21.março.1914 – 30.dezembro.1914
LISBOA, 1.12.1886 – LISBOA, 15.1.1964
Musicólogo. Advogado.
Bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra.
Governador Civil de Bragança (1914 e 1915-1917). Secretário-geral dos governos civis de Lisboa, Castelo Branco e Porto.
Filho de José Luís Rangel de Quadros Joyce, médico, e de Maria Adelaide de Paiva Cardoso Avelino.
Natural de Lisboa.
Casou com Gertrudes Ramos de Castro e em segundas núpcias com Bárbara Ceulemans Joyce, de quem teve três filhos, entre os quais, Maria Antónia Ceulemans Joyce de Almeida Teixeira.
Cavaleiro da Ordem de Santiago da Espada. Cidadão honorário da Covilhã.
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António Avelino Joyce possuía uma formação notável e diversificada: completou o 1.º ano do Curso Diplomático (Curso Superior de Letras); o curso de Direito da Universidade de Coimbra, onde apresentou uma tese sobre O caráter específico do fenómeno financeiro; cursos musicais de Rudimento, Harmonia e Violino da Real Academia de Amadores de Música; e o curso de professor da Cartilha Maternal, tirado na residência do seu autor, João de Deus.
Chegado a Coimbra em 1906, António Joyce, por imperativo de gosto e de formação musical, desde logo se ligou ao meio artístico local, primeiro através da Tuna Académica, depois, uma vez incompatibilizado com esta, através de reuniões musicais feitas na sua casa de Celas e, por fim, dinamizando a criação de um grupo coral, o Orfeão Académico de Coimbra, que reorganizou e regeu entre 1908 e 1912, acompanhando-o em digressões a França e ao Brasil. Foi representante da Academia de Lisboa no Congresso Internacional dos Estudantes em Paris, em 1907.
Membro de honra de várias agremiações associativas e culturais, como o Instituto Britânico do Porto, Associação dos Jardins Escolas e Associação dos Músicos Portugueses, foi inspetor de canto coral, diretor da Sociedade de Concertos de Lisboa e diretor artístico da Emissora Nacional, para a qual elaborou um Projeto de Reforma que apresentou à Administração Geral dos CTT, criando no seu seio a Orquestra Sinfónica Nacional, convidando Pedro de Freitas Branco para seu primeiro maestro titular.
Enquanto músico, produziu várias harmonizações e arranjos orfeónicos para quatro vozes de homem, de motivos populares portugueses, e que seriam ouvidos nos principais teatros de Portugal, França, Bélgica e Brasil. Maestro, violonista e pianista, teve larga influência na cultura musical portuguesa, tendo feito publicar um Estudo acerca de canções populares na província da Beira Baixa e colaborando em jornais como o Século, Capital e Diário de Notícias e nas revistas ABC e Atlântida, principalmente na área da crítica musical.
Numa área do saber completamente diferente, reflexo da diversidade da sua formação e do seu saber, em 1913 apresentou uma dissertação para concurso ao magistério da Faculdade de Estudos Sociais e de Direito de Lisboa (grupo de História do Direito e Legislação Civil Comparada), intitulada Da influência do patriarcado na condição jurídica da Mulher.
Ao serviço de diferentes governos da Primeira República, tomou parte em várias comissões ao estrangeiro, nomeadamente em Paris, em 1917, na Conferência da Grande Guerra, e na Bélgica (1917-1921), como auxiliar do ministro dos Negócios Estrangeiros e presidente do Ministério.
Porém, nem sempre foi pacífica a sua coexistência com o poder político instituído.
Obrigado a emigrar, partiu para Antuérpia, onde viveu algum tempo como diretor comercial de uma empresa de que era sócio, juntamente com Afonso Costa.
