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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

O Serviço Militar Obrigatório em Portugal e o Drama Humano da Guerra Colonial


 O serviço militar obrigatório em Portugal, particularmente durante os anos da Guerra Colonial (1961-1974), representou muito mais do que uma simples obrigação legal. Para centenas de milhares de jovens portugueses, foi uma imposição que alterou profundamente o rumo das suas vidas, interrompeu sonhos, adiou projetos e mergulhou uma geração inteira numa realidade marcada pela incerteza, pelo medo e pelo sofrimento.

Numa época em que muitos jovens procuravam construir o seu futuro através do estudo e da qualificação profissional, a chamada para o serviço militar surgia como uma sombra inevitável. Rapazes que frequentavam universidades, liceus ou escolas técnicas viam-se obrigados a abandonar livros, exames e planos de carreira para vestir uma farda e preparar-se para um destino desconhecido. O futuro que imaginavam para si próprios ficava suspenso, substituído por uma espera angustiante pela mobilização.

A situação tornava-se ainda mais dramática porque, para a maioria, o serviço militar não significava apenas permanecer em território nacional. A guerra travada nas então colónias portuguesas em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau exigia um fluxo constante de soldados. Milhares de jovens eram enviados para terras distantes, muitas vezes sem compreenderem plenamente as razões do conflito em que iriam participar. Partiam deixando para trás famílias, amigos, namoradas e projetos de vida, carregando apenas a esperança de um dia regressar.

Nas estações ferroviárias, nos portos e nos aeroportos repetiam-se cenas de despedida que ficaram gravadas na memória coletiva do país. Mães abraçavam os filhos tentando esconder as lágrimas. Pais procuravam transmitir coragem, embora partilhassem o mesmo receio. Namoradas e esposas despediam-se sem saber se aquele abraço seria o último. A guerra transformou a despedida numa experiência comum para milhares de famílias portuguesas.

A incerteza acompanhava todas as partidas. Quem embarcava para o Ultramar sabia quando saía, mas não sabia se regressaria. O medo da morte estava sempre presente. Muitos jovens atravessaram oceanos conscientes de que poderiam nunca mais voltar a ver a sua terra natal. Outros regressaram fisicamente vivos, mas profundamente marcados pelas experiências traumáticas do combate, pela violência testemunhada e pela constante convivência com o perigo.

Entre 1961 e 1974, estima-se que mais de 800 mil jovens portugueses tenham passado pelo serviço militar obrigatório, sendo uma parte significativa mobilizada para os teatros de guerra africanos. Mais de oito mil perderam a vida. Muitos milhares regressaram feridos, mutilados ou com cicatrizes, algumas invisíveis aos olhos dos outros, que permaneceram para sempre. Numa época em que pouco se falava de trauma psicológico ou de stress pós-traumático, inúmeros ex-combatentes enfrentaram recordações dolorosas que continuaram a assombrá-los muito depois do fim da guerra.

O impacto desta mobilização foi devastador também no plano académico e profissional. Cursos universitários ficaram interrompidos, carreiras foram adiadas e oportunidades perderam-se irremediavelmente. Jovens que poderiam ter contribuído para o desenvolvimento científico, cultural e económico do país viram anos decisivos das suas vidas consumidos por um conflito prolongado. O país perdeu uma parte significativa da energia, da criatividade e do talento de uma geração inteira.

Mas as consequências não se limitaram aos que combateram. A guerra entrou nos lares portugueses e tornou-se uma presença constante no quotidiano. Uma carta recebida era motivo de alívio, um atraso na correspondência alimentava a angústia. As notícias de mortos e feridos espalhavam o luto por aldeias, vilas e cidades. Quase todas as famílias portuguesas sentiram, de forma direta ou indireta, o peso daquela guerra distante.

Para muitos jovens, a Guerra Colonial representou um conflito que nunca escolheram travar. Foram chamados por um regime político que lhes exigia sacrifícios enormes em nome de uma causa que nem todos compreendiam ou aceitavam. Entre o dever imposto e os sonhos pessoais, viveram um dos maiores dilemas da sua geração.

O serviço militar obrigatório durante a Guerra Colonial não foi uma questão militar ou política. Foi, acima de tudo, uma profunda tragédia humana. Adiou vidas, interrompeu percursos, destruiu sonhos e deixou marcas duradouras em centenas de milhares de portugueses. O seu legado permanece na memória daqueles que partiram, daqueles que regressaram e também daqueles que ficaram à espera.

A história dessa geração recorda-nos que a guerra tem sempre um custo que vai muito além dos campos de batalha. Mede-se em vidas interrompidas, em oportunidades perdidas, em famílias separadas e em cicatrizes que sobrevivem durante décadas. É uma memória que continua a merecer reflexão, respeito e homenagem.

Há dois sentimentos que não têm lugar nas palavras que agora escrevi. Vingança e Ódio.

HM
5 de Junho de 2026. Dia mundial do Ambiente. Na imagem, sou eu no RALIS (Regimento de Artilharia de Lisboa) em 1977. Tive sorte, a coragem de muitos fez com que eu e a minha geração já não tivesse que embarcar...

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