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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 24 de março de 2026

Pois… a vida dos pobres era assim. E, para muitos, continua a ser.


 Vida dura, mas nossa.

Lembro-me bem desses dias. Lá ia eu, ainda rapaz, atrás do meu pai, desde a Boavista até Donai, com um balde na mão. Não caminhava ao lado dele, seguia sempre um pouco mais atrás, não por escolha, mas porque os passos dele eram largos e decididos, difíceis de acompanhar. Ao ombro, levava a saca de serapilheira com o nosso farnel e a pedoa.

Quando passávamos pela lixeira municipal, o cheiro era forte, nem vale a pena descrevê-lo com muitos detalhes. Era daqueles que ficam na memória mesmo sem querer. Corvos por todo o lado, a grasnar e a remexer no lixo, como se também eles lutassem pela sobrevivência. Virávamos então, seguindo a placa que indicava Donai, Espinhosela e Terroso. Mais dois quilómetros de caminho, e outra vez o desvio, junto a um carrascal que o meu pai dizia ser baldio. Era ali o nosso destino.

Mal chegávamos, começava o trabalho. O meu pai, sem perder tempo, pegava na pedoa e ia desbastando as carrasqueiras e estevas. Eu fazia o que podia: juntava a lenha, devagar, escolhendo um descampado, perto de uma pequena agueira. Quando já havia suficiente, ele trazia giestas secas e preparava a fogueira. Eu, entretanto, já tinha o balde cheio de água, pronto para ajudar.

O lume acendia-se com o isqueiro a gasolina, daqueles antigos, que diziam precisar de licença. Nunca soube se o meu pai a tinha, mas também nunca o vi preocupar-se com isso. O fogo crescia depressa, mas era preciso saber controlá-lo. Não podia arder tudo de uma vez. Íamos dominando as chamas, molhando a lenha quando era preciso, com cuidado e paciência.

Quando o fogo já estava no ponto certo, vinha o momento de comer. O meu pai puxava umas brasas para o lado e, entre duas pedras, punha uma alheira a assar. Sentávamo-nos ali mesmo e, com um pedaço de pão e aquela alheira dividida, matávamos o bicho. Mas que manjar! Sabia bem, talvez porque era simples, ou talvez porque era o que havia.

Depois voltávamos ao trabalho. Com um ramo de carvalho, o meu pai afastava as brasas ainda vivas, e eu ia molhando, para que não se transformassem em cinza. Era preciso tempo, quase uma hora, sempre atentos, até que toda a lenha se transformasse em boas brasas, prontas para guardar.

No fim, enchíamos o saco de serapilheira. E lá vinha eu, com ele às costas, desde Donai até à Boavista. Custava, claro que custava. Era um longo caminho, mas eu já tinha treze anos… e sentia um orgulho difícil de explicar. Desta vez, o meu pai vinha atrás de mim, com o balde de água, atento a qualquer sinal de fumo, não fosse alguma brasa mal apagada reacender pelo caminho dentro do saco.

Quando chegávamos a casa, a braseira já tinha o seu lugar à nossa espera. E que bem sabia sentar-me à mesa, de forma redonda, com os pés quentinhos debaixo da toalha, a folhear um almanaque do Tio Patinhas. As brasas, que tanto trabalho tinham dado, acabavam por se transformar desta vez em cinza. Mas nem isso se perdia: guardava-se, para mais tarde adubar a terra, para dar força às cebolas quando a primavera chegasse.

Era assim a vida.

Dura, simples… mas nossa.

Eduardo Mesquita

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