sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O Postigo da Noite

" Os corpos dos homens destilavam o vinho martelado bebido na noite anterior nas tabernas, esquivando-se à realidade do desemprego e às vidas desalentadas. As mulheres renhiam e davam voz à má sorte dos casamentos, lamentando não ter ouvido os paizinhos que tantos avisos tinham feito sobre a conduta dos pretendentes, mas o amor, ah o amor! Amor que no princípio é só impulso, tudo consegue, tudo cria, tudo promete mas que tudo pode destruir…"

Terminavam as aulas. Os autocarros abalavam pelas estradas barrosãs para distribuir as poucas crianças que restavam. Na paragem da escola, ainda há pouco se ouvia o rebuliço efervescente dos jovens de mochilas às costas. No meio do bruaá, vozes estridentes forçavam-se por sobressair, numa postura de confronto e exibicionismo, perdoável a quem procura o seu lugar entre os seus semelhantes. No meio da balbúrdia havia sempre um ou outro mais ensimesmado, aparentemente distante da algazarra hormonal que libertava as tensões dos bancos da escola espartilhadas pelos regulamentos. 
No meio dos empurrões libertários, o professor afastava-se lentamente, deixando para trás a gritaria insana e os movimentos intempestivos dos gestos exagerados. Atravessava a rua sem olhar para trás, apressando mesmo o passo para se libertar daquele ruído que lhe agravava o zumbido nos ouvidos que o atormentava quando o silêncio se instalava. Saídos os autocarros, o silêncio dominava a rua da escola. De repente, ninguém. Só um ou outro cão vadio à procura de um resto de pão que ficasse esquecido na rua granítica e fria.
Corria Janeiro. As manhãs despontavam gélidas e não ajudavam ao humor dos poucos habitantes que se iam libertando das casas de estética duvidosa, construídas com o dinheiro da emigração. Os corpos dos homens destilavam o vinho martelado bebido na noite anterior nas tabernas, esquivando-se à realidade do desemprego e às vidas desalentadas. As mulheres renhiam e davam voz à má sorte dos casamentos, lamentando não ter ouvido os paizinhos que tantos avisos tinham feito sobre a conduta dos pretendentes, mas o amor, ah o amor! Amor que no princípio é só impulso, tudo consegue, tudo cria, tudo promete mas que tudo pode destruir…
O professor, homem cinzento, de poucas falas, passava indiferente. Por educação, respondia às boas horas que lhe endereçavam e continuava no seu passo desleixado. Deslocado e longe dos seus, motivado apenas em conseguir o seu sustento, vagueava pelos dias que se sucediam numa contagem decrescente que só terminava no regresso a casa. No final das aulas, todos os dias regressava a casa. Deixava para trás o ambiente amotinado de todas as liberdades e permissões. Ia para uma casa que não era sua, que não sentia sua. A porta de entrada rangia, queixando-se e pedindo óleo que lhe facilitasse a função. As lâmpadas de poucas velas, tornavam o ambiente fosco e frio. Um pouco por toda a casa nos móveis empoeirados, jaziam molduras com retratos de desconhecidos. O professor questionava-se sobre que vidas estariam por trás daqueles rostos, que comemorariam naqueles trajes de festa? Eles, com aqueles penteados de risca ao lado e bigodes farfalhudos. Elas, com permanentes muito bem armadas pela laca comprada nos chineses, envoltas em vestidos berrantes. Comunhões e casamentos certamente. As poses denunciavam os preparos do retratista a dizer olha o passarinho… No ar do quarto respirava-se o pó das alcatifas. Não se abriam as janelas porque o senhorio não gostava. Não se mexia nos cortinados porque se podiam estragar. Não se arranjava o candeeiro porque o senhorio não estava, tinha ido à cidade passar dois ou três dias com a filha. O professor sentava-se na cama fitando o olhar na cômoda das três gavetas. No tampo da cômoda, um monte de papéis guarda as composições dos alunos. Já deviam estar corrigidas mas não estavam. As poucas linhas que leu não o motivaram a continuar. Ali ficaram até que uma réstia de ânimo surgisse. E surgia. Sempre surgia naquelas horas de trabalho solitário que ninguém vê. Erguer-se e continuar. Mas não naquele dia. Manter-se-ia dormente e contemplativo. Tinha saudades do que estava para trás e aquele silêncio, aquele maldito silêncio! Onde estariam todos? Eram estes os compromissos dos homens? Era esta a vida do cidadão contribuinte? Era. 
Depois do jantar, o tempo crescia, alongava-se, permitindo as leituras que afastavam as manias depressivas e os lamentos injustificados. O sono não vinha. Nunca vinha e ainda bem. Só a ausência de sono permitiu ao professor tropeçar nas palavras de éter do Postigo da Noite. Na telefonia da mesinha de cabeceira, saíam as palavras que o professor queria ouvir. O formato radiofônico era simples: os ouvintes ligavam para a rádio e faziam-se companhia uns aos outros. Fernando Alves, o príncipe das palavras que merecem ser ditas, moderava as conversas. Foi nessas noites que ouviu as feridas dos combatentes, as saudades dos camionistas de longo curso, os dias difíceis da mãe que perdera o filho, o pedido de ajuda envergonhado de quem passava privações ou de quem sofria nas mãos tiranas de homens malignos. O Fernando sabia ouvir, dar os tempos certos e os empurrões necessários para que a conversa fluísse. Enriquecia as ideias com contributos de palavras sábias, umas vezes próprias, outras emprestadas, bebidas na literatura. Interrompia se a conversa tomasse um rumo que pusesse em causa a serenidade daquelas noites. De quando em vez, ouviam-se silêncios soluçados, denunciando dor ou solidão. No fundo, todos padecíamos das mesmas maleitas. Na companhia improvável encontrávamos a serenidade que talvez nos devolvesse o sono. 
À uma da madrugada, fechava-se o postigo. A TSF noticiava os males do mundo que, incomodando, não calavam tão fundo como as inquietações dos ouvintes do Postigo da Noite. 
Nunca liguei para o programa. Se o tivesse feito, a intervenção seria breve: Obrigado!


Rui Machado
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