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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A melodia na garganta


 Há quem queira pintar a manta e vestir-me com cores partidárias. Na infância, diziam-me que o rubro me assentava bem, talvez prevendo acesos debates de sacristia. Nem ontem, nem hoje, nem rubro, verde, rosa, laranja, ou azul-celeste. Até uma camisa me incomoda se antevejo leituras enviesadas no tribunal da esquina, ou no adro da igreja. Há anos que o branco e o cinza contrastam na indumentária, com o colarinho clerical usado com orgulho (e sem desprimor para os administrativos). Fora do traje, prefiro a “t-shirt” da Senhora da Assunção trazida por amigos do Ceará, imune a suspeitas ibéricas.

“Não nos venham pedir contas / não venham pôr-nos regras”, cantava o Trovante em 1986. Abundam hoje os que fazem declarações de interesse por serem tão discretos, que esquecem o quanto são secretos. No meu caso, escusam de procurar agendas ocultas, não sou secreto, nem discreto, nem ideologicamente conotado. A minha única conspiração é pública e, celebrada ao altar. Se escrevo sobre política, economia, ou património, no interior não faço campanha, faço um reparo.

A minha declaração de interesses é não defender ideologias. Afinal, “o mais do que isto é Jesus Cristo, que não sabia de finanças nem consta que tivesse biblioteca” (Pessoa, 1937). Identifico-me com o Ensino Social da Igreja. Quando o silêncio se instala, a omissão torna-se pecado e a intervenção é um dever em defesa dos conterrâneos (Tiago 4, 17). “Não apenas evitar o mal, mas buscar o bem” (A. Vieira, 2019). Houve quem me quisesse na barricada para animar os serões, mas não vou por aí. Como no “Cântico Negro” de José Régio (1926), recuso caminhos alheios: “Não sei por onde vou, sei que não vou por aí!”.

A minha bússola é o Magistério Petrino. Se o Papa Francisco escreveu na “Evangelii Gaudium” (2013, 183) que a religião não se confina à intimidade secreta, o Pontífice, Leão XIV, recorda a urgência de construir pontes nas periferias (2025). Intervir contra o esbulho patrimonial é fidelidade ao Evangelho, não política. Citar autores de intervenção é reconhecer uma geração que ultrapassou o seu Cabo da Boa Esperança e operou uma mudança epocal. Navego num mar imenso com bússola própria, dispensando compassos de engenharia política ou geometrias secretas.

Recordo o jesuíta Anthony de Mello (1995), um pássaro não canta para transmitir uma mensagem, mas porque “traz a melodia na garganta”. É com esse eco que convoco Zeca Afonso (1974), “o que faz falta é acordar a malta”, já que a fé sem obras é morta (Tiago 2, 26). E sigo Sérgio Godinho, “o herói d’hoje aguenta o contratempo / olha p’ra trás e diz ‘foi no meu tempo’”. Este artigo é o respaldo aos que se sentiram desconfortáveis com a verdade. Não abdico da liberdade, nem da defesa do povo de Deus. A voz do padre no interior não é um púlpito eleitoral, é o eco de uma Igreja que não se resigna perante o grito abafado da sua gente. Sosseguem os que temem o sermão, o Evangelho não morde, apenas acorda consciências.

Pe. Estevinho Pires

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