-me mais como um tipo de nudez desmazelada. Acho que as pessoas deviam ser como um bom livro. O que nos dá vontade de ficarmos presos a ele, é a beleza do mistério.

É o que me acontece com as mulheres.

Ah! As mulheres… Acusam-me de insensível. Não. Sou apenas uma alma suficientemente distraída ao ponto de se perder consigo própria. Mas não lhes peço a elas, às mulheres, que me percebam. Que já bem me basta ser eu neste contrato a tempo inteiro que nunca assinei. Por isso, resta-me somente pedir-lhes perdão por todos os diálogos em que, fisicamente presente, me fiz ausente. Nessas pausas, sujeitava-me a outras lides domésticas e menos domesticadas da mente. 

Claro que não era por desinteresse ou por desleixo. Não tenho culpa se no meio de uma conversa no supermercado, sobre a frescura da fruta e dos legumes, o cérebro me acende uma centelha e o espírito se me desaparece do lugar onde estou, porque um estranho advérbio me conduziu, estupidamente, para dentro de um poema.

Só quem consegue lidar com isso é a A. Sabe-me de cor como um livro que continua a folhear, obstinada, como se fosse a primeira vez. Diz-me que prevarico por ser exageradamente realista (quem diria?) e, como uma boa irmã, só ela me absolve de todos os pecados que pratico por pensamentos, palavras, atos e omissões. Quando vem de visita, senta-se à mesa comigo durante duas ou três manhãs e, enquanto partilhamos um café amargo, olha-me como se eu fosse um museu contemporâneo. Sem entender nada, mas seduzida pela beleza da desordem. 

A propósito, da última vez em que estivemos juntos, contou-me como sou curiosamente engraçado. Parece que durante o tempo em que falava com ela – sem nunca me interromper ou ofender com as minhas dispersões, que fique registado - consegui encontrar o sinónimo perfeito para “desalinho”. Deixei-o rabiscado em cima do envelope onde a fatura da luz ficou por pagar. Para ela, mais do que um indivíduo atento aos pormenores, sou um distraído com sentido. A. deve ser a única mulher com quem consigo ter uma conversa integral e íntegra. Questiono-me se ela existe.

Mas regressando um pouco atrás, e para que conste, gosto, sim, das mulheres. E nesta matéria prefiro, seguramente, ser bem interpretado. A verdade é que o amor seria lindo se não fosse o dia-a-dia. O que pode matar mais o erotismo do que discutir, logo de manhã, sobre a ementa do jantar? A sensualidade tem que ser escrita com o copulativo certo!

Mas atenção, não aprecio aquelas que chegam agarradas a uma espécie de compêndio de trivialidades, cobertas de aparências vazias, envoltas em clarões que brilham pelo excesso de nitidez. As que me trazem um soneto comprado no mercado e me o declamam a frio porque, quente, lhes queimaria os neurónios.

Gosto, sim, das mulheres que não inventam desculpas para viver. As que, vez por outra, me desviam com elegância do caminho que vou traçando. Aquelas que se sustêm, quase divinas, entre o requinte dos gestos e a placidez da contemplação. Que citam Cesariny com toda aquela graça natural, absolutamente deliciosa, em cada uma das suas palavras acesas como barcos. E o fazem com a mesma virtude com que cruzam as pernas na sala de espera de um consultório. 

São como duas colheres de poesia nos dias com cheiro a inverno, estas mulheres que não tentam pôr-me na linha para além daquelas em que escrevo. As únicas linhas direitas a que me prendo. As delas, que são curvas, observo-as, com dedos vagarosos a girarem na orla de um copo. Os seus lábios frescos cheios de filosofias e a ciência de quem sabe que um vestido solto no corpo, e ombros nus abandonados ao convite de um toque, são a mais bela forma de provocação intelectual.

Eu sei… São mulheres impossíveis! Belas. E perigosas também. É quase um milagre sair ileso desta forma de subtileza sedutora que não me causa tédio. E quase um crime se acontecer o contrário. Eu, confesso transgressor, escuto as vontades da alma e deixo-me levar. Sempre por fascínio. A seguir, deixam de me ser intrigantes e eu, sem conhecer ao certo o nome exato do lugar onde acabei por cair, fujo como um culpado inocente, da roda das suas intrigas. Ad astra per aspera.

E lá troco uns vícios por outros. O cigarro. 

