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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 1 de agosto de 2026

Até para ir para o céu, é preciso passar pela serra


 Quem nasce no nordeste profundo brigantino sabe que a vida se rege pelos sinos. No eixo sul, no pé da Serra da Nogueira, a fé caminha em espiral, marcando os meses numa matriz cristã inscrita na alma do povo.

O ciclo abre com as Cinzas, a Quaresma, a Páscoa e, a Visita Pascal, depois vem o 3 de maio e, a novena da Santa Cruz, em Cabeça-Boa. Cinquenta dias após a Páscoa, a novena do Pentecostes em São Pedro de Sarracenos, logo depois o novenário prossegue em Samil com o Santo António a 13 de junho. A 29 de junho, honra-se o padroeiro em São Pedro de Sarracenos. Em 15 de agosto, o compasso acelera com a padroeira de Samil, a Senhora da Assunção. Em Alfaião, as novenas da Senhora da Veiga acolhem os emigrantes, no 3.º domingo de agosto. São Roque assinala-se a 16 de agosto também em Samil e, nesse mês ainda a 24 corre-se ao São Bartolomeu. Coroa-se o verão no alto da «aldeia da novena», cumprindo o «fique»* de 29 de agosto até à festa da Senhora da Serra, a 8 de setembro. No outono, Santa Teresinha (1 de outubro), a Senhora do Rosário (7 de outubro) e, o São Judas Tadeu (28 de outubro) protegem Samil, guardando-nos o fôlego até ao São Martinho (11 de novembro) padroeiro de Alfaião, findo o qual o Natal e a refeição comunitária de bacalhau no Santo Estêvão nos aquecem.

Pelo meio atrapalha-se o mês de maio, o terço comunitário, as confissões na Quaresma e, toda uma “linguagem do coração”, entre sufrágios e muitíssimos funerais, que começam a deixar os párocos em verdadeira arritmia. Estes mistérios vivos, da piedade e da liturgia, perdem gente e, fôlego.

A génese deste esquema de fé está nas velhas abadias. Os párocos rodavam de festa em festa, num modelo que combatia o isolamento, dava sustento e, criava fraternidade sacerdotal. Valorizava-se a liturgia, o canto, a saúde e a vida espiritual, na ausência do SNS, os Santos eram o Ministério da Saúde contra as pestes. Pese o dinamismo juvenil, que persiste em animar a todo o custo a festa, falta ardor que suporte esta “atividade missionária espontânea”, que derreta o gelo, que a implacável demografia agravou, levando leigos e não poupando nos clérigos.

Só o culto, a “via da beleza”, a dignidade do altar, a verdade dos sacramentos, o canto que encanta as novas gerações e rejuvenesce assembleias, a verdade e autenticidade de uma vida cristã, que incremente uma maior participação ativa dos leigos, ajudam a contrariar a insana demografia! As confrarias, como a da Santa Cruz, ou da Senhora da Serra, continuam a ser pilares desafiadores de atualização e renovação. Mais do que carregar andores, como quem faz uns minutos de ginásio, precisamos de discípulos. Unindo os avós que guardam a memória e os netos que trazem a energia, gera-se corresponsabilidade. Provamos que a Igreja continua viva e que aqui, até para ir para o Céu, é preciso passar pela Serra.

Pe. Estevinho Pires

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