(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)
...continuação
O neto era um menino de rosto redondo e suave. O olhar era manso e assustado, quase sofrido. Tinha olhos redondos, esverdeados, quase esféricos, entre o verde oliva e o verde musgo, cor do limo. Parecia que tinha medo do mundo! O cabelo era loiro, como o trigo quando está pronto a ser ceifado. A avó devotava àquela criança sentimentos generosos. O neto seria o seu primeiro apoio na queda constante e interminável da vida. Era aquele neto a única ponte para o passado. Era o suporte derradeiro da sua esperança. Todo o resto se ia esboroando dentro de si. Ao amar assim tanto o neto, Tia Inácia criava alguma coisa, tinha uma fé e sentia-se útil. Sabia que a sua vida não seria inútil. Na maioria das vezes a nossa maior frustração é não compreendermos a utilidade daquilo que fazemos. Na verdade, grande parte das coisas que fazemos, são inúteis; fazêmo-las maquinalmente, sem uma entrega absoluta. Quantos de nós passamos uma vida inteira num emprego que detestamos? Chegamos ao local de trabalho já irritados e cansados pelo atraso e aperto nos transportes e pela má educação de quem se cruza connosco. Mal começa o dia, começamos logo a bocejar implorando que chegue a hora de sair para no dia seguinte desejarmos o mesmo! No entanto, o lavrador, por exemplo, sabe que aquilo que nasce e que colhe, foi ele que semeou, foi ele que criou! Tia Inácia não teve medo. Encarou com coragem a responsabilidade de criar o neto.
Tia Inácia cismava na vida e na morte, principalmente nesta. Arremessava no cinzento negro do amplo espaço celestial e para a nudez fria dos montes gritos de alma dilacerada. Trazia a dor escrita na cara. Deixamos de viver quando só se vivemos a dor. É importante a maneira como morremos. Não tanto para quem parte, mas mais para quem fica. Se soubermos que os nossos entes queridos morreram em paz, em conforto e rodeados de carinho, isso apazigua-nos a alma até à nossa vez.
Ouviam-se, quase continuamente, fortes rajadas de vento no colmo do telhado e no souto de castanheiros que havia nas traseiras da casa. O vento bufou tanto durante a noite toda e com tanta ferocidade, que mais parecia uma ninhada de gatos assanhados. Por outro lado, os pardais e os estorninhos protestavam veementemente contra a ousadia vendaval, que sacudia ferozmente os ramos dos castanheiros.
Durante a noite o menino teve pesadelos. Mexia-se e gemia muito, de maneira aflitiva. Mostrava-se inquieto, impaciente e atormentado.
- Ó qu´é que tães, que num páras cos obos? Inté parece que tães bitchos carpinteiros!!- perguntou-lhe a Avó, preocupada.
- É um anxo que ´tá qui, a ri pa mim - disse com voz suave e macia, num murmúrio.
- Um anjo?! - perguntou a Avó admirada. - Pois ´stás com sorte, porqu´a mim só m´aparecem demónios. E o Anjo era bonito?
- Eia, xim. Tinha cabelo compido e baba tamãe compida. Dixia qué pa me potegê- respondeu com alguma satisfação na voz. – Paexe aquele que tá penduiado na cuz, na ingueja e na capeia de Xanta Bába! – acrescentou quase em sussurro.
A avó abraçou o menino contra si com afecto e com carinho e embalou-o com toda a doçura e assim adormeceram novamente até ao luzir do colmo.
Na verdade, à Avó só lhe povoavam os sonhos lembranças desagradáveis: as valentes surras que levou da Mãe enquanto criança, as vezes que mijou pelas pernas abaixo para as aquecer, a perda inesperada do Pai e os valentes tabefes e as frequentes arrochadas do Tchico Zé . Os bons tempos de criança trazem sempre muita saudade e vontade de a eles regressar. Recordava também a fome e o frio, rota, suja e descalça no Inverno. Quantas vezes os pés lhe verteram sangue de andar descalça pelos montes, em busca de uns fustos para acender o lume! Mas essas não eram as piores recordações e as que mais a afligiam. Essas aceitava-as e compreendia-as no contexto da época, mas a vida desgraçada que levou depois de adulta, essa é que a martirizava e a punha de mal com o mundo e com Deus. Tudo isso a tornou num pedaço frio de gelo, quase sem emoções. Apenas a ternura pelo neto a aproximava do humano! Só o amor àquela criança lhe preenchia de sol um pouco o coração cheio de fel, de onde só brotavam palavras avinagradas, cheias de pus. Era um amor incontrolável como uma trovoada de granizo em Agosto, aquele que dedicava ao menino.