Mas há quem creia que o corpo é um templo. Como tal, não sei ao certo se por convicção própria ou se, talvez por falta dela, deixei de fumar. O meu maior ato de coragem. O meu maior atentado, de sempre, à estética. Engordei seis quilos de ansiedade. Tenho saudades do cigarro. Era como aquela amante sensata que não me pedia justificações. Apenas um curto tempo de prazer. O suficiente para umas quantas epifanias e o cair, depois, nesse marasmo aprazível entre o intelecto e a inércia. Para compensar, tentei correr, fazer exercício. Foram três dias num sol de pouca dura. Não tenho dúvidas: prefiro o desafio das metas físicas. Pelo menos, com essas, sou como um fósforo aceso, sinto-me vivo. E posso transformá-las em literatura. Uma arte que não precisa de me provar nada para lá do que consigo viver poeticamente. E se isso me basta, por que razão hei de procurar mais?

Mas se vos conto sobre mulheres e cigarros, não é por acaso. Talvez sejam uma tragédia menor quando comparados com os políticos. É com eles que pratico o meu desporto mais radical: a paciência. Na minha melhor versão de imperfeição, abraço estes devotos não praticantes, como se abraça uma trovoada no oceano. Ao longe.

Na política, sou antitudo. É aqui que, condenado a tornar-me consciente, não por opção mas por impossibilidade de exílio, tropeço ainda mais na realidade.

Vejamos, então. É um facto que não sei de todas as coisas certas. Mas não duvido nada das que estão erradas. No meu outro trabalho, aquele que me faz pagar as dívidas, vivo mal. Sobretudo mal pago. Mas também por causa dele, mal durmo e mal como. Guiado por laivos de ingénua esperança, a minha conta bancária já mudou de domicílio mais vezes do que eu de apartamento. E aqueles que me conhecem aéreo, perguntam-me, por vezes, onde estacionei o carro. A esses questiono: qual carro? Não porque me tenha perdido dele, mas pela overdose de despesas que a imposturice não paga. Se pudesse, deslocava-me sobre demagogias, mas a criatividade do autor ainda não foi eficaz ao ponto de permitir que a mobilidade não seja feita senão com os meus pés. 

Do mal, o menos, quem sabe desengorde a meia dúzia de quilos a mais. E enquanto aqueles senhores vão amadurecendo pelo engano e eu, espectador das suas autobiografias, continuando a apodrecer por falta de alternativas, aguardo que me prendam por abuso de inconveniências, expressas com a minha liberdade literária, de cada vez que me apetece publicar um livro só para me vingar deles.

Pensando bem, também na política, tal como com as mulheres, é um risco colocar condimentos e temperar o prato que não se deseja comer – como me dizia, certa vez, uma amiga, que não era a A. Mas pronto, estou a ser honesto, o que hoje em dia é quase uma utopia. 

E já que insisto na honestidade, admito sem hesitar que, se a vida me desse outra oportunidade, faria algo que, a bem dizer, nunca me pareceu totalmente reprovável. Casaria com uma mulher rica. E é óbvio que não o faria por amor. Essa foi uma quimera dos tempos de cara enfeitada com acne. Agora, fá-lo-ia pela minha santa libertação. Para comprar a paz que o dever me usurpa. Não me veria mais nessa necessidade, tão entediante como desgastante, de continuar a fingir que a liberdade se alcança com luta e suor.

Uma mulher rica de coração generoso, com arroubos maternais, que me desviasse, por caridade, dos fósseis administrativos e não me falasse do incumprimento das tarefas diárias como se fosse uma catástrofe global. Que me deixasse viver cada parágrafo da existência entregue à minha essência reflexiva, qual rato de biblioteca que acorda todos os dias ao som de uma bela estrofe.

Talvez uma senhora que me tratasse com aquele carinho de luxo com que as tias cuidam dos seus cãezinhos de raça. Que confundisse a minha desorganização com genialidade e concordasse que a aparente inutilidade é também uma coisa digna. E me chamasse de “meu querido” nas suas soirées aristocratas, onde eu apareceria de lenço de seda policromático ao pescoço, como um pássaro exótico. Excentricidades a que um marido artista não poderia escusar-se.

Mas enfim, à falta desta remota possibilidade de me tornar num parasita novelesco, fico-me pela poesia e pela música. No fundo, o meu manual de sobrevivência no planeta dos TikTok’s e da fast food.

