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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

A Magia dos Clubes no Quintal


 Nos anos 60 e 70, o mundo, pelo menos o nosso, não era medido por megabytes ou seguidores, mas pelo alcance do nosso grito de chamada a partir da janela. Antes da ditadura do ecrã, do silêncio isolador dos auscultadores e da velocidade frenética dos chats, existia um mundo muito mais palpável, quente e genuíno. Os clubes no quintal. Eram pequenos universos paralelos, reinos indomáveis, nações inventadas, muitas vezes na terra batida onde o tempo, por capricho da nossa inocência, parecia andar bem mais devagar.

Não havia necessidade de orçamentos ou planos de engenharia. Os nossos palácios eram erguidos com o que a vida, por acaso, nos oferecia. As tábuas velhas de uma estante que já não servia eram transformadas em mesas de comando, as caixas de fruta de madeira, com o seu cheiro ao campo, umas pedras perdidas em qualquer caminho, tornavam-se tronos e cadeiras e um lençol colorido, estendido com orgulho num estendal de arame, erguia-se como sendo a nossa bandeira oficial, hasteada com a solenidade de quem declara a independência de um novo mundo, de um novo reino.

Para nós, o "estatuto" do clube não era uma brincadeira, era uma constituição sagrada. Tínhamos cadernos escolares, com as folhas riscadas, onde as regras eram escritas. Proibido entrar sem autorização, proibido contar segredos aos mais velhos, proibido desistir. Muitas vezes criávamos senhas e contra-senhas que serviam de acesso ao clube. As nossas atividades, embora simples aos olhos de um adulto, eram epopeias autênticas desde o rigor tático de um campeonato de berlindes, ou de um jogo de hóquei de campo, até à construção monumental de uma cabana ou de uma casa na árvore que, embora instável, parecia tocar as nuvens.

Nas nossas merendas, o banquete era simples, mas sabia sempre a luxo. Pão com marmelada caseira que deixava traços amarelados nos dedos, as inconfundíveis bolachas Maria que se desfaziam na boca, uns amendoins e umas latas de sardinhas, e aquela garrafa de sumol de litro e meio, muitas vezes partilhada por quatro ou cinco, com a atenção necessária para que ninguém bebesse um mililitro a mais do que a sua parte. Eram momentos em que o quintal, fosse o recanto cuidado de casa ou aquele terreno baldio cheio de silvas e mistérios, se transformava num território secreto, um santuário onde a imaginação ditava a lei e os adultos eram apenas figuras distantes, residentes de um planeta que pouco tinha a ver com o nosso.

Esses clubes não viviam de quotas ou mensalidades, de burocracias ou de redes sociais que exigem uma presença quase constante. Viviam do calor da proximidade, daquele olhar cúmplice que dispensava palavras e do entusiasmo puro de inventar um projeto novo todos os dias. Éramos arquitetos de sonhos, engenheiros de brincadeiras, diplomatas de uma paz que nunca precisou de tratados.

Mais tarde, já uns jovens, e antes de existirem discotecas ou boites em Bragança, os clubes serviam de local de encontro e de convívio onde se ouviam os últimos éxitos musicais, onde se namoriscava e se faziam bailes improvisados, e onde se criavam amizades indestrutíveis. Mas esse tempo da minha vivência, será contado noutros episódios.

No meu quintal existiram três clubes. No início dos anos 60 “Os 10 Terríveis”, depois em adolescentes, “O Ás de Copas” e mais tarde, já jovens, “O Saturno Club”.

Estes clubes não eram apenas lugares de ocupação de tempos livres. Eram, na verdade, fábricas de amizade. Eram alicerces lançados quase ao vento que, estranhamente, resistiram ao tempo. Hoje, quando fechamos os olhos, lembramo-nos de que a nossa maior riqueza não estava naquilo que possuíamos, mas nas pessoas com quem escolhemos, naquele pedaço de terra esquecido, partilhar a nossa infância, adolescência e juventude. Aquelas amizades, forjadas à sombra de um lençol velho, não ficaram pelo caminho, pelo menos a maioria delas, tornaram-se a base inquebrável sobre a qual construímos, anos mais tarde, o que somos hoje.

HM
24 de Junho de 2026

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