Número total de visualizações do Blogue

Pesquisar neste blogue

Aderir a este Blogue

Sobre o Blogue

SOBRE O BLOGUE: Bragança, o seu Distrito e o Nordeste Transmontano são o mote para este espaço. A Bragança dos nossos Pais, a Nossa Bragança, a dos Nossos Filhos e a dos Nossos Netos..., a Nossa Memória, as Nossas Tertúlias, as Nossas Brincadeiras, os Nossos Anseios, os Nossos Sonhos, as Nossas Realidades... As Saudades aumentam com o passar do tempo e o que não é partilhado, morre só... Traz Outro Amigo Também...
(Henrique Martins)

COLABORADORES LITERÁRIOS

COLABORADORES LITERÁRIOS
COLABORADORES LITERÁRIOS: Paula Freire, Amaro Mendonça, António Carlos Santos, António Torrão, Fernando Calado, Conceição Marques, Humberto Silva, Silvino Potêncio, António Orlando dos Santos, José Mário Leite, Maria dos Reis Gomes, Manuel Eduardo Pires, António Pires, Luís Abel Carvalho, Carlos Pires, Ernesto Rodrigues, César Urbino Rodrigues, João Cameira, Rui Rendeiro Sousa e Jorge Oliveira Novo.
N.B. As opiniões expressas nos artigos de opinião dos Colaboradores do Blogue, apenas vinculam os respetivos autores.

sábado, 29 de agosto de 2026

SPEA alerta que Plano Nacional de Restauro da Natureza pode não garantir recuperação da biodiversidade

 O Plano Nacional de Restauro da Natureza, cuja consulta pública acabou a 19 de agosto, precisa de mais ambição, financiamento e indicadores para medir se as espécies e os ecossistemas estão realmente a recuperar, defende a Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA).

Mocho-galego (Athene noctua). Foto: Edd Deane/Wiki Commons

Portugal está perante uma oportunidade que pode ser decisiva para a recuperação da natureza, mas corre o risco de a deixar escapar. É esta a conclusão da SPEA-BirdLife que, na consulta pública do Plano Nacional de Restauro da Natureza, defendeu alterações à proposta atualmente em discussão.

O plano, que foi apresentado a 2 de junho passado, define 407 medidas de intervenção em ecossistemas terrestres, costeiros e de água doce (152 medidas), marinhos (27), fluviais (83), urbanos (oito), agrícolas (84) e florestais (25). Estão ainda previstas 28 medidas para ajudar as espécies polinizadoras.

Para esta organização, o plano reúne um esforço importante de diagnóstico e de definição de medidas, mas fica aquém do necessário para garantir uma recuperação efetiva da biodiversidade. O problema, diz a SPEA, é que restaurar a natureza não pode resumir-se à contabilização de hectares intervencionados.

“O Plano Nacional de Restauro da Natureza é uma oportunidade única para travarmos a perda da biodiversidade em Portugal”, comentou, em comunicado enviado ontem à Wilder, Joana Andrade, coordenadora do Departamento de Conservação Marinha da SPEA-BirdLife. “Este é o momento para decidir se queremos apenas cumprir metas no papel ou recuperar verdadeiramente a natureza.”

Mais do que hectares, é preciso recuperar espécies

Uma das principais preocupações da organização é a forma como o sucesso do restauro será avaliado. A SPEA defende que os objetivos, metas e indicadores do plano devem integrar de forma mais clara a biodiversidade e o estado das espécies.

As aves, em particular, podem desempenhar um papel importante como indicadores da eficácia das medidas de restauro. Se uma determinada área é restaurada, mas as espécies que dela dependem continuam a desaparecer ou não regressam, questiona a organização, será que se pode considerar que o restauro foi bem-sucedido?

A questão é particularmente importante porque a recuperação da natureza não acontece em parcelas isoladas. Florestas, zonas húmidas, áreas agrícolas, cidades e mar estão ligados por fluxos ecológicos e pelas deslocações das espécies ao longo dos seus ciclos de vida.

Por isso, a SPEA considera essencial apostar na conectividade ecológica e evitar a criação de pequenas “ilhas” de natureza rodeadas por áreas degradadas.

Entre as pressões que, segundo a organização, continuam a merecer uma resposta mais consistente está também a poluição luminosa. Isto porque a iluminação artificial durante a noite pode afetar aves marinhas e outros grupos de animais.

Além disso, acrescenta a SPEA, o restauro da natureza não deve ficar limitado às áreas protegidas ou aos grandes espaços naturais. As cidades também devem fazer parte desta estratégia.

Para a organização, o ecossistema urbano deve ser entendido como um contínuo, onde os espaços verdes e os edifícios podem desempenhar funções importantes para a biodiversidade.

Entre as medidas propostas estão a proteção e criação de locais de nidificação em edifícios, a instalação de caixas-ninho e outras estruturas, a prevenção de colisões de aves com superfícies de vidro ou espelhadas e o aumento da vegetação nas ruas e avenidas.