Além disso, é para suprir ambições pouco tangíveis e lutar contra o enfartamento da alma e do corpo, que serve igualmente a espiritualidade.

E ora aqui está uma palavra que não gosto de pagar para acreditar.

Muitos por aí andam a vender falsas castidades. Já me vi enganado por gurus bem vestidinhos com cara de cartão de visita. Vendedores de luz que se regalam com velas apagadas. Mas eu pertenço ao clube dos que já pouco se surpreendem com alguma coisa. E se o mundo oculto está cheio de intrujice, que me desculpem todos os beatos, mas este lado do hemisfério não vive em melhores condições.

Por isso, sou um adepto de forças superiores com bom gosto, as que profetizam à margem do cinismo e que se encontram fora desse espaço dos mortos que dita auspícios para punir os que ainda estão vivos.

Posto isto, a minha espiritualidade? Vivo nela e com ela, na medida certa e sem despropósito. Pronto para não entender tudo, mas crente de que existirá lógica em qualquer lado. No fundo, tenho a impressão de que entre a castidade piedosa dos seres etéreos e a iluminação pomposa dos homens, Deus é, sobretudo, um poeta bastante incompreendido. 

Portanto, sou espiritual, efetivamente. Mas sem devoções. Assim, não tanto por fé ou por dúvidas, mas mais pela teimosia de, por alguns instantes, precisar de não estar vivo, vou praticando meditação. Deste modo prossigo a minha jornada: entre o diabo odiado e os anjos que não sabem se curam, que é como quem diz, entre o pecado e a salvação. 

Quem não nasceu com humores emocionais para vislumbrar arcos-íris, é assim que aprecia a vida: a preto e branco. As cores, especialmente quando a luminosidade se assemelha a um grande ruído, deixam-me baralhado. Prefiro assimilar o que os meus olhos veem. Um traço nítido, limpo e honesto entre o que é e o que não é.

Antes de terminar, não posso deixar de fazer uma confidência. É só uma revelação ingénua, ainda que possam julgar-me como louco. Pressinto que o fim do mundo esteja para amanhã. Não sei se é porque o calendário insiste ou porque o tempo me convenceu. 

Mas se vier mesmo o apocalipse, pelo menos que me encontre com um livro entre os olhos e um copo a meio.

Assinado: Ló

(na incerteza de me tornar sal ou livro, fiquei-me pela crónica)

P.S. Se alguém me leu até ao final, peço desculpa… Ou não. Talvez nesta página de tolas verdades mascaradas de pilhérias, possa ter-se reconhecido. E se isso aconteceu, os meus parabéns. Acabou de se demorar numa conversa consigo mesmo. O único com quem poderá falar sempre genuinamente, para além do seu terapeuta.

- Paula Freire -


Paula Freire
- Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside atualmente em Vila Nova de Gaia, Portugal.
Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas do Desenvolvimento Pessoal e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada.
Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna e com o coração em Trás-os-Montes pelo elo matrimonial, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias.
O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora das imagens de capa de duas obras lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021, “Cultura Sem Fronteiras” (coletânea de literatura e artes) e “Nunca é Tarde” (poesia), e da obra solidária “Anima Verbi” (coletânea de prosa e poesia) editada pela Comendadoria Templária D. João IV de Vila Viçosa, em 2023. Prefaciadora dos romances “Amor Pecador”, de Tchiza (Mar Morto Editora, Angola, 2021), “As Lágrimas da Poesia”, de Tchiza (Katongonoxi HQ, Angola, 2023), “Amar Perdidamente”, de Mary Foles (Punto Rojo Libros, 2023) e das obras poéticas “Pedaços de Mim”, de Reis Silva (Editora Imagem e Publicações, 2021) e “Grito de Mulher”, de Maria Fernanda Moreira (Editora Imagem e Publicações, 2023). Autora dos livros de poesia: Lírio: Flor-de-Lis (Editora Imagem e Publicações, 2022) e As Dúvidas da Existência - na heteronímia de nós (Farol Lusitano Editora, 2024, em coautoria com Rui Fonseca).
Em setembro de 2022, a convite da Casa da Beira Alta, realizou, na cidade do Porto, uma exposição de fotografia sob o título: "Um Outono no Feminino: de Amor e de Ser Mulher".
Atualmente, é colaboradora regular do blogue "Memórias... e outras coisas..."- Bragança e da Revista Vicejar (Brasil).
Há alguns anos, descobriu-se no seu amor pela arte da fotografia onde, de forma autodidata, aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

dia de despedida...

