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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Bragança nunca esquece os Seus Filhos


Durante décadas, Bragança e as suas aldeias, habituaram-se ao som das malas a serem fechadas. A emigração, essa cicatriz profunda na "pele" de Trás-os-Montes, tornou-se o destino de muitos. Jovens cujos olhos brilhavam com a ambição do mundo e famílias inteiras, impelidas pela necessidade, deixaram o pouco conforto do lar na procura do que a terra, naquele momento, lhes negava. Partiram para a luz febril das grandes cidades ou para os horizontes desconhecidos da França, Suíça, Luxemburgo ou Alemanha.

Levavam pouco na bagagem, mas levavam tudo na alma. O cheiro da terra molhada após a primeira chuva de outono, o sabor inconfundível do fumeiro, a bênção dos mais velhos e, acima de tudo, uma saudade que já tinha começado antes mesmo de atravessarem a fronteira. A partida era uma ferida na alma. A tristeza instalava-se nas aldeias, as escolas esvaziavam-se, e as casas viam as janelas fecharem-se, 

A distância, os Alpes ou o Oceano não conseguem apagar o vínculo umbilical com a origem. Quando o verão chega e o sol faz brilhar as searas, Bragança desperta do seu longo torpor. O regresso dos filhos pródigos é uma procissão de esperança. Carros com matrículas de todos os cantos da Europa param nas ruas, e o ar enche-se, de súbito, com o som das vozes reencontradas.

Nesses dias, a vida pulsa com uma intensidade renovada. As festas da terra, os convívios à sombra dos carvalhos, os risos que se misturam com as lágrimas do reencontro, tudo isto é um bálsamo. Por algumas semanas, a aldeia volta a ter a idade da infância, e os emigrantes, entre o café na esplanada e o olhar posto nas montanhas, sentem que a vida, afinal, nunca deixou de decorrer ali.

Bragança é, para quem de cá saiu, o porto de abrigo final. Muitos vivem a vida lá fora como se estivessem apenas de passagem, guardando, no fundo do peito, o sonho de um regresso definitivo. Sonham com a reforma, a paz serena dos montes, onde a vida é um ciclo de paz e tradição.

A terra, fiel e paciente, aguarda. Bragança não julga quem partiu, ela compreende. Bragança sabe que, embora o corpo possa habitar noutros países, o coração de um transmontano permanece sempre ancorado no seu berço.

Contudo, esta espera não é uma resignação passiva. Bragança respira, inova e transforma-se. O Instituto Politécnico é, há anos, um farol de conhecimento, trazendo jovens de todo o mundo para o coração da cidade. O turismo rural e a valorização das raízes gastronómicas e culturais são a prova de que a tradição e a modernidade podem dançar de mãos dadas.

A "terra que espera" é, também, uma terra que sonha. Espera que as novas gerações encontrem razões para ficar, para construir futuro sobre os alicerces dos avós. É um esforço coletivo para que a identidade transmontana não seja uma memória de museu, mas uma chama vibrante e viva.

Bragança ensina-nos uma lição sublime. Partir nunca significou esquecer. Partir é, muitas vezes, apenas o preâmbulo de um regresso mais consciente. As raízes transmontanas são profundas demais para serem cortadas pela distância.

Bragança permanece firme e profundamente acolhedora. Bragança é a casa de portas sempre abertas, a mãe que não pergunta pelo tempo que passou, mas que celebra apenas o facto de estarmos de volta. Para quem nasceu no coração de Trás-os-Montes, todas as estradas, por mais longas que sejam, acabam sempre por conduzir a casa.

Que assim seja!

HM
29 de Junho de 2026

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