Antes de adormecer recordou-se de duas conversas inocentes que tinham tido numa noite de lua cheia, sentados em frente da casa:
- Ó Bójinha! Aqueia lua ´stá bonita!!
- É berdade! Munto linda! É a lua tcheia.
- A oita da oita noite taba stagada. Chá eia belhota.
- Qual?
- A oita da oita noite. Até taba patida e tudo...Só tinha métade, no eia?
- Pois era. Tchama-se quarto crescente.
- Atão a oita pate caiu pa onde? Xe calhar caiu no rio.
- Num caiu – riu-se a Avó afagando-lhe a cabeça. - ´Staba lá toda, só que num se bia!.
Numa outra noite em que ambos apreciavam a beleza da lua cheia, perguntou-lhe o neto.
- Ó Bójinha! Aqueias xombas petas da lua, xão os montes?
- Aquilo ´scuro que se bê, é um home com as silbas às costas.
- Aí é?! E num cai?
- Não. E sabes porqu´é que ´stá lá?
- Não. Poquê?
- Porque andabá trabalhar ó Domingo, imentes dir à missa! Foi cortar silbas nas paredes dum prédio. Ós Domingos num se pode trabalhar, porqué o dia do Senhor. Atão, pra castigo, Deus posi-o lá na lua, pra todá gente o ber e serbir d´inxemplo.
Houve uma outra vez que lhe perguntou se as nuvens eram feitas de açúcar!
A solidão dominava a sua vida e tinha secado a fonte da coragem de viver. Tia Inácia era pragmática; não ia para além do que via. O rio, os montes, os pássaros e o gato, eram apenas o rio, os montes, os pássaros e o gato. Nada mais do que o real palpável e tangível ao primeiro olhar. Não tinha curiosidade em saber o que não sabia, pois o que não sabia poderia ser muito pior do que aquilo que sabia. Sabia o que sabia e isso bastava-lhe. O que não sabia não lhe atormentava a alma. Recebia a desgraça como um mal necessário à vida e recebia-o como a um hóspede que se aloja temporariamente em nossa casa, sem o questionar.
Poucos restos de uma felicidade passada lhe sobravam que lhe dessem esperanças para o futuro. Ia buscar desalmadamente a energia ao amor do neto. Quantas pessoas no mundo não têm isso, sequer?! Deu voltas à vida a digerir os pesadelos do passado e a ruminar o presente. O futuro, tal como o passado, apresentava-se-lhe como uma negra e espessa floresta de ralações, cheia de predadores. Mas é no passado que o futuro cria raízes. Pelas frinchas do telhado de colmo, além de um luar claro, manso e tristonho de fim de Inverno, entravam-lhe também as saudades no coração.
FIM
Fontes de Carvalho
Fontes de Carvalho, pseudónimo de Luís Abel Carvalho, nasceu no Larinho, uma aldeia transmontana do Concelho de Torre de Moncorvo, Distrito de Bragança. É o filho do meio de três irmãos.
Estudou em Moncorvo, Bragança e no Porto, onde se formou em Engenharia Geotécnica. É casado e Pai de três filhos.
Viveu no Brasil, onde passou por momentos dolorosos e de terror, a nível económico e psicológico. Chegou a viver das vendas de artesanato nas ruas e a dormir debaixo de Viadutos.
No ano de 1980 e 1981 foi Professor de Matemática em Angola, na Província de Kwanza Sul, em Wuaku-Kungo. Aí aprendeu a desmistificar certos mitos e viveu uma realidade muito diferente da propagandeada.
Em Portugal deu aulas de Matemática em diversas cidades, nomeadamente em São Pedro da Cova, Ponte de Lima, Cascais (na Escola de Alcabideche, onde deu aulas aos presos da cadeia do Linhó), Alcácer do Sal, Escola Francisco Arruda e Luís de Gusmão, em Lisboa. Frequentou durante quatro anos, como trabalhador-estudante, o curso de Engenharia Rural, no Instituto Superior de Agronomia.
Em 1995 fundou a empresa Bioprimática – Reciclagem de Consumíveis de Informática, onde trabalha até hoje como sócio-gerente.


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