Quando fechei a porta pela última vez, levei comigo, para além do braço direito ao peito e uma tristeza profunda devido à incúria de quem tem por missão zelar pelo bem estar de todos os cidadãos e não o faz, a inquietação de quem abandona um bocado da vida. As plantas ficaram. Discretas, imóveis na aparência, mas a fervilhar por dentro com aquele labor que nunca se esgota. Muitas vezes pensei nelas. Imaginei folhas a amarelecer, caules vergados, terra ressequida… uma teia de aranha. Imaginei o chão salpicado de folhas secas, como cartas antigas que ninguém leu a tempo.
Voltei, por fim. Por pouco tempo, mas voltei.
Ao abrir a porta, a luz entrou comigo, e eu entrei com ela. O soalho, surpreendentemente, estava quase limpo das folhas que temi encontrar. Não havia tapete de abandono, não havia sinais de desistência. Pelo contrário. Ali estavam elas, erguidas, compostas, quase altivas. Revigoradas. Peneirentas. Emproadas como senhoras antigas que nunca perderam o porte.
Aproximei-me devagar, como quem se aproxima de alguém a quem deve um pedido de desculpa. Toquei numa folha aqui, noutra ali. Estavam firmes, frescas, vivas. E senti, sem presunção, mas com uma convicção que me aqueceu o peito, que tinham tido ainda mais saudades de mim do que eu delas.
A velha borracheira, quase tão velha como eu, foi a que mais me comoveu. Sempre a conheci resistente, paciente, dona de um silêncio sábio. Agora, as suas folhas abriam-se em todas as direções, como braços que se estendem para um abraço tardio. Havia nelas uma energia nova, uma espécie de alegria que me parecia impossível ignorar. As folhas lustrosas refletiam a luz como um sorriso discreto.
Ali, naquele instante, todas as dúvidas se dissiparam.
As minhas plantas não são apenas objetos decorativos, nem companhia inerte. São presença. Foram espera. Foram persistência. Tinham suportado a minha ausência, tinham atravessado os dias longos sem a minha voz, sem o meu cuidado sempre atento, e ainda assim não se renderam. Antes pelo contrário, pareciam ter guardado forças para este reencontro.
Senti que a casa respirava outra vez.
Há quem diga que as plantas não sentem, que não sabem da nossa existência, que crescem apenas por instinto químico e impulso biológico. Mas como explicar esta impressão tão clara de reconhecimento? Esta troca que não precisa de palavras? Ao regá-las, pela primeira vez depois de uns meses sem o fazer, senti que não era só a água que lhes oferecia, era também a minha presença. E, de alguma forma, elas devolviam-me algo igualmente essencial.
Talvez seja isto que nos salva, perceber que a vida, mesmo na sua forma mais discreta, responde ao afeto. Que há uma comunicação subterrânea, que não se vê, como as raízes que se entrelaçam sob a terra, mas tão real quanto o verde que explode nas folhas.
A velha borracheira, firme no seu canto, ensinou-me mais do que muitos discursos, principalmente dos discursos dos ranhosos “modernos”. Ensinou-me que esperar também é uma forma de amar. Que resistir é um ato de fidelidade. E que a vida, quando é vida, encontra sempre maneira de se erguer outra vez.
Claro que alguém ia regar as “minhas” plantas uma vez por semana. Quero crer que apesar do “alimento” que nunca lhes faltou, sentiram a minha falta como eu senti a delas.
Não tinha dúvidas. Mas, se as tivesse, acabavam agora. As plantas são seres vivos.

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