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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 6 de março de 2022

Cortar o cobrão | Usos e costumes de Escalos de Baixo

 O cobrão é o nome que o povo dá a uma doença de pele caracterizada pelo aparecimento de pequenas vesículas que surgem, segundo a crença, devido à circunstância das roupas interiores, quando se encontram a secar, terem estado em contacto com qualquer bicho peçonhento: cobra, osga, lagarto ou lagartixa, bichos esses que nelas deixaram, como se diz em Cebolais de Cima, o seu rastejo.

É o veneno contido nesse rasto que, em contacto com a pele, desencadeia a doença.

Para curar o doente repetia-se esta fórmula:

Rezado em cruz sete vezes:

Aqui te benzi, aqui te torne a benzer
Para que não cresças, nem inverdeças,
Nem juntes o rabo com a cabeça.

Depois a curandeira pega numa réstia de alhos e desenrola-se entre ela e o doente o diálogo seguinte:

Curandeiro: – Tu tens um cobrão?

Doente: – Ou terei ou não.

Curandeiro: – Corta-lhe a cabeça

Doente: – Corta tu ou não

Curandeiro: – Tu tens um cobrão?

Doente: – Ou terei ou não.

Curandeiro: – Corta-lhe o meio

Doente: – Corta tu ou não

Curandeiro: – Tu tens um cobrão?

Doente: – Ou terei ou não.

Curandeiro: – Corta-lhe o rabo

Doente: – Corta tu ou não

Por fim, queima-se a réstia de alhos e bota-se primeiro mel sobre a parte infectada e, em seguida, a cinza das réstias, para secar o mal.

Esta fórmula oferece a originalidade de apresentar estrutura em diálogo entre a rezadeira e a pessoa doente.

Nesse diálogo, dois pormenores existem que se devem ser revelados: a primeira frase “tu tens um cobrão?” e a repetição quase contínua e exaustiva de “corta-lhe”.

A primeira frase patenteia o costume de se invocar o nome da doença no início da fórmula libertadora; e incidência repetitiva que surge no diálogo em relação a “corta-lhe” reside no facto de ser esta palavra forte, isto é, a palavra através da qual a rezadeira liberta a pessoa do mal que a aflige, a palavra que corta um laço que liga a pessoa à doença.

O número de vezes necessário para eficácia das palavras é de sete.

O gesto enfeitiçante é o sinal da cruz: ao fazer-se a cruz sobre qualquer coisa atraem-se as forças mágicas dos quatro pontos cósmicos, ideia reforçada pelo facto de o sentido esquerda – direita, ao qual o sinal da cruz obedece, representar simbolicamente o passar da morte à vida.

A utilização do mel e das cinzas das réstias de alho, em conjunto com a fórmula libertadora, mostra nesta versão de Escalos de Baixo, uma dupla intenção: a de desligar a pessoa do mal, por um lado, e a de curar, por outro com o auxílio do mel e das cinzas das palhas de alho.

Fonte do texto: “Dança, Canto e Trajos no Concelho de Castelo Branco”, Adelino José Henrique Carrilho e Mónica Liliana Martins Henrique Carrilho

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