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SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

domingo, 30 de agosto de 2026

Carlos Augusto Vergueiro - Os Governadores Civis do Distrito de Bragança (1835-2011)

 24.janeiro.1919 – 29.janeiro.1919
BRAGANÇA, 11.5.1865 – OVAR, 15.10.1936

Oficial do Exército.
Curso da Arma de Infantaria pela Escola do Exército.
Governador civil de Bragança (1919).
Natura da freguesia da Sé, cidade e concelho de Bragança.
Filho de José Cândido Vergueiro, funcionário da Repartição da Fazenda Pública em Bragança, e de Matilde Joaquina Fernandes.
Casou com Maria do Carmo Correia Pinheiro, de quem teve três filhas, Margarida Vergueiro (3.4.1898), Maria da Graça Vergueiro (15.7.1902) e Maria de Lourdes Vergueiro (30.6.1905).
Medalha comemorativa da Revolução de 31 de Janeiro de 1891.

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Republicano de sempre”, nas palavras do próprio, Carlos Augusto 
Vergueiro era primeiro-sargento de Infantaria quando eclodiu a revolta republicana do 31 de Janeiro de 1891, no Porto, tomando parte na mesma ao lado dos revoltosos, o que lhe valeu o seu afastamento do Exército e o exílio.
Porém, o Governo provisório saído da Revolução de 5 de Outubro de 1910, através do decreto da Secretaria da Guerra de 5 de novembro de 1910, prontamente o reabilitou, como a outros camaradas seus que, “na manhã memorável de 31 de Janeiro de 1891, se distinguiram pela sua patriótica atitude e excelsa coragem posta ao serviço da causa republicana”, reintegrando-o no Exército no posto que lhe competiria se nunca tivesse sido afastado. Promovido assim a capitão, serviria nos anos seguintes nos regimentos de Infantaria n.º 10, n.º 17 e n.º 32.
Por decreto de 13 de agosto de 1917, foi promovido a major de Infantaria n.º 10, integrando nesta patente o Corpo Expedicionário Português, tendo comandado um batalhão durante a Primeira Guerra Mundial.
Ocupou o lugar de governador civil do distrito de Bragança apenas por alguns dias, por determinação das forças republicanas que tomaram Bragança em 23 de janeiro de 1919, nos tempos conturbados da Monarquia do Norte. Foi, aliás, um dos mais ativos participantes na contenda, ao comando do 6.º grupo de Metralhadoras, que entretanto incorporou outras forças que se mantiveram leais à República, tendo posteriormente redigido um pormenorizado Relatório do movimento monarquista em Bragança e ação dos republicanos nesta cidade, publicado em maio de 1921, onde clamava para que fosse feita justiça aos que, “em volta da bandeira verde-rubra, se reuniram na hora de perigo”, indicando os nomes e a ação que cada um desempenhou naquele momento, militares mas também civis, para que “a História faça justiça ao seu caráter, à sua coragem, dedicação, lealdade e valor”.
Nesse ano de 1921, era já tenente-coronel de Infantaria n.º 6, foi condecorado com a medalha comemorativa da Revolução de 31 de Janeiro de 1891, destinada, como se lê no preâmbulo da lei que a instituiu, a homenagear os “sobreviventes desse movimento, verdadeiros precursores da República, como penhor do verdadeiro e inolvidável apreço dos serviços prestados por esses mesmos combatentes, que, pelos seus atos de decidido arrojo e espírito de sacrifício, tem jus à gratidão da Pátria e da República”.
Faleceu em Ovar, a 15 de outubro de 1936, aos 71 anos.

Excerto do relatório produzido por Carlos Augusto Vergueiro sobre a revolta monárquica ocorrida em Bragança em janeiro de 1919

