quarta-feira, 26 de julho de 2017

… quase poema… ou das longas partidas

Ontem os sinos tocaram a finados. Assustamo-nos sempre que se ouve o som lúgubre no campanário da pequena igreja. A aldeia fica de luto. Não é só mais um vizinho que foi descansar depois duma longa e honrada caminhada… é toda a aldeia que paulatinamente está a morrer…
… cada recanto do povoado guarda memórias… a chegada da horta… o carro carregado de feno… o balir do rebanho… os filhos brincando nas eiras… 
…da minha varanda já não vejo os meus vizinhos… um sol poente, lá para os lados da Senhora da Serra, anuncia a vida noutros mundos, noutras paragens...
… estou de luto… de luto pesado … pelos meus vizinhos que durante tantos anos lavraram a terra… colheram os frutos… criaram os filhos… e a aldeia animava-se…
… morrem-me os vizinhos… guardo este silêncio que grita….
… ficam os freixos altaneiros… fica o ribeiro… ficam as hortas… ficam as memórias que carregamos ao colo… e fica esta tristeza imensa em forma de pranto que se ouve no descampado transmontano…
… acendo a candeia de azeite… minha Senhora da boa morte recebe amorosamente os teus filhos…
… esta é a minha prece!



Fernando Calado
(Escritor Transmontano)

Sem comentários: