Por: Paula Freire
(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)
(Colaboradora do Memórias...e outras coisas...)
Tempos houve, desses já bem distantes, que ninguém sabe contar por reis nem reinados, em que numa pequena aldeia afundada nos densos vales do alto do nosso país, morou uma mulher de nome Madalena da Veiga. Como se fruto fosse de um batismo duplo, o apelido vinha-lhe do pai e do remoto lugar onde nascera e fora criada.
Madalena, cabelos longos, embranquecidos sem pudor pelas geadas da vida, rosto duro e corpo talhado pelo trabalho com as enxadas, e torcido pela roupa lavada na água gelada do rio, era mulher de poucas posses. Cedo soubera que a vida não se adianta aquecida por confortos humanos. Habitava a pequena casa de xisto na orla da povoação. O povo conhecia-lhe a história, pese embora, com os anos ela tivesse aprendido a calá-la: viúva muito cedo e um filho igualmente perdido para a morte, quando era ainda criança.
Certo findar de dia, com uma nébula traiçoeira a descer como forra de algodão sobre os ramos das árvores, Madalena, com o seu feixe de lenha às costas e o pensamento longe, regressava a casa mais tarde do que devia. Um percurso amiúde percorrido mas que, dessa vez, se lobrigava mais longo, como se os pés lhe houvessem esticado a distância em direção ao destino.
Numa curva do caminho, e por entre a quebra fugaz dos cordões de neblina, reparou com estranheza na posição da lua já nascida. Não ascendera ao céu. Turva e embaciada, ficara parada a meia altura entre o chão e as nuvens escondidas, confundida entre o desejo de subir e a vontade de cair.
Com os olhos enregelados como pássaros fugidos do ar gélido da invernia, Madalena não queria deixar-se perder em distrações. Não era pelo luto do céu, era a moinha nos ossos que a faziam adivinhar chuva iminente na ânsia de derreter a neve da estação que já se prolongava.
Mas de maior assombro foi acometida quando lhe soou ao ouvido um estranho cântico, sem que nenhuma boca lhe saltasse à vista. Talvez tivesse surgido das entranhas da própria terra, pensou com pasmo e desconfiança. E, com coração mais lento, acelerou o passo pelo estreito carreiro, afundada na erva molhada da orvalhada, enquanto a canção suave se elevava e descia, com insistência.
A espécie de récita em forma de melodia aproximava-a do rio, ali perto, e por maior que lhe parecesse a singularidade da situação, trazia-lhe uma paz interior que não conseguia entender.
“Fio do vento fio da bruma, leva a noite traz a lua.
Fio da água fio do prado, leva a noite e deixa o teu fado”
Foi quando viu a Velha. Debaixo de uma árvore de grande porte, sentada em tosco banco de madeira, que ocupava como se sempre lhe fora pertença. De espessos cabelos nevados a penderem-lhe sobre os ombros, e com dedos firmes e decididos, trabalhava vagarosamente no seu tear a névoa que se agigantara por cima das serenas águas do rio, fazendo-a cerrar caminhos e abrir clareiras, sob o comando da sua voz.
Madalena não recuou. Fora criada para respeitar o que não compreendia. Fez descansar a lenha no chão achando por bem mostrar de cortesia.
— Boa noite, Madrinha.
Observou a figura à sua frente. Por momentos, sentindo um frio miúdo pelo corpo acima, julgou reconhecer nela os seus próprios traços.
A Velha ergueu a cabeça na sua direção com uma severidade pouco ameaçadora. Não se mostrava surpreendida com aquela presença repentina ao raiar da enevoada noite.
— Boa não é. Mas também não é má. A noite não se julga. Seguimos apenas por ela adentro — respondeu simplesmente, num gesto que lhe bastou para ler as ideias de Madalena.
Ditou-lhe, com um sorriso de compreensão:
— É exatamente isso. Nem sempre os que vês fora de ti te são estranhos. Pensas-te só, mas todos somos feitos da mesma meada. Muitos nomes a correr por vários fios. A mesma dita.
Madalena ficou quedada a ruminar o sentido daquelas palavras.
— O que estais a tecer? — perguntou, por fim. — Nunca assim vi fiar, sem lã.
— Porque te ensinaram a olhar apenas para o que tem fim. — disse a Velha. — Mas ele há afazeres que só a morte põe ponto final.
E estendeu-lhe o fuso.
