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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira e Rui Rendeiro Sousa.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

terça-feira, 18 de março de 2014

As histórias de uma simples aldeia transmontana

Os rafei­ros, uns três ou qua­tro, cir­cu­lam à minha frente esquá­li­dos e famin­tos. A cor ama­rela do pêlo confunde-se com alguma vege­ta­ção seca e com os refle­xos do sol que, logo pela manhã, já teima em tostar-nos a pele. Quero dar-lhes pão. Pri­meiro  hesi­tam  e afastam-se, são fugi­dios. Compreendo-os! Já não me conhe­cem e, tal como se diz, não se deve dar con­fi­ança a estra­nhos. Insisto e con­ti­nuo a chamá-los. Len­ta­mente, o mais cora­joso, aproxima-se. Abo­ca­nha o pedaço de pão que lhe estendo e, como agra­de­ci­mento, lambe-me a mão. Afasta-se. Como não deve ter mais nada para fazer, supo­nho, deita-se na berma do asfalto, de bar­riga para o ar, a apro­vei­tar a las­si­dão que este sol pro­voca.  Olho em volta e reparo que a filha da  vizi­nha, que mora numa casa em frente à da minha avó, já regres­sou da Espa­nha. Varre o pátio em frente à porta de casa enquanto peque­nas par­tí­cu­las de pó voam no ar. Repara em mim e cumprimenta-me com as pala­vras da praxe: “Ah, olá! Então, estás cá?  Estás mais bonita, pre­ci­sas é de engor­dar mais um boca­di­nho senão nin­guém te vê mulher” Até que vem a per­gunta fatal, “Então, já arran­jaste emprego?”. “Ainda não”, res­pondo, “isto não está fácil”. “Ah, vais ver que vais ter sorte. Olha, a tua mãe, anda por aí?” “Sim, sim, está den­tro de casa, entre”.

Fico sen­tada nas esca­das da entrada enquanto ouço a vizi­nha a queixar-se da mãe, já nos seus oitenta anos. “Ah, não sabe como me põe a vida num inferno. Nem sei se fiz bem em vol­tar.” “Mas tem de ter paci­ên­cia, então, já sabe que os velho­tes são assim”, res­ponde a minha mãe. “Mas sabe lá as doen­ças que ela colec­ci­ona?!? Ainda me fala das doen­ças de há não sei quan­tos anos atrás. Se as fosse reno­vando, vá lá, mas são sem­pre as mes­mas e nunca curam. Ela não me quer ir para o lar, mas só não vai por res­peito ao meu pai, que já não está bom da cabeça. Depois como é que aquele homem, habi­tu­ado a andar e a mexer nas coi­sas dele, ia-se-me aguen­tar fechado, den­tro de qua­tro pare­des? Ainda se os meus irmãos me aju­das­sem! Mas já avi­sei a minha mãe que não sou a cri­ada dela. Não lhe faço o almoço nem o jan­tar. O comer vem da Santa Casa e é se quer.”

Enquanto con­ver­sa­vam, vejo que o tema da con­versa, aquela senhora já na casa dos oitenta anos, vem para fora e senta-se numa cadeira. Fico impres­si­o­nada com a ati­tude da senhora por­que tem pas­sado o último ano quase na cama. Os vizi­nhos, que habi­ta­vam mais três casas ao pé, já não con­se­guiam tole­rar aquela situ­a­ção por­que pas­sava o tempo a ligar-lhes para lhe faze­rem um chá, uma sopi­nha ou uma tor­ra­di­nha. Ao que parece, os tele­fo­ne­mas acal­ma­ram quando a filha a ame­a­çou que tinha de pagar a conta do tele­fone com a pró­pria reforma. Chama-me com ale­gria nos olhos e lá vou dar-lhe um dedi­nho de con­versa. A tarefa não é difí­cil. Basta perguntar-lhe “então, como é que se sente?”, que a senhora dá conta do resto. Quem está do outro lado basta só ouvir.

Após enu­me­rar as suas mil e uma doen­ças, desde uma colite até ao inchaço óbvio das per­nas cheias de vari­zes, con­se­guiu encon­trar um enca­de­a­mento qual­quer para come­çar a con­tar o iní­cio da sua vida. A mãe era cri­ada na casa de uma fidalga rica, numa outra aldeia, mas tive­ram de aban­do­nar aquela povo­a­ção gra­ças ao pai. Era o marido da sua tia, ou seja, o mais que tudo da irmã da sua mãe. Após o des­lize, a mãe vol­tou a refa­zer a sua vida com outro homem, mas a filha não se dava muito bem com o padrasto. As his­tó­rias con­ti­nuam. Ao que parece, o esposo da tal fidalga rica era um médico por quem as meni­nas sus­pi­ra­vam e inven­ta­vam doen­ças. Comportava-se de forma bas­tante edu­cada e falava bem, para além de ser alto e bonito. Era culto e, sem­pre que podia, gos­tava de ir ao Porto para poder ver cinema e peças de tea­tro.   O con­traste dos outros mari­dos que não se faziam roga­dos em apre­sen­tar a mão às res­pec­ti­vas mulhe­res. Quem naquele tempo não se der­re­tia com peque­nas aspi­ra­ções casa­no­vi­a­nas como esta: “A uma mulher não se bate nem com uma flor.”  Como a con­cor­rên­cia era muita e o médico até gos­tava das aten­ções das meni­nas,  a fidalga rica decide deixá-lo e o senhor dou­tor fica livre. Mui­tas foram as que qui­se­ram agarrá-lo, mas um médico demo­crá­tico não se pode dedi­car a uma só paci­ente. Ape­sar dos mui­tos casos que teve e que per­pe­tu­a­ram até ao final da sua vida, não se vol­tou a casar nem a par­ti­lhar a casa com mais nin­guém. Mas, como todos nós somos cor­rom­pi­dos pelos demo­nía­cos remor­sos, para se redi­mir ofe­re­ceu uma máquina de cos­tura, (daque­las ver­des da Oliva),a cada uma das suas pai­xões. “Bem jeito deu”, ale­ga­ram algumas.

