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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 2 de agosto de 2026

A fíbula dos Bragança

Uma investigadora portuguesa analisa um velho artefacto das colecções reais à luz de uma história da medicina.

ALAMY E CATARINA JANEIRO, CORTESIA DO MUSEU BRITÂNICO- FONTE: "THE BRAGANZA FIBULA: MEDICINE PORTUGAL AND GALICIA" (CATARINA JANEIRO E JOSÉ PAULO ANDRADE) - A fíbula de Bragança tem sido interpretada pelos especialistas que lhe dedicaram atenção como um amuleto ou ídolo de função protectora, talvez um presente a alguém de estatuto elevado.

À sua maneira, a fíbula dos Bragança conta uma história do século XX português. Não se sabe de que ponto do país provém esta extraordinária peça votiva à qual os especialistas atribuem uma datação entre os séculos IV e II a.C., mas ela terá integrado a colecção de antiguidades de Dom Fernando, rei consorte de Dona Maria II.

Do rei, é legítimo deduzir que passou para as mãos de Dom Afonso, duque do Porto e irmão de Dom Carlos. Com a morte desta figura, em 1920, a peça tornou-se propriedade da sua esposa, uma socialite norte-americana chamada Nevada Hayes, que consumiu boa parte dos seus anos finais reclamando ao Estado português os bens que deixara em Portugal. A fíbula, porém, não constava nos inventários, o  que sugere que a viúva a levou de imediato para os Estados Unidos.

O novelo voltou a adensar-se na década de 1940, quando o joalheiro Warren J. Piper a adquiriu aos herdeiros de Nevada. Em 1949, a qualidade da ourivesaria chamava a atenção de alguns especialistas e a peça figurou pela primeira vez num catálogo. Anos depois, foi adquirida pelo coleccionador de Illinois Thomas Flannery, que enviou fotografias da peça para várias autoridades, cativando historiador de arte Ole Klindt-Jensen, que a deu a conhecer ao mundo em 1960. Cinco anos mais tarde, a peça foi exibida numa exposição em Edimburgo (Escócia).

O Museu Britânico mantinha a fíbula debaixo de olho e, no início do século XXI, quando a Christie’s a levou a leilão, a peça foi arrematada. Depois disso, voltou a ser mostrada em 2007 numa exposição em Madrid sob tema O Herói e o Monstro e começou a ser valorizada como importante ícone de uma cultura ibérica da Idade do Ferro, talvez propriedade de um chefe que quis transpor para o objecto a cosmovisão do seu povo.

Catarina Janeiro é historiadora da medicina na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e tem sido uma das responsáveis pela reabilitação do conhecimento sobre este artefacto, divulgando-o em congressos e chamando a atenção para as semelhanças do mesmo com outros artefactos coevos da região noroeste da Península Ibérica. “Eu creio que há um significado telúrico na fíbula”, diz. “A sociedade da Idade do Ferro dividia-se na tríade entre sacerdotes, artesãos e guerreiros. Os guerreiros e os sacerdotes usavam a magia de diferentes formas para protegerem o seu povo, mas carácter sagrado do seu mundo traduzia-se nos seus objectos.”

Não se sabe muito sobre a proveniência da peça, mas, por afinidade tipológica com a dezena de objectos similares, muitos especialistas concordam que deverá ter feito parte de um enxoval de uma cultura de inspiração celtibera da Galiza ou do Norte de Portugal.

Em 2023, Catarina Janeiro teve acesso à peça no Museu Britânico e teve então oportunidade de estudar melhor este extraordinário objecto de ouro maciço. “O tipo de capacete monte-fortino e a bainha da espada remetem para este universo cultural, mas interessa-me mais o uso que a peça poderia ter.” A historiadora acredita que a peça estabeleceria a ligação possível com o universo mágico destas comunidades. “O médico moderno é o repositório de ciência, mas já foi muitas coisas na história da nossa espécie: já foi druida e sacerdote e, neste contexto, acredito que esta peça destinava-se a proteger alguém, tal como ainda hoje se oferecem no Norte alfinetes e crucifixos de ouro aos bebés.” Longe do país há mais de um século, talvez a fíbula dos Bragança possa um dia regressar.

INTERPRETANDO A FÍBULA DE BRAGANÇA

ALAMY E CATARINA JANEIRO. CORTESIA DO MUSEU BRITÂNICO. FONTE: “THE BRAGANZA FIBULA: MEDICINE, PORTUGAL AND GALICIA”, CATARINA JANEIRO E JOSÉ PAULO ANDRADE (2026)

Com evidentes paralelos com artefactos zoomórficos de Briteiros, Braga, Penafiel e Marco de Canaveses, entre outros sítios arqueológicos da Idade do Ferro, a peça reproduz a cosmovisão celtibera de representação do divino através de um animal. O monstro marinho a que os gregos mais tarde chamaram Ceto (1) desafia o guerreiro que segura um escudo como protecção (2). O javali, regularmente associado ao submundo, puxa na direcção contrária (3). “O torneado lembra uma trompa uterina (4) talvez para representar as águas de onde se nasce”, diz Catarina Janeiro. “E o formato parece um círculo. O rapaz nasce das águas e volta ao submundo.” 

Artigo publicado originalmente na edição nº 30 da revista National Geographic História.

Gonçalo Pereira Rosa
Actualizado a 29 de julho de 2026

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