Há quem queira pintar a manta e vestir-me com cores partidárias. Na infância, diziam-me que o rubro me assentava bem, talvez prevendo acesos debates de sacristia. Nem ontem, nem hoje, nem rubro, verde, rosa, laranja, ou azul-celeste. Até uma camisa me incomoda se antevejo leituras enviesadas no tribunal da esquina, ou no adro da igreja. Há anos que o branco e o cinza contrastam na indumentária, com o colarinho clerical usado com orgulho (e sem desprimor para os administrativos). Fora do traje, prefiro a “t-shirt” da Senhora da Assunção trazida por amigos do Ceará, imune a suspeitas ibéricas.
“Não nos venham pedir contas / não venham pôr-nos regras”, cantava o Trovante em 1986. Abundam hoje os que fazem declarações de interesse por serem tão discretos, que esquecem o quanto são secretos. No meu caso, escusam de procurar agendas ocultas, não sou secreto, nem discreto, nem ideologicamente conotado. A minha única conspiração é pública e, celebrada ao altar. Se escrevo sobre política, economia, ou património, no interior não faço campanha, faço um reparo.
A minha declaração de interesses é não defender ideologias. Afinal, “o mais do que isto é Jesus Cristo, que não sabia de finanças nem consta que tivesse biblioteca” (Pessoa, 1937). Identifico-me com o Ensino Social da Igreja. Quando o silêncio se instala, a omissão torna-se pecado e a intervenção é um dever em defesa dos conterrâneos (Tiago 4, 17). “Não apenas evitar o mal, mas buscar o bem” (A. Vieira, 2019). Houve quem me quisesse na barricada para animar os serões, mas não vou por aí. Como no “Cântico Negro” de José Régio (1926), recuso caminhos alheios: “Não sei por onde vou, sei que não vou por aí!”.
A minha bússola é o Magistério Petrino. Se o Papa Francisco escreveu na “Evangelii Gaudium” (2013, 183) que a religião não se confina à intimidade secreta, o Pontífice, Leão XIV, recorda a urgência de construir pontes nas periferias (2025). Intervir contra o esbulho patrimonial é fidelidade ao Evangelho, não política. Citar autores de intervenção é reconhecer uma geração que ultrapassou o seu Cabo da Boa Esperança e operou uma mudança epocal. Navego num mar imenso com bússola própria, dispensando compassos de engenharia política ou geometrias secretas.
Recordo o jesuíta Anthony de Mello (1995), um pássaro não canta para transmitir uma mensagem, mas porque “traz a melodia na garganta”. É com esse eco que convoco Zeca Afonso (1974), “o que faz falta é acordar a malta”, já que a fé sem obras é morta (Tiago 2, 26). E sigo Sérgio Godinho, “o herói d’hoje aguenta o contratempo / olha p’ra trás e diz ‘foi no meu tempo’”. Este artigo é o respaldo aos que se sentiram desconfortáveis com a verdade. Não abdico da liberdade, nem da defesa do povo de Deus. A voz do padre no interior não é um púlpito eleitoral, é o eco de uma Igreja que não se resigna perante o grito abafado da sua gente. Sosseguem os que temem o sermão, o Evangelho não morde, apenas acorda consciências.



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