A redução da impermeabilização dos solos é outra das prioridades apontadas. A ideia é evitar que a biodiversidade fique confinada a pequenos jardins e parques isolados numa matriz urbana cada vez mais impermeável.

Estas medidas podem, além disso, aproximar o restauro da vida quotidiana das pessoas. Casas, prédios, ruas e bairros podem tornar-se parte da rede de espaços necessários à recuperação da natureza.

O financiamento continua a ser uma incógnita

O Plano Nacional de Restauro da Natureza prevê um investimento, em média, de cerca de 500 milhões de euros por ano em ações de restauro da natureza até 2030. O financiamento previsto resulta da combinação de fundos europeus e nacionais, incluindo verbas do Portugal 2030, da Política Agrícola Comum, do Fundo Ambiental, dos EEA Grants e de investimento privado.

Mas a SPEA considera que ainda não existe uma ligação suficientemente clara entre as medidas previstas, os custos da sua implementação e as respetivas fontes de financiamento.

Mais do que contabilizar fundos que já existem, defende a organização, o financiamento deve partir do custo efetivo das medidas necessárias para cumprir as metas do plano. E deve existir uma garantia de recursos nacionais estáveis e de longo prazo.

“Restaurar não é plantar hoje e esquecer amanhã”, disse Joana Andrade. “Sem financiamento para manter, monitorizar e adaptar as medidas ao longo do tempo, os resultados dificilmente serão duradouros.”

A SPEA admite a possibilidade de mobilizar investimento privado, mas considera indispensável assegurar transparência e evitar situações de greenwashing. Entre as propostas está a criação de um registo público dos projetos financiados e dos seus resultados.

A organização defende também uma revisão dos subsídios públicos que continuam a incentivar atividades prejudiciais para a biodiversidade. E considera que a Avaliação Ambiental Estratégica deve ser usada para testar a coerência global do plano e verificar se as diferentes políticas públicas contribuem efetivamente para a recuperação da natureza.

Medir para saber se a natureza está a recuperar

Sem monitorização adequada, será difícil saber se as medidas previstas estão a produzir resultados, alertou ainda a SPEA.

A organização defende sistemas de acompanhamento baseados em indicadores biológicos, capazes de revelar alterações reais no estado das espécies e dos ecossistemas.

Neste contexto, os programas de ciência-cidadã podem ter um papel importante. É o caso do Censo de Aves Comuns, que permite acompanhar tendências das populações de aves em Portugal ao longo do tempo.

Para a SPEA, iniciativas deste tipo devem ter financiamento estável e reconhecimento institucional, de modo a garantir a continuidade das séries de dados. Só com acompanhamento a longo prazo será possível perceber se as intervenções de restauro estão, de facto, a inverter tendências negativas.

Outra condição para o sucesso deste Plano será, segundo a organização, envolver quem vive e trabalha nos territórios onde o restauro vai acontecer.

Proprietários, agricultores, comunidades locais e organizações da sociedade civil terão de participar na implementação das medidas. A SPEA destaca, neste contexto, a custódia do território, baseada em acordos voluntários e numa colaboração continuada entre diferentes intervenientes.

Açores, Madeira e mar ficam aquém?

A proposta do plano levanta ainda preocupações relativamente às regiões autónomas e aos ecossistemas marinhos.

A SPEA considera que faltam medidas para responder às pressões específicas que afetam estes territórios e ecossistemas. Nas ilhas, em particular, a aplicação de indicadores nacionais poderá não refletir adequadamente realidades ecológicas que são diferentes das existentes no continente.

Mesmo quando não sejam necessários para o reporte europeu, defende a organização, devem existir indicadores regionais capazes de acompanhar a recuperação da biodiversidade nos Açores e na Madeira.

No meio marinho, a organização identifica igualmente lacunas que, na sua perspetiva, precisam de ser corrigidas para que o plano consiga abranger de forma eficaz todos os ecossistemas.

O Plano Nacional de Restauro da Natureza surge num momento particularmente importante para a conservação da biodiversidade. Para a SPEA, pode ser uma oportunidade para inverter décadas de degradação, mas isso dependerá da ambição das metas, da qualidade dos indicadores, dos recursos disponíveis e da capacidade de transformar compromissos em ações concretas.

A organização considera que a versão final do plano deve ir além da contabilização das áreas restauradas e demonstrar, através de dados científicos, que as espécies e os ecossistemas estão efetivamente a recuperar.

“Sem mais ambição, melhor financiamento e uma implementação eficaz, baseada na Ciência e na participação, Portugal arrisca perder uma oportunidade que pode não voltar tão cedo”, alertou Joana Andrade.

A elaboração deste plano nacional é uma resposta ao Regulamento Europeu do Restauro da Natureza, que estabelece que todos os Estados-membros devem restaurar pelo menos 20% das áreas terrestres e marinhas nestes próximos cinco anos, até 2030, garantindo ainda que até 2050 todos os ecossistemas que necessitem de recuperação vão estar em processo de restauro.

Sem comentários:

Enviar um comentário