(Colaborador do "Memórias...e outras coisas...")
Nota Editorial: Este texto é uma obra de ficção. Embora possa incluir referências a eventos históricos e figuras reais, a história, os diálogos e as interpretações são fruto da imaginação do autor. Qualquer semelhança com pessoas, vivas ou mortas, é mera coincidência.
INDICE
Na manhã seguinte ao funeral do pai, Tomás Vasconcelos de Rochaforte decide desafiar uma antiga proibição familiar e retomar um projeto suspenso há anos.
O que começa como um trabalho de terraplanagem numa propriedade junto de Tomar transforma-se rapidamente numa descoberta inesperada. Sob a colina existe algo antigo. Algo cuidadosamente ocultado durante gerações.
Acompanhado apenas por Freixo, o fiel cão que pertencera ao pai, Tomás inicia uma descida ao desconhecido, onde símbolos esquecidos, passagens subterrâneas e vestígios de um passado remoto começam a entrelaçar-se com a história da própria família.
Mas alguns segredos foram guardados durante séculos por uma razão.
E há portas que talvez nunca devessem ser abertas.
Sacrum – I UNUS
Era sábado. Os trabalhadores tinham deixado a quinta na véspera. A máquina de rastos devia estar no outro extremo da propriedade e quem a conduzia não era nenhum operário.
Tomás Vasconcelos de Rochaforte tomara literalmente as rédeas de um trabalho que lhe fora negado por diversas vezes.
O seu pai, Afonso de Rochaforte, em luta com o cancro há vários anos, havia delegado nele maioria da gestão da enorme propriedade em Tomar. A relação entre ambos, porém, esteve sempre longe de ser pacífica; as ideias progressivas do filho esbarravam frequentemente nas objeções do pai. Apesar de haver uma delegação de poderes, a decisão do patriarca continuava a ser vinculativa.
Ao sair de entre as árvores de fruto, a máquina começou a subir a colina mantendo-se no trilho traçado pelo rodado de veículos. O motor roncava com o esforço da subida, mas não se negou, nem quando o trilho terminou num pequeno planalto de pedras soltas de vários tamanhos, a cerca de três metros do topo do monte.
Daquele ponto, para além dos olivais que se estendiam quase a perder de vista, divisava-se o castelo de Tomar recortado no horizonte. Nuvens escuras deslizavam sem pressa, ameaçando a manhã quente com nova trovoada.
O condutor baixou a pá da máquina e começou a arrumar para os lados as pedras fruto de uma intervenção anterior. Abria uma clareira para trabalhar mais à vontade.
O cão deitou-se calmamente debaixo de uma das oliveiras que ladeavam o caminho e pousou a cabeçorra sobre as patas da frente.
Preparado o terreno conforme desejava, Tomás atacou finalmente o maciço da colina onde pretendia instalar os novos recetores solares.
Este novo projeto do herdeiro fora motivo de grandes discussões entre pai e filho, não tanto pelo objetivo, mas sim pela localização. Apesar de as máquinas já terem iniciado a terraplanagem, o velho autoritário fora pessoalmente ordenar a suspensão dos trabalhos.
Tomás ficou furioso pelo contrariar das suas ordens e o desrespeito público. Naquele mesmo local, Afonso exigiu ao filho a paragem dos trabalhos e o abandono daquele local. “Enquanto eu for vivo” — gritara quase sem voz — “ninguém mexe nesta colina!”
Era essa a situação naquele exato momento: o funeral de Afonso Rochaforte decorrera no dia anterior. Na manhã seguinte, Tomás fora pessoalmente pegar na escavadora. Não era uma simples desobediência. Cravar a pá naquela propriedade significava a revogação da última ordem do seu pai; era o último confronto entre duas vontades.
A transpirar pelo calor que já se fazia sentir àquela hora da manhã, o condutor, rosto afogueado e sujo de poeira, obrigou a máquina a descarregar nova pá de terra no monte que iniciara.
— Agora não há retorno! — Desafiou com os dentes cerrados.
Episódio seguinte - Sacrum – II DUO
By Manuel Amaro Mendonça 4 de Setembro, 2026
Manuel Amaro Mendonça é licenciado em Engenharia de Sistemas Multimédia pelo ISLA de Gaia. Nasceu em janeiro de 1965, em Portugal, na cidade de São Mamede de Infesta, no concelho de Matosinhos; a Terra de Horizonte e Mar.
Foi premiado em quatro concursos de escrita e os seus textos foram selecionados para mais de duas dezenas de antologias de contos, de diversas editoras e é membro fundador do grupo Pentautores (como o seu nome indica, trata-se de um grupo de cinco autores) que conta já com cinco volumes de contos publicados.
É autor dos livros "Terras de Xisto e Outras Histórias" (2015), "Lágrimas no Rio" (2016), "Daqueles Além Marão" (2017), “Entre o Preto e o Branco” (2020), “A Caixa do Mal” (2022), “Na Sombra da Mentira” (2022) e “Depois das Velas se Apagarem” (2024), todos editados e distribuídos pela Amazon.
Colabora nos blogues “Memórias e Outras Coisas… Bragança” https://5l-henrique.blogspot.com/, “Revista SAMIZDAT” http://www.revistasamizdat.com/, “Correio do Porto” https://www.correiodoporto.pt/ e “Pentautores” https://pentautores.blogspot.com/
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