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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 30 de junho de 2026

O bisavô José de Almeida

Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")


Na minha memória, era alto.

Magro, quase alongado no tempo, como se ocupasse mais espaço do que aquele que as fotografias hoje me mostram. Rosto magro, esculpido na pedra, barbeado à navalha e cabelo escuro, quase incongruente nos oitenta anos que tinha.

Sei agora que não era assim tão alto — que tinha uma estatura mediana, pouco maior que as mulheres que aparecem ao seu lado nas fotos antigas e cansadas. Mas a infância não mede as pessoas com fita métrica. Mede-as pela impressão que deixam. E ele era, para mim, um homem grande.


Vestia-se sempre com uma certa solenidade: fato escuro de três peças, ou um colete de lã que lhe desenhava a figura com rigor. Por vezes um sobretudo comprido azul-marinho… Não consigo olhar para o meu filho que adora vestir um igual, sem me recordar dele. Havia nele uma elegância discreta, antiga, como quem não se veste para impressionar, mas porque assim se deve estar no mundo.

Era austero.

Não era de brincadeiras e quando a conversa não lhe agradava, deitava um olhar de desaprovação silenciosa que não precisava de palavras.

E, no entanto, a sua presença não era desagradável. Ele não pedia atenção, ela era-lhe devida e como tal era-lhe dada, como um princípio silencioso. Era o herdeiro de um respeito pelos mais velhos que já não existe nos nossos dias.

Ele era o avô da minha mãe. E foi através dela que herdámos um gesto antigo:

“A sua bênção, avô.”

E nós, pequenos, a imitá-la:

“Bença, vô.”

Do meu bisavô José ficaram histórias que ouvi pela voz da minha mãe. Contava que ele tinha estado na Grande Guerra, na Flandres — mas não nas trincheiras. Era cozinheiro. Demorou a regressar e, pelo caminho, ganhou a vida a ler livros a um senhor idoso que já não o conseguia fazer.

Talvez venha daí a sua relação com as palavras, pois também em casa lia. E a família, num tempo sem televisão, reunia-se à volta dele para ouvir os romances que escolhia. Havia um ritual. Um silêncio exigido.

Ai de quem falasse para o lado.

Se alguém quebrava o fio, ele amuava, fechava o livro e retirava-se, levando consigo tudo o que ainda faltava contar.

Num tempo em que ninguém se preocupava se as crianças fumavam ou não, chamava-me, dava-me algumas moedas — não me recordo quais — e dizia, naquela voz queimada:

“Vai-me num instante buscar um Kentuques, filho, e podes ficar com o troco.”

E eu corria. Voltava da mercearia com o pequeno maço sem filtro, entregue sem perguntas, orgulhoso da missão.

O bisavô cheirava a tabaco.

Tinha mãos ossudas, e unhas amarelas e grossas.

E eram essas mãos que, por vezes, me pousavam na cabeça com um carinho contido. Não havia um sorriso debaixo daquele bigode espesso e curto, quase severo, mas havia o gesto. E isso bastava.


Os meus pais diziam que eu tinha o feitio igual ao dele.

E quando eu resmungava, a minha mãe exclamava:

“Aí está o Zé d’Almeida.”

Mas era apenas um desabafo. Muitos anos depois, ela guardava uma fotografia minha, já com vinte anos, que gostava de a comparar com outra dele. Colocava-as lado a lado, demorando-se nas semelhanças — como se procurasse provas de que certas coisas não passam, apenas mudam de rosto.

Eu devia ter uns sete anos quando ele se foi.

Não cheguei a saber que partira. De repente, deixou de fazer parte da minha vida — mas nunca da minha memória.

Hoje, quando o revejo nas fotografias, quase me surpreendo.

Como pode caber ali alguém que na minha memória era tão maior? Para mim nunca deixará de o ser.

As histórias dele ficarão sempre como num livro aberto lido em voz alta, num gesto breve sobre a cabeça de um miúdo, num resmungo que regressa noutra idade, ou num rosto que parece repetir-se.

O Zé D’Almeida foi um dos meus pilares, firme…

mesmo depois de tudo o resto passar.


Manuel Amaro Mendonça
é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/ 

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