Por: Carlos Pires, inVERSOS, 1973
(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Quando eu morrer…
Quando deixar de ver guerras,
Bichos, bestas, papões, oportunistas,
Intrujões e malfeitores…
Quando deixar de ver um Sol mal repartido,
Banquetes de papanças, festanças com fantoches,
Homens de cilha na barriga e sobrecarga no bandulho,
Almas sem pão no inferno da miséria,
Bocas sem paz na paz das injustiças
E monstros a brincar aos soldadinhos
Incutindo, heroicamente, amor ao ódio na destruição da Humanidade…
Abra um Sol novo que os pobres ilumine!
Haja um novo Mundo, sem raças, distinções!
Haja paz, sossego, em TODAS as nações!
Quando eu morrer…
Quando me gelar o céu da boca,
Que toda uma mudança neste mundo seja pouca!
As mãos se apertem em paz e amizade
E os pobres façam parte de uma só Humanidade!
Quando me gelar o céu da boca,
Que toda uma mudança neste mundo seja pouca!
As mãos se apertem em paz e amizade
E os pobres façam parte de uma só Humanidade!
Quando eu morrer…
Seja a morrer o chefe dos cruéis,
Recomece-se outra história,
Legislem-se outras leis,
Festeje-se com palmas a palma da vitória!
E dançai! Pulai! Cantai!
Contratai, familiares, os bailarinos mais briosos,
Toquem a despique os conjuntos mais famosos!
Seja a morrer o chefe dos cruéis,
Recomece-se outra história,
Legislem-se outras leis,
Festeje-se com palmas a palma da vitória!
E dançai! Pulai! Cantai!
Contratai, familiares, os bailarinos mais briosos,
Toquem a despique os conjuntos mais famosos!
Quando o frio me gelar,
As fanfarras não parem de tocar!
Haja sarabanda e reboliço,
Metam-lhe bons copos,
Festejando a união,
O branco, o preto e o mestiço!
Ouça-se o batuque,
Dance-se merengue, valsas, tangos e balé!
Baloucem ancas,
Gozem corpos,
Cante-se em tom alto, bem de pé,
Um coro bem alegre e vivo contra os mortos!
As fanfarras não parem de tocar!
Haja sarabanda e reboliço,
Metam-lhe bons copos,
Festejando a união,
O branco, o preto e o mestiço!
Ouça-se o batuque,
Dance-se merengue, valsas, tangos e balé!
Baloucem ancas,
Gozem corpos,
Cante-se em tom alto, bem de pé,
Um coro bem alegre e vivo contra os mortos!
Quando eu morrer…
Seja Primavera!
Gorgolejem, cristalinas, as águas dos ribeiros,
Escambalhem-se os botões em rosas a sorrir,
O Sol espreite, lindo, no cimo dos outeiros,
E os prados sejam camas onde vós possais dormir!
Seja Primavera!
Gorgolejem, cristalinas, as águas dos ribeiros,
Escambalhem-se os botões em rosas a sorrir,
O Sol espreite, lindo, no cimo dos outeiros,
E os prados sejam camas onde vós possais dormir!
Quando eu morrer…
Não haja diferenças de brancas e de pretas,
E venham para o baile cegos, coxos e manetas!
Cumpra-se o que digo
E os mortos se levantem do fundo do jazigo!
Ladrem os cães,
Os lobos soltem uivos,
Relinchem os cavalos,
Entoem bem os burros!
Que à minha morte morra a “caridade”,
Se respeitem os direitos,
Se implante a igualdade!
Que à minha morte os pobres tenham sorte.
E toda a Terra, o Mundo, o Universo,
Saibam que quem morreu
Fui eu! Fui eu!
Não haja diferenças de brancas e de pretas,
E venham para o baile cegos, coxos e manetas!
Cumpra-se o que digo
E os mortos se levantem do fundo do jazigo!
Ladrem os cães,
Os lobos soltem uivos,
Relinchem os cavalos,
Entoem bem os burros!
Que à minha morte morra a “caridade”,
Se respeitem os direitos,
Se implante a igualdade!
Que à minha morte os pobres tenham sorte.
E toda a Terra, o Mundo, o Universo,
Saibam que quem morreu
Fui eu! Fui eu!
*O poema “Quando eu morrer…”, publicado em plena ditadura em in VERSOS - primeiro livro do autor, composto e impresso na Escola Tipográfica de Bragança em 1973 -, foi inspirado num dos mais emblemáticos poemas de Mário de Sá-Carneiro, "Fim".
Carlos Pires é natural de Macedo de Cavaleiros, tendo adoptado a pequena aldeia de Meles, onde crestou à solta nas férias grandes, como o seu verdadeiro berço. Como jornalista, fez parte das Redações do "Tempo", "Portugal Hoje", " Primeira Página", "Liberal", "Semanário" e da revista de economia "Exame" (de que foi editor). Em Bragança, colaborou no semanário "Mensageiro de Bragança" (1970-72), tendo sido co-fundador do semanário "ÈNÍÉ - uma voz do Nordeste Português" (1975) e da publicação "Domus", da Casa de Cultura da Juventude de Bragança (1977-78).
Foi assessor de imprensa de Maldonado Gonelha, ministro da Saúde (1983-85).
Entrou para o Infarmed em fins de 2000, depois de ter sido assessor de imprensa da ministra Elisa Ferreira, nos dois governos de António Guterres, primeiro no Ministério do Ambiente, depois no Planeamento (1995-2000).
No Infarmed criou o Gabinete de Imprensa, tendo sido porta-voz da instituição durante mais de uma dúzia de anos.
Alguns aspetos marcantes: a iniciativa da realização de um curso para jornalistas (2001), ministrado por peritos do Infarmed, em que os principais órgãos de informação estiveram representados, sobre o ciclo de vida do medicamento; a elaboração do jornal da instituição, "Infarmed Notícias", trimestral (de que é coordenador/editor/redator). A edição especial de Janeiro de 2018, com 120 testemunhos sobre o INFARMED na altura conturbada da ideia controversa da sua deslocalização para o Porto (depois editada em livro); e ainda a publicação de um livro, editado pela Âncora, "Redondilhando", que nasce no seio da instituição e cujo prefácio foi assinado por Ernesto José Rodrigues.
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