(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)
Janeiro. Um novo ano. E uma carta para quem a quiser ler.
Não sei se assim acontecerá. Porque andamos confusos e dispersos, porque nos sentimos vulneráveis. Porque olhamos com mais atenção para a janela que nos mostra dias de grande nevoeiro. Um mundo em overdose, cheio de urgências, de muitas dores a acontecerem demasiado longe e próximo de nós ao mesmo tempo. E tudo nos parece pedir que nos tornemos objetos, tarefas que se cumprem. Que sejamos cada vez mais produtivos, mais funcionais, mais eficientes, mais disponíveis. Menos humanos.
Porque parar num tempo que desespera por pressa e num mundo que não espera por nós, é opulência, é extravagância. E porque a tristeza e a dor incomodam, são fraqueza e não interessam a ninguém, é preciso também sorrir. Sorrir muito. Fingir que se é feliz, nem que seja pelo efeito do comprimido de quem somos cada vez mais companheiros.
E nada nem ninguém quer saber se somos capazes de encontrar forças. E sentimo-nos exaustos de explicar, de justificar, de nos encolhermos, de tentar caber, agradar, simular que está tudo bem. De tentar aguentar. Sentimo-nos exaustos não apenas do corpo mas, sobretudo, da alma.
Enquanto os meses avançaram, tantos de nós descobriram que se perderam. Não no caminho, mas de si mesmos. O coração cansado, entregue ao abandono, com medo e desejo de ser habitado.
Sim, o coração cansado. O coração que deixou de se escutar, que se deixou adiar. Perdido em algum lugar entre o que esperavam dele e o que a vida lhe permitiu alcançar.
Vejo isso tantas vezes! Em ti… em mim.
Talvez te sintas inconformado… A palavra que melhor te veste quando tudo te parece falhar.
Queres saber? É a palavra certa. Ainda moras num lugar verdadeiro. Porque se janeiro continua, não é por causa do calendário. É porque, apesar de muito, o teu coração ainda está disponível, ainda insiste nessa pequena centelha que lhe permite a coragem que basta para o próximo passo.
Afinal, o coração, mesmo que, por vezes, seja um lugar desconfortável porque é honesto quando te diz que a vida te cansa, tem sempre uma teimosia fantástica em esperançar-se!
E a esperança é incrível quando não é frase feita. Quando não promete. Quando não nos dá garantia. Quando não é entusiasmo nem estardalhaço. Quando não é um penso rápido. Quando não nos obriga, à força, a encontrar um sentido e direção.
A esperança é prodigiosa quando é pequena e verdadeira. Quando a experimentamos com cuidado, sabendo que ela não evita os trambolhões, não impede de doer, não resolve, mas nos ensina que o que fere não é tudo. Ensina-nos a dizer que hoje não dá e que amanhã talvez seja possível. E que fazer escolhas não é frieza mas um sinal de humanidade. Um direito.
E é por isso que o teu coração insiste no gesto de acreditar.
Acreditar que só tu és a única solução possível quando já não existem respostas certas para as perguntas que ainda te esforças por compreender. Acreditar que não controlar a vida é igualmente um modo de confiar.
Inconformado… é acreditar que ainda sentes e que, apesar do cansaço, ainda não desististe de procurar a tua própria voz. De te procurar.
Então, acredita: viver com esse coração é uma aventura de profunda coragem.
Sim, esta carta não te traz nenhuma solução. Apenas companhia para o que, às vezes, não consegues dizer.
Pede-te que pares. Que percebas quem já não consegues ser. Que respires. Que acendas a luz e que fiques enquanto procuras. Com tempo. Com consciência. Com gentileza.
É assim que voltamos a aparecer. E o que não pertence aqui… é futuro.
Paula Freire
Acredita que a vida não dá certezas absolutas nem tem respostas fáceis. E que a sensibilidade humana nunca deve ser confundida com fragilidade.
É psicóloga e psicoterapeuta. Publicou “Lírio: Flor-de-Lis” e “As Dúvidas da Existência: Na Heteronímia de Nós”. Este último (em coautoria), assinado pelo seu heterónimo Lázaro Rios, a sua forma de liberdade mais pura e crua.
Gosta de viver sem ruídos desnecessários e inteira dentro da sua escrita. Tudo o resto são só excessos.
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