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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quarta-feira, 11 de março de 2026

A Farsa da Ordem Mundial

 Da Faixa de Gaza à Ucrânia e agora ao Irão, os conflitos contemporâneos revelam a fragilidade de uma ordem mundial que serve o poder, não as pessoas.


Há algo profundamente obsceno na forma como o mundo está organizado. Obsceno porque bilhões de vidas são condicionadas por decisões tomadas por um punhado de líderes que nunca foram escolhidos pela humanidade, mas que na prática determinam o destino dela. Três grandes centros de poder. Estados Unidos, China e Rússia. Estes países comportam-se como se fossem os proprietários do planeta, movem peças num tabuleiro geopolítico onde os interesses estratégicos valem mais do que a vida humana. E no meio desta engrenagem de poder, desaparece a pergunta essencial: -Onde está o mundo das pessoas?

Bilhões de seres humanos vivem reféns das decisões de um punhado de homens sentados em palácios, gabinetes blindados e salas onde o povo nunca entra. Três centros de poder ditam sanções, guerras, crises financeiras, rotas energéticas, preços dos alimentos e do futuro, e fazem-no sem qualquer legitimidade moral global. Não foram eleitos pelo mundo, mas governam o mundo. Não respondem aos cidadãos do planeta, mas condicionam a vida de todos.

É insuportável aceitar que três líderes, três regimes, três máquinas de poder possam manter a humanidade inteira em estado permanente de tensão. Um ameaça com armas nucleares, outro controla populações com vigilância total e repressão, outro vende democracia enquanto impõe caos económico e guerras indiretas. Mudam os discursos, mudam as bandeiras, mas o resultado é sempre o mesmo. Os cidadãos pagam, os poderosos lucram.

Enquanto os estrategas discutem influência, hegemonia e corredores energéticos, as guerras concretas continuam a destruir vidas reais. Na Faixa de Gaza, populações inteiras vivem há meses entre bombardeamentos, bloqueios e uma crise humanitária que ultrapassa qualquer limite moral aceitável. Crianças crescem com o som de explosões, hospitais lutam para funcionar e milhões de civis vivem encurralados num território onde a sobrevivência diária se tornou um ato de resistência.

Na Ucrânia, a guerra prolonga-se como uma ferida aberta no coração da Europa. Cidades destruídas, famílias separadas, milhões de refugiados espalhados por vários países e uma geração inteira marcada por um conflito que rapidamente deixou de ser apenas regional para se tornar parte de uma disputa geopolítica global. A Ucrânia tornou-se palco de um confronto indireto entre potências, onde cada avanço ou recuo militar é analisado como um movimento estratégico num tabuleiro maior.

E agora, mais recentemente, a escalada que envolve o Irão veio acrescentar um novo e perigoso capítulo a esta lógica de confrontação permanente. O que durante anos foi uma tensão latente, marcada por sanções, confrontos indiretos, operações clandestinas e ameaças militares, transformou-se num conflito aberto que ameaça incendiar todo o Médio Oriente. A entrada do Irão no centro de um cenário de guerra direta não é apenas mais um episódio regional, é um sinal claro de que o mundo se está a aproximar perigosamente de uma era de conflitos interligados, onde qualquer faísca pode desencadear uma crise de dimensões globais.

Em todos estes cenários, Gaza, Ucrânia e Irão o padrão repete-se de forma cruel e previsível. As decisões são tomadas longe das populações que sofrerão as suas consequências. As estratégias são desenhadas em gabinetes seguros enquanto civis vivem por debaixo dos bombardeamentos, deslocações forçadas, fome e medo. Para os centros de poder, estes conflitos são cálculos estratégicos, linhas vermelhas, equilíbrios militares e influência regional. Para as pessoas comuns, são casas destruídas, familiares mortos, vidas interrompidas.

Chamam-lhe “ordem mundial”, mas não há ordem nenhuma, há domínio. Chamam-lhe “equilíbrio geopolítico”, mas o equilíbrio é construído sobre o medo, a chantagem e a desigualdade extrema. O mundo não é governado por valores humanos, mas por interesses estratégicos, petróleo, rotas comerciais, influência militar, moedas e egos gigantescos. A vida humana tornou-se uma variável secundária num cálculo frio.

Como é possível que no século XXI ainda aceitemos que bilhões de pessoas não tenham voz real nas decisões que moldam o destino do planeta? Como é possível que a democracia continue a ser um privilégio geográfico, enquanto grande parte da humanidade vive debaixo de autoritarismo direto, indireto ou sob a influência esmagadora de poderes externos? Como é possível que se fale tanto em liberdade enquanto se normaliza a vigilância massiva, a censura, a manipulação da informação e a propaganda em escala global?

Vivemos numa era em que a tecnologia permitiria uma participação global sem precedentes, uma cooperação entre povos nunca antes imaginada. No entanto, o que vemos é o contrário, uma concentração cada vez maior do poder, decisões cada vez mais opacas e uma política internacional dominada por interesses militares, financeiros e estratégicos que raramente têm em conta o bem-estar das populações.

O mais revoltante é a normalização disto tudo. Ensinaram-nos a aceitar que “o mundo é assim”, que “não há alternativa”, que “a política internacional é suja por natureza”. Repetem-nos que as guerras são inevitáveis, que as tensões são naturais, que os conflitos são parte da ordem global. Mas isso não é realismo, é resignação. É a vitória dos donos do mundo… convencer-nos de que não temos direito a exigir mais, a questionar, a indignar-nos.

Recuso-me a aceitar que o destino da humanidade seja decidido por três centros de poder que não representam a diversidade, a dignidade nem as necessidades reais das pessoas. Recuso-me a aceitar que a guerra continue a ser tratada como instrumento político legítimo no século XXI. Recuso-me a aceitar que crises económicas fabricadas ou manipuladas sejam apresentadas como fatalidades naturais inevitáveis.

Nada disto é inevitável. É escolhido. São decisões humanas, tomadas por estruturas de poder que se habituaram a agir sem prestar contas à humanidade.

A verdadeira revolta começa precisamente aqui, na recusa em aceitar a narrativa do poder como única possível. Começa na consciência crítica, na denúncia pública, na exigência de uma política internacional mais transparente, mais humana e verdadeiramente representativa dos povos. Começa na ideia de que o mundo não precisa de ser dominado por impérios, mas pode ser construído por cooperação entre sociedades.

Um mundo multipolar não feito de blocos militares rivais, mas de povos com voz. Um mundo onde a cooperação valha mais do que a intimidação, onde a economia sirva a vida e não o contrário, onde a política volte a ser um espaço de responsabilidade ética e não apenas de cálculo estratégico e cinismo diplomático.

O mundo não pertence aos Estados Unidos, à China ou à Rússia. O mundo pertence às pessoas. Pertence às milhões de famílias que apenas querem viver em paz, trabalhar, educar os filhos e construir um futuro digno.

A indignação não só é legítima, é necessária. A apatia é o terreno fértil onde os “donos do mundo” prosperam. E pensar, questionar e revoltarmo-nos, mesmo que apenas com palavras, já é um ato de resistência.

Num tempo em que as guerras voltam a multiplicar-se e as tensões globais se acumulam, a consciência crítica talvez seja a primeira e mais importante forma de defesa da humanidade. Se recusarmos aceitar o mundo tal como está imposto, continuará a existir a possibilidade de o transformar.

HM
Março de 2026

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