Os rela­tos não fin­dam aqui. O pró­ximo con­ci­lia armas, reli­gião e uma valente tareia.  Uma vez, segundo me conta esta velha, a mãe de um certo jovem volta a casar após enviu­var do marido que mor­reu no Bra­sil. Até aqui tudo bem, não fosse o filho odiar o padrasto. O que faz? Começa a ven­der cereal para com­prar uma pis­tola e  pôr termo à vida do seu car­rasco. O azar do rapaz é que era reli­gi­oso e, mais uma vez para ali­viar a cons­ci­ên­cia, reve­lou ao padre em acto de con­fis­são que com­prou uma arma e ten­ci­o­nava dar-lhe uso. O padre, alar­mado, conta os inten­tos da sua ove­lha negra à mãe. O que esta faz? Espera pelo filho, paci­en­te­mente, em casa. Quando o nosso cow­boy apa­rece leva um enxerto de por­rada tal que teve de fugir de casa. O orgu­lho, esse, é que ficou um tanto ao quanto ferido. O padrasto sobre­vi­veu. O pequeno pis­to­leiro con­ti­nuou reli­gi­oso mas nunca mais se con­fes­sou na vida, nunca, nunca mais.

A con­versa con­ti­nuou. Para rea­fir­mar a sua hon­ra­dez, esta idosa con­tou his­tó­rias de outras meni­nas do seu tempo, mal com­por­ta­das, cujos pais tive­ram de levá-las ao médico para con­fir­mar a sua suposta vir­gin­dade. De pais que foram leva­dos a tri­bu­nal por­que que­riam fugir aos seus deve­res  de paren­ta­li­dade; das fes­tas da aldeia que tanto pode­riam aca­bar numa grande bebe­deira ale­gre ou aos tiros. A car­ri­nha da Santa Casa chega, é hora do almoço. Agora sim, a con­versa acaba.

A sua filha chega e a voz desta senhora fica, de repente, tré­mula. Sur­gem uns ais aqui e ali, “ ai as minhas cru­zes”. Lá se levanta e vai almo­çar. “Ai, tanto filho que criei para agora estar assim”. A sua des­cen­dente, assim que ouve isto, lança as mãos à cabeça em sinal de deses­pero, “onde me meti”.

Vou para casa, para o meu can­ti­nho no quin­tal. Olho para a imen­si­dão dos ter­re­nos, das vinhas, dos oli­vais, dos mon­tes. Que livros Cor­mac Mccarthy escre­ve­ria com as desa­ven­ças que esses mes­mos ter­re­nos cau­sa­ram entre irmãos, pri­mos e paren­tes de ultís­simo grau? Dou comigo, tam­bém,  a pen­sar na farra da última vin­dima em que um homem desa­fo­gava as suas lágri­mas enquanto can­tava “e às qua­tro da madru­gada o pas­sa­ri­nho can­tou.” Na mulher mais velha da aldeia,  que con­se­guiu sobre­vi­ver estoi­ca­mente a três casa­men­tos e enter­rou os seus três mari­dos. Na última vez em que as anciãs se reu­ni­ram para fazer os fola­res e tive­ram con­ver­sas que faziam corar  a mais moderna das meni­nas. É já de tarde e vejo as pes­soas a saí­rem para rezar o terço. Entre as velhas quais seriam as Annas Kare­ni­nas? Entre os homens quais seriam os Billy The Kids do seu tempo, de arma na mão? Melhor, quais seriam os Casas­no­vas que sabiam como falar ao ouvido de uma mulher? Tudo aqui é his­tó­ria e tudo me cheira a lite­ra­tura, mas há uma outra ques­tão que me inco­moda. Em que ponto é que as pes­soas pas­sam a ser pes­soas e não, ape­nas, um reflexo do seu tempo? Para des­co­brir a res­posta é fácil. Basta entrar pelo lado mal­dito das his­tó­rias. Só falta dizer que tudo isto se pas­sou numa pequena aldeia trans­mon­tana, o meu pró­prio Texas pes­soal. Vila­ri­nho das Aze­nhas, do con­ce­lho de Vila Flor, mesmo à bei­ri­nha do rio Tua. Não há nada melhor do que acor­dar de manhã ao som do cor­rer das águas de um rio. É algo que nunca mais se esquece, vá-se para onde se vá.

por Ana Fernandes
in:ip4mag.com

1 comentário:

  1. Adorei esta pequena história da Ana Fernandes. Simples e poético, o texto levou-me num regresso ao passado de Camilo, Eça ou Júlio Dinis, autores que não me cansei de ler na minha adolescência. Foi uma sensação de conforto. Obrigada.

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