(Colaborador do Memórias...e outras coisas...)
Luís Neves, não só pela forma eficaz com que combateu o crime organizado no nosso país, mas também e sobretudo pelo ataque certeiro e fundamentado que fez ao discurso xenófobo destruindo a base de barro em que assentava, é o meu herói!
E não deixou de o ser pelas circunstâncias recentes em que se viu envolvido.
Isto não quer dizer, de forma nenhuma, que apoie, suporte ou justifique qualquer uma das ações que, aparentemente, terá praticado. Não!
E esse é o principal erro em que Luís Neves caiu ao supor que o seu percurso enquanto dirigente da Polícia Judiciária, lhe serviria de escudo, justificação, alibi, para poder auto suspender os vários formalismos a que a sua condição de servidor público o obrigava. Não é por estar do lado do Bem que pode dispensar a necessária observação dos mecanismos democráticos de transparência e equidade que são exigidos a todos quantos gerem a coisa pública.
Esta técnica de tentar misturar assuntos estanques, usando com justificação, a a auto avaliação da bondade de cada uma delas, não é nova, infelizmente. Foram várias as figuras públicas, sobretudo autarcas que tentaram limitar a atuação do Ministério Público, quando lhe imputavam qualquer acusação, alegando que o sufrágio eleitoral era suficiente para demonstrar a bondade da sua atuação, mesmo que fugindo às naturais obrigações que o cargo lhes impunha.
Mesmo que seja verdade que a atuação ao arrepio das normas possa, eventualmente, trazer economias para o erário público, como Luís Neves alegou para a entrega da galera, com o respetivo conteúdo, ao seu amigo, o empreiteiro de Barcelos. Isto não pode, de forma nenhuma ser argumento. Em primeiro lugar porque essa análise perde qualquer credibilidade quando a contabilização é feita por quem decide e não por uma entidade externa, credenciada. Mas, mesmo que o fosse, não pode nunca, ser justificação para fugir ao normativo. Os mecanismos democráticos costumam ser mais caros que as normas ditatoriais. A começar pelas eleições. Mas não podemos dispensá-las só para poupar alguns milhões de euros aos cofres da nação!
Mas se a condição de herói não chega para justificar atuações menos recomendáveis, a avaliar por tudo quanto se conhece, até agora, igualmente não basta o desagrado e oposição à atuação de uma qualquer formação partidária, para condenar toda e qualquer atuação. Neste caso, com dupla mágoa, não posso deixar de aceitar como legítima e até alinhada com o interesse público a exigência do esclarecimento total e completo, apresentada por um partido extremista. A exigência de um Comissão Parlamentar de Inquérito é adequada e qualquer tentativa de a boicotar sendo incompreensível é, por isso mesmo, o pior que pode ser feito ao ministro, caso esteja inocente ou à democracia, caso não esteja.
Há, de qualquer forma, algo que me intriga: recentemente foi notícia um pretenso assalto a um Gabinete Parlamentar, de onde teriam sido furtados documentos com provas incriminatórias do MAI. Como é que é possível perpetrar tal assalto num edifício com a vigilância e controlo que o Parlamento tem? Se a informação era comprometedora, por que razão não foi já divulgada? Para apanhar o ministro desprevenido? Mas então o objetivo é caçar o membro do governo… ou apurar a verdade? O que podendo ser legítimo… não é ético. Mas, embora condenando, já me habituei à notória de falta de ética em determinadas formações políticas.
José Mário Leite, Nasceu na Junqueira da Vilariça, Torre de Moncorvo, estudou em Bragança e no Porto e casou em Brunhoso, Mogadouro.
Colaborador regular de jornais e revistas do nordeste, (Voz do Nordeste, Mensageiro de Bragança, MAS, Nordeste e CEPIHS) publicou Cravo na Boca (Teatro), Pedra Flor (Poesia), A Morte de Germano Trancoso (Romance) e Canto d'Encantos (Contos), tendo sido coautor nas seguintes antologias; Terra de Duas Línguas I e II; 40 Poetas Transmontanos de Hoje; Liderança, Desenvolvimento Empresarial; Gestão de Talentos (a editar brevemente).
Foi Administrador Delegado da Associação de Municípios da Terra Quente Transmontana, vereador na Câmara e Presidente da Assembleia Municipal de Torre de Moncorvo.
Foi vice-presidente da Academia de Letras de Trás-os-Montes.
É Diretor-Adjunto na Fundação Calouste Gulbenkian, Gestor de Ciência e Consultor do Conselho de Administração na Fundação Champalimaud.
É membro da Direção do PEN Clube Português.


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