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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

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COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Sacrum – I UNUS

Por: Manuel Amaro Mendonça
(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")

Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.

INDICE

E se o maior segredo dos Templários portugueses estivesse escondido debaixo de uma simples colina?
Na manhã seguinte ao funeral do pai, Tomás Vasconcelos de Rochaforte decide desafiar uma antiga proibição familiar e retomar um projeto suspenso há anos.
O que começa como um trabalho de terraplanagem numa propriedade junto de Tomar transforma-se rapidamente numa descoberta inesperada. Sob a colina existe algo antigo. Algo cuidadosamente ocultado durante gerações.
Acompanhado apenas por Freixo, o fiel cão que pertencera ao pai, Tomás inicia uma descida ao desconhecido, onde símbolos esquecidos, passagens subterrâneas e vestígios de um passado remoto começam a entrelaçar-se com a história da própria família.
Mas alguns segredos foram guardados durante séculos por uma razão.
E há portas que talvez nunca devessem ser abertas.


Sacrum – I UNUS

A máquina de rastos avançava ruidosamente no caminho existente no pomar de pereiras cuidadosamente ordenadas em bardo. O condutor puxava-a em esforço, obrigando-a a rodar na máxima potência, com a pá erguida sobre a cabine. Atrás dela, trotava um cão de grande porte, da raça Castro Laboreiro, de pelo escuro raiado de cinzento e castanho.

Era sábado. Os trabalhadores tinham deixado a quinta na véspera. A máquina de rastos devia estar no outro extremo da propriedade e quem a conduzia não era nenhum operário.

Tomás Vasconcelos de Rochaforte tomara literalmente as rédeas de um trabalho que lhe fora negado por diversas vezes.

O seu pai, Afonso de Rochaforte, em luta com o cancro há vários anos, havia delegado nele maioria da gestão da enorme propriedade em Tomar. A relação entre ambos, porém, esteve sempre longe de ser pacífica; as ideias progressivas do filho esbarravam frequentemente nas objeções do pai. Apesar de haver uma delegação de poderes, a decisão do patriarca continuava a ser vinculativa.

Ao sair de entre as árvores de fruto, a máquina começou a subir a colina mantendo-se no trilho traçado pelo rodado de veículos. O motor roncava com o esforço da subida, mas não se negou, nem quando o trilho terminou num pequeno planalto de pedras soltas de vários tamanhos, a cerca de três metros do topo do monte.

Daquele ponto, para além dos olivais que se estendiam quase a perder de vista, divisava-se o castelo de Tomar recortado no horizonte. Nuvens escuras deslizavam sem pressa, ameaçando a manhã quente com nova trovoada.

O condutor baixou a pá da máquina e começou a arrumar para os lados as pedras fruto de uma intervenção anterior. Abria uma clareira para trabalhar mais à vontade.

O cão deitou-se calmamente debaixo de uma das oliveiras que ladeavam o caminho e pousou a cabeçorra sobre as patas da frente.

Preparado o terreno conforme desejava, Tomás atacou finalmente o maciço da colina onde pretendia instalar os novos recetores solares.

Este novo projeto do herdeiro fora motivo de grandes discussões entre pai e filho, não tanto pelo objetivo, mas sim pela localização. Apesar de as máquinas já terem iniciado a terraplanagem, o velho autoritário fora pessoalmente ordenar a suspensão dos trabalhos.

Tomás ficou furioso pelo contrariar das suas ordens e o desrespeito público. Naquele mesmo local, Afonso exigiu ao filho a paragem dos trabalhos e o abandono daquele local. “Enquanto eu for vivo” — gritara quase sem voz — “ninguém mexe nesta colina!”

Era essa a situação naquele exato momento: o funeral de Afonso Rochaforte decorrera no dia anterior. Na manhã seguinte, Tomás fora pessoalmente pegar na escavadora. Não era uma simples desobediência. Cravar a pá naquela propriedade significava a revogação da última ordem do seu pai; era o último confronto entre duas vontades.

A transpirar pelo calor que já se fazia sentir àquela hora da manhã, o condutor, rosto afogueado e sujo de poeira, obrigou a máquina a descarregar nova pá de terra no monte que iniciara.

— Agora não há retorno! — Desafiou com os dentes cerrados.

Episódio seguinte - Sacrum – II DUO

By Manuel Amaro Mendonça 4 de Setembro, 2026


Manuel Amaro Mendonça
é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
Outros trabalhos estão em projeto, mantenha-se atento às novidades em http://myblog.debaixodosceus.pt/, onde poderá ler alguns dos seus trabalhos, ou visite a página de autor em https://www.debaixodosceus.pt/ 

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