 Por: Paula Freire
(colaboradora do Memórias...e outras coisas...)


Hoje é dia de despedida, e despedir não é fácil. Há sempre um sonho de que te esqueceste, uma palavra que se afogou na pressa, uma promessa por cumprir, um gesto que não se deixou encontrar nos espaços onde o procuraste.
Despedes-te dos presentes escondidos nas dobras de cada minuto, com as mãos cheias de tudo o que ficou: uma força que se ergueu do chão quando o teu mundo caía, uma coragem que te nasceu no silêncio, um amor que descobriste em lugares improváveis…
Afinal, uma mala inteira de momentos vividos. Uma alma carregada de histórias. Uma vida cheia de contrastes porque precisava de ser inteira.
Sabes, o tempo é esse viajante de coisas pesadas e claridade inesperada, impossível de deter. O desconhecido que te inquieta o som do peito e o amigo que te diz que nem todas as sementes são para já. 
Penso que se o tempo tivesse rosto, seria, talvez, um velho com rugas feitas de madrugadas insones e um sorriso sereno de menino, a sussurrar-te que ainda está tudo por fazer e tudo por sentir. E que o futuro, esse lugar onde ainda não existes, é somente um convite, frágil e urgente, para dias não apenas feitos de horas, mas também feitos de ti. 
Hoje é dia de despedida. Mas amanhã, quando o sol nascer outra vez, lembra-te de erguer os olhos e o coração. Ali, na fresta de luz do que ainda não te abraçou, está o presente mais precioso: a possibilidade de um agora. E é no agora que todos os impossíveis (re)começam.



Paula Freire
- Natural de Lourenço Marques, Moçambique, reside atualmente em Vila Nova de Gaia, Portugal.
Com formação académica em Psicologia e especialização em Psicoterapia, dedicou vários anos do seu percurso profissional à formação de adultos, nas áreas do Desenvolvimento Pessoal e do Autoconhecimento, bem como à prática de clínica privada.
Filha de gentes e terras alentejanas por parte materna e com o coração em Trás-os-Montes pelo elo matrimonial, desde muito cedo desenvolveu o gosto pela leitura e pela escrita, onde se descobre nas vivências sugeridas pelos olhares daqueles com quem se cruza nos caminhos da vida, e onde se arrisca a descobrir mistérios escondidos e silenciosas confissões. Um manancial de emoções e sentimentos tão humanos, que lhe foram permitindo colaborar em meios de comunicação da imprensa local com publicações de textos, crónicas e poesias.
O desenho foi sempre outra das suas paixões, sendo autora das imagens de capa de duas obras lançadas pela Editora Imagem e Publicações em 2021, “Cultura Sem Fronteiras” (coletânea de literatura e artes) e “Nunca é Tarde” (poesia), e da obra solidária “Anima Verbi” (coletânea de prosa e poesia) editada pela Comendadoria Templária D. João IV de Vila Viçosa, em 2023. Prefaciadora dos romances “Amor Pecador”, de Tchiza (Mar Morto Editora, Angola, 2021), “As Lágrimas da Poesia”, de Tchiza (Katongonoxi HQ, Angola, 2023), “Amar Perdidamente”, de Mary Foles (Punto Rojo Libros, 2023) e das obras poéticas “Pedaços de Mim”, de Reis Silva (Editora Imagem e Publicações, 2021) e “Grito de Mulher”, de Maria Fernanda Moreira (Editora Imagem e Publicações, 2023). Autora dos livros de poesia: Lírio: Flor-de-Lis (Editora Imagem e Publicações, 2022) e As Dúvidas da Existência - na heteronímia de nós (Farol Lusitano Editora, 2024, em coautoria com Rui Fonseca).
Em setembro de 2022, a convite da Casa da Beira Alta, realizou, na cidade do Porto, uma exposição de fotografia sob o título: "Um Outono no Feminino: de Amor e de Ser Mulher".
Atualmente, é colaboradora regular do blogue "Memórias... e outras coisas..."- Bragança e da Revista Vicejar (Brasil).
Há alguns anos, descobriu-se no seu amor pela arte da fotografia onde, de forma autodidata, aprecia retratar, em particular, a beleza feminina e a dimensão artística dos elementos da natureza.