No âmbito da magistratura administrativa, foi por duas vezes nomeado governador civil de Bragança, a primeira das quais por decreto de 21 de março de 1914, cargo de que tomou posse a 31 do mesmo mês, sendo exonerado a 30 de dezembro seguinte; e segunda vez por decreto de 24 de maio de 1915, tomando posse a 31 do mesmo mês, num mandato que se estendeu até 13 de outubro de 1917. Durante o seu primeiro mandato, em outubro de 1914, ocorreu em Bragança um movimento insurrecional visando o derrube do regime republicano e a restauração da monarquia, tentativa, porém, que sairia completamente frustrada.
O facto de ter servido como governador civil não obstou a que fosse hierarquicamente despromovido a chefe de repartição do Governo Civil de Lisboa, cargo que exerceu durante mais de cinco anos, entre 1921 e 1926, servindo interinamente como secretário-geral a maior parte desse tempo. Encontrava-se nestas funções quando foi chamado para desempenhar o cargo de secretário particular do Presidente da República, Manuel Teixeira Gomes (1923 -1925). Só em novembro de 1926, com a Ditadura Militar instalada, passaria a secretário geral adido daquele Governo Civil, vindo a desempenhar idênticas funções em Castelo Branco e no Porto.
Já com o Estado Novo institucionalizado, a partir de 1939 tornou-se membro do júri dos concursos administrativos do Ministério do Interior, e nesse mesmo ano, apresentou à Direção Geral da Administração Política e Civil um Projeto crítico de modificações no Código Administrativo de 1936.
Faleceu em Lisboa, a 15 de janeiro de 1964, aos 77 anos.
Carta do governador civil António Avelino Joyce ao primeiro-ministro Bernardino Machado, a denunciar a campanha de substituição das autoridades administrativas em Bragança (1914)
Bragança, 31 de agosto 1914
Exmo. Senhor e meu muito prezado amigo.
Com condenável antipatriotismo e manifesto desprezo pelas sérias obrigações que a hora presente a todos impõe, um jornal evolucionista daqui, A Pátria Nova, que tem por patrono o senador João de Freitas, acaba de levantar, com acentuado empenho e decisão, a campanha da substituição das autoridades administrativas.
Por todas as razões, e mui particularmente pelo temor justificado que possam vir a mal interpretar o correto proceder de V. Exa. e a deturpar-lhe as nobres intenções, que bem conheço e sinceramente admiro, tomo a iniciativa de lembrar a V. Exa. a conveniência e grande urgência em adotar um critério geral para a resolução do problema no distrito de Bragança, para o que, julgo, encontrará V. Exa. os elementos suficientes no relatório sobre administradores de concelho que para aí remeti.
Aguardo as muito desejadas ordens de V. Exa.
Com a maior consideração, respeito e estima,
De V. Exa. o atento servidor,
António Avelino Joyce
Fonte: Fundação Mário Soares, Casa Comum, fundo Bernardino Machado, pasta 08056.097.
Fontes e Bibliografia
Arquivo Distrital de Bragança, Autos de Posse (1845-1928).
Fundação Mário Soares, Casa Comum, fundo Bernardino Machado, pasta 08056.097 Diário do Governo, 3.11.1926.
ALVES, Francisco Manuel. 2000. Memórias arqueológico-históricas do distrito de Bragança, vol. XI. Bragança: Câmara Municipal de Bragança / Instituto Português de Museus.
GRANDE Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, t. XIV, Lisboa, 1935-1987.
CASEIRO, Vírgilio. 1992. O Orfeon Académico de Coimbra desde 1880. Causas determinantes, objectivos e evolução.
Tese de mestrado em História. Coimbra: Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
QUADROS, Maria de Fátima Batista. 2009. Quadros. Sua alma e sua gente nos caminhos da história. Frutos: Rio de Janeiro.
COUVANEIRO, João Luís Serrenho Frazão. 2012. O Curso Superior de Letras (1861-1911). Nos primórdios das Ciências Humanas em Portugal. Tese de Doutoramento em História. Lisboa: Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Na foto: António Joyce em 1911. arquivos do Orfeão Académico de Coimbra.
Publicação da C.M. Bragança

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