(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
“Iz’tu bem a purpósitu d'ua cumbersa d’onte à neite. C’um home todu bem-poz’tu’e, mas poucu curgidósu co a terra adonde foi paridu’e, e adonde butou as primeiras palabras’e. Sãu nas manias da «língua fidalga», ou das «intelectualidades», e d’habere ós que s’imbregônhum da maneira c’mu impeçarum a falare im «língua tcharra»"...
Muitos, provavelmente, não o saberão. Ou talvez nunca tenham pensado nisso. Quando escrevo na forma que intitula mais esta diatribe, respeitando a fonética, não se trata de uma curiosidade, muito menos de uma qualquer paródia. Não é Mirandés, assim o fosse, de outra forma o grafaria, mas é no dialecto com o qual cresci, que também é filho do Ásturo-Leonês. Afinal, como já por aqui o trouxe, a minha nacionalidade é, por adopção, o Galego-Português, e por essência, o Ásturo-Leonês.
“Iz’tu num é um jôgu de palabras’e”, transcrição fonética do dialecto da “nh’ábó Maria”, versão oficial em Mirandés, «esto nun ye un jogo de palabras». Ou «esto nun ye un xuegu de palabres», noutra versão de Ásturo-Leonês. Alternativas outras, «isto non é un xogo de palabras», ou «esto no es un juego de palabras», ou num ibérico idioma mais distante, «això no és un joc de paraules».
Parece complicado, mas não é, o bisavô Latim é o mesmo, mas isto é como os primos, são família, mas filhos de pais diferentes. E há primos em 1º grau, em 2º grau havendo outros. Mas também há os irmãos. Ou seja, «isto non é un xogo de palabras» é irmão do «isto não é um jogo de palavras». São ambos filhos do Galego-Português. Por sua vez, o «esto nun ye un jogo de palabras» tem como irmão o «esto nun ye un xuegu de palabres», por serem ambos filhos do Ásturo-Leonês. Isto é, o Galego-Português e o Ásturo-Leonês são filhos de pais diferentes, embora sejam primos direitos…
Em 2º grau já o poderá ser o «esto no es un juego de palabras», e “pr’á’í”, em 3º grau já o será o «això no és un joc de paraules», em 4º grau surgindo um «ce n'est pas un jeu de mots» ou um «questo non è un gioco di parole». Mas é tudo «famelga»… Noutras visões falando, quando um Catalão diz «això no és un joc de paraules», não está a falar mal Castelhano. Assim como quando um Castelhano diz «esto no es un juego de palabras», não está a falar mal Catalão. Ambos estão a falar em idiomas diferentes!
De semelhante forma, um bilingue falante de Mirandés, quando expressa um «esto nun ye un jogo de palabras», não está a falar mal Português. Ou estará a fazê-lo, da mesma forma que um Italiano o estaria ao dizer «questo non è un gioco di parole». “Stãu a bêre”?… Não, não acabei de escrever mal em Português! Apenas escrevi uma transcrição fonética no dialecto com que cresci, «filho» do Ásturo-Leonês, não do Galego-Português. E enquanto não «bater a bota», bater-me-ei por tentar fazer perceber, especialmente aos meus conterrâneos, que… NUNCA FALÁMOS MAL PORTUGUÊS!
“E s’alguém s’astrebere a intrare im mangaçãu’e, tamém sou capaze de butare faladura im «língua fidalga», que tamém le botu miúda proa nissu’e. Só q’ó depeis’e, tamém se me pode assaire um «ma racontracos’ó carbalhitchas que ta racontracosa», c’mu quera d’ua forma mais brenácula, ou lá c’mu caralhitchas le tchamum”… Pronto, é só isto, às voltas com os bisnetos do Latim, reconhecendo que sou “tchatu c’mó catantchu’e” com esta falácia do «falarmos mal Português». “Rais’parta” os resquícios da «velha senhora»! “Rais’parta” os «parolos», esses sim, «parolos», que parecendo defender esses resquícios da «velha senhora», ainda têm vergonha da sua essência e da forma como, muitos deles, aprenderam a falar… num idioma diferente! Deveriam ter orgulho nisso! Na actualidade, até parece que ser culto é ser bilingue, dizem os entendidos…
“Peis ou botu-le miúda proa, e num falu nim screbu male im prutuguêse! Digu ou, bá”…
(Foto: Georges Dussaud)
Rui Rendeiro Sousa – Doutorado «em amor à terra», com mestrado «em essência», pós-graduações «em tcharro falar», e licenciatura «em genuinidade». É professor de «inusitada paixão» ao bragançano distrito, em particular, a Macedo de Cavaleiros, terra que o viu nascer e crescer.
Investigador das nossas terras, das suas história, linguística, etnografia, etnologia, genética, e de tudo mais o que houver, há mais de três décadas.
Colabora, há bastantes anos, com jornais e revistas, bem como com canais televisivos, nos quais já participou em diversos programas, sendo autor de alguns, sempre tendo como mote a região bragançana.
É autor de mais de quatro dezenas de livros sobre a história das freguesias do concelho de Macedo de Cavaleiros.
E mais “alguas cousas que num são pr’áqui tchamadas”.

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