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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 24 de outubro de 2026

Reparar na natureza: Luísa Ferreira Nunes, os insetos e os cadernos de campo

Há pessoas que aprenderam a reparar em coisas que a maioria de nós não vê. Como é que podemos aprender a fazer o mesmo? No quarto artigo da série da Wilder “Reparar na Natureza”, deixe-se inspirar pela história de Luísa Ferreira Nunes, entomóloga e ilustradora de natureza.

Luisa Ferreira Nunes. Foto: D.R.

Há pessoas que parecem ver mais do que nós. Reparam na borboleta, reconhecem a ave pelo canto, descobrem a aranha escondida ou sabem o nome da planta. Não é porque tenham um talento especial. É porque aprenderam a reparar.

Nesta série, sempre às sextas-feiras, vamos conhecer algumas dessas pessoas e descobrir o que as fascina, como começaram, o que aprenderam a ver que dantes não viam e os encontros com a natureza que nunca vão esquecer.

Hoje, damos-lhe a conhecer Luísa Ferreira Nunes, ilustradora naturalista e professora de Entomologia e Ecologia na Escola Superior Agrária do Instituto Politécnico de Castelo Branco. Há várias décadas que esta autora de uma série de agendas ilustradas combina o conhecimento científico à ilustração para dar a conhecer a diversidade do mundo natural.

WILDER: Lembras-te da primeira vez que reparaste verdadeiramente neste mundo natural?

Luísa Ferreira Nunes: Não sei se consigo identificar uma primeira vez. Acho que foi uma aproximação gradual muito incentivada pelo meu pai. A natureza sempre esteve presente, mas houve um momento em que deixou de ser apenas um cenário e passou a ser a minha profissão e aí a observação era treinada diariamente. No caso dos insetos, a paixão começou nas aulas de Entomologia na universidade, determinando que viesse a ser professora de Entomologia. Como os meus amigos comentam quando vamos para o campo “lá vais tu a olhar para o chão”, força do hábito de observar insetos.

W: O que te incentivou a começar?

Luísa Ferreira Nunes: Foi sempre o meu pai que era um talentoso pintor e conhecedor de fauna e flora. Depois, a Ecologia e a Entomologia deram-me uma forma de olhar para o mundo natural com mais detalhe e perspectiva. O desenho também teve um papel importante, porque desenhar obriga-nos a parar e a ver realmente.

W: O que sabias antes de começar?

Luísa Ferreira Nunes: Muito menos do que pensava. Uma das coisas que se aprende rapidamente é que reconhecer uma espécie ou saber o seu nome é apenas o início. O essencial é perceber relações, ciclos, estratégias, adaptações, interações com outras espécies e com o ambiente.

W: Há alguma espécie ou comportamento em específico que te deixe maravilhada?

Luísa Ferreira Nunes: Sempre me fascinaram os insetos pelas suas estratégias de sobrevivência. Durante o doutoramento trabalhei com coleópteros (escaravelhos) e fiquei impressionada com a complexidade das relações entre estes insetos e as mudanças do meio em que habitam. Mais tarde comecei também a trabalhar com libélulas, sobretudo espécies de montanha. A metamorfose continua igualmente a ser um dos fenomenos mais extraordinários que podemos observar na natureza.

W: O que é que vês hoje que, provavelmente, não terias visto quando começaste por te passar despercebido?

Luísa Ferreira Nunes: Hoje reparo sobretudo nas relações. Não vejo apenas um inseto numa planta. Pergunto porque está ali, o que está a fazer, de que se alimenta, quem depende dele, quem o pode predar, que sinais existem à sua volta. Também reparo muito mais em pequenas alterações: uma folha enrolada, um orifício na casca, uma exúvia, uma postura de ovos, uma mudança no comportamento de uma ave.

W: O que é que as pessoas normalmente não reparam?

Luísa Ferreira Nunes: Na quantidade de vida que existe a poucos centímetros delas. Muitas pessoas procuram natureza em grandes paisagens e ignoram um muro, um tronco morto, uma poça de água ou a parte inferior de uma folha. Há mundos inteiros nesses lugares. E muitas vezes passam também ao lado dos sinais deixados pelos animais, porque estão à procura do animal propriamente dito.

W: Qual foi o encontro com a natureza que nunca mais esqueceste?

Luísa Ferreira Nunes: Estava a conduzir de madrugada, perto de Monfortinho, e de repente estava um enorme veado no meio da estrada, parado. Era grandioso e altivo, olhou-me por uns segundos e saiu da estrada devagar como que dizendo “olha bem para mim”. Achei um comportamento incomum e por isso nunca mais me esqueci.

W: De que forma a tua vida mudou, e é mais rica, por teres aprendido a reparar no mundo natural?

Luísa Ferreira Nunes: Mudou completamente a forma como ocupo um lugar. Mesmo num sítio aparentemente banal há sempre qualquer coisa para descobrir. Aprender a reparar torna o mundo maior. Dá-nos também uma sensação muito clara de que fazemos parte de sistemas muito mais complexos do que nós. Para mim, ciência, ilustração e observação da natureza acabaram por se tornar inseparáveis.

W: Se pudesses ensinar uma única coisa a alguém que quer começar, o que seria?

Luísa Ferreira Nunes: A parar. Parece simples, mas não é. Não procurar imediatamente uma coisa extraordinária. Ficar num lugar durante algum tempo e observar o que muda. Quanto mais tempo damos a um sítio, mais ele começa a revelar.

W: Que conselhos dás a quem quer começar? O que começar a procurar? Que material poderá ser necessário?

Luísa Ferreira Nunes: Começaria por coisas muito simples: virar uma folha e observar o verso; procurar sinais de insetos em troncos e cascas; observar uma pequena poça ou ribeira durante alguns minutos; procurar exúvias, ovos, galerias ou folhas roídas. Também é interessante escolher uma planta e regressar a ela várias vezes ao longo do ano.

E não é preciso muito material. Uma pequena lupa, um caderno, lápis e, se possível, uma máquina fotográfica ou telemóvel para registar detalhes. Mas o instrumento mais importante é o tempo. É preciso permanecer o suficiente para que aquilo que parecia não ter nada comece a mostrar alguma coisa.

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