Ao alvorecer de 21 fui acordado por uma enorme balbúrdia, vivório e repiques de sinos. Vieram-me dizer que havia sido restaurada a Monarquia. Consumava-se o crime.
Procurei logo informar-me do que havia de positivo, e, a corroborar os mil boatos tendenciosos, vi o facciosismo dos jornais do Porto e à hora do almoço recebo um recado do ex-tenente coronel Bandeira, comunicando-me que nos Paços do Concelho ia ser solenemente proclamada a restauração da Monarquia, mas que, dada a minha situação de republicano histórico, me não compelia a comparecer, permitindo-me que ficasse em casa, esperando que eu não cometeria o mais leve ato de hostilidade ao restaurado regime e, por isso, contra vontade de alguns camaradas, me não mandava prender. Limitei-me a agradecer a atenção e procurei logo inteirar-me se poderia contar com alguém.
Entretanto, vi partir para Mirandela uma companhia sob o comando do ex-capitão Inocentes, que soube ir encarregado de proclamar a Monarquia naquela vila e assegurar a ordem monárquica.
Ao meio-dia, realizava-se os atos de posse do governador civil, tenente-coronel Bandeira, e o da proclamação da Monarquia nos Paços do Concelho, a que, segundo, me consta, assistiu o comandante militar coronel Machado, o delgado de saúde Cagigal, etc., etc., e quase todo, se não todo, o elemento oficial.
Cheguei a julgar-me inteiramente só!... nesse mesmo dia sou procurado pelos Drs. Albano Fernandes e Alberto Direito para assumir o comando das forças que se deviam revoltar; declarei-lhes estar à sua disposição e que comigo podiam contar para tudo, e que me chamassem quando fosse necessário.
Dia 23, pelas 11 horas, sou avisado que o movimento restaurador devia rebentar às 14, sendo o sinal dois tiros disparados das muralhas de Infantaria 10. Vários civis e militares estavam então a postos, devendo notar-se que no 10 reinava grande animação e uma inquebrantável fé no triunfo.
Por motivos imprevistos, e por justas ponderações, foi adiada a hora do movimento para as 18 horas e 30 minutos, sendo iniciado pelo combinado sinal. Dirigi-me para o quartel, encontrando ao sair de casa dois sargentos prontos a acompanhar-me. Entretanto, eram lançadas patrulhas de Infantaria 10 e do 6.º Grupo de Metralhadoras, aquartelado por ordem do comandante militar nas casernas de Infantaria 10, e a todo o momento se aguardava a adesão de Infantaria 30.
Os regimentos portaram-se heroicamente. Uma patrulha travava combate na Costa Grande com as ordenanças armadas do tenente-coronel Bandeira. Um dos nossos homens, soldado da 11.ª Companhia de Infantaria 10, da patrulha do comando do sargento Machado do 6.º Grupo de Metralhadoras, morreu varado por uma bala. Outra patrulha do comando do sargento Claudino, de Infantaria 10, 3.ª Companhia, que prende o tenente-coronel Bandeira, é também repelida a tiro, mas voltando à carga, consegue prender o tenente-coronel, que encontrei já detido no quartel do 10.
Durante essa noite, vários recontros se deram. Uma patrulha do comando do alferes Afonso, de Infantaria 30, que responde a tiro às palavras “Quem vive”, é aprisionada e bem assim o seu comandante.
Entretanto, o comandante e 2.º comandante de Infantaria 30 dominavam o seu regimento.
A todo o instante se esperava a adesão daquela unidade, até às 8 horas da madrugada de 24, postos em fuga os comandantes e os oficiais mais fanatizados pela ideia de monarquia, alferes Cantista, alferes Ribeiro e outros, se entregou um núcleo de soldados sob o comando do alferes Jorge de Lima, indo ao encontro do capitão Bragança, que com um grupo de sargentos aceitara em ir indagar da atitude daquele regimento por determinação minha. Foram recebidos fraternalmente e aos vivas à República. Restava dominar alguns grupos civis armados, o que se conseguiu com relativa facilidade e devotada energia.
Os regimentos trabalhavam afanosamente na consolidação da República, não se poupando todos a sacrifícios de toda a ordem. Os comandantes interinos das unidades, visto os autênticos terem sido presos e outros postos em debandada, eram incansáveis!... (...)
Fomos recebidos como salvadores, tantas foram as vilanias e vexames a que os trauliteiros e seus sequazes sujeitaram várias famílias e estabelecimentos comerciais.
Assumi o comando de Infantaria n.º 10. O quartel estava horrorosamente desprezado, o pavimento queimado em muitas casernas e isto em nome de D. Manuel II!
Assim terminaram estes tristes dias de eterna vergonha para os que indiferentemente assistiram ao desenrolar destes acontecimentos e para os que deram o seu apoio ao maior crime que contra a Pátria se tem planeado!

Fonte: Arquivo Histórico Militar, Relatório do movimento monarquista em Bragança e ação dos republicanos nesta cidade.

Fontes e Bibliografia

Arquivo Distrital de Bragança, Autos de Posse (1845-1928).
Arquivo Histórico Militar, processo individual de Carlos Augusto Vergueiro e Relatório do movimento monarquista em Bragança e ação dos republicanos nesta cidade.
ALVES, Francisco Manuel. 2000. Memórias arqueológico-históricas do distrito de Bragança, vol. VII e X. Bragança:
Câmara Municipal de Bragança / Instituto Português de Museus. 
ESTRELA, Paulo Jorge. 2007. As Revoluções Republicanas na Falerística Nacional. Lusíada. História, v. 2, n.º 7. Lisboa: Universidade Lusíada.
TEIXEIRA, A. J. 1929. Regime de Infantaria n.º 10. Breve resumo dos seus factos mais notáveis. Bragança: Tip. Académica.
Geneall – Portal de Genealogia (disponível em geneall.net).

Publicação da C.M. Bragança

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