Madalena tocou no objeto e a Velha fitou-a, demoradamente, a medir-lhe as sombras que lhe moravam no coração, como se segurasse entre as mãos pedaços de argila húmida acabada de escavar. O corpo do marido na última noite, o filho que partira, as madrugadas vazias, os campos sem pão, as labutas em vão. A lentidão magoada dos dias com fome de alimento e de abraços.
— Não há mão que não tenha passado por este tear, minha filha. É dele que todos saímos — esclareceu. — O que te dói já doeu a muitos antes de ti e assim a cada passo haverá de ser. Ele não nos faz diferentes, só nos gira e emaranha de maneira desigual. Se largares constantemente os fios que te dão forma, a memória perde-se no tempo e esqueces tudo o que aprendeste e aqueles que já amaste. Se te agarrares demasiado a eles, acabarão por te ferir e impedir de continuares a tecer o trilho que te é devido. O segredo está em conhecer o exato instante de saltar o fio adiante. Quando o conseguires, terás aprendido os mistérios do teu curso.
E desviou o olhar profundo para o vale abrigado no manto branco da neblina.
Madalena lançou-lhe ainda uma última indagação:
— E vós, que guardais todos esses ocultos saberes, quem sois?
A Velha soltou dos lábios um riso velado.
— Sou aquela que permanece quando todos partem. Muito mais velha do que a própria idade. Trago em mim aquilo que nos homens sempre lhes escapou ao entendimento. Talvez te tivesse fadado, para hoje, este encontro.
Madalena sentiu-se frágil perante aquela personagem misteriosa que lhe calhara em caminho, nessa noite, a fiar o tempo enquanto a aguardava junto às fronteiras de um mundo desconhecido. Mas, curiosamente, encontrava um inexplicável conforto ao observar-lhe o semblante como se já há muito lhe estivesse em sorte tal revelação.
Enquanto a névoa se abria, devagar, libertando finalmente a lua e tornando o ar mais leve e o carreiro limpo, Madalena regressou a casa, sem aquela pressa dos que receiam os silêncios da noite, ciente de que algo em si já não era o mesmo, como quem sabe que o seu interior fora tocado por uma mão impossível de se ver.
Para trás ficou o banco onde encontrara sentada a velha tecedeira.
Desde essa noite, Madalena da Veiga passou a ter um trato diferente com o mundo. Viam-lhe o mesmo porte de quem se dedicava aos dias sem alarde, a mesma atenção de quem vislumbrava as gentes sem se deixar enganar por aparências, a mesma expressão de uma paciência cautelosa. Mas dizia o povo que ela passou a atender às coisas com outros olhos e outros ouvidos.
Sem pretensões de mestra, inteirava os mais novos sobre a desilusão do descanso fácil, quando a vida lhes pesava nos ombros ainda tenros e a impaciência lhes fervia no sangue, fazendo-os ver que a dor não nos aparta, que ela é uma herança comum e que, por isso, há lidas que nos acompanham a todos até ao fim.
E ao passo que a vizinhança se afligia com as maleitas da vida e a quietação da solidão, Madalena confiava. Dizia que tudo vem quando é hora de vir. E a essa sina nada escapa. O maior perigo, advertia, é a memória não saber desprender-se do que convém. E que só quem se faz sabedor desta lição deixa de andar às cegas.
Foi desde esse outro tempo, que não ficou assentado em papel, mas somente lavrado na lembrança dos vales, com o rio a correr-lhes por baixo das terras, que a história chegou até nós. Em dias idos, contou-me o meu avô que, até ao presente, quando a noite acorda súbito no seu véu de nevoeiro, se avisa na aldeia:
— Põe sentido no teu rumo. Olha que a Velha ainda está a fiar…
Paula Freire
Paula Freire. Tem curiosidade pelo que se mostra sem intenção: o comportamento que revela mistérios, intimidades. Observa-o enquanto desenha pessoas e fotografa o mundo. As palavras nascem-lhe da escuta atenta do Homem, dos silêncios que deixam vestígios. Escreve a partir de múltiplos lugares. Alguns com rosto, outros sem nome.
Acredita que a vida não dá certezas absolutas nem tem respostas fáceis. E que a sensibilidade humana nunca deve ser confundida com fragilidade.
É psicóloga e psicoterapeuta. Publicou “Lírio: Flor-de-Lis” e “As Dúvidas da Existência: Na Heteronímia de Nós”. Este último (em coautoria), assinado pelo seu heterónimo Lázaro Rios, a sua forma de liberdade mais pura e crua.
Gosta de viver sem ruídos desnecessários e inteira dentro da sua escrita. Tudo o resto são só excessos.

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